Capítulo 12
Parte 3
Ao contrário de mim, a cidade não tinha mudado muito nestes dois anos.
À medida que o táxi se movia nas ruas de Forks foi-me possível visualizar alguns cartazes com a minha foto a dizer “Procura-se”. Era capaz de meter as minhas mãos no fogo em como aquilo era obra do meu avó.
Finalmente chegamos á morada que tinha dado ao motorista. Paguei a quantia certa ao pobre homem que veio todo o caminho a tentar meter conversa comigo.
Com a mochila ao ombro, avancei em direcção á casa.
Um nervoso miudinho apareceu, já há muito que não o sentia. Os meus pés avançavam devagar em direcção à porta.
A minha mão vacilou no momento de tocar à campainha. Temia a reacção, temia acima de tudo que não fosse aceite.
Digamos que a velha Nessie já não existia. Ali estava a Renesmee.
A minha mão voou em direcção ao meu cabelo, e num gesto que pertencia muitas vezes à minha mãe de quando estava nervosa, afastei o cabelo para trás. Respirei fundo e contei até três, depois fechei os olhos e….
Ding dong
Ouvi alguém mexer-se dentro da casa e perguntarem quem seria aquelas horas.
Eram 22 horas, era tarde, mas não muito. Pelo menos, não para mim que estava habituada a horas tardias.
Um homem, agora com alguns cabelos brancos, e o seu bigode apareceu na porta semi-aberta.
-Em que possa ajuda-la menina? – perguntou ele com um olhar desconfiado, provavelmente devido ao horário e ao meu aspecto visual.
Um sorriso formou-se por voltar a ver o meu avô. Como eu tinha saudades dele, ali e sabia que era amor verdadeiro e ele não sabia um terço daquilo que se passava com vampiros e lobisomens.
-Nessie? – perguntou ele confuso, mas abrindo o resto da porta.
Acenei que sim com a cabeça. O meu sorriso acabou por ficar um pouco tímido, afinal de contas ele parecia chocado ao me ver ali assim.
Temi que o amor dele por mim desaparecesse, que me renegasse também, que estivesse demasiado desiludido comigo.
-Estás… - começou ele a falar ainda sem ter largado a porta.
-Diferente? – disse eu a medo, temia as suas palavras.
-Eu ia dizer loira – por fim apareceu o sorriso e o abraço.
Sue apareceu atrás do meu avô, tinha as mãos à frente do rosto devido ao choque de me ver ali.
Pousei a minha mochila no chão para ser mais fácil abraçar o meu avô.
-A tua mãe? – perguntava ele enquanto tentava espreitar por cima do meu ombro.
A ausência da minha resposta foi notória ao meu avô, que rapidamente percebeu que ainda ninguém sabia que eu estava de volta a Forks.
Claro que eu os iria reencontrar, era extremamente necessário que o fizesse, era essa a principal razão da minha estadia naquela cidade que tantas recordações me trazia. Apenas ainda não estava preparada, temia a reacção de todos.
Temia principalmente a dos meus pais, a do meu pai! Eu já não era a mesma, em nenhum sentido. Era loira, com sombra de olhos preta, roupa um pouco fora do normal, tatuagens e alguns vícios que talvez ele não se orgulhasse muito.
-Percebo. – disse ele por fim. – Hoje podes ficar aqui, mas amanhã vamos falar com eles. Não me agrada estar a esconder-te da tua mãe.
-Obrigado avô.
Sue preparou-me uma sandes e um chocolate quente para eu comer, enquanto o meu avô, sentado à minha frente, me observava a comer sem grandes perguntas.
-Estive em Paris, França. – disse quebrando o silêncio.
-Uau, isso é longe. Trouxeste alguma prenda para o teu avô, uma torre Eiffel em miniatura ou assim? – um sorriso irónico apareceu por debaixo do bigode.
-Desculpa avô, mas saí de lá um pouco à pressa, não estava a contar voltar para já.
-Aconteceu alguma coisa querida? – ouvi a voz de Sue atrás de mim, esta dirigiu-se à mesa e sentou-se a fazer-nos companhia.
-Nada com que se devam preocupar. – imitei o meu maior sorriso despreocupado.
Apesar da situação ser grave, não iria preocupa-los agora. Aliás, eu deveria estar em casa dos Cullen a dar-lhes a grande notícia. Mas o que eu tinha que dizer, poderia esperar mais um dia.
-Deves estar cansada minha querida. Ficas no antigo quarto da tua mãe. A Sue já mudou os lençóis da cama, é só te deitares. – informava o meu avô percebendo que o assunto que me trazia ali, era algo que ele não queria saber.
-Tens toalhas no teu quarto, se quiseres tomar um banho ou assim está à vontade. Faz de conta que estás em tua casa. – Sue sorriu-me quando se levantou para se dirigir ao quarto dela. – Boa noite meninos.
Charlie imitou-a deixando-me ali sozinha a terminar a minha sandes.
Ele teria esperado que eu terminasse, mas eu disse que se poderia ir deitar, eu também já iria para cima.
Depois de lavar a minha loiça, dirigi-me ao antigo quarto da minha mãe, ainda se encontrava tudo como quando ela saiu, tirando as decorações, visto ela ter levado grande parte delas.
Peguei nas toalhas e retirei uma camisola velha para dormir da mochila juntamente com a minha escova dos dentes. Dirigi-me à casa de banho e refresquei-me.
Minutos depois estava de volta ao quarto. A verdade é que ainda não tinha sono. Estava nervosa e preocupada. O Dio tinha ficado de me ligar e ainda não havia sinal dele no telemóvel.
Fui novamente à mochila e retirei de lá um maço de tabaco, fui para a janela do quarto e sentei-me ali. Acendi um cigarro e peguei no telemóvel.
Como que uma transmissão de pensamento este vibrou com uma mensagem do Dio.
«Está tudo bem. Estamos juntos, ainda não sabemos de mais nada. Assim que possível ligo-te. Boa sorte para ti também, adoro-te!»
Para já estava tudo bem, mas ainda assim temia pela segurança deles. O que o Dio, o irmão e a Hannah estavam a fazer por mim era muito arriscado. Vou estar sempre agradecida a eles.
Depois de terminar o cigarro fechei a janela e fui para a cama.
Gostaria de dizer que foi a melhor noite de sono nos últimos tempos, no entanto esta foi alternada com pesadelos com o que poderia estar a acontecer aos meus amigos e a rejeição da minha família.
Acordei com o barulho cá em baixo. Já estavam todos acordados excepto eu. O cheiro a panquecas, sumo de laranja, café e leite invadiu-me.
Levantei-me, fui rapidamente tomar banho, vesti uns calções, uma t-shirt dos AC/DC e coloquei uma meia liga, calcei as minhas botas e juntei-me a eles. Senti o olhar do meu avô e da Sue nas minhas roupas, mas nada pronunciaram.
Sue ainda andava de um lado para o outro com o pequeno-almoço, prontifiquei-me a ajuda-la. Era o mínimo que eu podia fazer.
-Quando vais falar com os teus pais Nessie? – perguntou Charlie enquanto lia o jornal.
-Renesmee, o meu nome é Renesmee. Ainda hoje antes de almoço.
Ainda não sabia se seria antes ou depois, a verdade é que sairia dali antes de almoço. Pelo menos iria almoçar algo que não era comum na ementa humana. Fazia quase uma semana que não caçava, por isso o meu lado vampiro ansiava por sangue.
O telefone de casa ecoou, fazendo com que o avô Charlie se levantasse para atender.
-Estou? – perguntou assim que o auscultador tocou no seu ouvido. – Ah olá Seth, queres falar com a tua mãe?
Conseguia ouvir Seth a dizer que não, a sua voz estava agitada, ansiosa. Fiquei mais atenta ao que ele dizia, era sobre….
Sangue!
O cheiro inundou a sala e tudo à minha volta deixou de fazer sentido. A minha cabeça rodou na direcção de onde vinha aquele cheiro.
Não via ninguém, apenas um pequeno corte numa mão e um pouco de sangue numa faca.
-Desculpa Renesmee. – ouvi uma voz feminina ao longe, mas aquele cheiro, aquele ardor na garganta não me deixavam assimilar aquelas palavras.
A mulher recuou uns passos, como se previsse o frenesim que estava dentro de mim.
Era como se o meu lado humano desaparecesse, como se fugisse quando o meu lado vampírico sobressaia. Toda eu gritava “ATACA”
Toda a minha boca salivava perante aquele cheiro a sangue fresco, sentia cada veia e artéria a pulsar. Cada batimento cardíaco.
O meu corpo preparava-se para atacar. Conseguia sentir o medo que aquela mulher emanava.
Inutilmente tentou embrulhar o dedo num pano, de forma a evitar que eu visse ou cheirasse o sangue.
Tarde de mais, uma vez que sentimos/escolhemos uma presa muito dificilmente conseguimos desistir da caçada.
-Nessie, o que estás a fazer? – ouvi o meu avô.
-Charlie foge. – as vozes ainda estavam longe.
No entanto algo em mim fez o clique, por isso em vez de atacar a pobre Sue, dei um enorme salto e sai pela porta.
Corri na direcção oposta aquela casa.
Sabia que o meu avô tinha visto aquele salto inumano e a velocidade com que corri. Ele percebeu que algo se passava.
Corri, corri até me vingar a minha cede num veado.
Um pouco já mais calma, dirigi-me à casa branca. Não tinha previsto que assim fosse, provavelmente já todos sabiam que eu ali estava. O Avô já deveria ter telefonado a contar o episódio da manhã.
Mais uma coisa para desiludir o meu pai e dar razão aos diários.
Voltei a casa do meu avô, necessitava pedir desculpa à Sue. Deveria ter-me alimentado antes de ter entrado na casa deles, algo de muito grave poderia ter acontecido, e nunca me iria perdoar por isso.
Bati novamente à porta, não obtive resposta desta vez. Um silêncio invadiu os meus ouvidos. Não havia ninguém em casa. Será que eles se dirigiram a casa dos meus pais para lhes contar o sucedido? Ou pior, será que o golpe foi demasiado fundo que fez com que se dirigissem ao hospital?
Olhei à minha volta a ver se ninguém ali estava para me ver e assim dei um salto grande o suficiente para entrar pela janela do antigo quarto da minha mãe. Já no interior da casa procurei um bilhete ou algo que me dissesse o paradeiro deles.
Nada.
Desisti, fui ao quarto pegar nas minhas coisas para partir e enfrentar a realidade. Iria confrontar os Cullen agora.
Não sem antes escrever uma nota a pedir desculpa à Sue, e avisar onde me encontrava. Não queria que ficassem preocupados.
Provavelmente iria encontra-los na casa branca, ou todos os Cullen já estivessem atrás de mim.
Vesti o casaco de couro, mochila às costas e sai da casa.
Em menos de 15 minutos já conseguia ver o trilho que dava à casa branca. Tudo estava calmo, nenhum reboliço, por isso ou estavam já todos à minha espera, ou não estava ninguém em casa e todos andavam por aí à minha procura.
Quando já conseguia visualizar a casa ao fundo, comecei a ouvir um reboliço.
«O que se passa Alice?» ouvia o tio Jasper. Sorri ao escuta-lo, nunca pensei ter tantas saudades como agora.
Fui atacada por uma onda de calma. Agradeci, pois o nervosismo que sentia não estava a ajudar.
«Não sei. Esse é o problema, está tudo apagado. Não consigo ver nada» o som da voz da tia Alice transmitia pânico.
Claro que tudo estava apagado, eu estava aqui.
«Oh meu Deus, o rafeiro vem para aqui viver novamente.» agora era a voz da tia Rose.
Será que a hipótese de eu voltar era assim tão remota para eles? Continuei com o passo acelerado, não tardaria e estaria a entrar pela porta da casa.
«Rose não sejas assim, coitado, ele agora vai….»
«Vem ai alguém» o tio Emmett interrompeu Alice.
Não sei porquê mas algo se passava com o Jake, eu sabia. Mas o quê?
Ouvi-os todos se levantarem e correrem mesmo a tempo de abrirem a porta para me verem.
Parei a uns metros de distância.
A calma que me tinha assaltado tinha desaparecido. O tio Jasper já não a exercia sobre ninguêm, por isso voltei a ser assaltada pelo nervosismo.
Esperava que o avô Carlisle e a avó Esme aparecessem, e principalmente esperava que os meus pais irrompessem pela porta.
-Não pode ser… - dizia a tia Rose.
-A Nessie não é loira, deve ser uma das irmãs do Nahuel. Aliás a minha sobrinha não se veste daquela forma, ela tem classe. – os meus olhos rodaram com o comentário da tia Alice.
Já previa os seus comentários às minhas “toilettes”.
-Renesmee, o meu nome é Renesmee. – voltei a frisar enquanto caminhava na direcção deles.
Desde que saí daquela cidade que nunca mais deixei que ninguém me chamasse de Nessie. Isso iria manter-se.
-Olá família. – disse quando cheguei perto deles. – Voltei.
Sabia que era impossível os vampiros estarem em estado de choque, mas era exactamente isso que parecia.
-Uau, tanto entusiasmo. – disse eu um pouco constrangida.
Admito que várias vezes imaginei este dias, mas de longe o imaginava assim. Normalmente envolvia abraços e frases como “Adoro-te”, “Nunca mais nos voltes a deixar” e um “Desculpa” ali no meio. Ou então, o reencontro tinha berros e castigos.
Agora silêncio?! Esse estava de facto longe dos meus pensamentos.
Também imaginava a família já toda ali reunida. Ou um telefonema a avisar os meus pais.
O primeiro a abraçar-me foi o tio Emmett, seguido do tio Jasper. A tia Alice e a tia Rosalie vieram logo a seguir.
A minha mochila desapareceu, fui transportada para dentro de casa, alguém foi cozinhar qualquer coisa para eu comer e por fim a inundação de perguntas.
Esta última eu já esperava, estava presente em todos os meus “ideais” de reencontros. Iria ser inevitável.
-Não tem o estilo que tu adoras Alice, mas tens que admitir, ela tem o seu próprio estilo. Tem um ar bad ass. – o tio Emmett exibiu o seu sorriso trocista.
Admito que a tia Alice ainda estava chocada com as minhas escolhas, quer dizer, ela ainda não tinha visto nada.
A verdade também era só uma, não pretendia mudar a forma de vestir só porque estava em casa. Eu era assim, acostumassem-se com isso.
Também não pretendia ficar ali muito tempo. Toda a minha vida estava em França. Fazia tenções de voltar para lá.
-Onde estão os outros? – perguntei, evitando assim responder a perguntas que mais tarde teria que voltar a repetir.
Silêncio.
O sentimento de que algo grave se estivesse a passar voltou. Olhei para casa um deles.
O tio Jasper voltou da cozinha calado. Uma onda de calma voltou a inundar-me.
-Eu estou bem, agora digam-me que merda é que se está a passar.
Todos ficaram admirados com a minha escolha de palavras. Não estavam habituados a ouvir-me dizer asneiras. Mas como já disse, iriam ter que aprender a conviver com a nova Renesmee.
-Sairam todos á minutos atrás. Estão em La Push – disse o tio Jasper enquanto continuava a bater os ovos para a minha possível omeleta.
O que mais me intrigava era o facto de estarem em La Push. Não era permitido vampiros na reserva. Alguma coisa grave teria acontecido.
Jacob tinha estado ali, o cheiro dele ainda permanecia da casa. Tinha-me apercebido mal tinha trespassado aquela porta.
Esperei que eles continuassem a falar.
-O Seth ligou à minutos atrás bastante transtornado. – começou a tia Alice a explicar. Fez uma pausa, acho que tentava encontrar as palavras certas para o que se seguia - Quando tu fugiste o Jacob ficou muito transtornado e transformou-se perto do pai. O Billy ficou em muito mau estado, ficou numa cama, completamente apático. A Rachel nunca mais perdoou o Jake e expulsou-o de casa, nunca mais lhe permitindo ver o pai, ou os sobrinhos. À duas semanas, ás escondidas da Rachel, foi permitido ao Jacob ver o pai e pela primeira vez ele reagiu à presença de alguém.
Não estava a perceber onde aquela história iria levar. No entanto escutava com bastante atenção.
-Hoje o Jacob vinha aqui almoçar, mas o Seth ligou a informar que… - Alice não falou. Limitou-se a olhar para o chão.
Não foi preciso dizer mais nada. Consegui ler tudo no seu olhar.
O Billy tinha falecido.
«Jacob!» foi tudo que me ocorreu antes de começar a correr pela porta em direcção a La Push.








