10
Fev 13

Capítulo 37

O meu olhar alterava entre a pulseira electrónica, que repousava na pequena mesa da sala, e o dourado dos olhos de Bentley.

Esperava ouvir o barulho de uma sirene a qualquer momento, mas nada. O silencio da noite reinava no mundo exterior.

O genérico do novo episódio de pretty little liars recomeçou na televisão.

Demasiado rápido, Bentley desligou o DVD.

Amaldiçoei-o por me impedir de usufruir os últimos dias a ver o final da série. Ainda me faltavam ver três temporadas para descobrir quem era a A. Tinha conseguido aguentar até agora sem ir ver à internet quem era a verdadeira A.

Até a minha mãe tinha sido proibida, por mim, de me revelar tal coisa. Visto ela ser uma fã da série quando esta foi transmitida na TV ainda antes de eu nascer.

As sirenes continuavam sem se ouvir.

Bentley desapareceu da minha vista. Por vezes odiava que ele fosse vampiro.

Fugia sem ser visto e ainda por cima não tinha a mínima hipótese de o impedir para me dar uma explicação.

Até que de repente o meu mundo foi abalado e tudo á minha volta ficou turvo.

Senti-a algo frio a segurar-me.

A única coisa que consegui-a focar era o corpo do Bentley enquanto tudo à nossa volta se deslocava a grande velocidade.

Queria falar com ele, dizer alguma coisa, mas a brisa fria e forte impedia-me de o fazer.

Estávamos a toda a velocidade pelo mundo exterior. Era pior que andar num Ferrari a grande velocidade e este ser descapotável.

Ele estava a fugir comigo!

Um sorriso quase se formou nos meus lábios, e por momentos fui invadida por uma felicidade enorme. Alguém queria estar comigo, alguém me queria proteger daquilo que me esperava. Alguém realmente se importava comigo e eu já não sentia isso à realmente à muito tempo.

Alguém estava disposto a desafiar a justiça para ficar comigo.

Não obstante, esse sorriso não se chegou a formar.

“Ele nem se importou com aquilo que tu realmente querias” pensei.

O meu amigo vampiro não se designou sequer a perguntar se eu queria fugir. Simplesmente pegou em mim e partiu.

Eu não queria aquilo, já tinha deixado isso claro noutras ocasiões, eu estava pronta para cumprir a minha pena. Pagar pelos meus crimes.

Não! Aquilo não estava certo.

Eu queria voltar antes que fosse tarde de mais.

-Eu…quero…voltar! – disse num sussurro contra o seu peito. Apesar de ser demasiado baixo, devido à pressão que sentia da corrida, sabia que ele me ouvia.

Mas nem assim a sua corrida abrandou.

A corrida ainda demorou algum tempo, não fazia a mínima ideia para onde o Bentley me levava. Senti em certa altura alguma coisa a agasalhar-me por causa do frio.

Uma lágrima correu pelo meu olho.

Ainda não acreditava que ele me estava a fazer aquilo!

Era como estará a ser raptada neste momento. Odiava aquilo.

Odiava-o a ele.

Finalmente senti-o a abrandar, a impressão nos meus ouvidos também estava agora a desaparecer.

Olhei em volta, mas ainda era noite cerrada.

Não fazia a menor ideia onde me encontrava, mas o clima não teria alterado assim tanto. Continuava a fazer o frio típico de inverno.

Bentley colocou-me no chão. Estiquei as pernas, assim como todo o corpo. Estava um pouco dorida devido à viagem.

Preparava agora para descarregar toda a fúria que sentia em mim nele e obriga-lo a levar-me de volta.

Se ele não me permitisse voltar, se me quisesse manter presa, ele não estava a ser melhor do que os outros que me recriminaram nos últimos tempos. Ele não estava a ser melhor do que o Chester e aquilo deixava-me enjoada.

Antes que a minha boca abrisse para começar a argumentar com o Bentley, uma outra voz soou atrás de mim.

O Ethan também estava metido naquilo.

Senti-a o meu corpo ceder, era uma dupla traição. Como é que eles foram capazes de me fazer aquilo?

-Obrigado! – pronunciou Ethan assim que chegou à nossa beira.

“Desde quando é que estes dois deixaram de ser inimigos mortais e passaram a companheiros de crime?” perguntava-me enquanto uma nova onda de cólera se apoderava de mim.

Não sei bem o porquê, talvez a raiva fosse tanta, o sentimento de traição, o facto de ter baixado o meu muro com eles os dois e ter sido traída novamente, não sei…mas do nada comecei a rir às gargalhadas.

Não sabia o que fazer, não conseguia chorar, não conseguia fazer nada. Apenas rir tamanha era a fúria que sentia.

Bentley e Ethan olhavam incrédulos para mim.

-Acho que é a minha deixa. – pronuncaiava aquela voz melodiosa do Bentley. – Adeus…- depois hesitou e acrescentou. – Boa sorte.

Acho que a ultima parte foi para o Ethan, não sei dizer. Ambos olhavam para mim como se eu tivesse perdido a noção de tudo, como se a louca ali fosse eu.

-Estás a brincar? – disse num tom de voz mais grave. – Vocês estão a brincar comigo! O quê que vos passou pela cabeça? Alguma vez se lembraram de me perguntar se eu queria fugir?

Bentley parou e rodou para olhar para mim. Ao menos isso, ainda tinha a decência de me olhar nos olhos.

Pois bem, o olhar foi devolvido com toda a fúria que tinha dentro de mim!

-Ah espera, sim uma vez falamos nisso e eu disse que queria cumprir a pena. Mas o que eu digo vale de alguma coisa? O que eu quero importa? NÃO!!

A minha voz cada vez subia mais uma oitava. Os meus braços dançavam à volta do meu corpo.

A minha vontade era bater aos dois, mas isso só iria servir para eu me magoar.

-Volto antes do amanhecer. – voltou a falar Bentley de forma calma.

Depois disso evaporou.

Irrefletidamente peguei numa pedra do chão e arremessei na direcção onde outrora esteve um vampiro.

-Kelsi. – a voz do Ethan confundia-se com o som do bater da pedra na calçada.

A minha fúria insidiu nele esta vez. Estava capaz de o matar.

Como é que ele tinha sido capaz de me trair desta forma, outra vez? Como?

O buraco no meu peito, aquele que pensei nunca mais sentir, voltou a abrir. A dor desta vez era avassaladora.

Não sabia se o odiava mais a ele por me ter traído, ou a mim por me ter permitido confiar nele novamente.

-Leva-me de volta. – a minha voz soava vazia, era desprovida de qualquer tipo de emoção.

Ethan avançou na minha direcção com os braços abertos para me abraçar. Instintivamente recuei.

A antiga Kelsi, a dos últimos três anos, estava de volta.

-Nós vamos levar-te de volta Kelsi. – disse ele assim que me afastei dele.

Ele estava magoado, via-o no seu olhar.

-É apenas uma noite, uma noite de liberdade. – Ethan continuava a falar, mas o meu muro estava com dificuldades de o deixar novamente penetrar.

Não conseguia confiar nele.

-Anda. – disse apenas e pontou o caminho.

Vendo que eu não me deslocava, ele fê-lo, mas sempre certificando-se que eu o seguia.

Comecei a aperceber-me onde me encontrava e o pânico voltou a assaltar-me.

Que espécie de loucos eram eles para pensarem que a noite num cemitério seria o ideal para eu usufruir de uma “noite de liberdade”?

Parei a olhar para o que me rodeava, a luz dos candeeiros era escassa, mas dava para perceber algumas das lápides ali presentes.

Ethan parou um pouco à frente com uma lanterna na mão e incentivava-me para o seguir.

-Confia em mim Kelsi. – dizia ele.

Todo o meu ser, o meu lado desconfiado, o meu lado magoado gritava para não o fazer. Mas as minhas pernas faziam exactamente o contrario. Dei por mim a segui-lo.

“Estupida impressão natural” pensei eu.

Tudo no Ethan me atraia, não podia mentir. Não deveria ser tão forte como nele, mas eu não conseguia estar longe dele e dava por mim a fazer coisas que o meu consciente repudiava. Como neste caso confiar nele, quando eu tinha todas as razões para não o fazer.

Ethan serpenteava pelas lápides, até que finalmente comecei a reconhecer onde me encontrava.

Eu estava no cemitério de Greenville, onde o meu pai estava enterrado.

Onde o Jackson, o meu filho estava enterrado.

Uma lágrima escorregou pelo meu olho ao mesmo tempo que senti o meu muro descer.

Esqueci tudo que se tinha passado nos últimos minutos, horas, meses, anos.

Esqueci o facto de o Ethan ali estar e o facto de ele estar enganado no caminho que levava.

Os meus pés ganharam vida, como se estivesse em alto mar e necessitasse de chegar à superfície para conseguir respirar. Dei por mim a ultrapassar o Ethan e a correr em direcção da última morada do meu filho.

Ethan veio atrás e mim, apesar de dar uma pequena distância entre nós. Como se me quisesse dar espaço.

Ele parou a mais de um metro de distancia de mim, antes de todo o meu corpo ceder à gravidade e os meus joelhos tocarem no chão.

Lá estava eu, entre duas lápides. Entre os homens da minha vida.

Rapidamente os meus olhos passaram pelo nome do meu pai, mas a minha mão antecipou-se a acariciar as letras que compunham o nome do Jackson.

As minhas lágrimas levaram a melhor e o meu peito parecia estar a ser rasgado em dois.

A última vez que tinha ali estado foi dois dias antes daquele estupido baile. Sabia que não deveria ter voltado a Forks.

No entanto a única coisa que inundava a minha cabeça era “Tenho tantas saudades tuas bebé.”

E assim, sem mais forças, todo o meu corpo tombou para cima da campa do meu filho, enquanto a minha mão repousava em cima da do meu pai.

Como sentia a falta dos dois.

Chorava compulsivamente.

Se pudesse neste momento ficava ali para sempre, juntava-me a eles, ficava em conchinha com o meu bebé.

Como tinha saudades disso, de o sentir nos meus braços, do cheiro dele, do sorriso dele, do som da voz dele a chamar “mamã”.

Senti os dedos do Ethan a tocar-me e a puxar-me para o seu colo.

-Tenho tantas saudades. – foi a única coisa que consegui fazer passar pelo enorme nó que tenho na garganta.

O abraço do Ethan intensificou-se e eu senti pelo movimento do seu peito eu também ele estava ali a chorar pelo filho que não conheceu.

Perguntava-se, será que ele alguma vez tinha ali estado desde que soube a verdade?

Não perguntei, invés disso aninhei-me mais a ele, sentir o seu calor fazia com que o buraco no meu peito parasse de abrir.

Com o tempo, as minhas lágrimas foram parando, mas o meu olhar ainda insidia sobre aquelas palavras na lápide.

“Never say goodbye because goodbye means going away and going away means forgetting.” Peter Pan

-Porquê aquelas palavras? – perguntou Ethan.

Fiz um esforço para que as minha voz soasse o mais normal possível.

-Porque ele gostava do filme do Peter Pan e pareceu-me apropriado. Afinal de contas, isto foi apenas um até já. Gosto de acreditar que no dia em que morremos encontramos aqueles que partiram antes de nós.

-É, acho que tens razão. Também quero acreditar que um dia o vou conhecer, e aí sim, ensina-lo a jogar basebol, fazer surf, saltar dos recifes. Essas coisas.

-Tenho a certeza que ele vai adorar. – disse com um sorriso tímido. Depois afastei-me um pouco do Ethan apenas para o olhar.

Ainda ali estavam umas lágrimas. Esquecia-me sempre que ele também era o pai do Jackson e que não o conheceu. Devia estar a sofrer tanto quanto eu ali. E no entanto, eu só me preocupei com a minha dor, e ele esteve sempre ali a apoiar-me estas horas todas. Mas ninguém o apoiou a ele.

Com o indicador limpei-lhe as lagrimas que caiam dos seus olhos cor de avelã. Aquele gesto parece ter sido o suficiente para fazer a ligação entre as lagrimas e os olhos, porque começaram a cair com alguma abundancia.

Foi aí que eu percebi que era a primeira vez do Ethan ali. Era a primeira vez que ele estava tão perto daquilo que restou do nosso filho.

Foi a primeira vez que senti a dor dele a 100% e aquilo doía tanto quanto a minha, por isso, pela primeira vez naquela noite, consolei o Ethan. Segurei na cabeça dele, delicadamente, e puxei-o para um abraço. E ali ficou ele, a chorar no meu ombro.

-Desculpa. – disse eu.

Não só por o ter privado do nosso filho, mas também pela forma como reagi mais cedo. Eles só me quiseram proporcionar umas horas ali antes de eu ser presa. Sabe lá Deus quando vou regressar aquele local.

Ethan nada disso, não conseguia, apenas me apertou mais. Conseguia ouvir os seus soluços e isso fazia com que os meus olhos se voltassem a inundar. E ali estávamos nós, novamente a chorar. No entanto, agora era eu quem consolava o Ethan e não ao contrário.

As minhas mãos passavam no seu cabelo enquanto o meu nariz desenhava a linha da sua orelha. Os meus lábios depositaram um beijo ali perto.

No calor do momento, talvez da vulnerabilidade dos dois, talvez da impressão natural, ou até mesmo dos nossos sentimentos, os nossos lábios voltaram a unir-se num beijo apaixonado. Já não sentia aqueles lábios à muito tempo.

Foi um beijo delicado, mas apaixonado. Foi um beijo igual ao tempo em que namorávamos.

No entanto este tinha um sabor um pouco mais salgado, devido ás lágrimas derramadas.

-Tenho medo Kelsi. – sussurrou Ethan por fim. – Tenho tanto medo do que vai acontecer, de te perder.

Disse voltando a abraçar-me forte.

-Shhh… - tentei eu descansa-lo. – Está tudo bem, vai ficar tudo bem.

-Eu não te quero perder Kelsi, já perdi o Jackson, por favor, não me faças perder-te também.

E mais uma vez as lágrimas voltaram aos olhos de ambos.

Meu deus, como é possível o sentimento ainda estar tão presente ao fim de tanto tempo? Ao fim de tanto sofrimento, de tanta traição, como é que é possível eu ainda o amar tanto?

E mais uma vez, entreguei-me novamente aos lábios do meu lobo preferido.

As horas ali voaram, e o sol começou a nascer.

Isso era sinal de que estava na hora de voltar para casa, não tardaria e o Bentley iria estar ali para me levar de regresso a Forks.

Ethan tinha-me explicado, que como vampiro, que até entende de electrónica, Bentley inha sido capaz de me retirar aquela pulseira do tornozelo sem o alarme disparar. Aparentemente, para a polícia de Forks, eu ainda estava em casa, fechada, provavelmente a dormir.

Admito que isso me deixou bem mais relaxada e a dever um enorme pedido de desculpas ao meu vampiro favorito.

-Vamos? – perguntou Ethan.

Acenei que sim, mas a verdade é que me custava sair dali. Ele ajudou-me a levantar e retirou do bolso um pequeno brinquedinho que colocou perto da lápide. Aquele gesto fez com que mais lágrimas surgissem nos meus olhos.

-Vou deixar-te sozinha para te despedires. – disse Ethan começando a afastar-se.

Agarrei na sua mão com força, impedindo-o de sair do meu lado.

-Não. – disse entrelaçando os meus dedos nos seus. – É o nosso filho, dos dois. Vamos fazer isto como uma família.

Ethan olhou para mim com um sorriso e uma lágrima, depositando um beijo nos meus lábios.

Depois vinha a pior parte, dizer um até já para o nosso menino, «porque dizer adeus significa ir embora e ir embora significa esquecer».

publicado por Twihistorias às 18:00
Fanfics:

6 comentários:
Sinto-me presa a esta história. É muito bem escrita e delineada.
A anedota particular é a minha aposta estar sempre no par errado.
Desculpa mais uma vez.
Estou a gostar muito da história da Kelsi.
E do Bentley. rsrsrsrsrs
Ella Fitz a 11 de Fevereiro de 2013 às 01:36

ahah....
prometo que o final vai surpreender ;) lool
e podes ter a certeza k o bentley não está, de todo esquecido!! XD

Bgd por todo o apoio ;)
Bj*
Leticia a 11 de Fevereiro de 2013 às 17:05

omg,quer me fazer chorar?simplesmente perfeito!
marcela thomé a 11 de Fevereiro de 2013 às 14:09

Este capitulo tinha mesmo que ser assim, lool...
Ela nao pode ir para o julgamento sem antes "visitar" o filho uma ultima vez!

Bgd por todo o apoio...
Bj*
Leticia a 11 de Fevereiro de 2013 às 17:06

este foi sem o dúvida o melhor capitulo da história!
até me vieram as lágrimas aos olhos! eles fizeram as pazes! :)
amei!!! <3 beijinhos :)
Ana a 11 de Fevereiro de 2013 às 17:15

Eu adoro esta história e deste capítulo só posso dizer que é o melhor de todos os que já li da I wish.

Ansiosa por mais :D
Filipa a 15 de Fevereiro de 2013 às 21:27

Fevereiro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
14

17
18
19
21
23

25
26
28


mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

32 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

O nosso facebook
facebook.com/twihistorias
Obrigatório visitar
summercullen.blogs.sapo.pt silvercullen.blogs.sapo.pt burymeinyourheart.blogs.sapo.pt debbieoliveiradiary.blogs.sapo.pt midnighthowl.blogs.sapo.pt blog-da-margarida.blogs.sapo.pt unbreakablelove.blogs.sapo.pt dailydreaming.blogs.sapo.pt/ http://twiwords.blogs.sapo.pt/
Contador
Free counter and web stats
blogs SAPO