03
Out 12

 

Cap. 16 - Gravidez

Não dormi nada nessa noite, ficando a velar o seu sono até ser dia.

Nunca a tinha visto com um ar tão cansado. Com excepção talvez, em relação à sua depressão de há quatro anos atrás. E de repente lembrei-me que nessa altura ela também estava grávida, embora nenhum de nós soubesse. Lembrei-me também do que acontecera depois, o seu desaparecimento, os três anos que passei sem saber nada dela e apeteceu-me chorar.

E tê-lo-ia feito, não fosse ela ter começado a acordar. Piscou os olhos várias vezes, antes de os abrir completamente e olhou em volta, tentando perceber onde estava. Quando olhou na minha direcção, tinha uma expressão triste. Debrucei-me sobre a cama e fiz-lhe uma carícia no rosto. Ia perguntar como é que ela se sentia, mas ela começou a chorar.

Tentei não desesperar, mas era muito difícil vê-la assim. Todo o seu corpo tremia com a violência do choro que quase a impedia de respirar.

- Amor, por favor, não podes ficar assim. – Disse-lhe baixinho, enquanto afastava, com as duas mãos, o cabelo da sua face.

- E como queres que me sinta, depois de... – Ela soluçava tanto que mal conseguia falar e recomeçou o pranto, antes de conseguir acabar a frase.

- Não chores por favor. Nós vamos conseguir superar isto.

Falava-lhe baixinho ao ouvido, tentando acalmá-la, mas ela obrigou-me a afastar, usando o braço livre para me empurrar.

- Tu não percebes!

- Não, não percebo. E se continuares a afastar-me, ainda vou perceber menos.

- Tu nunca vais entender. Podes deixar-me sozinha?

Ok, ela estava mesmo a afastar-me. Eu queria tanto poder ajudá-la, mas talvez seja mesmo melhor voltar quando ela estiver mais calma.

- Se é mesmo isso que queres. – Encolhi os ombros. – Desculpa. Só fiquei aqui, porque pensei que quisesses falar sobre o bebé que vem a caminho, mas tudo bem. Volto mais tarde.

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Acordei ao som de “Bips” e, ao abrir os olhos, vi Rob sentado numa cadeira ao lado da cama. Parecia estar muito triste e inclinou-se, passando a mão levemente no meu rosto.

Pela sua expressão, percebi o que deveria ter acontecido. Eu lembrava-me da dor, lembrava-me de ter caído, tinha visto o olhar confuso de Rob e depois mais nada. Eu tinha perdido o meu bebé.

Nada até hoje me preparara para uma dor tão grande, tão avassaladora. À falta de palavras com as quais pudesse fazê-la desaparecer, comecei a chorar descontroladamente.

Tudo o que queria era poder gritar, mas não queria que ninguém, nem mesmo Rob, estivesse presente quando o fizesse. Só havia um problema. Ele parecia mesmo determinado em ficar ali a ver-me sofrer. Pedi-lhe que me deixasse só, mas ele parecia relutante em fazê-lo, porém acabou por concordar.

- Se é mesmo isso que queres. Desculpa. Só fiquei aqui, porque pensei que quisesses falar sobre o bebé que vem a caminho, mas tudo bem. Volto mais tarde. – Virou-me costas e começou a dirigir-se para a porta.

Mas será que eu percebi bem? Devo ter ouvido mal. Tenho de saber...

- Rob! Espera!

- Sim meu amor? Precisas que traga alguma coisa?

- O que disseste sobre... bem, sobre o... Tu sabes.

 - Sobre o quê? Sobre o nosso bebé?

Assenti e sustive a respiração, enquanto esperava a resposta. Ele fechou a porta, voltou a sentar-se na cadeira, colocando a minha mão entre as suas, acariciou-a, fixando-a durante alguns instantes com ar sério. Depois olhou-me nos olhos brevemente, desviando o olhar em seguida.

- Bem, suponho que... Quer dizer, talvez devêssemos...conversar. – Ele estava a enrolar a conversa, o que me estava a deixar muito nervosa. Apertou-me a mão com força ao senti-la tremer e continuou, ainda sem me fitar. – Eu estive a pensar e gostava que me deixasses ajudar-te a escolher as coisas para o bebé e talvez pudéssemos começar a procurar uma casa maior e...

- Rob, queres dizer que...Oh meu Deus, eu pensei que... – E não consegui impedir-me de recomeçar a chorar.

- Amor, por favor, tenta acalmar-te. O médico disse que não devias enervar-te, não é bom para o bebé.

- Mas, ele está bem? – Respirei fundo, enquanto me esforçava por conter as lágrimas.

- Não te vou mentir. Ainda não sabemos, mas o médico acha que vai correr tudo bem. Vais precisar de descansar e não podes fazer esforços, mas vai correr tudo bem. Agora, por favor, antes de termos a certeza, tenta manter-te calma.

- Eu vou tentar. Mas o que aconteceu? Estávamos a gravar e foi tudo tão rápido.

- Não sei explicar muito bem. Acho que é melhor ser o médico a explicar.

- Tudo bem. Mas, e as gravações?

- Não faço a menor ideia. Talvez se atrasem um pouco, mas não te preocupes com isso agora.

Conversámos ainda durante bastante tempo, até sermos interrompidos pela chegada do Dr. Welch, que se prontificou a pôr-me ao corrente da situação.

- Bem, agora talvez o papá nos queira acompanhar, enquanto faz a ecografia.

- Ok.

Rob parecia um pouco perdido no meio de toda aquela situação. Sentou-se ao lado da maca, enquanto eu fazia a ecografia.

O Dr. mostrou-nos o pequeno embrião de seis semanas e verificou se o tamanho e formato eram normais. Robert respirava fundo e parecia ao mesmo tempo comovido e pensativo. Estiquei-me e apertei a sua mão. Queria que ele se sentisse parte de tudo aquilo desde o inicio. Agora apercebia-me de tudo o que o tinha feito perder do crescimento do nosso primeiro filho.

- O que tenho a dizer aos futuros papás é que o desenvolvimento do vosso bebé é normal para o tempo de gestação, no entanto quero que fique em observação pelo menos durante uma semana. Precisa de repousar e já sei que se a deixo sair, vai logo começar a trabalhar e não queremos correr o risco de perder esse bebé, certo?

- Claro Doutor, tudo o que for necessário! Não vou deixá-la fazer absolutamente nada, até termos a certeza que está tudo bem.

- Huum alguém aqui está demasiado ansioso. Assim vou morrer de tédio antes de o bebé nascer. – Tentei brincar com a situação.

- Se isso for necessário, garanto-te que morres mesmo de tédio, porque eu não vou deixar que faças nada que possa prejudicar o nosso bebé.

- Pronto, como queiras paizinho!

Rob saiu pouco depois para ver como estava o Miguel e prometeu que o traria mais tarde.

Durante toda a semana recebi visitas. Todos queriam saber se eu estava bem, embora muitas pessoas tenham optado por me enviar apenas mensagens, o que eu agradecia profundamente. Continuava a não gostar muito de ser o centro das atenções e a verdade é que também não andava com muita paciência para visitas, pois continuava a sentir-me cansada.

O Rob, a Kristen, a Annie e o meu filho, foram as minhas visitas mais assíduas, embora as gravações tivessem sido retomadas. Por mais que eu dissesse que estava tudo bem, não paravam de perguntar se precisava de mais alguma coisa e nem sequer me deixavam ajeitar-me na cama ou ir à casa de banho sozinha, o que me fazia perder a paciência.

- Parem com isso! Posso perfeitamente pegar no meu filho, sozinha!

- Não, não podes amor! Ele já está muito pesado.

Suspirei, frustrada, enquanto Rob ajudava o nosso filho a subir para a cama.

- Mamã, porque estás triste?

- Não estou triste, meu amor. Estou farta que não me deixem fazer nada! – Completei, fuzilando Rob com o olhar.

- Tens que descansar mamã, senão depois ficas doente e não podes ir pa casa connosco.

Ri-me. Ok, agora até o meu próprio filho me dizia o que tinha de fazer. Lindo! Vou mesmo morrer de tédio.

Dias depois, aproveitei o facto de Rob ainda não ter chegado para assistir à ecografia que faria antes de sair do hospital, para suplicar ao médico que falasse com ele.

- Por favor Doutor, eu vou dar em doida se continuarem a não me deixar fazer nada, quando sair do hospital! O Robert está a levar a sério aquela ideia de me fazer morrer de tédio e eu já não aguento mais.

- Tudo bem, eu vou confiar no seu discernimento, Sra. Broddy, mas só se me prometer que não vai abusar. Nada de pegar em pesos, fazer esforços, nada de se enervar, nem de dias inteiros de trabalho. Se não se sentir segura, peça ajuda e se sentir algo anormal, alerte alguém.

- Ok, ok Doutor. Prometo que serei responsável, mas por favor faça com que eles me dêem algum espaço! É tudo o que lhe peço.

- Não se preocupe. Tenho experiência de sobra com pais galinha! – Respondeu-me sorrindo e piscou-me o olho no momento em que Rob acabava de entrar no quarto.

- Bom, já está! Pode limpar a barriga e levantar-se, Sra. Broddy. Está tudo bem.

Levantei-me com a ajuda de Rob e puxei a camisola para baixo.

- Agora eu gostaria de falar com o pai a sós. Preciso de dar-lhe umas últimas recomendações, se puder ser.

- Vou saindo então. Obrigada Doutor. Espero por ti lá em baixo no carro.

- Não. Espera aí fora! Não demoro.

A sério que nem as escadas ele me ia deixar descer sozinha? Saí da sala, suspirando de frustração. A minha única esperança era que o Doutor o conseguisse fazer mudar de ideias. Sentei-me no corredor à espera.

Rob chegou e fomos abraçados até ao carro. Notei que, enquanto descíamos as escadas, ele me segurava com mais força do que num abraço normal, mas decidi não criar ondas.

 

publicado por Twihistorias às 18:57

4 comentários:
Que bonitinho!
Marcela Thomé a 3 de Outubro de 2012 às 21:10

Que bonitinho!
Marcela Thomé a 3 de Outubro de 2012 às 21:11

Que bonitinho!
Marcela Thomé a 3 de Outubro de 2012 às 21:11

Que bonitinho!
Marcela Thomé a 3 de Outubro de 2012 às 21:11

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