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Jun 13

Capítulo 37

Preso

Acordei completamente encharcado.

Limpei a testa com as costas da mão, senti algo roçar-me no braço e levei a mão à cara.

A minha barba estava enorme.

Os poucos dias que julgava ali estar, num ápice se transformaram em semanas.

Tentei recordar-me de como ali fora parar, mas tudo o que conseguia vislumbrar era um enorme buraco negro.

Fiz menção de me levantar, o que despoletou uma dor lancinante no lado esquerdo do tronco.

Costela partida. – Pensei.

Soltei um gemido, mas o som que saiu soou-me demasiado rouco e questionei-me quanto ao tempo que seria preciso ficar sem usar as cordas vocais para produzir semelhante som.

Estiquei as pernas a custo, até embater em algo de metal com o pé. Esforcei-me o melhor que pude para arrastar o que quer que fosse para mais perto, de forma a poder pelo menos saber do que se tratava.

No pequeno prato de alumínio estava um naco de pão e um púcaro com o que presumi ser água.

O pão estava duro e húmido e sabia um pouco a mofo, mas com a fome que de repente me apercebi que tinha, nem me importei. Só parei de tentar enfiar mais pão na boca quando comecei a ficar sem ar e levei a caneca à boca.

A água sabia mal e tinha impurezas, mas bebi sofregamente, enquanto sentia arder os meus lábios gretados e feridos da desidratação e possivelmente dos maus tratos que teria sofrido nos últimos dias e dos quais não me recordava nem um pouco.

Tentei explorar um pouco o espaço, o que na minha actual condição física, não era tarefa fácil. Doía-me cada movimento. Basicamente acabei a rastejar pelo espaço circundante, esfolando os braços no chão áspero.

Um pouco depois ouvi vozes e apareceu luz por baixo de uma porta ao fundo da divisão.

Afastei-me para o meu canto o mais rápido que consegui.

Ainda não sabia se sentia medo ou não, foi apenas o instinto de sobrevivência a falar mais alto.

Tentei a todo o custo evitar encolher-me e fingi-me dez vezes mais exausto do que me sentia.

Um homem alto e encorpado entrou, provocando um clarão de luz que me fez semicerrar os olhos.

Outro homem, também alto e encorpado, mas talvez mais novo, ficou à porta da divisão.

- Papá, não seria melhor voltar a amarra-lo?

- Nada disso! Não vez que ele não tem sequer forças para reagir? – Respondeu o homem, enquanto me dava um pontapé nas costelas para demonstrar a sua teoria.

Deixei-me cair de lado, cerrando os dentes e os punhos no esforço de não gritar.

A minha respiração soou-me ruidosa demais, talvez porque me tenha concentrado nela para me abstrair de tudo o resto.

Passado pouco tempo o homem saiu, não sem antes me presentear com novo pontapé.

Levei algum tempo a controlar o meu sistema nervoso de modo a conseguir pôr-me direito novamente.

Depois de organizar as ideias, tomei consciência de que me devia encontrar numa cave ou algo parecido, que o meu relógio tinha desaparecido, bem como a minha aliança e tudo o resto que tinha comigo.

Apenas me deixaram com a roupa que tinha no corpo.

Anna! – Por pouco não gritei o seu nome, ao constatar a ausência da aliança.

Será que ela estava bem? Neste momento devia odiar-me por a ter deixado sozinha com os nossos filhos.

Eu sabia que era o pior que lhe poderia fazer, mas era o que tinha de ser feito.

Sabia que depois de o fazer não haveria volta. – Ela ia odiar-me para sempre!

Talvez não me recusasse o direito de ver os meus filhos. Talvez nem procurasse sequer uma explicação para o que se passara.

Mas eu sabia que a tinha perdido para sempre.

Soube, no momento em que tomei esta decisão, que o preço a pagar seria perder a mulher que amo.

Mas se esse fosse o preço a pagar pela sua vida e pelo bem-estar dos meus filhos, fá-lo-ia de bom grado, sem me queixar até ao fim da minha vida.

A questão é que não sabia se realmente era isso que estava a acontecer.

Não sabia há quanto tempo os deixara, nem há quanto tempo estava aqui. Fechado.

Os tipos que me tinham trazido para aqui, sem que nada o previsse, já que tinha decidido colaborar, bem podiam tê-los prendido num lugar qualquer. Ou pior, podiam tê-los morto...

Angustiei-me só de pensar.

Eu devia ter contado à polícia. Eles saberiam o que fazer. Mas agora era tarde para voltar atrás.

Restava-me aceitar o que quer que tivesse de acontecer.

publicado por Twihistorias às 18:00

comentário:
Gostei muito.
Estou muito curiosa sobre quem está por trás de tudo isto...
Beijinho
Bárbara M. a 26 de Junho de 2013 às 19:32

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