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Dez 13


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B

Precisava de fazer um esforço para me concentrar. Tinha que entregar o trabalho de pesquisa dentro de uma semana e ainda faltava acabar a análise estatística e rever todo o desenvolvimento. Podia pedir um adiamento da entrega à minha orientadora científica, afinal eu tinha faltado às aulas quatro dias por estar doente, mas não queria dar parte de fraca. Tinha-me comprometido a fazer esta parte do estudo sobre invertebrados aquáticos e não queria falhar por nada. Se conseguisse entregar dentro do tempo que defini inicialmente, tinha mais hipóteses de, no futuro, ser indicada para outros trabalhos. Era precisamente este tipo de serviço que fazia a diferença na altura de desenvolver projetos de investigação científica e de escolher pós-graduações. Um curriculum diversificado e revelador de grande empenho era uma mais-valia profissional.

Escrevia desenfreadamente para acompanhar o meu raciocínio quando ouvi barulho lá fora seguido de um bater forte na porta. Um bocado aturdida e mal-humorada fui ver quem era.

- Alice! Jasper? Que fazem aqui?

Alice não me tinha dito que vinha visitar-me, e, tanto quanto sabia, aquela espécie de relacionamento que ela tinha com o Jasper não chegava verdadeiramente a sê-lo, pelo que não entendia a razão de o trazer com ela.

- Está mesmo a ver-se que tiveste saudades minhas, irmã desnaturada. – Com um falso ar de tristeza, Alice abanou a cabeça. - Vim ver-te, é claro. Estiveste doente, precisava de ver se estavas mesmo bem, – continuou ela empurrando-me ligeiramente para o lado e entrando dentro de casa.

Eu estava tão incrédula que continuei a segurar a porta, mesmo depois de ela entrar e de Jasper trazer toda a bagagem deles para dentro.

- Mas eu disse-te que estava melhor.

- Pois disseste. Se não me escondesses coisas da tua vida eu podia acreditar em ti mas assim… Estás à espera de mais alguém? Fecha a porta. – Alice olhava para mim como se eu fosse uma anormal. – Olha, o Jasper também veio. Ele tem uma entrevista num estúdio em S. Francisco para discutir a possibilidade de gravar umas músicas e aproveitou a minha companhia.

- Não queria incomodar, Isabella. Desculpa, – disse Jasper sem jeito.

- Não incomodas nada, - disse Alice antes de eu conseguir dar uma resposta, - vais dar-me um jeitão. Hoje dormes no sofá e amanhã logo se vê. – A minha irmã tinha as suas próprias ideias, eu não sabia quais eram mas também não iria perguntar. Quando ela agia assim era melhor afastar-me e dar-lhe liberdade.

- És muito bem-vindo Jasper. Não vais incomodar em nada, tu é que podes não te sentir muito à vontade porque a casa não tem muitas comodidades. – Assegurei eu.

- Sim, sim. Tu não tens tempo para ir às compras e és demasiado orgulhosa para aceitar o dinheiro que te oferecem, – disse a minha irmã como se estivesse a querer despachar o assunto. – Agora, olha para mim e diz-me que estás bem.

Alice lançou-me um olhar penetrante não me deixando mentir. Eu encolhi os ombros e desviei o olhar para a mesa onde tinha o meu trabalho.

- Estou suficientemente boa para poder trabalhar na minha parte da tese e amanhã já vou às aulas. Estás satisfeita?

A expressão perscrutadora deu lugar a um sorriso aberto que veio até mim junto com um abraço forte.

- Mana, como podes ser assim? Eu estou longe mas não vivo em Marte. Estarei junto a ti sempre que precisares, basta fazeres um sinal ou chamar-me.

Ficámos nos braços uma da outra até percebermos que Jasper também estava presente, a tentar passar despercebido. Ele parecia entender muito bem a ligação que nós duas tínhamos, fruto de termos crescido mais ou menos sozinhas, ou pelo menos, sem o apoio forte de progenitores atentos. Charlie foi quase sempre um pai ausente e Renée, embora cheia de amor para nos dar, passava por fases de grande alheamento, precisando de mais cuidados e atenção que nós. Isto trouxe-nos coisas boas e outras menos boas. Alice e eu passámos a ser a extensão uma da outra, protegendo-nos das agressões do mundo e desenvolvendo um sentido extremamente firme de união. Por outro lado, tirando Edward e Emmett, não tínhamos grandes amizades. Ninguém mais aceitava bem a nossa cumplicidade e a nossa reserva e desconfiança face aos outros.

Jasper olhou para nós como que a pedir desculpa por estar ali e encolheu os ombros. Nós rimo-nos da sua figura e o alívio dele foi imediato. Pegou num saco com uma guitarra que estava encostado à parede junto à entrada e estendeu-ma.

- Trouxe isto para ti. Já não estava a ser utilizada e a Alice disse-me que tu também gostas de puxar umas cordas.

Não entendi o porquê da sua expressão envergonhada até olhar mais atentamente para o saco e reconhecê-lo. Abri-o de respiração suspensa e confirmei as minhas suspeitas: esta era a antiga guitarra de Edward. Olhei para o saco novamente e lá estavam as suas iniciais EC. Será que foi ele que a mandou para mim?

- Desde que ofereceste a outra ao Edward, ele nunca mais usou esta. Era um desperdício ficar sem uso. Então o Jasper lembrou-se que talvez tu gostasses de ficar com ela, – explicou Alice, ao perceber a confusão que se passava na minha cabeça.

- Obrigada, Jasper. Gostei muito. Eu não sei tocar verdadeiramente mas gosto muito do som, parece acompanhar sempre o meu estado de espírito.

- O Edward iria gostar que ficasses com ela.

O Silêncio instalou-se por uns minutos, sendo quebrado por Alice que pegando num saco pequeno fez sinal a Jasper para a seguir. Ele pegou na mala de Alice e seguiu atrás dela, rumo ao meu quarto, imaginei eu.

Fiquei na sala a pensar no que podia fazer para o jantar. Não tinha muitas coisas em casa, pelo que teria que ser um prato rápido. Estava a cogitar fazer uma massa com queijo e uma salada, quando ouvi uns barulhos de móveis a arrastar vindos do meu quarto. Fui até lá ver o que se passava e dei de caras com Jasper que tentava levar o sofá do meu quarto para o outro quarto da casa.

- Ei! Esse quarto está vazio e sujo, – disse eu tentando parar com aquilo.

- Por isso mesmo, mana. Limpa-se e fica óptimo para o Jasper dormir. Dá-nos uma ajudinha para ver se descansamos, que o dia hoje está a ser demasiado comprido.

Ao fim de meia hora já o quarto estava limpo e o sofá com lençóis e saco cama. Regressámos à sala, e pusemos mãos ao serviço. Eu fiz a massa, a minha irmã fez a salada e o Jasper pôs a mesa. Comemos rápido, arrumámos tudo e fomos dormir.

Quando fiquei sozinha com Alice preparei-me para a interrogar, eu precisava de algumas respostas para as minhas suspeitas. Alice escondia-me alguma coisa e eu queria saber o que era.

- Eu gosto muito de te ver e de te ter comigo, mas és capaz de me explicar o que vieste fazer aqui? Não me avisaste, nem nada.

- Oh mana, estava preocupada contigo. A tua vida tem sido muito atribulada e eu precisava ter certeza que estás bem.

Acreditei no que a minha irmã me disse mas sabia que ainda não era tudo. Estava alguma coisa a escapar-me. Calei-me esperando que ela voltasse a falar. Conhecia a Alice há muito tempo e sabia que ela acabaria por me contar.

- Além disso, - acrescentou ela com má vontade, - o Jasper precisava mesmo de vir a S. Francisco e como eu tinha duas semanas de pausa pensei em juntar o útil ao agradável. - Eu ri-me com o desabafo e ela ficou ainda mais furiosa. – Agora vais-me dizer que eu sou uma impulsiva e que não tenho juízo nenhum?

- Calma, mana. – Voltei a rir-me. – Continuas de ideias fixas no Jasper?

- Ele agrada-me. É claro que também me irrita, mas há algo nele que me excita.

- Meus Deus, Alice! Tu estás apaixonada.

- Eu? Apaixonada? Não, é só atração física… mas ele não cede.

- Tu estás apaixonada. Ele parece ser muito boa pessoa, um pouco tímido demais, talvez, mas é bom amigo e muito respeitador. Muito bem…

- Não é nada disso. Falamos amanhã, pode ser? Estou muito cansada. Tens aulas amanhã? Posso dormir até bem tarde?

- Tenho aulas, toda a manhã. E de tarde tenho que ir ter com a minha orientadora do trabalho de pesquisa e investigação. Mas se quiseres posso falar com ela e marcar para outro dia.

- Não, não vale a pena. Faz o que tens a fazer. Amanhã vou preguiçar por aí e dar outra prensa no meu Jazz. Vemo-nos à noite. Bons sonhos. - A sua voz estava meio arrastada, ela devia estar mesmo cansada.

- Até amanhã, dorme bem.

No dia seguinte saí cedo para as aulas e só regressei a casa ao final da tarde. Quando entrei estava o Jasper a tocar guitarra e a Alice a fazer o jantar. Em cima da mesa estavam vários sacos de compras ainda por arrumar e dois potes de leite.

- Cheguei – disse eu em voz baixa fazendo sinal a Jasper para ele não parar. Pousei as minhas coisas em cima da pequena estante e dirigi-me à zona da cozinha. – Hummm. Que aroma agradável. Estás a fazer o quê para o jantar, Alice?

- Uma bela salada tricolor, bife grelhado com puré de batata e, para a sobremesa, comprei uma blueberry pie que já me está a fazer crescer água na boca. Põe a mesa que estou mesmo a acabar.

Pus a mesa e fui buscar um banco desmontável dentro do enorme armário de parede da sala, para o Jasper se poder sentar. Comemos com pequenas brincadeiras, principalmente por parte de Alice que quase entornou o seu copo de leite em cima de Jasper. Estávamos na sobremesa quando apareceu a única pessoa que eu conhecia ali.

- Leah, apareceste mesmo na hora certa, temos uma blueberry pie para acompanhar o café, – disse-lhe eu enquanto a puxava para dentro de casa. – A minha irmã está cá. Já não se vêm há quanto tempo?

- Alice! Como estás? Ainda bem que estás cá, não nos víamos há mais de um ano. Estás óptima.

- Oi Leah. Não sabia que também estavas aqui. Estás em Stanford, também?

- Estou, eu e a tua irmã estamos na mesma área. Temos várias aulas em comum.

- Leah, deixa-me apresentar-te o Jasper. É um amigo da família. A irmã dele está noiva do Emmett. – Leah, abriu a boca espantada mas não disse nada.

- Jasper, a Leah é de Forks, a cidade onde eu e Alice vivemos com o, hum… Charlie.

- Prazer em conhecer-te – disseram os dois em simultâneo, cumprimentando-se.

- Bem, - continuei eu, - como não temos cadeiras suficientes, proponho que passemos ao sofá para degustar a tarte. A Leah tem a mania de comer a sobremesa acompanhada de café. Alguém quer?

- O café fui eu que fiz, – disse Leah tirando um termo do seu saco. – É especial. Vem da Colômbia e tive que penar muito para o conseguir. Vão gostar.

- Para a Leah, cada refeição é uma prova sensorial que tem que ser vivida com intensidade, – expliquei eu rindo.

- Segundo a Leah, é uma “experiência orgásmica” – afirmou a Alice virada para o Jasper, fazendo com que a Leah corasse e o Jasper semicerrasse os olhos.

- Sabes que utilizo essa expressão no bom sentido – reclamou Leah ainda corada. Depois, deu de ombros e ergueu a cabeça. – Os sentidos são muito importantes, devemos saber usar e valorizar todos. O paladar e o olfacto fazem um casamento perfeito. Experimentem comer um pedaço de tarde de olhos fechados e beber um pouco de café. A mistura dos dois gostos é surreal.

Rimo-nos todos deste discurso mas a verdade é que seguimos a sugestão de Leah e acabámos todos a comer a sobremesa e a beber o café de olhos fechados. Ela tinha razão, a experiência podia não ser surreal mas era, sem dúvida alguma, mais intensa.

A noite passou agradável e rápida. Combinámos jantar todos juntos no dia seguinte ali em casa e Leah, que estava numa residência para estudantes, ofereceu-se para ser a cozinheira. Adivinhava-se outra noite muito bem passada.

O dia seguinte passou rápido também, assisti às minhas aulas e estive na biblioteca a acabar o trabalho que tinha que entregar. Fui para casa um pouco preocupada por ter passado tanto tempo fora, deixado Alice e Jasper sem companhia, mas, quando lá cheguei, toda a minha preocupação desapareceu. Estavam os dois sentados na relva, à entrada de casa, a beber café com Leah. Fiquei surpreendida por a ver ali até me lembrar do que tínhamos combinado: Leah tinha vindo fazer o jantar. Quando entrei dentro de casa para pousar as minhas coisas, a perplexidade tomou conta de cada pedacinho de mim. A casa estava bastante diferente. Havia uma mesa com quatro cadeiras, um sofá azul petróleo, uma estante nova, um tapete grande de cores quentes e dois cadeirões em pele castanho-escuro. As cortinas nas janelas e algumas almofadas rematavam a decoração.

- Mas o que foi que se passou aqui, hoje? – Perguntei em voz baixa sem obter qualquer resposta.

Apercebi-me também que o ruído de fundo que eu ouvia era música. Música que provinha de um aparelho de som que estava na estante nova e que eu percebi ser aquele que Edward tinha querido comprar para mim no mês anterior. Aproximei-me e vi que havia um envelope com o meu nome escrito ao lado. A letra era de Edward. Peguei nele e meti-o no bolso, queria muito lê-lo mas teria que ser quando estivesse sozinha.

Com uma suspeita a aflorar na minha cabeça fui até ao meu quarto. Também por ali havia mudanças. Uma cama nova e maior - parecendo king size - vestida com uma manta acolchoada, ao lado uma estante em escada com gavetas pintadas com cores alegres, um armário para a roupa e cortinas vaporosas a tapar a enorme janela - os lençóis tinham desaparecido. Como o sofá tinha regressado ao quarto, embora desta vez estivesse coberto por uma manta com as mesmas cores das gavetas, fui até ao quarto do fundo para ver o que havia por lá. O quarto já não estava vazio, estavam lá as coisas que tinham desaparecido do resto da casa: a minha cama antiga, o meu cabide de rodas, o sofá e a estante que estavam na sala.

Saí dali em passo lento tentando controlar a respiração e, sentindo necessidade de passar água fria na cara, entrei na casa de banho. A enorme janela tinha uma espécie de tela colada a imitar o vitral, fazendo entrar um jogo de luz que mudava por completo a aparência do compartimento. Havia também um escadote pintado de branco que tinha toalhas dobradas nos degraus, um espelho enorme de pé em talha dourada que evidenciava ter muitos anos e uma caixa de primeiros socorros junto às prateleiras. Na zona mais profunda da casa de banho, onde tinha estado um estendal para secar algumas peças de roupa, estava agora uma mesa de massagem parcialmente tapada por um biombo. Uma máquina de lavar roupa e outra de secar estavam encaixadas num armário branco sem portas, havendo três prateleiras, também brancas, por cima dele. As lágrimas picaram-me os olhos, não sabia se por vergonha ou insatisfação.

Foi assim que Alice me encontrou algum tempo depois.

- É assim tão difícil de aceitar que as pessoas gostam de ti e se preocupam contigo? – Disse ela em voz baixa e meiga.

- Eu… Porquê? Eu não tenho dinheiro para nada disto. Como é que… Quem foi? – Repentinamente surgiu-me a ideia que talvez tivesse sido o Charlie. Isso eu não iria aceitar.

- Isso tem alguma importância? – Alice não compreendeu o meu azedume.

- Não foi o nosso…

- Foi o Edward, quer dizer, a ideia foi dele mas o Carlisle preferiu dar o dinheiro para que Edward não mexesse nos fundos que tem.

- Como é…

- O Edward falou-me nisto depois de ter vindo ao teu aniversário e eu tinha que aproveitar. Não é todos os dias que nos dão carta-branca para decorar uma casa, – disse Alice rindo de prazer. – O Jasper veio ajudar e aproveitou para marcar a tal entrevista no estúdio de gravação.

Na minha cabeça todas estas informações giravam como acontece no roda-pé dos noticiários: Edward preocupado com a minha situação; Carlisle a dar-me dinheiro que eu não sabia quando poderia pagar; Alice a atravessar o país para decorar a minha casa; Jasper, que praticamente não me conhecia, a ajudar a minha irmã neste projecto…

- Eu não preciso de nada disto.

- Não sejas ingrata, Isabella. Nós só queremos ajudar-te, não afastes as pessoas que te estimam. Por muito magoada que estejas não podes tratar as pessoas dessa forma. A ingratidão nunca fez parte do teu feitio.

- Eu não posso aceitar, é demasiado generoso, eu não tenho como pagar.

- Só falta dizeres que não mereces nada disto – disse Alice atingindo em cheio a minha consciência deficiente. – Pensa no que estás a dizer, se fazes favor? O amor e a estima não se pagam, da mesma forma que não se compram, são sentimentos meritórios que se desenvolvem pela convivência, pelo respeito mútuo e pela dedicação. São sentimentos que se retribuem na mesma moeda. Não farias o mesmo por nós?

- É claro que sim, mas eu…

- Tu nada. Fica calada e deixa-nos fazer por ti aquilo que achamos melhor. Aceita o que te queremos dar e fica feliz connosco. Nós fazemos parte uns dos outros e não há nada que nos possa tirar isso. Nem tudo é mau, Bella. Valoriza as coisas boas que tens. Eu sou uma coisa boa na tua vida, não sou?

Abracei-a com força.

- Obrigada mana. Obrigada por tudo. Tu não és somente uma coisa boa na minha vida. Tu és a minha família.

- Por falar em família, a mãe telefonou hoje. Não sei como, ela soube que eu vim ter contigo e eu contei-lhe que na semana passada estiveste doente. Pareceu ficar preocupada. Disse que te telefona ao início da noite.

Eu suspirei e rolei os olhos.

- Agora diz-me uma coisa, - continuou Alice, - gostaste da decoração? Comprámos umas coisas e arranjámos outras. Este papel autocolante de vitral fui eu que desenhei em Nova York. Fica muito bem, não fica? Tapa a vista mas deixa passar a luz na mesma. O Jasper colou-o na perfeição, nem uma bolha. O escadote estava escondido no armário de parede, foi só pintar, e o biombo são caixilhos altos com tecido dos lençóis que tinhas a tapar as janelas. O Jasper articulou-os e eu e a Leah transformámos os lençóis. O armário de primeiros socorros foi mandado pelo Edward, de Boston. – Alice arqueou as sobrancelhas dando ênfase à situação. – Será que ele pensa que aqui não existem esses materiais?

Alice continuou a contar todos os pormenores, arrastando-me de divisão em divisão para mostrar tudo, o que eu já tinha visto e o que me tinha escapado, o que não foi pouco. Já na sala, encontrámos Jasper e Leah sentados a conversar, riram-se da minha expressão e deixaram Alice continuar na sua apresentação, até que eu não aguentei mais e comecei a rir também.

- Ok, mana, eu compro. A casa é tão bonita e está tão bem decorada que eu já não posso viver sem ela.

Estava a terminar de falar quando o meu telefone tocou: Renée.

- Olá mãe.

- Como vais filha? A Alice disse-me que estiveste doente. Isso foi o quê?

- Foi um mal-estar passageiro, talvez uma constipação ou coisa assim. – Não queria dizer à minha mãe que tinha estado de cama, com febre.

- Tens a certeza? A Alice disse que foi qualquer coisa que tinhas comido. Foste ao médico ver o que era?

- Já passou mãe. Fica descansada. Nem chegou a ser necessário ir ao médico.

- Tu estás grávida?

Fiquei sem fôlego e petrifiquei.

- Bella, responde-me com a verdade. – A minha mãe exigiu a resposta com o medo a ensombrar o seu tom de voz.

Não queria acreditar que estava a passar por isto. Como é que a minha própria mãe podia pensar que eu era tão irresponsável?

- É verdade, não é? Oh meu Deus. A desgraça caiu em cima da minha família. E agora? Isto não podia acontecer. Tu és muito nova e o Edward ainda nem o curso acabou. Não podes ter esse filho, o Edward é teu irmão. Vocês foram muito irresponsáveis.

- Não é verdade, – contrapus.

- Irresponsáveis, sim. Onde é que já se viu? São ambos umas crianças ainda.

- Mãe! – gritei. – Eu não estou grávida.

- Tens a certeza? – Perguntou Renée, continuando sem me dar tempo de responder. - Ah que alívio, filha. Pelo menos nesse ponto não erraram.

- Agora tenho que ir mãe. Já é muito tarde aqui e amanhã tenho aulas cedo.

- Fica bem, filha. Beijinhos.

- Xau, mãe.

Ficámos os quatro parados sem dizer nada. Repentinamente desatei a rir descontroladamente.

- Como é que eu podia estar grávida se a minha mãe estragou a minha primeira noite de amor? – Eu falava cada vez mais alto. – Arrancaram o amor da minha vida dos meus braços no momento em que me ia entregar. Até esse prazer me negaram. – As minhas gargalhadas eram histéricas. – Destruíram a minha vida, expondo-me na minha intimidade e fazendo juízos de valor. Nunca lhes vou perdoar.

As gargalhadas transformaram-se em lágrimas abundantes e sentidas. Chorei de raiva. Alice falava comigo mas eu não conseguia perceber nada. Senti levarem-me ao colo para a cama – Jasper certamente – e a ser abraçada – só Alice me abraçava assim, - até adormecer.

Acordei ainda era de noite, estava sozinha no quarto. Recordei tudo o que se passara no dia anterior e tomei uma resolução. Eu tinha pessoas que gostavam verdadeiramente de mim e me respeitavam, seriam apenas essas pessoas que eu passaria a considerar a minha família afectiva. As outras eram apenas conhecidos. Não voltaria a deixar-me atingir por quem não era importante para mim.

Acendi o candeeiro, aquele que o Edward me tinha comprado, e levantei-me. Fui, pé ante pé, à cozinha para beber um copo de leite, porque, como não tinha jantado, sentia alguma fome. Quando cheguei à sala enterneci-me. Alice estava a dormir no sofá, com a cabeça apoiada no colo de Jasper, que olhava para ela com devoção. Sim, ali havia muito sentimento. Dei meia volta e regressei à minha cama. Não iria perturbar a paz deles, aquele momento pareceu-me demasiado íntimo para ser quebrado por terceiros. Eu sabia bem o que isso era.

No quarto, lembrei-me do envelope de Edward e sentei-me na cama para o ler.

“Amor: Preciso que entendas e aceites que te amo e que me preocupo contigo.

Só estarei bem se te souber bem.

Sei que precisas de tempo para me aceitar de volta e eu estou disposto a esperar o tempo que for preciso. Peço-te apenas que, no entretanto, me deixes fazer por ti o possível para te facilitar a vida e te proporcionar algum conforto.

Quero ser merecedor do teu perdão e do teu amor mas, neste momento, sinto necessidade de fazer aquilo que sei que não queres.

Pedi à Alice para ir a Palo Alto transformar essa casa num lar. Não imaginas o desânimo que sinto em saber-te aí sem as condições mínimas, tão sozinha e tão distante.

O aparelho de som foi aquele que gostaste mas não me deixaste comprar. A música sempre fez parte da tua vida e da minha. Esse será sempre um dos nossos elos e fará parte das nossas referências.

Foi tudo pensado com o maior carinho. Por favor não recuses.

Não esqueças que irei aí se precisares. Basta chamares por mim.

Amo-te mais do que à própria vida.

Eternamente teu, Edward.

Uma miríade de sensações tomou de assalto a minha cabeça e o meu corpo. Apetecia-me falar com ele para lhe agradecer, mas sabia que se o fizesse agora lhe iria pedir para vir ter comigo e ficar. Não podia obrigá-lo a passar por esse dilema, ele tinha trabalhado muito para entrar naquele curso de Medicina. Não seria justo para ele nem para mim propor-lhe uma alteração destas. A minha ideia foi sempre ser eu a mudar de Universidade, não ele. Contudo, ele tinha recusado essa proposta, ao vir embora de Itália sem falar comigo e sem me deixar uma indicação de que queria que eu o fizesse.

Ainda me magoava muito pensar nisso. Se ele me tivesse perguntado se eu queria fugir com ele, eu tê-lo-ia seguido até ao fim do mundo. Eu tinha manipulado Charlie para poder voar de um extremo do país ao outro, sendo ainda menor de idade, só para poder estar com ele. Se calhar, o amor que ele dizia sentir por mim não era tão forte e tão resoluto como o que eu sentia por ele. As mulheres sentem as coisas de uma maneira diferente, seria isso?

Queria muito acreditar nos sentimentos dele mas… E se, noutra altura de crise, ele voltasse a deixar-me sozinha e perdida? Teria eu coragem e força para aguentar outra luta? Suportaria eu perdê-lo novamente? Se ele me abandonasse de novo a minha auto-estima, já de si tão débil, desvanecer-se-ia.

Eu estava demasiado fragilizada para me deixar levar novamente por um relacionamento que não tinha a certeza se era suficientemente forte para aguentar as pressões. Precisava de tempo para me recompor e para verificar se aquilo que Edward dizia era mesmo verdade. Se com o tempo ele mostrasse que tinha força para lutar por mim eu seria dele até ao fim dos meus dias.

Com mais esta resolução na minha vida, voltei a adormecer. Acordei com a claridade a entrar pela janela. Espreguicei-me bocejando, sentindo-me melhor.

Já vestida e arranjada, fui tomar o pequeno-almoço e dei de caras com o Jasper a dormir no sofá, sozinho. Franzi a testa e fui até ao quarto do fundo dar uma espreitadela. Alice dormia tranquilamente debaixo da manta. Voltei para a cozinha e tentei fazer o menor barulho possível, contudo, Jasper acordou pouco tempo depois.

- Desculpa, não te queria acordar – disse eu sem jeito.

- Não fiques assim, eu é que estou com as horas de Boston. A esta hora já o meu dia teria começado, no bar ou nas aulas de música.

- Andas no conservatório de Boston?

- Agora não, pelo menos enquanto aluno. Já acabei o curso, embora gostasse de tirar uma nova pós-graduação. – Fez uma pausa como se ponderasse o que estava a dizer. Depois, olhando para a minha cara, acrescentou em jeito de explicação: - Entrei mais cedo que o normal; desde sempre me dediquei à música e fiz quatro anos em dois.

- És sobredotado, Jasper! – A minha cara de espanto dizia tudo.

- Esse é um rótulo muito feio, – disse ele franzindo o nariz. - Prefiro dizer que sou apaixonado pela música.

- E pela minha irmã – disse eu num impulso.

Ele pareceu ficar meio encabulado mas não negou.

- Desculpa se fui inconveniente. Esta noite acordei e vi a forma como a olhavas enquanto ela dormia no teu colo – justifiquei-me.

- Ela ficou muito perturbada com o que se passou ontem e acabou por adormecer no sofá. Mas ficou com frio e eu levei-a para a cama. Não queria acordar-te e deixei-a no outro quarto.

- Obrigada por me teres levado, também a mim, para a cama, ontem.

Ficámos calados durante bastante tempo mas depois eu achei que devia deixar as coisas em pratos limpos.

- A Alice é a pessoa que mais gosta de mim e de quem eu mais gosto. Nós temos uma ligação muito especial. Dava a minha vida para salvar a dela. Eu sou mais calma, mais comedida e mais fraca, a Alice é mais corajosa, mais extrovertida e mais forte. – Fiz uma pausa para beber mais um pouco de leite. - Pode parecer-te que é meio estouvada mas é de uma fidelidade cabal, muito amiga do seu amigo. Foi sempre o meu esteio nos momentos mais difíceis. Tem um temperamento forte e sabe muito bem o que quer e aí, por vezes, não olha a meios para atingir os fins. É o seu traço mais perverso, mas isso não faz dela uma leviana. Normalmente é nessas alturas que eu pago toda a sua dedicação, sendo paciente e evitando que ela se magoe.

Lembrei-me de um episódio que se passou connosco e ri-me.

- Quando tinha onze anos, no colégio onde andávamos as duas, um rapaz mais velho, que gostava de implicar com os mais fracos, chamou-me raquítica e branquela. Havias de ter visto a cara dela, ficou tão furiosa que se atirou a ele, arranhando-o e mordendo-o. Fomos os três chamados à Directora e ela, exagerando muito o acontecido, disse que ele se estava a meter comigo e eu, de cabeça baixa, desatei a chorar de nervosismo. A Directora pensando que era pelo que o rapaz me tinha dito ou feito, mandou-nos às duas embora e ele ficou lá e levou com as culpas todas. Ele jurou vingança e a boa da Alice fez-lhe frente e respondeu que “às irmãs Swan ninguém faz mal ou chama nomes”. Mostrou-lhe uma foto do Emmett e disse-lhe que se ele se atrevesse a fazer-nos mal era o irmão quem vinha tratar do assunto pessoalmente.

- Ela é um furacão – disse Jasper, acrescentando logo a seguir - e durona.

- Só foi verdadeiramente a baixo uma vez. Foi na noite em que fizemos o pacto de sangue. Descobrimos que Emmett e Edward eram adotados, e Alice, num ataque de rebeldia, perguntou aos nossos pais porque é que não nos deram para adoção, já que eles não mostravam gostar de nós. O Charlie exaltou-se e deu-lhe uma bofetada com tanta força que a fez cair no chão e partir um dente. Eu meti-me à frente para ele não lhe bater mais e ele bateu-me também. – Fiz uma pausa e engoli em seco. Tantos anos depois e ainda doía lembrar aquele episódio. - Mandou fechar-nos no quarto sem direito a comer nem beber. Com o sangue do meu lábio rebentado e o da boca dela fizemos o pacto de proteção. Nessa noite fui eu que fiquei a abraçá-la enquanto ela chorava e tremida de raiva.

O Jasper ouviu tudo em silêncio de cara triste.

- Ela não se dá com facilidade, Jasper. Nunca teve um namorado, diz sempre que são todos uns parvalhões egocêntricos, que não servem para defender ninguém. – Acabei de beber o copo de leite. - Por isso, se tens algum interesse por ela e a aceitares, podes ter a certeza que é um contrato vitalício. Se a aceitares para depois a largares podes ter a certeza que vais ter não um, mas dois problemas. “Às irmãs Swan ninguém faz mal ou chama nomes”. Isto, se não contarmos com o apoio de Emmett. Ele é um cordeirinho nas mãos dela e faz tudo o que ela sugere que deve ser feito.

Surpreendentemente ele riu-se aliviado.

- Sei bem o significado de ser protegido e de proteger. A minha história com Rosalie é muito semelhante. Fico feliz por ela, sabendo que tu e o Emmett são seus protetores e fico feliz por mim sabendo que a Alice é assim. – Fez uma pausa muito grande. Quando eu pensava que ele já não dizia mais nada ele murmurou: - Gosto muito dela.

- Estás feito. A tua vida não vai voltar a ser a mesma.

Rimo-nos os dois. Percebi naquele instante que Jasper não demoraria a fazer parte da família afetiva que eu delineara para mim.

Os dias seguintes foram felizes. Entreguei o meu trabalho dentro do prazo, consegui telefonar a Edward para lhe agradecer o gesto, agradeci a Carlisle também, passei dois dias em S. Francisco com Alice e Jasper. Conversámos muito, passeámos bastante e divertimo-nos muito.

Foi mais um passo para a minha reconstrução.

Obrigada, Alice.

Obrigada, Jasper.

Obrigada, Edward.

publicado por Twihistorias às 12:09

comentário:
Quem tiver curiosidade em saber o resto da história é só procurar por mim no nyah. Lá encontrarão a fic completa.
Obrigada.
Ella Fitz a 15 de Abril de 2014 às 17:31

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