04
Abr 13

Capítulo 1

B

Estava feliz por regressar e sentir o bem-estar que só se encontra junto das pessoas que são realmente importantes na nossa vida e que nos amam como somos. Fechei os olhos e inspirei profundamente, sentindo uma mescla de emoções e imagens do passado e do presente.

Subi as escadas e bati na porta com suavidade. Pareceu-me ouvir um “entre” no meio de toda a algazarra de música e risos que provinha do interior do quarto. Abri a porta devagar e deixei-me ficar ali, ainda com a mão no puxador.

Eu estava extasiada a olhar para a minha pequena irmã. Nunca tinha visto uma noiva tão bonita. Mais que bonita, a Alice estava resplandecente, tamanha a sua alegria e satisfação. Em cima do banco que estava aos pés da sua cama, ela dançava ao ritmo da música, balanceando o seu corpo esguio e fazendo o longo vestido de cor pérola, ondular em sintonia com os seus movimentos.

- Quem é mãe? – Alice virou-se para a entrada do quarto e, com uma expressão radiosa, gritou enquanto saltava para o chão e corria para os meus braços.

Abraçou-me com uma força a que eu já não estava habituada, e, sempre a rir e a soltar pequenos guinchos de alegria, desatou a pular levando-me junto com ela naquela loucura.

- Não acredito! És mesmo tu? Louca, é o que tu és. Parva, ingrata, irmã desnaturada. Quase me matavas de saudade e de tristeza por não te ter comigo hoje. Não és boa para mim. Mas eu estou tão feliz agora. Ai minha amiga, minha irmã, minha tudo. Meu estupor. Sabes lá o que eu passei estes dias todos. Só de pensar que estavas tão longe, sozinha e eu sem poder ir ter contigo… Se não fosse ter medo que o meu amorzinho desistisse de casar comigo, tinha largado tudo e voado para a Amazónia. Nem acredito que estás aqui. És mesmo tu? Eu estava tão…

- Oi, mana. É claro que sou. Pára com isso. - Tive que a interromper porque esta minha linda mas destravada irmã, estava a começar a perder o fôlego e eu a começar a ter pena do Jasper por ter que aguentar com ela para o resto da vida.

A Renée juntou-se ao nosso abraço e deu-nos um beijo a cada uma, afastando-se a seguir.

- Ah querida irmã, estás verdadeiramente bem? Recuperaste totalmente? - Abraçou-me com mais força e começou a chorar.

- Alice! – Admoestei eu com meiguice, também emocionada com o nosso reencontro. - Não chores, linda. Estou bem, não te preocupes.

Ali ficámos durante um tempo a tentar parar as lágrimas, embora sem grande sucesso. Mesmo com os olhos nublados pude ver como a minha irmã estava feliz. Do seu rosto magro emoldurado pelo cabelo escuro, muito curto e espetado, eram os seus enormes olhos castanhos que sobressaíam. O seu olhar evidenciava um contentamento que nem as lágrimas escondiam.

Quando finalmente conseguimos olhar mais longe que uma da outra, sentámo-nos no banco onde a tinha visto a dançar e percebemos que só estávamos nós duas no quarto.

- Porque é que não me disseste que vinhas?

- Pensei em fazer-te uma surpresa. Só não sabia que isso te iria deixar como uma Madalena arrependida e estragar toda a tua maquilhagem.

- Não faz mal. Ainda falta muito tempo. O casamento é só às seis da tarde. O Aro teve um contratempo qualquer e só pode vir ao fim do dia.

- Pois, eu sei. – Ri-me descaradamente.

Quando a Alice percebeu o que se tinha passado bateu-me no ombro e voltou a guinchar.

- Foi por tua causa. – Acusou-me ela, de dedo em riste. O seu olhar fulminante mudou repentinamente para acompanhar uma expressão de incredulidade. – Eu devia ter percebido. Quando é que já se viu um orientador espiritual adiar um casamento sem mais nem menos, mesmo sendo a pessoa que é? Combinaste tudo com o Aro… estou a ver. A mãe sabia que vinhas? Quem te foi buscar ao aeroporto? Deves estar cansada. Afinal a viagem do Brasil para cá demora horas.

- Alice, pára. Não me estás a dar tempo de responder às perguntas. Sim, a mudança da hora do casamento foi por minha causa. Não havia voo mais cedo e só ontem saí do hospital. O Aro é um amor, não resiste a dar o seu contributo para fazer as pessoas felizes. A mãe só soube esta manhã, porque lhe telefonei do aeroporto. E, quem me foi buscar… – fiz uma pausa propositada e dei-lhe o meu sorriso mais angelical. – Foi o Jasper.

- O Jasper? - Mais uns gritinhos e uns saltos pelo quarto. – Como é que ele...? Ele já cá está? Ai meu Deus. Estou atrasada. O Aro voltou a mudar a hora do casamento. Ainda morro antes de casar. Não importa caso mesmo assim. Passa-me os sapatos; estão desse lado.

- Pára, pulga elétrica. Quem vai morrer sou eu. O casamento é só às seis. Acalma-te. O Jasper já foi embora. A Rosalie nem sequer o deixou entrar. – Ri-me descaradamente. – Ele ainda tentou espreitar pela janela mas o Emmett pegou nele pelo casaco e meteu-o dentro do carro, dizendo-lhe apenas “Não me faças arrepender de te deixar casar com a minha irmã.” – Disse-lhe eu tentando imitar a voz grossa do Emmett.

Foi uma cena hilariante. Podia jurar que ouvi o casaco do Jasper rasgar quando o Emmett pegou nele e o carregou até à rua. O pobre ficou lívido e, engolindo em seco, deu à chave do carro e saiu dali a acelerar. Por pouco que Emmett não tinha tempo de bater a porta do carro antes de ele arrancar. Foi muito engraçado.

- Coitadinho do meu lindão. O “senhor músculo” deve tê-lo assustado muito. Espero que não desista de casar comigo. Como é que ele estava, quando te foi buscar?

- Nervoso, claro. Fartou-se de fazer perguntas sobre ti, esquecendo-se que eu estava a chegar de outro continente e que não te via há meses.

- Que bom. – disse ela, pensativa e de sorriso nos lábios. - Mas agora conta-me tudo. Estás mesmo bem? Não precisas de fazer mais exames nenhuns? O Jacob disse que estiveste mesmo mal e que foi preciso levar-te de helicóptero para o hospital. Ele parecia muito preocupado.

- No meio das florestas não é costume haver auto-estradas ou vias rápidas, como é lógico. Em muitas das zonas por onde andei a única hipótese de deslocação rápida é andar de barco e, em casos urgentes, de helicóptero. O Jacob não devia ter contado nada. Afinal nem chegou a quinze dias de internamento.

- O Jacob preocupa-se porque… porque é boa pessoa e gosta de ti. Muito.

- Alice, outra vez com a mesma conversa não, por favor.

- Onde é que ele está? Eu convidei-o.

- Sim, eu sei. Eu disse-lhe para não vir. Fazer duas viagens enormes numa semana é uma loucura.

- Não veio? – Perguntou Alice com as sobrancelhas arqueadas. Fez uma cara de caso, torceu os lábios e trespassou-me com o olhar. – O que é que se passou entre vocês?

- Não se passou nada. - Porém a resposta que queria que soasse convincente saiu falhada, o que me fez baixar os olhos.

- Conta-me tudo. Eu sei que ele está apaixonado por ti. Aliás toda a gente sabe, só tu não queres ver isso e ele não quer admitir que isso não é segredo para ninguém.

- Bem, Alice… - Comecei a falar mas parei logo a seguir. Não sabia o que dizer. Já sabia que ela me ia obrigar a contar tudo mas nem por isso deixava de ser difícil. – Ele declarou-se. Pronto foi isso.

- Boa, Jacob. E tu?

Era precisamente isto que eu queria evitar. Esta minha irmã é fogo, quando pega não deixa por conta, vai até ao fim. Sem escrúpulos. Mais valia contar tudo de uma vez. Ou pelo menos quase tudo. Ela não precisava de saber que o Jacob me tinha pedido em casamento, pois não?

- Ele disse-me que gostava muito de mim e que nós podíamos ficar juntos. Disse-me que até em termos logísticos era mais fácil porque passávamos a ter o mesmo espaço.

Alice abriu muito a boca, não acreditando no que lhe contava.

- Ele pediu-te para ires viver com ele? Não acredito. Isso não é nada dele. Ele é demasiado certinho para isso. Ele nem é capaz de atravessar uma rua fora da passadeira…

Com esta ela apanhou-me e fez-me rir. Realmente o Jacob é mesmo assim. Tudo tem que ser legal e dentro das normas da sociedade. De repente Alice desatou a rir, tanto que até lhe vieram as lágrimas aos olhos. Agarrou a minha mão e apertou-a com bastante força. Não sei porquê, mas a Alice tem sempre reacções deste tipo quando está empolgada. Usa a força para que as pessoas saibam o tamanho do seu divertimento. “Pobre do Jasper”, pensei eu pela centésima vez só na última meia-hora.

- O Jacob pediu-te em casamento, – disse ela perdendo-se de riso novamente. - Foi isso, não foi?

Oh não! Como é que ela pôde ser tão irritantemente intuitiva? E agora, o que é que eu iria responder? Soltei a minha mão com uma sacudidela forte. Levantei-me do banco, dirigi-me às portas da varanda, abri-as e saí para o exterior, tentando, em vão livrar-me deste momento constrangedor. Não valeu de nada. Em poucos segundos, já ela estava ao meu lado a olhar-me interrogativamente. Alice é apenas um pouco mais baixa do que eu mas, quando me abre os olhos daquela maneira, eu sinto-me muito pequena e incapaz de lhe fazer frente.

- Diz-me só, acertei? Claro que acertei. E tu recusaste, pois claro. – Fez uma pausa longa, algo inédito na minha irmã. – Fizeste bem. É verdade que ele te ama muito mas não te faz feliz. É um bom amigo, um bom companheiro mas não um bom amante.

- Alice! Como podes pensar numa coisa dessas? Eu nunca tive nada com ele. Não fisicamente. Somos apenas amigos e colegas de trabalho. Eu… Nós somos só amigos, ponto final.

Eu estava escandalizada. Nunca olhei para o Jacob dessa forma. Como uma mulher olha para um homem? Não, eu não era capaz de o olhar assim. Confesso que tentei, quando percebi que ele gostava mesmo de mim. Sim, eu sabia já há algum tempo, não era assim tão cega. Afinal, a minha especialidade é a etologia animal e os humanos são animais para todos os efeitos. Neste ponto há uma enorme discussão por parte daqueles que pensam que a espécie humana é uma espécie à parte mas eu não partilho nada dessa opinião. Para mim não há espécies superiores e inferiores. Todas são especiais à sua maneira e todas têm as suas peculiaridades e idiossincrasias e, por isso mesmo, têm direito à vida no meu habitat natural. Porque é que a espécie humana haveria de ser diferente?

- Fala Bella. – Ordenou Alice, tirando-me do meu devaneio. – É assim tão difícil admitir uma coisa dessas? Como é que ele ficou?

- Ele compreendeu mas ficou magoado.

- Como é que vais conseguir trabalhar com ele depois de tudo? Ele não vai conseguir encarar-te tão cedo.

- Ele veio comigo, – falei quase sem voz.

- Minha nossa! Ele ama-te mesmo.

- Eu não queria mas ele insistiu, dizendo que era uma desfeita que te fazia se não aceitasse o teu convite de casamento.

- Onde…?

- Ficou num hotel da cidade. Nem pensar em tê-lo aqui em casa. – O remorso e a satisfação lutavam no meu peito. Se por um lado achava que estava a ser demasiado dura com Jacob, por outro lado, sentia-me feliz por o ter afastado de mim. – Estou a ser má. Gosto muito dele, sinceramente. Ele ajudou-me tanto ao longo deste último ano… já para não falar que se não fosse ele, provavelmente eu já tinha… ficado magoada há mais tempo. É um bom amigo.

- Mas ele quer ser mais que isso.

Ficámos ali a apanhar sol, durante um tempo que pareceu infinito, até que esta nossa ligação sem palavras foi quebrada pela entrada da nossa mãe no quarto e Alice se lembrou novamente que dentro de quatro horas se casava. Regressámos ao quarto, ela retirou o vestido e tomou um banho para relaxar.

Entretanto a nossa cunhada Rose veio juntar-se a nós e trouxe com ela um tabuleiro carregado de comida, já que nem eu nem a Alice queríamos descer para almoçar. Ficámos ali as três sentadas no chão do quarto, a depenicar fruta, queijo, ciabatta, pissaladière e carnes fumadas, enquanto relembrávamos alguns momentos engraçados que tínhamos vivido. Ali, entre sorrisos e gargalhadas, senti-me feliz, como há muito tempo não sentia.

- Meninas. – Chamou a minha mãe da porta do quarto. – Talvez fosse melhor começarmo-nos a arranjar. Bella, querida, tu devias ir tomar um bom banho e descansar um pouco da viagem. Rosalie, podes ajudar a Alice a arranjar-se? Só tu consegues pôr as mãos naquele cabelo rebelde.

A minha irmã levantou-se imediatamente, começando a saltitar nervosamente.

- Quanto tempo falta? Ajudem-se. Eu preciso de ajuda. Ai, ai, ai.

 Eu ajudei-a com a maquilhagem enquanto a Rosalie voltava a dar-lhe um jeito no cabelo. Em menos de uma hora ela estava pronta, outra vez, e a casa começou a fervilhar com as pessoas a tratarem dos últimos pormenores e retoques. Ouvi a Esme a dar ordens aos serventes mas não desci. Agora não, ainda não.

Refugiei-me no meu quarto e deitei-me um pouco. Estava verdadeiramente cansada. A viagem de avião do Rio de Janeiro até Milão demorou uma eternidade e eu nem sequer pude ocupar o meu tempo a ler, como sempre fazia quando vinha visitar a minha mãe. Desta vez, tive a companhia de Jacob e como eu não me sentia muito à vontade com ele desde que recusei o seu pedido, passei todas aquelas horas a fingir que dormia. Sabê-lo ali, ao meu lado, a tomar atenção ao meu respirar, à minha temperatura, ao tom da minha pele e ao mover das minhas mãos, era demasiado atrofiante para mim. Encará-lo seria absolutamente impossível.

“Porque é que isto acontece comigo? Devo ter feito muito mal a alguém para merecer este castigo.” Pensei, desgostosa.

- Jacob, Jacob… Gosto muito de ti mas por vezes apetecia-me ter o dom de estalar os dedos e fazer-te desaparecer da minha vida durante um tempo, – murmurei baixinho enquanto me acomodava melhor naquela cama macia e convidativa.

Acabei por adormecer e só acordei quando ouvi alguém chamar o meu nome. Estava confusa.

- Bella. Bella.

Que estranho. As enfermeiras chamavam-me sempre de Isabella ou então de “moça”. Só quando senti uma mão fria acariciar a minha face me apercebi do local onde estava e quem me chamava.

- Mãe? Desculpa, adormeci. Que horas são?

- Querida, tens que vestir e descer. Faltam 40 minutos. Eu preferia deixar-te dormir mas sei que não perdoarias ninguém se não assistisses à cerimónia. Muito menos depois de atravessares doente meio mundo para poderes estar cá hoje. – Renée enfatizou a palavra doente ao mesmo tempo que fazia uma careta. – Precisas que te ajude? A Rosalie está no corredor à espera de saber se precisas dela.

Neste preciso momento, como se tivesse adivinhado o que a minha mãe me dizia, ou talvez porque estivesse a ouvir a conversa, afinal a porta estava aberta, Rosalie entrou no quarto com um volume nos braços e parou junto da cama.

- Bella, levanta-te. Tens cinco minutos para tomar banho, depois ajudo-te a pentear.

- Obrigada Rose, mas não vale a pena. Eu arranjo-me sozinha.

Ela olhou-me com descrença abanando a cabeça.

– Nada disso. Estou aqui para fazer o que tem que ser feito. Se não deixares, quem vem a seguir é a Alice.

- Faz isso, filha.

Levantei-me com dificuldade e fui tomar um duche rápido. Quando regressei ao quarto, embrulhada no meu robe vi a Rosalie abrir os olhos desmesuradamente.

- Estás tão magra. Tens a certeza que estás suficientemente recuperada dessa infecção terceiro-mundista que tiveste?

- Não sejas preconceituosa, Rose. As cidades que tanto adoras são mais selvagens que a verdadeira selva.

Para Rose, um local só é suficientemente bom se tiver pelo menos quatro lojas de luxo. Ela é muito boa amiga mas tem uma obsessão enorme por vestir e calçar bem, de preferência roupa de casas famosas vendidas a preços exorbitantes. Neste aspecto, Rose não é nada como eu. Eu gosto mais de roupas confortáveis, de estilo casual e consideravelmente mais baratas. Só em ocasiões especiais me esmero na indumentária. E, como este era o casamento da minha muito querida irmã, eu tinha aceitado que a Rose me comprasse um vestido e os acessórios necessários.

- Eu sei, mas que queres? Ainda para mais, uma zona que te deixa doente e magra dessa forma não pode ser boa para viver. Anda cá. – Continuou a Rosalie, agarrando-me um pulso e puxando-me para a frente do toucador, obrigando-me a sentar numa cadeira baixa. – Como não temos muito tempo, vou deixar o cabelo simples. Depois tratamos da maquilhagem. Simples, também.

Só mesmo ela para dizer que aquele penteado era simples. Não sei bem como, mas a verdade é que ao fim de vinte minutos estava penteada e maquilhada. Enfiei o vestido que ela tinha comprado propositadamente para mim e fiquei pronta. Dirigi-me para a porta mas percebi que estava sozinha.

- Vamos Rose, que está na hora.

Ela olhou para mim com cara de pena e abanando a cabeça, como se não quisesse crer, baixou-se e apanhou os sapatos de salto alto que eu deveria ter calçado.

- Por acaso, queres ir descalça ao casamento da tua irmã? Ela ainda manda parar o casamento se perceber que tens os pés nus.

Irritada, regressei ao interior do quarto, calcei-me e virei-lhe as costas, ainda mal-humorada. Dirigi-me às escadas enquanto resmungava. – Com um vestido destes, quem vai reparar nos sapatos? Um dia, se me casar, há-de ser na praia. Sem vestidos longos e stilettos. De calções e havaianas. Tenho dito.

- Em topless? Conheço pessoas que adorariam ver-te assim, mas desconfio que as nossas mães te levariam para o hospital psiquiátrico antes de chegares a pôr esses pezinhos lindos na areia branca da praia. – O Emmett ria a bandeiras despregadas enquanto subia as escadas. Aproximou-se de nós e agarrou Rosalie com força, beijando-a em seguida como se não houvesse amanhã. – Então amor, vamos ou fazemos um desvio? Estava a pensar que me ias deixar sozinho o casamento todo.

Saí dali rapidamente. Aqueles dois, quando estavam juntos, eram um desatino, ou brigavam forte e feio ou então agarravam-se de tal forma que era difícil saber onde terminava um e começava o outro. Nunca vi nada igual.

A sala estava sem ninguém, apenas um servente passava com uma garrafa de água da mão. Devia estar mesmo atrasada. Saí porta fora, e dirigi-me ao jardim das traseiras onde a cerimónia de casamento iria ocorrer.

Já estava à espera de ficar surpreendida mas nada me havia preparado para o que vi. Assim, que levantei a cabeça fiquei abismada. A pérgula estava carregada de flores; entre as roseiras que sempre lá estiveram havia uma quantidade enorme de flores dispostas aparentemente ao acaso, mas de forma elegante. Por baixo estava disposta uma mesa, completamente tapada por uma toalha branca, com um arranjo de flores que se propagava suavemente sobre ela caindo pela frente como se fosse uma cascata. Diante a pérgula, estavam dispostas oito filas de cadeiras vestidas também de branco, onde já se encontrava a maior parte dos seus ocupantes. Ao meu lado direito, no enorme terraço que tinha continuidade para o jardim, estavam mesas redondas preparadas a rigor para a festa. Absolutamente deslumbrante. Outra coisa não seria de esperar. Com quatro mulheres especiais, a preparar o casamento de uma delas, só poderia sair uma festa digna de um conto de fadas, recheada de elegância e glamour. Alice, Rosalie, Renée e Esme, uma estilista, uma modelo, uma artista plástica e uma arquiteta. Era este o quarteto fabuloso.

Aproximei-me das mesas para poder apreciar a paisagem sobre o mar. Inspirei profundamente, tentando encontrar o cheiro a maresia na leve aragem e fechei os olhos. Esta mistura de cheiros a mar e campo recordava-me tempos muito felizes e outros bastante amargurados…

Após uns momentos perdida nos meus pensamentos, aproximei-me com cuidado das filas de cadeiras, maldizendo Rose por me ter comprado uns sapatos de salto tão alto e fino para uma cerimónia no jardim. Será que ela não sabia o difícil que é caminhar sobre relva sem deixar que o salto se enterre no chão? Pelo menos as cadeiras estavam sobre deck, porque de outro modo não via como iria aguentar toda a cerimónia.

Em cada uma das cadeiras ainda vazias, havia uma flor. Escolhi a que estava mais próxima e sentei-me cheirando a tulipa.

-Bella. Isabella.

Levantei a cabeça procurando pela pessoa que me chamava e encontrei um rosto sorridente. Bem ao fundo, por baixo da pérgula estava Aro e Jasper. O Jasper fazia-me sinal para ir para a frente, ocupar um lugar livre. Levantei-me e, tão discretamente quanto possível, fui até à primeira fila ocupar a cadeira livre que Jasper me indicara. Na cadeira ao lado, estava Rosalie e na seguinte a minha mãe.

Fiquei com os olhos marejados de lágrimas e sorri feita uma imbecil. Na minha cadeira estava uma enorme flor de magnólia. Alice! Só ela para me presentear com a minha flor preferida. Peguei nela e cheirei-a de olhos fechados deixando-me embalar pelo seu perfume inebriante. Devo ter ficado assim por algum tempo, porque quando voltei ao presente estava a marcha nupcial de Mendelssohn a tocar e Alice deslizava de braço dado com o pai pela ala central das cadeiras.

Fazia algum tempo que não via Charlie. Não estava muito diferente da imagem que fazia dele. Aparentava estar um pouco mais cansado e as rugas do seu rosto estavam ligeiramente mais acentuadas, mas avançava orgulhoso segurando Alice. Vê-lo ali, em casa da minha mãe, trouxe-me algumas más memórias mas este não era dia para estas melancolias e tristezas. Esforcei-me por me concentrar e tomar atenção à música. Sonho de uma noite de Verão. Tão apropriado. Foi a escolha perfeita.

A cerimónia foi linda, o Aro fez um serviço muito intimista e carinhoso. Também não era para menos, uma vez que, desde que a minha mãe comprou a Villa, Aro era uma presença assídua na sua mesa e nas nossas vidas.

Os votos dos noivos foram de uma eloquência tocante. O Jasper conseguiu levar quase todas as pessoas, principalmente as mulheres, às lágrimas e Alice conseguiu arrancar risos a todos. No fim, beijaram-se, tão apaixonadamente que tive que desviar o olhar por achar que estava a invadir a intimidade deles.

Chegara ao momento de felicitar os noivos. Levantei-me da cadeira com alguma lentidão porque preferia ficar para o fim, quando Aro chegou ao pé de mim e me deu um abraço de cortar a respiração. Ali estava eu, no ar, entalada entre dois braços que mais pareciam torniquetes e sem conseguir inspirar.

- Aro. – Chamei eu com a voz a esvair-se. – Não consigo respirar.

Ele pousou-me no chão, aligeirou o abraço mas não me largou.

- Isabella. – Deu-me um beijo na testa e focou os meus olhos. - Que saudades tenho de ti, pequena. Só estou aqui hoje para te ver.

- Que mentiroso me saíste, Aro. Não é pecado dizer essas coisas?

- Claro que não. Não é mentira, pelo menos não totalmente. – Riu-se e apertou-me mais nos seus braços. – Eu devia estar em Florença, mas para casar uma das minhas meninas e poder ver a minha mais ilustre parceira de retórica, nada me fazia sair daqui. Não vês que até alterei o horário do casamento para estarmos todos juntos?

- Agradeço-te muito por isso, do fundo do coração.

- Sim, eu sei. Se não te conhecesse, bastava olhar para os teus olhos. Nunca conseguiste esconder-me nada. – Mais um abraço apertado e depois soltou-me ficando apenas a segurar-me a mão direita. – Fico muito feliz por estares bem. Pedi por ti todos os dias. Agora vai, que ainda não felicitaste os recém-casados.

Dei-lhe um beijo no rosto, disse-lhe um “obrigada” muito baixinho e virei-me para a minha irmã e para o meu novo irmão. Jasper e Alice estavam tão felizes que nem era preciso olhar para eles para saber, sentia-se o amor deles no ar.

- Amo-vos. – Foi tudo quanto consegui dizer. Mais uma vez abracei e fui abraçada, beijei e fui beijada. Alguém aproveitou para tirar uma fotografia de nós três abraçados e claramente emocionados.

Devia ser pelo cansaço que eu me estava a sentir mais sensível, hoje. Não dormia há praticamente dois dias. Afastei-me um pouco, mas rapidamente tinha uma mão a prender-me um braço.

“Esta agora!” Pensei eu. “Ainda não é agora que vou poder ter sossego.”

- Bella? Estás bem?

Ah não! Jacob! Bolas, já me tinha esquecido dele. Eu precisava muito descansar mas se lhe dissesse isso, provavelmente ele iria ficar a pensar que era por causa da infeção e não me largaria mais.

- Oi Jack. Estou bem. Não te preocupes tanto. Estou apenas um pouco distraída mas é por causa do jet lag. Amanhã estarei ótima. E tu? Menos cansado?

Nesse momento vi uma amiga de faculdade a vir na minha direcção e tive uma ideia brilhante. O meu raciocínio foi rápido e movido pela extrema necessidade de ficar sozinha.

- Jacob, quero apresentar-te uma amiga. Estudámos juntas e, tal como tu, é louca por artrópodes, principalmente aracnídeos.

- Bella, finalmente encontramo-nos. Falhaste o jantar de curso… - disse Leah dando-me dois beijos e falando em simultâneo. – Mas não te preocupes, não foi muito interessante. O do ano passado foi muito melhor. A Alice tem-me informado da tua saúde. Já estás bem?

- Oi Leah. Estou bem, obrigada. Que bom ver-te. Deixa-me apresentar-te um amigo. Leah, este é o Jacob. – Virei-me para ele com um sorriso algo matreiro. – Jacob, esta é a Leah. A Leah foi minha colega de curso e de alguns trabalhos de investigação. Estivemos juntas a fazer um trabalho sobre tardígrados, antes da minha ida para o “pulmão da Terra”.

- Prazer Leah. Que trabalho interessante. O Filo Tardigrada é o que está mais próximo filogeneticamente dos Arthropoda.

- Igualmente, Jacob. Sim, o trabalho foi interessante mas eu gosto mesmo é de aracnídeos. Consegui uma bolsa para estudar os aracnídeos inoculadores de veneno e tem sido uma loucura. Estou a adorar. Esta semana…

Não consegui evitar rir. O meu objectivo foi cumprido. Para estes dois bastava falar de aranhas e tudo o mais desaparecia. Afastei-me calmamente e escondi-me atrás da pérgula. Esta zona do jardim era sossegada e tinha um banco enorme de madeira, duro mas agradável. Ficava totalmente tapada por tufos de plantas variadas e pela trepadeira chocolate que subia desse lado da pérgula. Era o meu refúgio. Sem ninguém à vista permiti-me relaxar e tirar a máscara do eu-estou-bem. Em pouco tempo estariam todos tão distraídos que eu podia entrar, tomar um banho e deitar-me.

Tinha que admitir que a estadia no hospital me tinha quebrado as forças e destruído o meu estudo sobre o comportamento do macaco-barrigudo. Não sei o que me desorientava mais, se o fim forçado do meu estudo etológico, se a fraqueza imposta pela doença, ou mesmo a convalescença que parecia só estava no início. No hospital, o Dr. Evens recomendou-me muito repouso durante pelo menos quatro semanas, fisioterapia respiratória e uma nova bateria de exames para verificar a existência ou não de sequelas.

Estava perdida nestes pensamentos, recostada no banco a olhar para o céu, sem nada ver, quando senti a pressão de um olhar sobre mim. Endireitei-me no banco por instinto e olhei em frente.

Ali estava ele. Sabia que acabaria por o ver mas tinha-me recusado a pensar nisso e a procurá-lo no meio dos convivas.

- Bella.

Não aguentei a tensão psicológica do momento, com todas as memórias que ele me trazia. Senti a escuridão a aproximar-se e a última coisa que retive foi o seu meio sorriso e a forma como a sua voz pronunciou o meu nome: quente e familiar.

Trevas.

publicado por Twihistorias às 18:00

6 comentários:
lol,fic nova que bom!
marcela thomé a 5 de Abril de 2013 às 01:31

Esta fic tem uma alternância de narradores. Nos capítulos ímpares será Bella e nos pares será Edward. Juntos, vão contar a história deles.
Assim, no início de cada capítulo, depois do número do mesmo, aparece a letra B quando é narrado por Bella e E quando é narrado por Edward.
Provavelmente deveria ter deixado essa informação antes do capítulo para ser mais fácil de entender.
Desculpem.
Espero que gostem, mesmo assim.
Beijos
Ella Fitz a 5 de Abril de 2013 às 09:00

Estás de volta yey!

Gostei imenso deste primeiro capitulo, e estou obviamente ansiosa pelos próximos.
Esta Fic será mais longa que a anterior?

Beijinho.
Bárbara M. a 6 de Abril de 2013 às 01:55

Olá, Bárbara.

Esta fic tem muitos mais capítulos que A Aposta; tem 33.
Fico muito feliz por teres gostado deste.
Como já referi noutro comentário, esta fic é narrada alternadamente por Bella e por Edward. Bella começou com o 1º capítulo e Edward narrará o 2º, continuando assim até ao fim.
Obrigada por teres lido e comentado.

Bjs
Ella
Ella Fitz a 7 de Abril de 2013 às 17:01

À autora, os meus mais sinceros parabéns! Foi uma fic que me prendeu, me viciou, não me deixava fazer mais nada! Não descansei enquanto não li todos os capítulos que havia para ler (diga-se que eu fui hiper curiosa e fui lê-la a outro site, e deixei lá comentário, se bem que com outro nome, sem avatar, é o meu alter-ego). Quando colocas os capítulos finais? Estou a morrer para ver como vai acabar... Ah, e já agora, parabéns por uma escrita fenomenal!
tixxa a 11 de Abril de 2013 às 16:26

Oi Tixxa.

Obrigada pelas tuas palavras; são muito queridas e tocaram-me bastante.

Fico muitíssimo feliz por saber que gostas desta fic. Foi a primeira que escrevi e tem um significado especial para mim.

Bjs

Ella
Ella Fitz a 12 de Abril de 2013 às 15:24

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