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Mai 13

Cap. 36 – A fotografia

Acordei sentindo-me mole e pesado e com a cabeça a latejar de dor. Tentei levar as mãos à nuca, mas os meus músculos não me obedeceram. Para além de me sentir preso, pouca consciência tive do local onde me encontrava e de como ali fora parar. Um cheiro acre inundava a divisão.

Veio-me à memória a imagem de um rosto, mas antes que pudesse sequer pensar no que significava pra mim, uma luz forte feriu-me a vista, para no segundo seguinte voltar a ficar em absoluta escuridão. Apenas tive tempo de me aperceber que mais alguém se encontrava comigo, antes de sentir uma picada e voltar a cair na inconsciência.

 

A escola do Miguel começara há alguns dias, mas só tinha ido levá-lo uma vez para não levantar suspeitas em relação ao "desaparecimento" de Rob. De resto a Lizzie estava radiante em poder fazê-lo por mim.

Hoje sentia-me com forças para fazer arrumações. Já não aguentava mais ver as coisas sempre no mesmo sítio. E comecei pelo mais difícil. As coisas de Rob.

Demorei bastante, pois acabei por me perder em recordações de momentos que passámos juntos.

A campainha tocou e fui abrir.

- Kristen! Que boa surpresa! – Abracei-a forte.

- Como estás minha querida? Estiveste a chorar?

- Não. – Disse, enquanto piscava os olhos para afastar a humidade que neles se acumulara.

- Ai minha amiga! Como é que estás? Nem imagino aquilo que estás a passar...

Encolhi os ombros em resposta, não querendo chorar à frente dela.

- Pronto, já percebi. Não vamos falar sobre isso então. Onde estão os meus sobrinhos?

- O Miguel está na escola e a Annie foi ao parque com a June. E eu estava a aproveitar para fazer umas arrumações.

- Muito bem, sim senhora! Vejo que tens com que te ocupar! Queres uma mãozinha?

- Ah nem penses nisso! Que tens feito?

- Gravações e mais gravações! Sabes como é! Mas agora tenho uma pausazinha, duas semanas para descansar!

- Ai que bom! Também estás a precisar. Às vezes nem sei como aguentas esse ritmo!

- Ahahah até parece que não andas sempre acelerada!

- Pois, também é verdade!

- Não sei se tu sabes, mas o Alex vem logo! Vou buscá-lo ao aeroporto!

- A sério? Ai aquele malandro que não me disse nada!

- Ele disse-me que tentou falar contigo há uns dias mas não atendeste...

- Ah... pois. Tenho andado meio desligada. A maior parte do tempo nem sei onde tenho o telemóvel.

- Hum...Ok. Sabes, não sei se fiz bem, mas contei-lhe. Ele ficou preocupado. Espero que não leves a mal.

- Não tem importância. De qualquer forma eu ia contar-lhe...

- Lembrei-me de passar aqui a saber se querias ir comigo buscá-lo. Ele havia de gostar.

- Oh de certeza que ele está é cheio de saudades tuas! Afinal, quando é que vocês casam?

- Oh sabes como é... Ele anda cá e lá e eu sempre de um lado para o outro.

- Fiquei tão feliz quando soube que vocês estavam juntos! A Kristen e o Alex! Quem diria? Ele é um bom homem. Se não fosse ele, não sei como me teria aguentado lá por Lisboa.

- Tens razão... Tem um coração do tamanho do Mundo!

- E bate por ti!

Desmanchámo-nos a rir à gargalhada.

Conversámos durante um bom bocado, enquanto eu aproveitava para ir arrumando mais umas coisas, até que a Annie chegou empurrando o carrinho de bebé com uma das mãos e puxando o Miguel com a outra.

Eu tentava limpar a estante da sala, carregada de livros. Puxei um dos livros da prateleira mais alta, acabando por fazer com que esse e mais dois caíssem ao chão.

- Bolas, isto é o que dá ser preguiçosa!

Apanhei rapidamente os livros do chão e, em bicos de pés, voltei a colocá-los no sítio.

- Mamã? Quem é? – Perguntou o meu filho, com uma foto na mão.

- Onde foste arranjar essa fotografia, Miguel?

- Caiu de um dos livros. – Meteu-se Kristen.

Olhei atentamente a foto, ainda nas mãos do meu filho.

Era uma das nossas tensas fotos de família.

A minha mãe com um sorriso tão artificial que parecia desenhado, o meu pai com ar sério e respeitável e os dois meninos de olhar triste – Eu e Seth.

- Olha mãe, está aqui o senhor do centro comercial! – Exclamou o meu filho, arrancando-me daquelas tristes recordações.

- O quê filho?

- O senhor que me levou até à loja dos brinquedos!

- Que senhor? Não estava nenhum senhor na loja de brinquedos! E tu não falaste de nenhum senhor à mãe.

Ele mudou de atitude e ficou meio assustado, meio atrapalhado, acabando por retirar o dedo de cima da imagem do meu pai.

- Miguel... Conta à mãe. O que se passa? – Falei calmamente e ajoelhei-me ao seu lado.

Ele continuava calado e encolhido, como se estivesse a adiar a resposta.

- Miguel! Estou à espera que me respondas! – Impacientei-me.

- Não vais embora, pois não? Eu não quero ficar sozinho!

Fiquei perplexa. Quem é que lhe tinha metido uma coisa daquelas na cabeça?

- Prometes que não vais embora para sempre como o pai? – Insistiu.

- Claro que não meu amor! E o pai não te abandonou! Só teve de sair uns tempos. Foi trabalhar. Mas ele volta. – Engoli em seco. Nunca tinha mentido ao meu filho, mas não tinha conseguido dizer-lhe a verdade.

- O senhor disse que te ias embora para sempre como o pai, se eu te contasse que o vi.

- Que senhor?

- Este! – Disse apontando o meu pai na foto.

- Amor, se calhar imaginaste... Não podes ter visto esse senhor.

- Não! Eu vi! Ele falou comigo! Levou-me à loja de brinquedos!

- Pronto amor, não imaginaste! Mas devia ser alguém parecido, porque esse senhor já morreu há muito tempo.

- Oh... Quem era?

- Era o pai da mamã! Já foi para o céu antes de tu nasceres.

- Ah! Então era mesmo parecido igual!

- Parecido igual? Está bem. Agora quero que me digas outra coisa... Esqueceste-te que não deves falar com desconhecidos?

- Mas eu não falei...

- Hum... Espero bem que não!

Sentei-me no chão e puxei-o para o meu colo.

- Miguel, eu não vou a lado nenhum sem ti. No que depender de mim, vou ficar ao pé de ti até ser muuiiiito velhinha!

- Oh... Tu não vais ficar velhinha! – Riu-se ele e deu um beijo molhado na minha bochecha.

- Ai tão bom! – Retribuí o beijinho. – Bem rapazolas, está na hora! Já para o banho! Quero essa roupa toda no cesto quando lá chegar!

Ele levantou-se de um salto e desatou a correr quando me levantei e fingi que ia atrás dele.

Voltei atrás, apanhei a foto que ficara no chão e, depois de a olhar brevemente, voltei a colocá-la dentro de um dos livros da estante.

- O que foi isto? – Perguntou Kristen.

- Ai desculpem... No outro dia no centro comercial deixei de o ver durante um bocado. Quando o encontrei estava à porta de uma loja de brinquedos.

- Ele deve mesmo ter-se assustado para inventar uma coisa destas! Isto não é nada dele! – Comentou Annie.

- É verdade. Mas não creio que ele tenha inventado. Alguém me deu um encontrão e eu distraí-me. Depois deixei de o ver. Já tinha passado pela loja e não o vi... Só quando voltei para trás. Bolas, é tanta coisa! Já não bastava esta situação com o Rob...

- Mãe!

- Bem, tenho de lá ir. – Disse, enxugando a humidade dos olhos.

- Não. Eu vou! – Prontificou-se Annie.

- Deixa. Eu vou lá! – Disse Kristen, levantando-se. – Vê se consegues que ela se anime enquanto eu o distraio. – Disse para Annie.

- Anna, tens de reagir. Afinal onde está aquela mulher determinada que pregou a maior descompostura ao meu antigo patrão? Eu também pensei que nunca iria conseguir viver sem a minha mãe e aqui estou eu! Pelo menos o Robert não morreu...

- Eu não entendo... Porquê? Porquê agora?

- Olha porque não vais um bocadinho à igreja? Eu sei que não vais a missas nem ligas a nada disso, mas Deus não nos dá problemas maiores do que aqueles que podemos resolver.

- Oh Annie! Obrigada, mas sabes que não vou à igreja.

- Porquê? O que é que te impede?

- Eu não sou assim! Isso é uma coisa tua. Cada um tem a sua maneira de enfrentar os problemas!

- Essas desculpas todas... Não é só isso, pois não?

- Ok. Pronto, um dia destes vou contigo. Talvez até nem seja assim tão má ideia.

- Eu não obrigo ninguém. Foi só uma sugestão. Mas agora que disseste que sim, eu vou cobrar!

- Ok, ok...

- Vais ver que te vai fazer bem...

- Bem, pelo menos vais parar de me tentar convencer a lá ir...

- Ah ah ah... Que engraçada!

publicado por Twihistorias às 20:12

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