31
Mai 13

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E

Aconcheguei-a melhor a mim e tapei-a com a manta que a hospedeira me tinha dado. Bella dormia. Sorri ao pensar que ela queria que eu a tratasse por Isa. A minha menina, tão temperamental, e tão desejável. Sentia-me um pateta bobo a seu lado. Ela tinha o dom de me deixar desorientado, com o quanto era capaz de me surpreender.

Gostaria que me tocasses como tocas as cordas da tua guitarra.”

O que é que um homem apaixonado pode dizer a um pedido destes? Fiquei sem chão quando li o cartão que ela tinha prendido no gigbag. Confesso que fiquei um pouco envergonhado, porque já tinha pensado muitas vezes em tocá-la, não da forma como ela pediu, mas com um sentido de entrega semelhante, como um homem toca a mulher que ama.

Desejei-a tanto, amei-a tanto e ali estava ela, a dormir nos meus braços e a sorrir. Que sonho estaria ela a ter? Parecia feliz. Não mais do que eu. Não era possível haver alguém mais feliz do que eu naquele momento. Esperei seis anos por uma oportunidade com ela. Porém, foi ela que me procurou e me obrigou a ver que tinha chegado a nossa hora, que me fez ver que ela era já uma mulher e que sabia bem o que queria. E ela, surpreendentemente, queria-me a mim. Nada podia fazer quanto a isso porque eu já era dela. Sempre fui.

Desde sempre que tive por ela um sentido de proteção e fascínio. Adorava as duas irmãs mas enquanto para mim, a Alice representava uma irmã verdadeira, no sentido afetivo, Isabella representava um papel diferente, mais poderoso e cativante, que só mais tarde entendi o que era. Percebi que a amava quando tinha dezasseis anos e não conseguia ver em nenhuma rapariga aquilo que via em Bella.

Aos doze anos, Bella era uma menina simples, ingénua mas autónoma, que adorava falar. Falar sobre tudo, com todos, de coisas tão díspares como o tempo ou o que queria ser no futuro. Falava com segurança, às vezes até com uns laivos de petulância, que revelavam a sua enorme vontade de ser levada a sério. Quando alguém se dispunha a conversar com ela e a partilhar opiniões, Bella respondia à altura, com paixão e um brilhozinho nos olhos, sedenta de conhecimento e partilha. Talvez por isso, encantava os adultos e me fascinava tanto.

Envergonhado comigo mesmo pelo sentimento que nutria por ela, optei por me isolar ainda mais. Ninguém poderia saber ou sequer suspeitar desta minha estranha paixão. Talvez com o tempo isto passasse e eu pudesse ser um rapaz normal.

Perdi esta vã esperança quando ela me disse que me amava e me queria para ela. Puro inferno. Já era tão difícil suportar e esconder os meus sentimentos, como é que era possível ouvir isto e permanecer incólume?

Catorze anos, ela só tinha catorze anos. Eu não tinha alternativa. Fugir dela e desse sentimento era a única solução, por isso afastei-me. O sofrimento que vi nos seus olhos magoou-me e perseguiu-me por muito tempo, sabia bem que o culpado era eu. Para amenizar a minha dor, mentalizei-me que ela iria superar tudo com facilidade, afinal era ainda muito nova e tinha pouca ou nenhuma experiência de vida.

A minha fuga coincidiu com a minha ida para a Universidade, para aquilo que na altura pensei ser uma nova fase da minha vida, onde tudo poderia mudar. Deixei de passar férias com a família, limitando o nosso contacto às reuniões familiares a que não podia faltar. A sua quase indiferença alegrava-me e feria-me. Tentei relacionar-me com outras mulheres mas nenhuma delas me fez esquecer Bella. Era impossível não estabelecer comparações e Bella ganhava todas. Cheguei a pensar que o que sentia era uma paixão sem sentido e que o alvo da minha perdição não era real. Pus em causa a minha própria sanidade mental. E se eu tivesse um qualquer distúrbio mental não diagnosticado?

Julguei que enlouquecia quando, ao fim de tanto tempo, ela voltou a entrar na minha vida de rompante, apanhando-me de surpresa. Novamente.

- Já sou adulta. Dentro de algumas semanas faço dezoito anos, vou para a Universidade e residirei sozinha. Sou uma mulher independente. Há quatro anos rejeitaste-me por ser nova demais. Estou a dar-te uma nova oportunidade. O que sinto por ti não desapareceu. Queres-me agora, aqui no presente, ou continuas a achar que não sou mulher suficiente para ti?

Este seu discurso longo e pausado foi proferido numa voz amargurada e dura, carregada de sofrimento. Quando se voltou para mim e a olhei nos olhos, estes espelhavam ira e medo. Recriminei-me automaticamente por todo o mal que lhe causei. Acariciei o seu rosto, com voluptuosidade, expondo a minha própria vulnerabilidade perante o esforço hercúleo que ela fazia para não chorar. Rendi-me. Abracei-a, não deixando espaço para nada entre nós. Queria-a para mim. Sentia uma necessidade visceral em prendê-la a mim e nunca mais a largar. Ela era muito mais que suficiente para mim, ela era exatamente à minha medida.

Não dormi nessa noite. Não podia perder nada do que se estava a passar. Tinha medo de adormecer e perceber que nada disto era real. Conversámos muito sobre nós, a nossa vida, os cursos, as férias… até Bella adormecer nos meus braços. A sensação que me invadiu foi ainda melhor. Pude observá-la sem restrições, tocar no seu rosto e cabelo, brincar com a mão que ela tinha pousado no meu peito, respirar o seu cheiro e inebriar-me com a sua presença. Sobre a madrugada, levantei-me cuidadosamente para não a acordar e cobri-a com um cobertor. Sentei-me num cadeirão no fundo do quarto e peguei na guitarra que ela me tinha oferecido, uma Gibson acústica de um modelo caríssimo. Tinha duas letras gravadas: IS.

Definitivamente era uma provocação. Mais uma. Eu não devia estar admirado. Esta, porém deixou-me satisfeito e feliz. Teria que lhe mostrar a forma como ela merecia ser tocada. Comparar-se a uma guitarra era desvalorizar os meus sentimentos. Nestas férias ela iria descobrir a dimensão e magnitude do amor que sentia por ela.

Estávamos a voar para Madrid, e de lá seguiríamos para Milão. O voo, que antigamente parecia tão monótono e demorado, estava animado pela sua presença e pelo reconhecimento do que sentíamos um pelo outro. Eu estava nas nuvens, em todos os sentidos.

Conseguira transferir o bilhete de Emmett para mim, dado que o meu apaixonado irmão não queria sair dos Estados Unidos sem a sua Rose. Eles e Jasper só viriam dentro de semana e meia.

A Alice parecia demasiado introspetiva. Sentada no banco do outro lado do corredor, passou quase toda a viagem a olhar pela minúscula janela. Não era nada natural nela. Provavelmente não queria incomodar-nos.

Voltei a minha atenção para a minha linda. Estávamos quase a fazer escala e era preciso acordá-la. O que até era bom, porque eu precisava de ver o amor espelhado nos olhos dela para ter a certeza que estava acordado. Beijei-a no cabelo e nas faces, levei as suas mãos aos meus lábios e sussurrei o seu nome. Ela foi acordando aos poucos, sorrindo e espreguiçando-se disfarçadamente.

- Acorda dorminhoca. Temos que mudar de avião.

- Oi love, estava a sonhar contigo, – disse-me ela dando-me um beijo leve e a certeza de que estávamos efetivamente a viver a realidade.

A escala no aeroporto de Madrid foi curta, mal deu tempo para beber um café forte. Eu precisava bastante de me manter acordado. Passadas duas horas estávamos em Milão. Levantámos a bagagem e o carro que eu tinha alugado e rumámos à Villa.

Renée recebeu-nos muito bem como sempre, com beijos e abraços e uma sopa de tomate com torradas alla parmigiano, que comemos na enorme mesa de madeira da cozinha. Eu estava tão cansado que depois de levar as malas das meninas e as minhas para os nossos respetivos quartos, me estiquei sobre a cama adormecendo em seguida.

 Acordei no dia seguinte, perto da hora de almoço, parcialmente despido e debaixo do lençol. Tomei um banho e desci até à cozinha. Um cheiro maravilhoso de tomate invadia todo aquele espaço. Parecia não estar ninguém em casa. Enchi um copo com leite, peguei num pedaço de bolo de laranja e fui lá para fora, comer no alpendre. Deixei-me ficar por ali a tomar o meu “pequeno-almoço”, aproveitando o tempo agradável e a vista sobre o mar, quando a minha visão periférica captou uma mancha de cor no fundo do jardim.

Bella estava deitada na relva e abria as pernas e os braços como se estivesse a fazer um anjo na neve. Percebi que sorria e falava para si mesma. Ao seu lado estava um ramo de umas coisas verdes. Mantive-me imóvel, incapaz de desviar o olhar, deliciando-me com este quadro. Passado algum tempo, talvez pressentindo que estava a ser observada, virou a cara para a casa e viu-me ali a olhar para ela. Levantou-se e, numa corrida graciosa, aproximou-se.

- Bom dia, love. Dormiste bem? – Perguntou ela enquanto passava a mão no meu cabelo e se sentava ao meu lado.

- Como uma pedra. E tu?

- Quentinha. – Olhou para mim e riu. Inclinou-se na minha direção, puxou a minha cabeça para ela e passou a sua língua nos meus lábios.

- Isso foi para quê? – Indaguei tentando assimilar o seu à-vontade.

- Tinhas um bigodinho de leite. Muito bom.

- A brincadeira foi divertida? – Interroguei indicando o local onde ela estivera deitada, há momentos atrás.

- Precisava de basilicum para a pasta.

- Precisavas do quê? És tu que estás a fazer o almoço?

- Ocimum basilicum, isto é, manjericão. Estou a fazer uma pasta para nós dois, vais gostar de certeza. A Alice e a Renée foram às compras e comem por lá. Falta um vinho tinto encorpado para acompanhar, mas não encontro o que quero. Se estivesse em Forks pediria à Sue, ela sabe sempre essas coisas.

Estava cada vez mais espantado. Tanto quanto sabia Bella não gostava de bebidas alcoólicas, nem sequer tinha idade para as beber. Será que era para me impressionar? Não sabia o que dizer de tudo aquilo, nem o que pensar, por isso mudei de assunto.

- Há planos para depois de almoço?

- Não, mas arranjo um rapidamente. Como não sabia se irias dormir até mais tarde, não pensei em nada. Sabias que tens um sono muito pesado? – Olhava-me inquiridoramente com um sorriso meio escondido.

- Como assim? – Tremi de apreensão com o que viria por ali.

- Ontem adormeceste em cima da cama. Foi um trabalhão tirar-te os sapatos e a roupa. Com as calças até que foi mais fácil do que previa mas a camisola foi um custo. E meter-te na cama? Quase não conseguia que te levantasses para puxar o lençol. Resmungaste o tempo todo. Não percebi nada do que dizias. Estavas a sonhar com alguma coisa má?

Não acreditava que aquilo me estivesse a acontecer. Foi ela quem me despiu? Eu acordei de t-shirt e boxers. O meu coração batia descompassadamente e a minha respiração acelerou.

- Estava muito cansado, obrigado por me ajudares. – Preferi não referir nada sobre o sonho, primeiro porque não me lembrava e depois porque era normal eu sonhar com ela e isso não iria dizer-lhe. – Ficaste no meu quarto muito tempo?

- Depois de trocar de roupa voltei para lá e fiquei a noite toda contigo. Não era essa a ideia mas, quando me deitei ao teu lado, tu prendeste-me e não me deixaste sair. – Fez uma pausa com expressão sonhadora. - O teu cheiro é muito agradável.

Saltou para o meu colo, abraçou-me, deslizou o nariz pelo meu pescoço e inspirou profundamente, deixando-me arrepiado. Deu-me um beijo rápido junto à clavícula e fez menção de se levantar.

- Vamos, tenho que ir picar as ervas aromáticas para a pasta.

Apertei-a firmemente contra mim, não a deixando sair dali.

- Enfeitiças-me e depois vais-te embora? Nem penses.

Aproximei-me do seu rosto e beijei-a. Lentamente, ao início, só roçando os lábios, depois passando a língua. Como se proferisse uma palavra mágica em jeito de abre-te sésamo, o convite foi prontamente aceite. Ela abriu a boca permitindo-me a sua exploração. O beijo progrediu despoletando um desejo imenso que apressou os nossos movimentos e estreitou o nosso abraço. Para podermos respirar, desviei a minha boca para o seu maxilar e pescoço, fazendo-a arrepiar. Mordi-lhe levemente o lóbulo da orelha, o que a fez gemer alto. Regressei à sua boca e depois novamente ao pescoço, dando-lhe pequenas mordidas entre beijos e lambidelas. Os gemidos dela acirraram-me muito mais do que eu pensei ser possível. Relaxei um pouco os braços e abrandei o beijo. Ela percebeu a situação e não forçou os limites. Ficámos abraçados, dando tempo para acalmar a nossa excitação.

Depois, entrámos em casa com o propósito de terminar o almoço mas em vez disso, optámos por subir, trocar de roupa e sair para dar um passeio. Passámos pela Via Arziglia, em direção à marina e entrámos na zona mais antiga de Bordighera. Fomos até à Via Aurélia, onde parámos para comer qualquer coisa e continuámos o passeio a pé. Era muito agradável passear de mão dada com Bella.

- Sabias que esta estrada ligava Roma à Gália?

- Sim, creio que já ouvi o Aro mencionar esse facto. Quando ele começa a falar de história, não pára, parece um viajante no tempo. Faz com a cabeça aquilo que a sua preguiça não permite.

Ela riu-se e apertou-me mais a mão.

- Por vezes apetecia-me colocar uma mochila às costas e partir por aí, à descoberta e à aventura, estrada fora, entre florestas e prados. – Bella olhava sonhadora para a estrada sinuosa, vendo além do que estava realmente lá.

- Vais sozinha ou posso acompanhar-te?

- A tua presença é imprescindível. – Pôs-me a língua de fora e voltou a rir-se. – Não conseguiria levar tudo o que queria numa só mochila. Preciso da tua força.

- Pois claro. Para que outra coisa serviria… - Fingi uma cara de amuado.

- Servirias para me incentivar a continuar quando eu estivesse cansada, para me segurar quando eu caísse, para me proteger quando fizesse alguma loucura, para me orientar quando estivesse perdida, para me aquecer nas noites frias, para tocar para mim, para lutar por mim, para me fazer feliz.

- Amo-te. – Sussurei ao seu ouvido, abraçando-a forte. – Terei todo o prazer em fazer tudo isso e muito mais. Por ti serei o que precisares que eu seja.

Percebi, naquele momento, que o que Bella sentia por mim era tão intenso como o que eu sentia por ela. Compreendia melhor também todo o sofrimento que a fiz passar ao afastar-me dela.

Passámos dias maravilhosos juntos. Passeámos por tudo quanto era lado, pelas praias da zona, pelos Alpes marítimos mais a norte, fomos até ao Mónaco porque eu queria ver uma corrida de fórmula 1, assistimos ao Lago dos Cisnes no La Scala, em Milão, visitámos o Museu de Arte Oriental em Génova e fomos ao mercado semanal de Sanremo. Namorámos bastante e passámos as noites todas juntos, umas vezes esgueirava-me eu para o seu quarto, na calada da noite, e outras vezes ia ela ter ao meu.

Tentávamos ser tão discretos quanto possível. Bella acabou por contar à Alice que, embora andasse meio distraída, desconfiou de nós quando apanhou a irmã a entrar no quarto às seis horas da manhã. Sabedora do nosso segredo, tornou-se nossa cúmplice, encobrindo as nossas saídas a dois e, sobretudo as nossas fugas noturnas.

Quando o Emmett chegou com a Rosalie e o Jasper tornou-se mais fácil de disfarçar. Pelo menos até o idiota do meu irmão descobrir. A partir daí as suas tiradas maliciosas quase nos matavam do coração. O Emmett é um irmão muito porreiro e com quem se pode contar mas é, também, um pouco desbocado.

Para mostrar um pouco da região norte do país aos irmãos Hale, planeámos uma viagem até Veneza, passando por Verona, Milão e pela região dos grandes lagos. Fizemos as reservas necessárias e lá fomos nós. Levámos dois carros, o que eu tinha alugado e outro que a minha mãe emprestou a Emmett mas que foi sempre conduzido por Jasper. O Emmett não podia perder tempo a conduzir quando tinha Rose a seu lado.

Fomos virados a Milão. Como eu e Bella já lá tínhamos estado, deixámos os quatro irem visitar o que queriam enquanto nós aproveitámos para passear sem pressas, com o único propósito de namorar. A única visita planeada em grupo foi a Pinacoteca de Brera, de resto só nos víamos à noite. Após dois dias, rumámos para Norte em direção à região dos grandes lagos: lago Como e lago Maggiore. Neste último fomos visitar, por achar piada ao nome, a Isola Bella, uma pequena ilhota ocupada pelo Palácio Borromeo e pelos seus belos jardins.

A paragem seguinte foi Verona, onde passámos duas noites. Na primeira noite não pudemos ver nada, chegámos demasiado tarde pelo que foi chegar ao hotel e instalarmo-nos. Emmett e Rose decidiram que precisavam de um quarto só para eles, pelo que eu dividi o quarto com Jasper e Bella ficou com Alice no quarto ao lado. Verona revelou-se uma cidade acolhedora e encantadora, com a sua admirável arquitetura completamente integrada na estrutura urbana.

Bella adorou a cidade, com toda a sua história, e com a sua ligação a pessoas tão ilustres como Julius Caesar, Leonardo Da Vinci, Dante e, especialmente, William Shakespeare, cujo romance “Romeu e Julieta” se desenrolou em Verona. Quando visitámos a casa di Giulietta, onde supostamente a família dos Capuleto viveu, Bella emudeceu e fez questão de tocar o seio esquerdo da estátua de Julieta que, de acordo com a tradição, dá sorte no amor. A Alice e a Rosalie fizeram o mesmo e o Emmett, numa atitude típica dele, imitou as meninas.

Foi com uma Bella ainda emocionada que no dia seguinte de manhã seguimos viagem, desta vez rumo a Veneza. Deixámos os carros num parque em Mestre e passámos os quatro dias seguintes a explorar as diferentes ilhas da cidade dos Doges, a pé, principalmente, e de vaporetti.

No penúltimo dia Bella e eu demos um passeio de Gôndola. Alice e Jasper, talvez para nos deixarem fazer este passeio a dois, não quiseram ir, tendo ficado na ponte de Rialto a ver as lojas de vidro trabalhado. Foi das coisas mais românticas que fizemos, Bella estava maravilhosa, linda com toda aquela excitação, correspondendo aos meus beijos com uma entrega total. Tive que fazer um esforço colossal para me manter controlado, porque a tentação era enorme. Bella não se apercebia desta minha luta, era demasiado inocente para avaliar a minha luxúria. Pelo menos assim achava eu.

Quando, ao sairmos da gôndola, ajudei Bella segurando-a pela cintura, ela olhou-me meio envergonhada e arrastou-me para o outro lado da ponte, seguindo por uma das ruas menos movimentadas. A determinada altura parou e olhou para mim.

- Edward? – disse ela em jeito de pergunta, captando automaticamente a minha atenção. – Tu desejas-me?

- Muito, – respondi sem entender onde ela queria chegar. Estava surpreso e apreensivo com o que ela poderia estar a pensar.

- Pensaste alguma vez em fazer amor comigo? – Ela corou violentamente ao fazer a pergunta e desviou o olhar para a água escura do canal pelo qual passávamos.

- Várias vezes. – Deveria admitir que foram muitas e que ultimamente tinham sido mais do que eu gostaria? Ela deixava-me louco. – Tu és muito apelativa.

- Temos passado algumas noites juntos e tu nunca tentaste nada. – Continuava sem olhar para mim. Num gesto constrangido, recomeçou a caminhar.

Bella estava a sentir-se rejeitada? Novamente não. O que é que eu poderia dizer para lhe explicar que só estava preocupado com ela e que a queria preservar, não querendo que ela se sentisse pressionada por mim? Fiquei horrorizado só de pensar que ela julgava que eu não a desejava.

- Bella, tu atrais-me muito, mas eu não quero que fiques com uma ideia errada de mim. Eu respeito-te demasiado para forçar uma situação com a qual podes sentir-te desconfortável. Não tens de me dar nada além daquilo que já me dás. Fazes-me tão feliz só de estares comigo que, neste momento, não me atrevo a querer mais nada. És muito nova, temos muito tempo para explorar mais intimamente a nossa relação.

- Ah não. Essa de eu ser muito nova já deu o que tinha a dar. – Estava furiosa. – Será que a minha idade vai ser sempre um empecilho entre nós? Não me vês como uma mulher completa.

Fiquei ainda mais chocado com esta afirmação. Não podia deixar que ela pensasse que não era mulher suficiente para mim, vê-la amargurada causava-me grande sofrimento.

- Tu és tudo para mim. Tudo, entendes? Amo-te como menina e como mulher. Nunca ninguém mexeu comigo como tu mexes. Não imaginas o esforço que tenho feito para resistir à tentação. Passei vários anos da minha vida refreando os meus sentimentos por ti, por achar que eras demasiado nova para um relacionamento tão sério. Poder finalmente aceitar os meus sentimentos deixa-me nas nuvens e ao mesmo tempo com medo que estar a ser demasiado apressado. Se não tentei nada foi por me preocupar contigo e por querer dar-te espaço e tempo. Conhecemo-nos desde sempre mas namoramos há quanto tempo? Vinte dias?

- Nós namoramos? – perguntou ela virando-se ligeiramente na minha direção. A expressão dela era de pura admiração.

- Naturalmente. Pensavas que era apenas um caso e que depois te largava? Quantas vezes é preciso dizer-te que te amo, para que acredites em mim? Diz-me o que queres que eu faça para te convencer que és a mulher da minha vida.

- Faz amor comigo. – Desta vez falou olhando diretamente nos meus olhos.

Sustive a respiração e engoli em seco.

- Tens a certeza? Eu não quero que te sintas na obrigação de nada. Não tens que provar nada a ninguém, muito menos a mim. Eu espero por ti o tempo que quiseres.

Fomos caminhando em silêncio e quando demos por ela estávamos na piazza de San Marco, junto à Torre do Relógio; ao fundo uma pequena orquestra tocava música clássica. Caminhámos até lá e sentámo-nos numa mesa apreciando o momento.

- Edward, eu tenho a certeza.

O olhar sincero dela inundou-me de amor e paixão. Ao mesmo tempo uma forte excitação apoderou-se do meu corpo. Ela deve ter visto o desejo estampado nos meus olhos porque procurou a minha mão e enquanto a acariciava com as pontas dos seus dedos disse, sem voz, só com o movimento dos lábios:

- Hoje.

- Tem que ser uma ocasião especial. Não podes ter medo e tens que me dizer tudo o que pensas. Se mudares de ideias eu compreendo.

- Haverá algum sítio mais romântico que este? – perguntou com um movimento de braço abarcando tudo ao nosso redor. – Eu não tenho medo de nada, tu não me magoarias, não intencionalmente. E não vou mudar de ideias. Só precisamos decidir quem vamos expulsar do quarto, o Jasper ou a Alice? Talvez seja melhor eu mandar a Alice para o teu quarto e tu ficares no meu.

Eu ainda estava em transe. Esta nova perspetiva estava a levar-me à loucura; eu não sou de ferro. Precisava de mudar de assunto rapidamente.

- Já é tarde. Não tens fome? Podemos comer aqui.

- Preferia comer no hotel. Preciso de tomar banho.

Rimos os dois, nervosamente. Ambos sabíamos o porquê de querer ir para o hotel. Não era a minha primeira vez mas estava mais nervoso do que quando tinha sido. Para Bella deveria ser; não queria perguntar, achava muito indelicado fazer esse tipo de perguntas. Teria que ser muito cuidadoso, deixar que fosse ela a marcar o rumo dos acontecimentos.

Seguimos para o hotel, Bella deixou na receção um bilhete para Alice, dizendo que ela teria que dormir no quarto da frente, partilhando o espaço com Jasper. Fez a mala da irmã que eu levei para o meu quarto, trazendo para o quarto de Bella as minhas coisas. Tomámos banho e pedimos que servissem o jantar no quarto.

Estávamos os dois tão expectantes que mal tocámos na comida. Para tentar amenizar o ambiente, sintonizei o rádio numa estação de música calma, num volume baixo. Bella levantou-se da mesa e aproximou-se da cama sem me encarar.

- Edward, eu nunca… - a voz dela sumiu-se e o seu rosto mudou de cor.

- Bella, se não te sentires preparada, ficaremos abraçados como nas outras noites que passámos juntos.

Tive que morder a língua quando terminei de falar. Hoje seria um suplício ter Bella junto a mim sem que nada acontecesse. Iria precisar de um banho frio para arrefecer o ânimo.

- Vamos tentar. Promete-me que vamos tentar. Eu… não sei bem o que fazer ou como fazer. Tenho medo…

- Fala comigo. Diz-me o que estás a sentir. Tens medo de quê? – Peguei-lhe na mão e puxei-a para mim, abraçando-a.

- Tenho medo de te desiludir, – disse ela encostando a cabeça ao meu peito.

Dei uma gargalhada de alívio. Bella levantou a cabeça procurando ler nos meus olhos o porquê de me estar a rir.

- Minha tonta. Como posso eu ficar desiludido contigo? Tu és tudo o que sempre sonhei.

Levantei-lhe o rosto com a mão, acariciando as suas faces coradas. Beijei-a com languidez, deixando-a relaxar e entregar-se ao momento. O seu medo e apreensão acabaram por se desvanecer dando lugar a uma necessidade que também era minha.

O seu odor inebriante enfraqueceu-me e deixei-me levar pelo desejo. As roupas começaram a cair, lentamente, peça por peça. Deixei que fosse ela a tomar a iniciativa para lhe dar a certeza que eu não faria nada que ela não quisesse. Quando estávamos apenas de roupa interior, levei-a ao colo para a cama, sem parar de a beijar. Bella agarrava-se a mim e mordiscava-me os lábios e o pescoço. Eu deslizava as minhas mãos pela sua pele enquanto descia os lábios pelo seu corpo. Quando acariciei os seus seios e passei a língua na pele entre eles, ela gemeu alto.

Nessa altura alguém bateu à porta. Ficámos imóveis sem perceber muito bem o que se estava a passar.

- Bella. Bella! Abre a porta, mana. Por favor.

Alice estava no corredor a chamar por Bella numa voz sussurrante, como se não quisesse ser ouvida por mais ninguém. Bella saltou da cama, vestiu o roupão à pressa e não ligando às nossas roupas espalhadas pelo chão correu para abrir a porta.

- Alice? Que foi? Estás bem? – Perguntou preocupada, enquanto abria a porta e a irmã entrava no quarto completamente desvairada.

- Ai mana, não me podes fazer uma coisa dessas. Como é que eu vou olhar para ele? Não consigo. Ele põe-me maluca, – disse Alice muito aflita.

- Espera, não estou a perceber nada do que dizes. O que se passa?

- O Jasper. Não posso ficar no mesmo quarto que ele.

- Porquê? Não tens que dormir na mesma cama. O quarto tem duas camas separadas. Ele fez-te mal ou disse alguma coisa estúpida?

- Não. Ele não faz nada nem diz nada. O problema é mesmo esse.

Alice olhou para mim de lado e eu, murmurando qualquer coisa sem sentido, peguei nas minhas roupas e enfiei-me na casa de banho.

- Eu a modo que sinto uma atração por ele, por isso beijei-o.

- E ele?

- Nada. Não fez nada. Ficou parado a olhar para mim sem dizer uma só palavra.

Da casa de banho pude ouvir a conversa toda. Alice estava a ser um bocado idiota. O Jasper é muito tímido por isso se ele a deixou beijá-lo sem a afastar é porque também sentia atração por ela. Já vestido, saí da casa de banho, sentei-me numa das cadeiras da mesa, onde ainda estavam os restos do jantar e pigarreei chamando a atenção delas para a minha presença. Expliquei a Alice o que pensava e falei um pouco de Jasper.

O Jasper é meu amigo desde que fui para Harvard, é músico, adora compor e tocar guitarra, embora toque vários instrumentos. A sua mãe morreu quando ele nasceu e o pai rapidamente casou com a amante, nascendo Rosalie pouco tempo depois. A sua madrasta embora não o tratasse mal não era carinhosa com ele, na verdade, ela não era muito carinhosa com ninguém além do marido. Eles viviam apenas um para o outro, deixando os filhos em colégios internos e aos cuidados de amas quando passavam as férias em casa. Quando os pais morreram num acidente de automóvel, há quase quatro anos atrás, ficaram entregues um ao outro, Jasper passou a ser tutor da irmã que ainda era menor. Rosalie, talvez por ser muito bonita e extrovertida, era mais popular e superou facilmente a falta dos pais. Jasper, sendo muito mais introvertido, não era de tão fácil convívio. Demasiado reservado para confraternizar socialmente, a sua lealdade deu-lhe poucos mas verdadeiros amigos. Eu tenho a sorte de ser um deles. É o meu melhor amigo, depois de Emmett, e a pessoa mais íntegra que conheci.

Com esta conversa, Alice relaxou mas recusou-se a voltar para o quarto de imediato, pelo que ficámos na cavaqueira até às tantas da manhã, altura em que, finalmente ela se dignou a ir para a cama e nos deixou novamente sozinhos. O sono e o cansaço levaram a melhor e a rir acabámos por adormecer nos braços um do outro.

No dia seguinte foi o regresso a casa. Estávamos todos muito satisfeitos. Não sei o que se passou no resto da noite com Alice e Jasper, mas durante a viagem, pareceram descontraídos e à vontade.

Chegámos a casa e encontrámos a família reunida com Aro. O meu pai e Charlie tinham vindo juntar-se à família. Senti um clima de conspiração que me deixou inquieto. Havia ali qualquer coisa que não estava a bater certo.

Jantámos todos juntos no alpendre e, quando nos preparávamos para sair da mesa, Carlisle informou-nos que havia um assunto a discutir pelo que passaríamos todos para a sala de estar. A forma como pronunciou a palavra todos, significava mesmo todos.

Já na sala, sentámo-nos como normalmente acontecia nestes momentos: os pais de um lado, com Aro, e nós todos, com Jasper e Rosalie, do outro.

- Como já sabem, não gosto de rodeios, pelo que vou diretamente ao assunto. Emmett, trouxeste uma rapariga contigo de férias, Rosalie, - olhou para ela atentamente, fazendo-a engolir em seco. - Pelo que me consta o vosso relacionamento parece sério, contudo não houve qualquer apresentação formal. Parece-me importante e conveniente, corrigirmos esse erro. – O meu pai olhou para o meu irmão e depois riu-se.

Respirámos todos de alívio. Carlisle só procedia a estas conversas familiares quando o assunto era sério, normalmente quando fazíamos alguma asneira das grandes. Mal sabia eu que, ainda antes das férias terminarem, haveria outra reunião, dessa vez por assuntos bem mais sérios, que quase destruiria a família.

publicado por Twihistorias às 18:00

2 comentários:
Finalmente voltaram....
Nunca comentei, mas adoro esta fic...parabéns à autora!

Raquel a 1 de Junho de 2013 às 22:53

Obrigada, Raquel.
Ella Fitz a 3 de Junho de 2013 às 13:07

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