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Dez 13


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B

Precisava de fazer um esforço para me concentrar. Tinha que entregar o trabalho de pesquisa dentro de uma semana e ainda faltava acabar a análise estatística e rever todo o desenvolvimento. Podia pedir um adiamento da entrega à minha orientadora científica, afinal eu tinha faltado às aulas quatro dias por estar doente, mas não queria dar parte de fraca. Tinha-me comprometido a fazer esta parte do estudo sobre invertebrados aquáticos e não queria falhar por nada. Se conseguisse entregar dentro do tempo que defini inicialmente, tinha mais hipóteses de, no futuro, ser indicada para outros trabalhos. Era precisamente este tipo de serviço que fazia a diferença na altura de desenvolver projetos de investigação científica e de escolher pós-graduações. Um curriculum diversificado e revelador de grande empenho era uma mais-valia profissional.

Escrevia desenfreadamente para acompanhar o meu raciocínio quando ouvi barulho lá fora seguido de um bater forte na porta. Um bocado aturdida e mal-humorada fui ver quem era.

- Alice! Jasper? Que fazem aqui?

Alice não me tinha dito que vinha visitar-me, e, tanto quanto sabia, aquela espécie de relacionamento que ela tinha com o Jasper não chegava verdadeiramente a sê-lo, pelo que não entendia a razão de o trazer com ela.

- Está mesmo a ver-se que tiveste saudades minhas, irmã desnaturada. – Com um falso ar de tristeza, Alice abanou a cabeça. - Vim ver-te, é claro. Estiveste doente, precisava de ver se estavas mesmo bem, – continuou ela empurrando-me ligeiramente para o lado e entrando dentro de casa.

Eu estava tão incrédula que continuei a segurar a porta, mesmo depois de ela entrar e de Jasper trazer toda a bagagem deles para dentro.

- Mas eu disse-te que estava melhor.

- Pois disseste. Se não me escondesses coisas da tua vida eu podia acreditar em ti mas assim… Estás à espera de mais alguém? Fecha a porta. – Alice olhava para mim como se eu fosse uma anormal. – Olha, o Jasper também veio. Ele tem uma entrevista num estúdio em S. Francisco para discutir a possibilidade de gravar umas músicas e aproveitou a minha companhia.

- Não queria incomodar, Isabella. Desculpa, – disse Jasper sem jeito.

- Não incomodas nada, - disse Alice antes de eu conseguir dar uma resposta, - vais dar-me um jeitão. Hoje dormes no sofá e amanhã logo se vê. – A minha irmã tinha as suas próprias ideias, eu não sabia quais eram mas também não iria perguntar. Quando ela agia assim era melhor afastar-me e dar-lhe liberdade.

- És muito bem-vindo Jasper. Não vais incomodar em nada, tu é que podes não te sentir muito à vontade porque a casa não tem muitas comodidades. – Assegurei eu.

- Sim, sim. Tu não tens tempo para ir às compras e és demasiado orgulhosa para aceitar o dinheiro que te oferecem, – disse a minha irmã como se estivesse a querer despachar o assunto. – Agora, olha para mim e diz-me que estás bem.

Alice lançou-me um olhar penetrante não me deixando mentir. Eu encolhi os ombros e desviei o olhar para a mesa onde tinha o meu trabalho.

- Estou suficientemente boa para poder trabalhar na minha parte da tese e amanhã já vou às aulas. Estás satisfeita?

A expressão perscrutadora deu lugar a um sorriso aberto que veio até mim junto com um abraço forte.

- Mana, como podes ser assim? Eu estou longe mas não vivo em Marte. Estarei junto a ti sempre que precisares, basta fazeres um sinal ou chamar-me.

Ficámos nos braços uma da outra até percebermos que Jasper também estava presente, a tentar passar despercebido. Ele parecia entender muito bem a ligação que nós duas tínhamos, fruto de termos crescido mais ou menos sozinhas, ou pelo menos, sem o apoio forte de progenitores atentos. Charlie foi quase sempre um pai ausente e Renée, embora cheia de amor para nos dar, passava por fases de grande alheamento, precisando de mais cuidados e atenção que nós. Isto trouxe-nos coisas boas e outras menos boas. Alice e eu passámos a ser a extensão uma da outra, protegendo-nos das agressões do mundo e desenvolvendo um sentido extremamente firme de união. Por outro lado, tirando Edward e Emmett, não tínhamos grandes amizades. Ninguém mais aceitava bem a nossa cumplicidade e a nossa reserva e desconfiança face aos outros.

Jasper olhou para nós como que a pedir desculpa por estar ali e encolheu os ombros. Nós rimo-nos da sua figura e o alívio dele foi imediato. Pegou num saco com uma guitarra que estava encostado à parede junto à entrada e estendeu-ma.

- Trouxe isto para ti. Já não estava a ser utilizada e a Alice disse-me que tu também gostas de puxar umas cordas.

Não entendi o porquê da sua expressão envergonhada até olhar mais atentamente para o saco e reconhecê-lo. Abri-o de respiração suspensa e confirmei as minhas suspeitas: esta era a antiga guitarra de Edward. Olhei para o saco novamente e lá estavam as suas iniciais EC. Será que foi ele que a mandou para mim?

- Desde que ofereceste a outra ao Edward, ele nunca mais usou esta. Era um desperdício ficar sem uso. Então o Jasper lembrou-se que talvez tu gostasses de ficar com ela, – explicou Alice, ao perceber a confusão que se passava na minha cabeça.

- Obrigada, Jasper. Gostei muito. Eu não sei tocar verdadeiramente mas gosto muito do som, parece acompanhar sempre o meu estado de espírito.

- O Edward iria gostar que ficasses com ela.

O Silêncio instalou-se por uns minutos, sendo quebrado por Alice que pegando num saco pequeno fez sinal a Jasper para a seguir. Ele pegou na mala de Alice e seguiu atrás dela, rumo ao meu quarto, imaginei eu.

Fiquei na sala a pensar no que podia fazer para o jantar. Não tinha muitas coisas em casa, pelo que teria que ser um prato rápido. Estava a cogitar fazer uma massa com queijo e uma salada, quando ouvi uns barulhos de móveis a arrastar vindos do meu quarto. Fui até lá ver o que se passava e dei de caras com Jasper que tentava levar o sofá do meu quarto para o outro quarto da casa.

- Ei! Esse quarto está vazio e sujo, – disse eu tentando parar com aquilo.

- Por isso mesmo, mana. Limpa-se e fica óptimo para o Jasper dormir. Dá-nos uma ajudinha para ver se descansamos, que o dia hoje está a ser demasiado comprido.

Ao fim de meia hora já o quarto estava limpo e o sofá com lençóis e saco cama. Regressámos à sala, e pusemos mãos ao serviço. Eu fiz a massa, a minha irmã fez a salada e o Jasper pôs a mesa. Comemos rápido, arrumámos tudo e fomos dormir.

Quando fiquei sozinha com Alice preparei-me para a interrogar, eu precisava de algumas respostas para as minhas suspeitas. Alice escondia-me alguma coisa e eu queria saber o que era.

- Eu gosto muito de te ver e de te ter comigo, mas és capaz de me explicar o que vieste fazer aqui? Não me avisaste, nem nada.

- Oh mana, estava preocupada contigo. A tua vida tem sido muito atribulada e eu precisava ter certeza que estás bem.

Acreditei no que a minha irmã me disse mas sabia que ainda não era tudo. Estava alguma coisa a escapar-me. Calei-me esperando que ela voltasse a falar. Conhecia a Alice há muito tempo e sabia que ela acabaria por me contar.

- Além disso, - acrescentou ela com má vontade, - o Jasper precisava mesmo de vir a S. Francisco e como eu tinha duas semanas de pausa pensei em juntar o útil ao agradável. - Eu ri-me com o desabafo e ela ficou ainda mais furiosa. – Agora vais-me dizer que eu sou uma impulsiva e que não tenho juízo nenhum?

- Calma, mana. – Voltei a rir-me. – Continuas de ideias fixas no Jasper?

- Ele agrada-me. É claro que também me irrita, mas há algo nele que me excita.

- Meus Deus, Alice! Tu estás apaixonada.

- Eu? Apaixonada? Não, é só atração física… mas ele não cede.

- Tu estás apaixonada. Ele parece ser muito boa pessoa, um pouco tímido demais, talvez, mas é bom amigo e muito respeitador. Muito bem…

- Não é nada disso. Falamos amanhã, pode ser? Estou muito cansada. Tens aulas amanhã? Posso dormir até bem tarde?

- Tenho aulas, toda a manhã. E de tarde tenho que ir ter com a minha orientadora do trabalho de pesquisa e investigação. Mas se quiseres posso falar com ela e marcar para outro dia.

- Não, não vale a pena. Faz o que tens a fazer. Amanhã vou preguiçar por aí e dar outra prensa no meu Jazz. Vemo-nos à noite. Bons sonhos. - A sua voz estava meio arrastada, ela devia estar mesmo cansada.

- Até amanhã, dorme bem.

No dia seguinte saí cedo para as aulas e só regressei a casa ao final da tarde. Quando entrei estava o Jasper a tocar guitarra e a Alice a fazer o jantar. Em cima da mesa estavam vários sacos de compras ainda por arrumar e dois potes de leite.

- Cheguei – disse eu em voz baixa fazendo sinal a Jasper para ele não parar. Pousei as minhas coisas em cima da pequena estante e dirigi-me à zona da cozinha. – Hummm. Que aroma agradável. Estás a fazer o quê para o jantar, Alice?

- Uma bela salada tricolor, bife grelhado com puré de batata e, para a sobremesa, comprei uma blueberry pie que já me está a fazer crescer água na boca. Põe a mesa que estou mesmo a acabar.

Pus a mesa e fui buscar um banco desmontável dentro do enorme armário de parede da sala, para o Jasper se poder sentar. Comemos com pequenas brincadeiras, principalmente por parte de Alice que quase entornou o seu copo de leite em cima de Jasper. Estávamos na sobremesa quando apareceu a única pessoa que eu conhecia ali.

- Leah, apareceste mesmo na hora certa, temos uma blueberry pie para acompanhar o café, – disse-lhe eu enquanto a puxava para dentro de casa. – A minha irmã está cá. Já não se vêm há quanto tempo?

- Alice! Como estás? Ainda bem que estás cá, não nos víamos há mais de um ano. Estás óptima.

- Oi Leah. Não sabia que também estavas aqui. Estás em Stanford, também?

- Estou, eu e a tua irmã estamos na mesma área. Temos várias aulas em comum.

- Leah, deixa-me apresentar-te o Jasper. É um amigo da família. A irmã dele está noiva do Emmett. – Leah, abriu a boca espantada mas não disse nada.

- Jasper, a Leah é de Forks, a cidade onde eu e Alice vivemos com o, hum… Charlie.

- Prazer em conhecer-te – disseram os dois em simultâneo, cumprimentando-se.

- Bem, - continuei eu, - como não temos cadeiras suficientes, proponho que passemos ao sofá para degustar a tarte. A Leah tem a mania de comer a sobremesa acompanhada de café. Alguém quer?

- O café fui eu que fiz, – disse Leah tirando um termo do seu saco. – É especial. Vem da Colômbia e tive que penar muito para o conseguir. Vão gostar.

- Para a Leah, cada refeição é uma prova sensorial que tem que ser vivida com intensidade, – expliquei eu rindo.

- Segundo a Leah, é uma “experiência orgásmica” – afirmou a Alice virada para o Jasper, fazendo com que a Leah corasse e o Jasper semicerrasse os olhos.

- Sabes que utilizo essa expressão no bom sentido – reclamou Leah ainda corada. Depois, deu de ombros e ergueu a cabeça. – Os sentidos são muito importantes, devemos saber usar e valorizar todos. O paladar e o olfacto fazem um casamento perfeito. Experimentem comer um pedaço de tarde de olhos fechados e beber um pouco de café. A mistura dos dois gostos é surreal.

Rimo-nos todos deste discurso mas a verdade é que seguimos a sugestão de Leah e acabámos todos a comer a sobremesa e a beber o café de olhos fechados. Ela tinha razão, a experiência podia não ser surreal mas era, sem dúvida alguma, mais intensa.

A noite passou agradável e rápida. Combinámos jantar todos juntos no dia seguinte ali em casa e Leah, que estava numa residência para estudantes, ofereceu-se para ser a cozinheira. Adivinhava-se outra noite muito bem passada.

O dia seguinte passou rápido também, assisti às minhas aulas e estive na biblioteca a acabar o trabalho que tinha que entregar. Fui para casa um pouco preocupada por ter passado tanto tempo fora, deixado Alice e Jasper sem companhia, mas, quando lá cheguei, toda a minha preocupação desapareceu. Estavam os dois sentados na relva, à entrada de casa, a beber café com Leah. Fiquei surpreendida por a ver ali até me lembrar do que tínhamos combinado: Leah tinha vindo fazer o jantar. Quando entrei dentro de casa para pousar as minhas coisas, a perplexidade tomou conta de cada pedacinho de mim. A casa estava bastante diferente. Havia uma mesa com quatro cadeiras, um sofá azul petróleo, uma estante nova, um tapete grande de cores quentes e dois cadeirões em pele castanho-escuro. As cortinas nas janelas e algumas almofadas rematavam a decoração.

- Mas o que foi que se passou aqui, hoje? – Perguntei em voz baixa sem obter qualquer resposta.

Apercebi-me também que o ruído de fundo que eu ouvia era música. Música que provinha de um aparelho de som que estava na estante nova e que eu percebi ser aquele que Edward tinha querido comprar para mim no mês anterior. Aproximei-me e vi que havia um envelope com o meu nome escrito ao lado. A letra era de Edward. Peguei nele e meti-o no bolso, queria muito lê-lo mas teria que ser quando estivesse sozinha.

Com uma suspeita a aflorar na minha cabeça fui até ao meu quarto. Também por ali havia mudanças. Uma cama nova e maior - parecendo king size - vestida com uma manta acolchoada, ao lado uma estante em escada com gavetas pintadas com cores alegres, um armário para a roupa e cortinas vaporosas a tapar a enorme janela - os lençóis tinham desaparecido. Como o sofá tinha regressado ao quarto, embora desta vez estivesse coberto por uma manta com as mesmas cores das gavetas, fui até ao quarto do fundo para ver o que havia por lá. O quarto já não estava vazio, estavam lá as coisas que tinham desaparecido do resto da casa: a minha cama antiga, o meu cabide de rodas, o sofá e a estante que estavam na sala.

Saí dali em passo lento tentando controlar a respiração e, sentindo necessidade de passar água fria na cara, entrei na casa de banho. A enorme janela tinha uma espécie de tela colada a imitar o vitral, fazendo entrar um jogo de luz que mudava por completo a aparência do compartimento. Havia também um escadote pintado de branco que tinha toalhas dobradas nos degraus, um espelho enorme de pé em talha dourada que evidenciava ter muitos anos e uma caixa de primeiros socorros junto às prateleiras. Na zona mais profunda da casa de banho, onde tinha estado um estendal para secar algumas peças de roupa, estava agora uma mesa de massagem parcialmente tapada por um biombo. Uma máquina de lavar roupa e outra de secar estavam encaixadas num armário branco sem portas, havendo três prateleiras, também brancas, por cima dele. As lágrimas picaram-me os olhos, não sabia se por vergonha ou insatisfação.

Foi assim que Alice me encontrou algum tempo depois.

- É assim tão difícil de aceitar que as pessoas gostam de ti e se preocupam contigo? – Disse ela em voz baixa e meiga.

- Eu… Porquê? Eu não tenho dinheiro para nada disto. Como é que… Quem foi? – Repentinamente surgiu-me a ideia que talvez tivesse sido o Charlie. Isso eu não iria aceitar.

- Isso tem alguma importância? – Alice não compreendeu o meu azedume.

- Não foi o nosso…

- Foi o Edward, quer dizer, a ideia foi dele mas o Carlisle preferiu dar o dinheiro para que Edward não mexesse nos fundos que tem.

- Como é…

- O Edward falou-me nisto depois de ter vindo ao teu aniversário e eu tinha que aproveitar. Não é todos os dias que nos dão carta-branca para decorar uma casa, – disse Alice rindo de prazer. – O Jasper veio ajudar e aproveitou para marcar a tal entrevista no estúdio de gravação.

Na minha cabeça todas estas informações giravam como acontece no roda-pé dos noticiários: Edward preocupado com a minha situação; Carlisle a dar-me dinheiro que eu não sabia quando poderia pagar; Alice a atravessar o país para decorar a minha casa; Jasper, que praticamente não me conhecia, a ajudar a minha irmã neste projecto…

- Eu não preciso de nada disto.

- Não sejas ingrata, Isabella. Nós só queremos ajudar-te, não afastes as pessoas que te estimam. Por muito magoada que estejas não podes tratar as pessoas dessa forma. A ingratidão nunca fez parte do teu feitio.

- Eu não posso aceitar, é demasiado generoso, eu não tenho como pagar.

- Só falta dizeres que não mereces nada disto – disse Alice atingindo em cheio a minha consciência deficiente. – Pensa no que estás a dizer, se fazes favor? O amor e a estima não se pagam, da mesma forma que não se compram, são sentimentos meritórios que se desenvolvem pela convivência, pelo respeito mútuo e pela dedicação. São sentimentos que se retribuem na mesma moeda. Não farias o mesmo por nós?

- É claro que sim, mas eu…

- Tu nada. Fica calada e deixa-nos fazer por ti aquilo que achamos melhor. Aceita o que te queremos dar e fica feliz connosco. Nós fazemos parte uns dos outros e não há nada que nos possa tirar isso. Nem tudo é mau, Bella. Valoriza as coisas boas que tens. Eu sou uma coisa boa na tua vida, não sou?

Abracei-a com força.

- Obrigada mana. Obrigada por tudo. Tu não és somente uma coisa boa na minha vida. Tu és a minha família.

- Por falar em família, a mãe telefonou hoje. Não sei como, ela soube que eu vim ter contigo e eu contei-lhe que na semana passada estiveste doente. Pareceu ficar preocupada. Disse que te telefona ao início da noite.

Eu suspirei e rolei os olhos.

- Agora diz-me uma coisa, - continuou Alice, - gostaste da decoração? Comprámos umas coisas e arranjámos outras. Este papel autocolante de vitral fui eu que desenhei em Nova York. Fica muito bem, não fica? Tapa a vista mas deixa passar a luz na mesma. O Jasper colou-o na perfeição, nem uma bolha. O escadote estava escondido no armário de parede, foi só pintar, e o biombo são caixilhos altos com tecido dos lençóis que tinhas a tapar as janelas. O Jasper articulou-os e eu e a Leah transformámos os lençóis. O armário de primeiros socorros foi mandado pelo Edward, de Boston. – Alice arqueou as sobrancelhas dando ênfase à situação. – Será que ele pensa que aqui não existem esses materiais?

Alice continuou a contar todos os pormenores, arrastando-me de divisão em divisão para mostrar tudo, o que eu já tinha visto e o que me tinha escapado, o que não foi pouco. Já na sala, encontrámos Jasper e Leah sentados a conversar, riram-se da minha expressão e deixaram Alice continuar na sua apresentação, até que eu não aguentei mais e comecei a rir também.

- Ok, mana, eu compro. A casa é tão bonita e está tão bem decorada que eu já não posso viver sem ela.

Estava a terminar de falar quando o meu telefone tocou: Renée.

- Olá mãe.

- Como vais filha? A Alice disse-me que estiveste doente. Isso foi o quê?

- Foi um mal-estar passageiro, talvez uma constipação ou coisa assim. – Não queria dizer à minha mãe que tinha estado de cama, com febre.

- Tens a certeza? A Alice disse que foi qualquer coisa que tinhas comido. Foste ao médico ver o que era?

- Já passou mãe. Fica descansada. Nem chegou a ser necessário ir ao médico.

- Tu estás grávida?

Fiquei sem fôlego e petrifiquei.

- Bella, responde-me com a verdade. – A minha mãe exigiu a resposta com o medo a ensombrar o seu tom de voz.

Não queria acreditar que estava a passar por isto. Como é que a minha própria mãe podia pensar que eu era tão irresponsável?

- É verdade, não é? Oh meu Deus. A desgraça caiu em cima da minha família. E agora? Isto não podia acontecer. Tu és muito nova e o Edward ainda nem o curso acabou. Não podes ter esse filho, o Edward é teu irmão. Vocês foram muito irresponsáveis.

- Não é verdade, – contrapus.

- Irresponsáveis, sim. Onde é que já se viu? São ambos umas crianças ainda.

- Mãe! – gritei. – Eu não estou grávida.

- Tens a certeza? – Perguntou Renée, continuando sem me dar tempo de responder. - Ah que alívio, filha. Pelo menos nesse ponto não erraram.

- Agora tenho que ir mãe. Já é muito tarde aqui e amanhã tenho aulas cedo.

- Fica bem, filha. Beijinhos.

- Xau, mãe.

Ficámos os quatro parados sem dizer nada. Repentinamente desatei a rir descontroladamente.

- Como é que eu podia estar grávida se a minha mãe estragou a minha primeira noite de amor? – Eu falava cada vez mais alto. – Arrancaram o amor da minha vida dos meus braços no momento em que me ia entregar. Até esse prazer me negaram. – As minhas gargalhadas eram histéricas. – Destruíram a minha vida, expondo-me na minha intimidade e fazendo juízos de valor. Nunca lhes vou perdoar.

As gargalhadas transformaram-se em lágrimas abundantes e sentidas. Chorei de raiva. Alice falava comigo mas eu não conseguia perceber nada. Senti levarem-me ao colo para a cama – Jasper certamente – e a ser abraçada – só Alice me abraçava assim, - até adormecer.

Acordei ainda era de noite, estava sozinha no quarto. Recordei tudo o que se passara no dia anterior e tomei uma resolução. Eu tinha pessoas que gostavam verdadeiramente de mim e me respeitavam, seriam apenas essas pessoas que eu passaria a considerar a minha família afectiva. As outras eram apenas conhecidos. Não voltaria a deixar-me atingir por quem não era importante para mim.

Acendi o candeeiro, aquele que o Edward me tinha comprado, e levantei-me. Fui, pé ante pé, à cozinha para beber um copo de leite, porque, como não tinha jantado, sentia alguma fome. Quando cheguei à sala enterneci-me. Alice estava a dormir no sofá, com a cabeça apoiada no colo de Jasper, que olhava para ela com devoção. Sim, ali havia muito sentimento. Dei meia volta e regressei à minha cama. Não iria perturbar a paz deles, aquele momento pareceu-me demasiado íntimo para ser quebrado por terceiros. Eu sabia bem o que isso era.

No quarto, lembrei-me do envelope de Edward e sentei-me na cama para o ler.

“Amor: Preciso que entendas e aceites que te amo e que me preocupo contigo.

Só estarei bem se te souber bem.

Sei que precisas de tempo para me aceitar de volta e eu estou disposto a esperar o tempo que for preciso. Peço-te apenas que, no entretanto, me deixes fazer por ti o possível para te facilitar a vida e te proporcionar algum conforto.

Quero ser merecedor do teu perdão e do teu amor mas, neste momento, sinto necessidade de fazer aquilo que sei que não queres.

Pedi à Alice para ir a Palo Alto transformar essa casa num lar. Não imaginas o desânimo que sinto em saber-te aí sem as condições mínimas, tão sozinha e tão distante.

O aparelho de som foi aquele que gostaste mas não me deixaste comprar. A música sempre fez parte da tua vida e da minha. Esse será sempre um dos nossos elos e fará parte das nossas referências.

Foi tudo pensado com o maior carinho. Por favor não recuses.

Não esqueças que irei aí se precisares. Basta chamares por mim.

Amo-te mais do que à própria vida.

Eternamente teu, Edward.

Uma miríade de sensações tomou de assalto a minha cabeça e o meu corpo. Apetecia-me falar com ele para lhe agradecer, mas sabia que se o fizesse agora lhe iria pedir para vir ter comigo e ficar. Não podia obrigá-lo a passar por esse dilema, ele tinha trabalhado muito para entrar naquele curso de Medicina. Não seria justo para ele nem para mim propor-lhe uma alteração destas. A minha ideia foi sempre ser eu a mudar de Universidade, não ele. Contudo, ele tinha recusado essa proposta, ao vir embora de Itália sem falar comigo e sem me deixar uma indicação de que queria que eu o fizesse.

Ainda me magoava muito pensar nisso. Se ele me tivesse perguntado se eu queria fugir com ele, eu tê-lo-ia seguido até ao fim do mundo. Eu tinha manipulado Charlie para poder voar de um extremo do país ao outro, sendo ainda menor de idade, só para poder estar com ele. Se calhar, o amor que ele dizia sentir por mim não era tão forte e tão resoluto como o que eu sentia por ele. As mulheres sentem as coisas de uma maneira diferente, seria isso?

Queria muito acreditar nos sentimentos dele mas… E se, noutra altura de crise, ele voltasse a deixar-me sozinha e perdida? Teria eu coragem e força para aguentar outra luta? Suportaria eu perdê-lo novamente? Se ele me abandonasse de novo a minha auto-estima, já de si tão débil, desvanecer-se-ia.

Eu estava demasiado fragilizada para me deixar levar novamente por um relacionamento que não tinha a certeza se era suficientemente forte para aguentar as pressões. Precisava de tempo para me recompor e para verificar se aquilo que Edward dizia era mesmo verdade. Se com o tempo ele mostrasse que tinha força para lutar por mim eu seria dele até ao fim dos meus dias.

Com mais esta resolução na minha vida, voltei a adormecer. Acordei com a claridade a entrar pela janela. Espreguicei-me bocejando, sentindo-me melhor.

Já vestida e arranjada, fui tomar o pequeno-almoço e dei de caras com o Jasper a dormir no sofá, sozinho. Franzi a testa e fui até ao quarto do fundo dar uma espreitadela. Alice dormia tranquilamente debaixo da manta. Voltei para a cozinha e tentei fazer o menor barulho possível, contudo, Jasper acordou pouco tempo depois.

- Desculpa, não te queria acordar – disse eu sem jeito.

- Não fiques assim, eu é que estou com as horas de Boston. A esta hora já o meu dia teria começado, no bar ou nas aulas de música.

- Andas no conservatório de Boston?

- Agora não, pelo menos enquanto aluno. Já acabei o curso, embora gostasse de tirar uma nova pós-graduação. – Fez uma pausa como se ponderasse o que estava a dizer. Depois, olhando para a minha cara, acrescentou em jeito de explicação: - Entrei mais cedo que o normal; desde sempre me dediquei à música e fiz quatro anos em dois.

- És sobredotado, Jasper! – A minha cara de espanto dizia tudo.

- Esse é um rótulo muito feio, – disse ele franzindo o nariz. - Prefiro dizer que sou apaixonado pela música.

- E pela minha irmã – disse eu num impulso.

Ele pareceu ficar meio encabulado mas não negou.

- Desculpa se fui inconveniente. Esta noite acordei e vi a forma como a olhavas enquanto ela dormia no teu colo – justifiquei-me.

- Ela ficou muito perturbada com o que se passou ontem e acabou por adormecer no sofá. Mas ficou com frio e eu levei-a para a cama. Não queria acordar-te e deixei-a no outro quarto.

- Obrigada por me teres levado, também a mim, para a cama, ontem.

Ficámos calados durante bastante tempo mas depois eu achei que devia deixar as coisas em pratos limpos.

- A Alice é a pessoa que mais gosta de mim e de quem eu mais gosto. Nós temos uma ligação muito especial. Dava a minha vida para salvar a dela. Eu sou mais calma, mais comedida e mais fraca, a Alice é mais corajosa, mais extrovertida e mais forte. – Fiz uma pausa para beber mais um pouco de leite. - Pode parecer-te que é meio estouvada mas é de uma fidelidade cabal, muito amiga do seu amigo. Foi sempre o meu esteio nos momentos mais difíceis. Tem um temperamento forte e sabe muito bem o que quer e aí, por vezes, não olha a meios para atingir os fins. É o seu traço mais perverso, mas isso não faz dela uma leviana. Normalmente é nessas alturas que eu pago toda a sua dedicação, sendo paciente e evitando que ela se magoe.

Lembrei-me de um episódio que se passou connosco e ri-me.

- Quando tinha onze anos, no colégio onde andávamos as duas, um rapaz mais velho, que gostava de implicar com os mais fracos, chamou-me raquítica e branquela. Havias de ter visto a cara dela, ficou tão furiosa que se atirou a ele, arranhando-o e mordendo-o. Fomos os três chamados à Directora e ela, exagerando muito o acontecido, disse que ele se estava a meter comigo e eu, de cabeça baixa, desatei a chorar de nervosismo. A Directora pensando que era pelo que o rapaz me tinha dito ou feito, mandou-nos às duas embora e ele ficou lá e levou com as culpas todas. Ele jurou vingança e a boa da Alice fez-lhe frente e respondeu que “às irmãs Swan ninguém faz mal ou chama nomes”. Mostrou-lhe uma foto do Emmett e disse-lhe que se ele se atrevesse a fazer-nos mal era o irmão quem vinha tratar do assunto pessoalmente.

- Ela é um furacão – disse Jasper, acrescentando logo a seguir - e durona.

- Só foi verdadeiramente a baixo uma vez. Foi na noite em que fizemos o pacto de sangue. Descobrimos que Emmett e Edward eram adotados, e Alice, num ataque de rebeldia, perguntou aos nossos pais porque é que não nos deram para adoção, já que eles não mostravam gostar de nós. O Charlie exaltou-se e deu-lhe uma bofetada com tanta força que a fez cair no chão e partir um dente. Eu meti-me à frente para ele não lhe bater mais e ele bateu-me também. – Fiz uma pausa e engoli em seco. Tantos anos depois e ainda doía lembrar aquele episódio. - Mandou fechar-nos no quarto sem direito a comer nem beber. Com o sangue do meu lábio rebentado e o da boca dela fizemos o pacto de proteção. Nessa noite fui eu que fiquei a abraçá-la enquanto ela chorava e tremida de raiva.

O Jasper ouviu tudo em silêncio de cara triste.

- Ela não se dá com facilidade, Jasper. Nunca teve um namorado, diz sempre que são todos uns parvalhões egocêntricos, que não servem para defender ninguém. – Acabei de beber o copo de leite. - Por isso, se tens algum interesse por ela e a aceitares, podes ter a certeza que é um contrato vitalício. Se a aceitares para depois a largares podes ter a certeza que vais ter não um, mas dois problemas. “Às irmãs Swan ninguém faz mal ou chama nomes”. Isto, se não contarmos com o apoio de Emmett. Ele é um cordeirinho nas mãos dela e faz tudo o que ela sugere que deve ser feito.

Surpreendentemente ele riu-se aliviado.

- Sei bem o significado de ser protegido e de proteger. A minha história com Rosalie é muito semelhante. Fico feliz por ela, sabendo que tu e o Emmett são seus protetores e fico feliz por mim sabendo que a Alice é assim. – Fez uma pausa muito grande. Quando eu pensava que ele já não dizia mais nada ele murmurou: - Gosto muito dela.

- Estás feito. A tua vida não vai voltar a ser a mesma.

Rimo-nos os dois. Percebi naquele instante que Jasper não demoraria a fazer parte da família afetiva que eu delineara para mim.

Os dias seguintes foram felizes. Entreguei o meu trabalho dentro do prazo, consegui telefonar a Edward para lhe agradecer o gesto, agradeci a Carlisle também, passei dois dias em S. Francisco com Alice e Jasper. Conversámos muito, passeámos bastante e divertimo-nos muito.

Foi mais um passo para a minha reconstrução.

Obrigada, Alice.

Obrigada, Jasper.

Obrigada, Edward.

publicado por Twihistorias às 12:09

19
Jul 13

- 6 -

E

Deambulei, errante pelo parque, procurando sentido para tudo o que tinha acontecido na minha vida. Estava perdido, sem conseguir ver um caminho por onde ir. Num minuto estava a viver o melhor momento da minha vida e no minuto seguinte vivia um pesadelo horripilante. Era difícil acreditar que a vida me tinha pregado uma partida tão grande.

Finalmente tinha conseguido falar com Bella. Desde aquela noite deplorável que não falava com ela, primeiro por causa da minha saída apressada de Itália e depois porque ela se recusou a atender os meus telefonemas. Foi preciso recorrer a Alice para ouvir a sua voz.

Bella estava muito magoada, magoada com a mãe, com o pai, com a Esme, provavelmente até com Carlisle… Magoada comigo. Muito magoada comigo. Percebi a sua dor ao ouvir tudo o que ela desferiu ao telefone. Se tinha dito coisas injustas havia muita razão nas suas queixas.

De certa forma eu duvidei do nosso amor ao deixar-me convencer pelos argumentos que as nossas mães utilizaram para, supostamente, me fazerem ver a situação com clareza. E, por isso mesmo, fiz aquilo que lhe tinha prometido não fazer: deixá-la. Sim, nestes dois pontos ela tinha toda a razão para ficar zangada comigo. Onde a razão dela se perdia era no acreditar que eu não a tinha defendido. Tudo o que fiz foi a pensar no melhor para ela, tentando preservá-la de mais sofrimento.

Embora reconhecesse que ela tinha todo o direito a sentir-se traída pelas más influências e decisões, fiquei muito desiludido por ela estar a fazer aquilo de que me acusava. Ao não me dar hipótese de me explicar perante ela, Bella duvidava também dos meus sentimentos. Estava furioso por tê-la perdido. Estava furioso comigo. Se eu tivesse sido mais homem, se me tivesse revoltado contra a família e a tivesse resgatado daquele quarto… Se eu a tivesse trazido comigo. Se… eu não tivesse tido medo de não aguentar com as consequências. Se…

Revivi aqueles momentos que decidiram o meu tenebroso futuro.

Depois de sair do quarto de Bella, desci para procurar Carlisle e encontrei-o no alpendre. Fiquei todo arrepiado e a tremer, talvez pelo nervosismo ou talvez pelo frio que se fazia sentir àquela hora da noite. Caminhei até ele e sentei-me numa cadeira ao seu lado. Sem se virar para olhar para mim, o meu pai começou a falar.

- Edward, a vossa situação é complicada. Não julgues que não compreendo a tua relação com Bella, mas tens que perceber que, de uma maneira estranha, aquilo que Renée e Esme defendem também faz sentido.

- O que é que eu posso fazer, pai?

- Tens que dar tempo ao tempo. A tua mãe e a Renée vão acabar por aceitar, mas não agora.

- Pai, eu não posso deixar a Bella assim. Como é que se adiam sentimentos destes? - A agonia estava patente na minha voz.

- Pensando no que é melhor para vocês a longo prazo. A vossa relação tem quanto tempo? Podem levar as coisas com calma, não precisam de ser tão precipitados. Já pensaste que o que sentem um pelo outro pode não passar de uma paixão efémera?

- Eu espero por ela há anos. – Desesperado, esfreguei a cara com as duas mãos. - Descobri que a amo há seis anos mas na verdade acho que sempre estive apaixonado por ela. Ela teve sempre um significado enorme para mim, foi sempre o centro da minha atenção.

- Vais ter que ser forte. Neste momento não me parece uma atitude assertiva lutar abertamente com as vossas mães. Conversem sobre o assunto e decidam o que for melhor para todos.

As lágrimas começaram a cair pelo meu rosto, num choro silencioso. Carlisle manteve-se a meu lado sem proferir nada, voltando-se para trás apenas quando se ouviu a chegada de alguém.

- Aqui estás tu, meu sacana. Estás a chorar?

- Então, Charlie? Nada te dá o direito de chamares isso do meu filho. – Carlisle falava com calma mas seriamente.

- Desrespeitou a minha filha. Achas que isso é correto? – A voz de Charlie denotava frieza e despeito.

- Foi consentido. Eles estão os dois juntos, conscientemente. A paixão leva as pessoas a terem comportamentos por vezes difíceis de aceitar. Tu sabes isso melhor do que ninguém.

Charlie remexeu-se desconfortável e soprou com fúria.

- Estás a insinuar alguma coisa? Tu és tão culpado quanto elas. Sempre aceitaste esta porcaria de família tão virtuosa mas tão pouco família. Isto mais parece uma irmandade forjada e obtusa. Se lhes tivessem dado uma educação como deve ser nada disto teria acontecido. Criaram filhos que se tornaram umas verdadeiras aberrações.

- Desde quando o amor verdadeiro é uma aberração? – Falei em baixo tom ainda com a voz embargada.

- Amor verdadeiro? O que sabes tu disso? Vives à custa do papá e não fazes nada para merecer o que te oferecem. – Charlie inclinou-se para mim e apertou-me o braço com força. – Se deixares de ser financiado fazes o quê? Pensas que a vida é um mar de rosas mas estás bem enganado. Pensas que és homem mas não passas de um menino de fraldas.

- Vamos ter calma. Charlie, estás a ser injusto. O Edward foi sempre muito responsável e um aluno exemplar. Dentro de um par de anos é médico formado e independente. Além do mais sabes que ele poderia ser financeiramente independente. O fundo que fui construindo tanto para ele como para o Emmett está à disposição deles. Se eles não o usam só revela que estão conscientes da vida e do mundo que os rodeia.

- Tu e a tua mania das diplomacias capciosas. Até agora as coisas foram sempre como vocês quiseram mas desta vez eu tenho uma palavra a dizer. – Dizendo isto, Charlie largou-me o braço, virou costas e foi para dentro.

- Vamos entrar também, Edward, está muito frio aqui. Na sala estamos melhor. Lá falaremos todos e encontraremos a melhor solução.

Seguimos para a sala e, ao passar pela cozinha, o meu pai chamou a minha mãe e a Renée. A Alice e o Emmett, vinham a descer as escadas e acomodaram-se também nos mesmos lugares do dia anterior. Achei que devia falar primeiro e dizer o que tinha decidido.

- Gostaria que me ouvissem com atenção. O que disser aqui e agora não mais irei repetir. – Fiz uma pausa para que todos percebessem a importância do que se seguiria. – Eu e Bella estamos juntos, não por uma paixão de crianças mas porque os sentimentos que nos unem são verdadeiros e intransponíveis. Somos ambos jovens mas não somos irresponsáveis. A invasão da nossa privacidade foi muito além de uma entrada no quarto num momento de entrega. – Olhei para os adultos, a quem Aro se tinha acabado de juntar. – Vocês fizeram juízos de valor e condenações, olhando apenas para as vossas necessidades e idiossincrasias. Ainda não conseguiram perceber que estão a falar de duas pessoas que, tal como vocês, têm sentimentos e ideias próprias. Na base de uma atitude prepotente estão a destruir o que, se fosse encarado naturalmente, como deveria ser, seria um acontecimento feliz. Eu não posso permitir que a vossa mesquinhez me arraste para a lama. Eu amo a Bella e, se ela me quiser, vamos continuar juntos, quer vocês queiram ou não.

- Lindo discurso. Aprendeste com o papá? És um ignorante. Como pensas viver com ela? Pagas-lhe os estudos? Compras uma casa? Continuas o teu curso como? A vida não é assim tão fácil. E a Bella ainda não tem dezoito anos. Se a levares estás a incorrer no crime de rapto e eu chamo a polícia e mando prender-te. – Charlie destilava veneno. Lançando um olhar de ódio a Carlisle, sorriu perversamente. – Não há poderes suficientes para me impedir de o fazer… nem por parte da embaixada. Além disso dá-te por muito feliz por eu não te indiciar por abuso de uma menor.

A discussão continuou mas eu parei por ali. Nunca ponderei esta possibilidade. Charlie estava certo numa coisa: eu estava nas mãos dele. E agora o que faria? Faltavam apenas oito semanas para Bella completar os dezoito anos. Teria que arranjar maneira de manter as coisas até lá, para depois poder tomar uma atitude mais radical. Tudo isto se ela aceitasse ficar comigo. O que eu também não sabia. Pensa Edward, pensa.

Estava perdido neste raciocínio quando Bella chegou à sala e se sentou, com a ajuda de
Aro, no outro extremo da área de estar. O sofrimento dela era como o meu, de tão visível quase se tornava palpável.

O confronto familiar continuou entre a irredutibilidade de Renée e Esme e a crueldade de Charlie. Sentia-me completamente subjugado pela enorme pressão psicológica causada pelas ameaças de Charlie.

Quando a discussão terminou, Alice levou Bella para cima. Eu levantei-me para ir atrás dela. Tínhamos muito que falar e eu precisava de senti-la junto a mim e saber que ela estava bem.

- Edward, fica mais um pouco. Não tomes nenhuma decisão precipitada, a tua vida está em jogo. – O meu pai aproximou-se de mim e numa voz suficientemente baixa para ninguém mais além de mim ouvir, acrescentou: - Se fores agora ter com ela, vais dar muito nas vistas. Espera um bocado antes de o fazeres.

Eu dirigi-me à porta das traseiras para procurar um pouco de calma no relento da noite, sendo seguido por Emmett.

- Esta família é inacreditável. – Gritou ele batendo a porta com estrondo. – Tantos anos de “o que nos une são os sentimentos” para agora pegarem em princípios sem fundamento e destruírem tudo. – Quando me alcançou, Emmett colocou uma mão no meu ombro direito, em jeito de apoio. - O que vais fazer, meu irmão?

- Não sei, Em. A minha cabeça está um caos. Apetecia-me fugir com ela daqui para fora e nunca mais voltar.

- Não podes fazer isso, mano. O Charlie está cego, é bem capaz de fazer o que ameaçou fazer.

Ficámos ali a conversar e a maldizer a falta de sensibilidade e de bom senso dos nossos pais, na tentativa de encontrar uma solução, mas a única conclusão a que chegámos foi que, antes de Bella ter dezoito anos, nada poderia fazer. Mais tarde, ela poderia ir para Boston estudar. Ficaria em casa de Emmett até eu arranjar uma casa para vivermos.

Rosalie veio ter connosco de olhos vermelhos, dizendo que não conseguia ficar mais dentro de casa porque Bella chorava e gritava tanto que era doloroso ouvir.

Com uma dor enorme no peito, subi até ao meu quarto à procura de uns calmantes e fui ao quarto dela para lhos dar. Alice abriu a porta, recebeu os comprimidos e voltou a fechá-la, não me deixando entrar. Os soluços e o choro de Bella eram audíveis em toda aquela ala da casa. Encostei-me à porta e fiquei ali à espera que Alice me permitisse vê-la. Com o tempo o choro parou e a minha inquietação foi acalmando. Quando Alice abriu a porta e saiu, disse-me apenas para a chamar quando saísse e para não deixar entrar mais ninguém.

Bella dormia num sono inquieto apesar dos medicamentos. Tinha o rosto distorcido pelo choro contínuo, e o cabelo todo emaranhado. Deitei-me na cama ao seu lado e puxei-a para mim, aconchegando-a nos meus braços. Agarrado a ela permiti-me desabar e chorar também. Passei a mão nos seus cabelos e no seu rosto carinhosamente, de um modo que eu não sabia ser capaz, talvez aguçado pelo profundo desespero de a perder. Inalando o seu cheiro e sentindo o seu calor acabei por adormecer.

Acordei já de manhã, com Alice a bater na porta e a chamar-me baixinho. Levantei-me com cuidado para não acordar a minha linda e abri a porta a Alice. Ela trazia dois copos de leite morno e, sentando-se na beira da cama, deu-me um deles sem dizer nada. Eu agradeci com um ligeiro movimento de cabeça e levei o copo à boca.

- As mães querem falar contigo. Estão na cozinha à tua espera, – disse ela quando eu terminei de beber o leite. – Decidas o que decidires, não desistas da minha irmã. Ela ama-te demasiado e há muito tempo, para merecer perder-te.

- Não vou desistir nunca. Não imagino a minha vida sem ela.

Dei um beijo na testa de Bella, outro em Alice e saí do quarto.

Esme e Renée calaram-se quando entrei na cozinha. Parei a uma certa distância delas e cruzando os braços esperei que me dissessem o que tinham a dizer.

- Filho, não preferes sentar-te aqui? – Eu abanei a cabeça, negando o convite da minha mãe. – Edward, estive a pensar em tudo o que se passou e acho que o melhor seria voltares a Massachusetts.

A minha mãe ficou à espera que eu dissesse alguma coisa mas eu não queria dizer nada sem primeiro ouvir tudo o que ela tinha para me dizer.

- Querido, precisas de ver a situação com clareza e aqui isso torna-se muito complicado. – Esme fez uma nova pausa antes de continuar. – Tens que perceber que, neste momento, a tua presença aqui, prejudica mais do que ajuda.

Franzi a testa surpreendido com este argumento mas nada disse.

- Charlie está muito desorientado e pode cometer uma loucura. A tua insistência em ficar com Bella levou-o a tomar uma atitude extrema, que pode deixar sequelas para sempre na nossa família, especialmente em Bella. Não é isso que pretendes, pois não? – Eu estava chocado demais para dizer o que quer que fosse. - Além disso estás demasiado magoado para manteres a lucidez necessária à resolução deste problema.

- Estás disposto a fazer qualquer sacrifício para proteger Bella? – Perguntou Renée, falando pela primeira vez durante a conversa.

Eu continuava aturdido, sem saber o que pensar. O sentimento de culpa estava a instalar-se rapidamente. A palavra “culpado” desenhava-se na minha mente, como se estivesse a ser escrita a tinta indelével.

- Tomei a liberdade de pedir a Aro que reservasse um bilhete para Boston, em teu nome, para esta noite. – Esme olhava para mim enquanto falava, tentando perceber a minha decisão. – Espero que sejas responsável e que, pelo bem de Bella, te afastes durante um tempo.

Saí dali completamente desorientado e arrastei-me para o meu quarto, fechando a porta à chave. Passei ali parte do dia sempre a pensar em Bella e na decisão que eu teria que tomar. Quando decidi, fui até ao quarto de Bella, que continuava a dormir, e beijei-lhe as mãos e o rosto. Junto ao seu ouvido murmurei que a amava e saí.

Arrumei as minhas coisas e escrevi um bilhete para ela ler quando acordasse. Porém não pude voltar ao seu quarto porque Charlie não me deixou, por isso, optei por deixar-lhe o bilhete no meu, com a esperança que ela o encontrasse, quando lá fosse procurar-me.

Regressei aos Estados Unidos sozinho e miseravelmente infeliz. Tentei muitas vezes falar com Bella, tanto para Bordighera como para Stanford, mas nunca consegui que ela me atendesse. A não ser quando Alice me ajudou com aquela ideia.

Desde o meu regresso, procurei sempre ter notícias dela, acompanhá-la mesmo ao longe e proporcionar-lhe a ajuda necessária. O Charlie não lhe dava dinheiro nenhum porque Bella se recusara a telefonar-lhe, cortando ela mesma, relações com o pai. Tentei enviar-lhe dinheiro através do meu pai mas Carlisle não aceitou e passou a ser ele a pagar-lhe o aluguer da casa, para onde ela fora na Califórnia, as despesas com os estudos na Universidade e tudo o mais que fosse necessário, com excepção das suas despesas pessoais que eram suportadas por Renée.

Perdido nos meus pensamentos e inquietações acabei junto ao rio, sentado num banco. Precisava de arrumar a minha cabeça e resolver de uma vez por todas o caos em que a minha vida se transformara. O curso de medicina era muito exigente e trazia grandes responsabilidades, pelo que eu não podia continuar com a cabeça ausente de tudo o que não estava minimamente relacionado com Bella. Teria que encontrar um equilíbrio satisfatório para não me perder ainda mais e largar a universidade.

Bella faria dezoito anos dali a de três dias. A data que eu tanto ambicionava para a levar para perto de mim. Contudo as coisas estavam diferentes. Já não era o Charlie quem me mantinha afastado, era a própria Bella.

Não podia aceitar que as coisas ficassem por ali, por isso, atravessei o país e no dia do seu aniversário, quando ela abriu a porta de casa, encontrou-me sentado no chão à sua espera.

A sua primeira reação foi dar um passo atrás e voltar a fechar a porta, contudo antes de fechar a porta totalmente, voltou a abri-la e ficou parada a olhar para mim. Estava linda, com uns jeans azul escuros e uma T-shirt vermelha que tinha escrito “eco logical” em letras estilizadas.

- Bom dia, Edward, – disse ainda surpresa.

- Bom dia, love. Queria dar-te os parabéns logo pela manhã. – Levantei-me e estendi-lhe a mão. – Gostava de te convidar para dares um passeio comigo. Dizem que a baía de S. Francisco é muito bonita, dás-me o prazer da tua companhia?

Bella hesitou, voltou a entrar em casa, mas acabou por sair, de casaco e sacola na mão, fechando a porta.

- Vamos? – Disse ela colocando a bolsa a tiracolo.

Sorri meio aparvalhado ainda não acreditando na minha sorte. Estendi o braço para lhe dar a mão mas ela desviou-se ligeiramente recusando a minha oferta. Dirigi-me ao carro que tinha alugado, abrindo-lhe a porta para ela entrar. Antes de colocar o carro em funcionamento, virei-me para ela e entreguei-lhe uma bolsa de cetim azul.

- É a tua prenda de aniversário. Espero que gostes.

Ela segurou o saco e desatou o cordão lentamente. Quando tirou para fora o livro que lá estava dentro, abriu a boca de espanto.

- On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life By Charles Darwin – leu ela, incrédula.

- É uma edição especial de comemoração dos cem anos da morte de Darwin.

- Meu Deus, Edward! Como conseguiste uma preciosidade destas?

- Já a tenho há algum tempo. Comprei-a de propósito para os teus dezoito anos. – Sorri ao perceber que ela tinha gostado muito do livro. – Como sei que adoras Darwin, não podia deixar escapar esta oportunidade. Ainda bem que gostas.

- Obrigada. Podes apostar que gosto mesmo. – Corou muitíssimo quando, num impulso, me deu um beijo no rosto. Recompôs-se rapidamente e apontando para a estrada disse: - Talvez seja melhor irmos andando.

Fomos andando um pouco ao acaso, à medida que me orientava com o mapa que tinha comprado no aeroporto de San Jose, uma vez que eu não conhecia a região. O facto de não ter dormido muito, dado que o voo de quase sete horas se prolongou por uma parte da noite, também não estava a ajudar nada. A determinada altura, Bella pegou no mapa e foi-me dando indicações da direção que eu deveria seguir pela península. Fomos até à cidade de San Francisco e parámos no alto de uma colina onde se avistava uma grande parte da baía e a Golden Gate. O dia não estava particularmente limpo, o que segundo ela era normalíssimo, mas ainda assim a paisagem era muito agradável. Sentámo-nos a apreciar o momento. Não tínhamos dito praticamente nada um ao outro desde que saímos de sua casa, pela manhã.

- Bella, precisamos de falar. - Ela manteve-se em silêncio, o único indício de que me tinha ouvido foi a sua reação corporal, que se tornou mais rígida. – Preciso que me deixes explicar-te o motivo pelo qual vim embora, para que possas entender que foi para te preservar. De certa forma, foi para te defender das ameaças do teu pai e das…

-Shhhhhh. Eu não tenho pai – interrompeu-me ela, apertando as mãos em punhos bem fechados. – Não digas nada Edward. Agora não, ainda não. Preciso de mais tempo para aceitar a volta de cento e oitenta graus que a minha vida deu. – Fez uma pausa para respirar fundo. – Ainda me é muito doloroso encarar esta nova realidade.

- Amor, eu posso ajudar-te a ultrapassar tudo. Eu ajudo-te a ti e tu ajudas-me a mim. Não consigo ficar sem saber se tu me perdoas.

- Não há nada para perdoar. Fomos ambos vítimas das circunstâncias.

- Isso significa o quê? Vamos ficar bem um com o outro? Vens comigo para Boston? – Não estava nada a gostar do tom de voz dela, parecia desprendido.

- A nossa vida mudou bastante. Tudo o que nos fizeram passar, deixou feridas que ainda não estão cicatrizadas. Precisamos de tempo para ficarmos bem.

- Quando tudo aquilo aconteceu cheguei a pensar em fugir contigo para longe e nunca mais voltar.

- Pára. Não vamos dizer mais nada, hoje. Vamos aproveitar o dia e passear como se fôssemos duas pessoas normais. – Vendo que eu ia dizer alguma coisa, Bella colocou a sua mão nos meus lábios, não me deixando falar. Agarrei a mão dela e, de olhos fechados, aspirei o seu cheiro enquanto sentia a suavidade da sua pele. – Prometo que da próxima vez que nos encontrarmos conversamos sobre o assunto. Vamos aproveitar este momento. Afinal fizeste uma viagem de quantas horas para estares aqui, hoje? Sete? Oito?

- Quase sete horas. – Sorri com a sua mudança de assunto.

-Vês? Vamos aproveitar, está bem? Vais embora quando?

- Amanhã à noite, – disse com esperança que ela me pedisse para ficar mais tempo.

Bella não fez nenhum comentário. Com uma expressão enigmática, deixou-se relaxar parecendo esquecer que a sua mão continuava no meio das minhas. Depois de passar um tempo considerável ela levantou-se, fazendo-me levantar também, e recomeçámos o passeio, desta vez a pé e de mãos dadas.

Não conseguia perceber o que se passava na cabeça dela, mas o facto de ela se sentir confortável na minha companhia era demasiado importante para eu desvalorizar e não aproveitar.

Passámos o resto do dia na cidade sem visitar nada em especial, apenas deambulando pelos parques e andando de cable car. A certa altura ela faz uma alusão a uma viagem pelo vale de Napa, mas não chegámos a ir. Já bastante tarde na noite, com as temperaturas um pouco mais baixas, regressámos a sua casa, fazendo uma única paragem para comer num Burger King. Em frente à sua porta, parei esperando um convite para entrar que não sabia se viria.

- Estás em que hotel?

- Não estou em nenhum. Ainda não procurei, vim do aeroporto diretamente para aqui. Como já era demasiado tarde, acabei por ficar no carro.

Bella ficou pensativa e eu suspendi a respiração.

- Entra. Podes dormir no sofá. É velho e desconfortável mas sempre é melhor que um Ford.

A casa dela era peculiar. Parecia que estava no último dia de mudanças, de tal forma estava vazia. Tinha um sofá decrépito, uma estante baixa com uma dúzia e meia de livros e uma mesa com duas cadeiras diferentes, em cima da qual se encontrava o seu portátil e um livro científico. Ao fundo, havia uma cozinha, aparentemente equipada, com uma bancada de trabalho a separá-la da zona da sala. As paredes da casa tinham cores quentes mas estavam completamente despidas, tal como as janelas. Bella deve ter reparado na minha cara de admiração porque franziu a testa e entrou numa divisão que eu supus ser o ser quarto de dormir. Voltou com uma braçada de roupa de cama.

- Não tenho tempo para ir às compras. E depois sou só eu. A Alice quando me visita é por poucos dias. – Desculpou-se ela.

- Precisas de dinheiro? – Perguntei já a imaginar o que poderia fazer para colmatar essa falha. Se ela permitisse que eu fosse às compras com ela eu poderia pagar tudo o que ela quisesse. – Se precisares de companhia para ir às compras, podemos fazê-lo amanhã.

- Não obrigada. Eu tenho o essencial. – O tom que usou era perentório, não deixando margem para contrapor. – Pareces cansado, tens que dormir. Tens aqui lençóis, uma almofada e um saco cama que serve de cobertor.

- Obrigado, love.

- Se preferires dormir no chão, tens aqui material que podes utilizar. - Foi dizendo ela enquanto abria um armário embutido, no qual eu não tinha reparado por ter as portas pintadas da mesma cor da parede. Do seu interior retirou uma mochila de campista que tinha preso um colchão enrolado. A mochila revelava algum uso e estava bem apetrechada.

- Tens acampado ultimamente? – Perguntei curioso.

- Algumas vezes. Esta zona da Califórnia tem muitos microclimas o que suporta uma enorme biodiversidade. Stanford fomenta muito a investigação. Mas agora, talvez seja melhor dormires, mal te aguentas de pé. Queres beber um chá ou um leite quente antes de dormir?

- Não, obrigada, love. Estou realmente cansado.

- A casa de banho é por aquela porta, à direita. Não te assustes com o tamanho. Precisas de alguma coisa mais? – Eu dei-lhe um sorriso apenas. – Nesse caso até amanhã, Edward. Dorme bem.

Virou as costas e foi pela porta que me tinha indicado. Estiquei os lençóis e, na procura pela casa de banho, entrei num hall espaçoso que possuía três portas. Abri a porta mais à direita e entrei na casa de banho que era quase tão grande como a sala. Tinha uma janela enorme desde o teto até a meio metro do chão, que estava tapada com um enorme pano branco preso por dois pregos e um fio.

Acordei cedo na manhã seguinte por causa da claridade. Demorei dois segundos a perceber onde estava levantando-me de seguida enrolado no lençol. Cheirava a café mas não havia sinal de Bella. Fui até ao hall interior e, pela porta entreaberta, vi que a sua cama estava vazia. Cheio de curiosidade abri um pouco mais a porta e observei o seu quarto. Além da cama, havia um longo cabide com rodas e um sofá velho, idêntico ao da sala, ao lado da cama estavam três malas empilhadas que serviam de mesa de apoio. Em cima delas estavam três livros, a bolsa com o livro que lhe tinha oferecido e uma foto dela com Alice. Ouvi a porta de entrada a abrir e, procurando deixar tudo como estava, entrei na casa de banho para fazer a minha higiene diária.

- Bom dia, love. – Disse-lhe quando voltei para a sala já vestido e calçado.

- Bom dia. Fui comprar muffins para o pequeno-almoço, comprei também pãezinhos com queijo. Há leite, café, sumo de laranja, cereais e torradas. O que preferes?

- Normalmente passo com cereais e leite, mas havendo pãezinhos com queijo na ementa, não resisto.

- Eu vou acompanhar os meus com sumo multivitaminado, Bebes o mesmo?

- Sim, se fazes favor. Um café também pode ser.

Tomámos o pequeno-almoço relaxadamente, como se fosse um ato habitual nas nossas vidas. Quando estávamos a arrumar as coisas o meu telefone tocou.

- Bom dia Emmett. Precisas de alguma coisa?

- Bom dia mano, estou a interromper as tuas aulas? Preciso falar contigo.

- Não estou nas aulas, podes falar.

- Ontem a Bella fez anos, eu tentei telefonar-lhe mas ela não atendeu. Contudo, hoje a Alice ligou-me muito preocupada porque a irmã também não atendeu os telefonemas dela. – Emmett fez uma pausa como se ponderasse dizer o que queria. – Olha, acabei por ficar preocupado também. Não te queria preocupar mas… A Alice queria ir à Califórnia ver como está a irmã mas acontece que tem uns trabalhos para entregar no final da semana e não pode sair de Nova York. Pediu-me para ir lá eu. Não sei o que fazer. Diz-me a tua opinião.

Emmett mostrava-se pouco à vontade por me estar a ligar para falar desta situação. Ri-me do seu nervosismo, sabendo que teria que lhe dizer onde estava.

- Emmett, não fiques preocupado, a Bella está bem.

- Pois, é claro que está. Mas a Alice… Espera aí, como é que tu sabes? Ela atendeu o teu telefonema? Não. Não me digas que…

- Sim, eu estou na Califórnia em casa dela.

- Como?... – Imaginei que estivessem a passar mil e uma coisas pela cabeça do meu irmão. - Deixa lá, quando chegares quero que me contes tudo. Tenho que telefonar à Alice. Fica bem e dá-lhe um beijo de parabéns por mim.

- Xau, Em.

Suspirei enquanto colocava o telefone no bolso. Porque será que Bella não atendeu o telefone? Realmente não o tinha ouvido tocar nenhuma vez no dia anterior. Aproximei-me dela, peguei-lhe nas mãos e dei-lhe dois beijos na face.

- O Emmett pediu-me para te dar um beijo de parabéns. – Ela encarou-me com uma expressão de culpa, sem dizer nada. – O segundo beijo é meu. Na verdade houve um erro em tudo isto. - Vi-a empalidecer. Inclinei-me novamente e encostei os meus lábios aos dela. – O meu beijo era este. – Acrescentei numa voz enrouquecida.

Bella corou e mordeu o seu lábio inferior. Este seu gesto inconsciente era sinal do seu nervosismo.

- A tua irmã está preocupada contigo, devias telefonar-lhe. Ontem não atendeste o telefone nenhuma vez. Porquê, Bella?

- Não queria falar com ninguém. Tinha planeado passar o dia fora. Precisava de tentar esquecer tudo por um dia. – Os seus olhos estavam tristes. – Tu apareceste e eu pude fingir que estava tudo normal.

- Existem pessoas que se preocupam contigo.

- Vou telefonar-lhe agora. Prepara-te que vamos sair a seguir.

Virou-me as costas e foi para dentro. Quando voltou passado dez minutos, vinha sorridente e de sacola a tiracolo.

Passámos o dia a passear nas redondezas e a fazer algumas compras. Bella ficou muito incomodada por eu pagar as suas coisas e querer comprar outras para a sua casa. Ainda consegui que ela aceitasse comprar dois candeeiros, um de mesa para o seu quarto e outro de pé alto para a sala. Queria ter-lhe comprado mais coisas mas ela não deixou.

 Com o final da tarde chegou a hora da minha partida. Deixei-lhe um envelope com dinheiro junto aos lençóis, no sofá. Peguei no meu saco de viagem e no meu casaco e dirigi-me à porta.

- Espero que me telefones se precisares de alguma coisa. Podes contar comigo, não te vou falhar.

- Voltamos a ver-nos um dia destes. Talvez vá a casa dos teus pais, no dia de Ação de Graças.

- Posso voltar aqui, para te ver.

Puxei-a para mim e abracei-a com força. De repente, num ato impensado, larguei o saco e o casaco e beijei-a. Precisava de voltar a sentir os seus lábios. Quando me afastei para voltar a pegar nas coisas, ela lançou os braços ao meu pescoço e procurou a minha boca. Beijámo-nos com sofreguidão. Ficámos abraçados um minuto até ela se afastar.

- Obrigada por teres vindo.

- Amo-te, Bella.

- Gostei muito de te ver.

Regressei a Massachusetts mais tranquilo e com um plano em mente. A Alice iria divertir-se à grande.

publicado por Twihistorias às 18:00

09
Jun 13

- 5 -

B

As nossas férias em Itália foram muito boas. Finalmente tinha Edward para mim, a minha ousadia tinha dado resultado. A sensação que me dava era de poder, não no sentido de ser mais forte que os outros, mas no sentido de me sentir tão feliz que nada me poderia afetar. Tudo à minha volta parecia ter contornos mais suaves e cores mais vivas, não existindo sofrimento crónico nem nada sem solução. No fundo sabia que as coisas não eram bem assim mas queria aproveitar este estado de graça enquanto podia. Dizia todos os dias em voz baixa, como se fosse uma prece: vive o momento, amanhã é outro dia. “O amor triunfa sobre tudo, cedamos também nós ao amor”*.

 *(N. A.) Virgílio (Bucólicas)

Durante a viagem aconteceram coisas fantásticas - algumas só me apercebi delas mais tarde - que tiveram repercussões na nossa família.

A Rose e o Emmett que já se sabia terem apenas olhos um para o outro, ultrapassaram a barreira da mera atração física para descobrirem que estavam mesmo apaixonados e que não fazia sentido algum viverem um sem o outro. Assumiram-se como casal perante todos quando, na chegada da viagem, Carlisle lhes pregou uma partida a propósito de ainda não conhecer Rosalie oficialmente. Tinha sido a primeira vez que Emmett tinha levado uma namorada para casa, o que era, por si só, revelador do forte sentimento que nutria por ela. Assim, foi em família que ele pediu Rosalie em casamento, numa das raras ocasiões em que o vi nervoso. Com seriedade e paixão, fez uma declaração de amor que nunca pensei ouvir da sua boca. Rose aceitou, no meio de lágrimas e sorrisos, recebendo de seguida os parabéns de todos.

Só o Emmett para, apenas num mês, conhecer uma mulher, apaixonar-se perdidamente por ela e passar de desconhecido a noivo. Embora fosse notório que se amavam, Carlisle e Esme convenceram-nos a esperar algum tempo pelo casamento. Primeiro ele teria que acabar o seu curso e arranjar um emprego que lhe desse alguma estabilidade. Emmett cedeu mas foi dizendo que já trabalhava, que era financeiramente independente, e que ele e Rose iriam equacionar a hipótese de viverem juntos antes de casarem, independentemente da aprovação da família.

A grande surpresa aconteceu com Alice e Jasper. Alice desenvolveu uma espécie de paixão por Jasper que variava entre a adoração e a exasperação. Ela gostava do jeito calmo dele, da sua perspicácia, da sua integridade e responsabilidade, mas ficava igualmente furiosa com a sua introspeção, falta de diálogo e excesso de ponderação nas ações. Face a tudo isto ela provocava-o mais e mais e ele reagia ficando ainda mais retraído.

No último dia em Veneza, quando eles passaram parte da noite no mesmo quarto, para eu poder estar com Edward, tiveram uma conversa muito peculiar que Alice me contou depois de regressarmos à Villa.

Contou-me que, quando regressou ao quarto, encontrou Jasper sentado na cama mais pequena a dedilhar em cima do lençol e a escrever num papel todo rascunhado.

- Boa noite. Ainda não estás a dormir?

- Estou a escrever.

- A quem? À tua musa inspiradora? – Troçou Alice.

- Sim.

- Fazes bem, deve ser bem idiota para gostares dela.

- Talvez.

- O que diria ela se soubesse que eu te beijei?

Ele limitou-se a encolher os ombros.

- Não tens nada a dizer sobre isso?

- Podes repetir?

- Repetir o quê? A pergunta ou o beijo?

Ele riu-se, arrumou as folhas no bolso do seu saco de viagem e deitou-se.

- Dorme bem, Alice. Até amanhã.

- Até amanhã, Quasimodo. Sonha com ela.

- Dorme bem, Esmeralda.

A conversa terminou por ali, sem haver resposta à pergunta feita por Alice. Porém, ela acabou por descobrir quem era a tal musa de Jasper ao coscuvilhar no seu saco e encontrar as folhas onde ele tinha estado a escrever nessa noite. A partitura tinha apenas um título “Alice”. Impulsivamente, quando ele entrou no quarto para levar as malas para o carro, ela deu-lhe um beijo leve e murmurou “obrigada”, saindo em seguida sem lhe dar qualquer hipótese de reação.

Alice contou-me todos os detalhes de que se lembrava e foi com um brilhozinho nos olhos que referiu os beijos que tinham trocado e o sorriso que ele lhe deu quando entraram no carro para fazerem a viagem de regresso. Ainda a questionei sobre o estar ou não a apaixonar-se mas ela disse categoricamente que não, era apenas “atração física”. Eu nunca a tinha visto assim, mas o Jasper era realmente muito bem-parecido e possuía tudo o que era necessário para chamar a atenção da minha irmã. A sua timidez e a sua áurea de mistério exerciam um poder enorme sobre Alice. Ela sempre adorou enigmas e desafios.

Imprevisivelmente, a nossa família estava a aumentar e a assumir uma nova dinâmica. Eu andava felicíssima com o meu namoro escondido, tanto que sabia que acabaríamos por ser apanhados mais tarde ou mais cedo. Durante a reunião familiar protagonizada por Carlisle, o Edward ainda me olhou perguntando-me silenciosamente se nos assumíamos também, mas eu não me senti capaz. Havia qualquer coisa que me dizia para não o fazer. Edward aceitou a minha decisão embora eu tenha notado que ele não compreendia o porquê. Teríamos que falar sobre isso o quanto antes, porém ao longo do dia não houve um só momento em que ficássemos sozinhos.

À noite, quando fui para o quarto, procurei encontrar razões para esta minha insegurança, não conseguindo encontrar nada. Tinha apenas uma sensação desagradável cada vez que pensava em contar aos meus pais que namorava. Iria esperar por Edward para conversarmos.

Tomei um banho para relaxar e vesti uma lingerie sensual. - Já tinha decidido que queria fazer amor com Edward, pelo que o momento certo podia surgir a qualquer altura, teria que estar preparada. - Mesmo sabendo que, muito provavelmente, não aconteceria nada esta noite, dada a conversa que tínhamos que ter, acendi várias velas pelo quarto que libertaram um aroma bem agradável. Recostei-me na cama, peguei num livro e esperei por ele.

Quando ele surgiu, batendo na porta da sua forma característica, eu estava tão impaciente que já estava a ponderar se haveria de ir eu mesma ter com ele ao seu quarto. Suspirando de alívio, corri até ele, lançando-me nos seus braços.

- Hummmm. Isso é tudo alegria por me ver? Que bom. – Disse ele, rindo mas não me largando.

- Eu… pensava que já não vinhas e preciso de te dizer uma coisa.

Ele encaminhou-me até à beira da cama e fez-me sentar, fazendo o mesmo.

- Diz. Tens toda a minha atenção.

Fixou os meus olhos à procura do motivo do meu nervosismo e prestando atenção a todos os meus movimentos. A minha respiração era irregular e as minhas mãos retorciam-se, uma na outra.

- Eu tenho medo de contar aos meus pais que estamos juntos. – Falei tudo de uma só vez e depois calei-me, pedindo-lhe, com um gesto, para que não dissesse nada. Respirei fundo e continuei a minha explicação. – Eu não sei porquê, mas tenho um pressentimento nefasto, como se houvesse alguém ou alguma coisa a dizer-me que isso seria o nosso fim.

Edward abraçou-me forte, suspirou profundamente e nada disse.

- Não quero perder-te, - acrescentei num fio de voz.

- Pensei que não estivesses segura da nossa relação, – disse ele após um longo silêncio. – Esse teu medo não tem nada a ver comigo? É só com a reação dos teus pais?

Acenei a cabeça positivamente. Ele levantou-me o rosto com as duas mãos e voltou a encarar-me como se procurasse alguma coisa escondida no meu semblante, ficando à espera que eu dissesse alguma coisa que o esclarecesse nas suas dúvidas.

- Nós não precisamos de dizer nada a ninguém. Eu também fui aceite na universidade de Boston, posso ir para lá em vez de ir para Stanford. Ficamos próximos o suficiente, para nos vermos todos os dias ou quase todos os dias. Se tu quiseres que eu esteja contigo, claro, – disse eu, um pouco envergonhada por estar a fazer planos à sua volta.

Eu não sabia explicar-lhe o meu medo, nem para mim conseguia fazê-lo, eu só tinha a certeza que não podia correr o risco de o perder.

- Bella, minha Bella. Bellissima. Eu quero tudo o que for melhor para ti e sim, sou suficientemente egoísta para te querer junto a mim.

Aproximou a sua cabeça da minha e beijou-me com ardor. O meu alívio fez transbordar os meus olhos e ele beijou cada uma das minhas lágrimas enxugando o meu rosto e fazendo-me desejá-lo ainda mais.

- Fica comigo, preciso de ti para ser feliz.

- Sempre, sempre. Serei sempre teu.

A necessidade de nos prendermos um ao outro, como se quiséssemos impedir que alguém nos separasse, levou-nos a intensificar ainda mais os beijos e as carícias e a aumentar o toque dos nossos corpos. Edward deslizava as suas mãos pelo meu corpo, afastou o robe, e começou a beijar-me o pescoço e o peito. O contacto das suas mãos na minha pele causava-me arrepios.

Deitou-me na cama e desceu uma mão desde o meu rosto até às minhas pernas, subindo num contacto mais íntimo e parando nos meus seios. Sem parar de me beijar, estendeu-se ao meu lado e puxou-me para cima dele, demorando as suas mãos nas minhas ancas. Lentamente, foi tacteando as minhas costas, fazendo-me arrepiar e tremer, enquanto murmurava o meu nome. Virou-me novamente, desta vez ficando ele por cima, e de repente afastou-se, rindo do meu protesto e da minha mão que tentava puxá-lo para mim. Sem compreender o que ele pretendia, senti-o beijar-me os pés e subir pelas minhas pernas, deixando um rasto molhado e quente. Sobressaltei-me quando ele beijou as minhas calcinhas e levei, automaticamente, as minhas mãos ao seu cabelo, remexendo sem parar, enquanto ele continuava o seu percurso pela minha barriga. Quando chegou aos meus seios e procurou os meus mamilos, eu não contive alguns gemidos de prazer que o fizeram tapar-me a boca com uma das mãos num pedido de silêncio. Afundei a cara na almofada para abafar os sons que não conseguia conter. Não aguentando mais, puxei-o para mim e beijei-o com ardor.

- Amor? Tens a certeza que…

Respondi à pergunta que ele me queria fazer, beijando o seu rosto desesperadamente e mordendo-lhe uma orelha. Ele sufocou o seu próprio gemido esmagando a sua boca no meu pescoço e apertando-me ainda mais contra ele.

- Bella. Se avançarmos mais não vou conseguir parar. Estás a pôr-me doido. – A voz de Edward saiu rouca o que me excitou muito.

- Eu quero-te, agora e para sempre. Ama-me, preciso de ti. – Mordi-o outra vez e passei a minha língua pelo seu pescoço. O seu sabor era incrível, jamais iria esquecer este gosto forte e potente.

- Amo-te – disse Edward rendendo-se, por fim, ao desejo.

Ouvi uns sons estranhos que não se coadunavam em nada com o que estávamos a fazer.

- Querida, adormeceste com as velas acesas?

Choque. Parámos repentinamente ao ouvir a voz da minha mãe. Edward ainda teve o sangue frio de puxar o lençol para nos tapar e segurar a minha mão que, tal como eu, tremia completamente descontrolada. Nunca anteriormente, nos meus quase dezoito anos de vida, me senti tão exposta e tão humilhada.

- Bella! Edward? Mas… O que vem a ser isto? - Renée falava bastante alto e encolerizada. – Vocês não têm vergonha?

-Mãe, nós… - Não consegui continuar.

- Vocês, o quê? Diz-me.

- Nós estamos juntos, – disse Edward com voz clara mas agitada.

- Não podem. Isso não pode acontecer. Vocês são irmãos. Estão loucos? – Renée olhou-me fixamente e continuou enfurecidamente. – Diz-me que não é verdade, que isto não passa de uma brincadeira de adolescentes.

- Mãe, eu amo-o. – A minha voz suou fraca e pouco nítida.

- Isto é uma desgraça. Vocês estão a desgraçar a nossa família. Tu não passas de uma menina desmiolada e oferecida.

Esta última afirmação bateu-me como se fosse uma bofetada. Eu nunca fui nem uma coisa nem outra. As minhas notas na escola foram sempre boas, nunca namorei, nunca usei drogas, nem nunca bebi bebidas alcoólicas. A coisa mais grave que fiz foi dar uma passa num cigarro, coisa que não voltei a fazer porque fiquei tão maldisposta que vomitei tudo o que tinha comido antes.

- Não é verdade, – ainda tentei dizer-lhe, mas a voz não saiu, apenas consegui mexer os lábios.

Renée começou a dizer coisas sem nexo e a andar de um lado para o outro. Tinha uma expressão doentia e lágrimas a cair.

- Estou contigo para o que der e vier. Não tenhas medo, estamos juntos, – segredou-me Edward ao ouvido.

A porta do quarto voltou a abrir-se.

- Bella, querida? O que se passa? Renée, estás bem? – Esme entrou desarvorada pelo meu quarto, sendo seguida por Carlisle.

- Está tudo errado. Vê o que se passa debaixo do nosso telhado. Os nossos filhos desgraçaram-nos. Nós não merecíamos esta deslealdade.

A vergonha que senti foi tão grande que as lágrimas começaram a cair pelo meu rosto sem parar. Edward tentava dizer-me alguma coisa mas não percebi o quê. Eu só consegui ver o olhar acusatório da minha mãe.

- Edward, veste-te e vai para o teu quarto. Já lá vou ter contigo, – disse Carlisle tentando dar ordem a esta confusão. – Bella, vamos deixar-te acalmar. Precisas que alguém fique contigo?

Abanei a cabeça porque o choro não me deixava falar.

- Renée, Esme, vamos descer e beber qualquer coisa. De cabeça quente não se consegue resolver nada e eles precisam de privacidade e tempo para colocar algumas roupas.

Saíram todos do quarto e nós ficámos sozinhos novamente. Não consegui mexer-me, ainda estava hipnotizada pela reação da minha mãe.

Edward acabou por me ajudar a vestir, vestindo-se também, rapidamente. Abraçou-me forte e deu-me beijinhos na testa e nos cabelos.

- Bella, estás bem? – A sua voz chegou até mim como se estivesse muito longe.

Vendo que eu não respondia, Edward sentou-me na cama ao seu lado e continuou abraçado a mim. Encostou a minha cabeça no seu ombro e deixou-me chorar por um bom bocado. Quando eu já estava mais calma, ele enxugou-me o rosto carinhosamente e beijo-me os lábios levemente.

- Bella, olha para mim, – ordenou. – Aconteça o que acontecer, eu estou contigo. Nunca te esqueças que és a pessoa mais importante da minha vida. Amo-te muito. Compreendes tudo o que te estou a dizer? Fala comigo, amor. - A sua expressão era de desespero.

- O que vai ser de nós, Edward? Eu sabia que eles não iam aceitar o nosso relacionamento. O que é que nós vamos fazer? – As lágrimas recomeçaram a cair.

- Não chores, amor. Escuta-me com atenção. – Esperou que eu me acalmasse novamente antes de continuar a falar. – Eu vou falar com o meu pai e vou convencê-lo que gostamos realmente um do outro e que o nosso amor não é uma paixão passageira. Tu vais ficar aqui a descansar. Tenta dormir e não chores mais. Assim que estiver tudo resolvido venho aqui para te contar como foi.

- Eu vou contigo. Não quero ficar sozinha. – Eu estava quase em pânico.

- Será mais fácil se eu for sozinho. O Carlisle é compreensivo, vai aceitar-nos. Promete-me que ficas aqui e esperas por mim.

O seu olhar fixo intimidou-me e fez-me acreditar que tudo se resolveria.

- Sim, eu espero. Promete-me que vens. Seja a hora que for.

-
Prometo. Espera por mim. - Deu-me um beijo mais demorado, levantou-se e dirigiu-se à porta. Virou-se para trás e deu-me um meio sorriso.

- Amo-te.

Foi a última coisa que me disse antes de desaparecer pela porta do quarto e deixar-me sozinha, entregue aos meus fantasmas. Na verdade o fantasma era só um e tinha o rosto da minha mãe.

Esperei durante bastante tempo mas não havia meio de ele voltar. Desci e encontrei a família toda reunida na sala de estar, o que me causou calafrios. Quando deram por mim, Aro levantou-se e veio ter comigo.

- Ciao, Bella, come stai?

Aceitei as suas mãos, deixando-me encaminhar para um cadeirão.

- Ainda bem que estás presente. Há umas quantas coisas que te quero perguntar. – O meu pai era frio e cortante ao falar. – É verdade que manténs um relacionamento com Edward?

- Nós estamos juntos. – Procurei Edward com o olhar. Ele estava na outra ponta da sala, junto ao Emmett, e aparentava um grande cansaço e desilusão. Retribuiu o meu olhar com uma expressão de grande sofrimento.

- Ele é teu irmão, – gritou Renée.

- Não, não é. – Tentei levantar-me mas Aro não deixou.

- Mãe, todos nós sabemos que isso não é bem verdade. Crescemos juntos como irmãos mas não somos do mesmo sangue, – disse Alice, pausadamente.

A minha mãe olhou em pânico para o meu pai, antes de voltar a fixar o olhar na minha irmã.

- E desde quando a nossa família é de sangue? Os laços que nos unem são mais fortes que os de uma família normal precisamente por isso, porque sempre demos valor ao que sentíamos e não ao que as ligações sanguíneas representam.

- Que mal tem eles ficarem juntos? Fazem parte da família e irão continuar a fazer, a única coisa que muda é o relacionamento deles. Oficialmente eles podem até casar, já que não são verdadeiros irmãos. – Emmett tentava explicar de forma simples o que pensava; ele via sempre as coisas pelo lado positivo.

- Emmett, tu consideras Edward como irmão? – Esme perguntou.

- Sim, claro.

-No entanto vocês não têm qualquer laço sanguíneo, achas que a diferença está no papel de adopção que ambos têm?

- Claro que não. Ele é, sempre foi e continuará a ser meu irmão. Crescemos juntos.

- Precisamente. E Alice? Gostas menos dela por não ser do teu sangue?

- Também considero Alice como minha irmã.

- Pois consideras, – continuou Esme como se estivesse a dar uma aula a uma criança pequena. – Porque é que com Edward e Bella tem que ser diferente? Eles cresceram como irmãos. É antinatural mudarem esse estatuto.

- Eu não acho. Eles é que sabem o que sentem, não somos nós. – Com isto deu uma palmada na mão de Edward que lhe agradeceu a defesa.

- Não posso aceitar uma coisa dessas. – Renée continuava com o mesmo olhar. Desviei o olhar do dela por ser demasiado penoso suportá-lo.

- Eu estou com Bella e Edward. Ela nunca olhou para ele da mesma forma que olha para Emmett. Provavelmente foram vocês as duas que provocaram tudo isto, ao obrigarem que eles se olhassem como irmãos desde pequeninos. – Alice acusou a mãe e Esme de forma impiedosa e séria. – Irei sempre defender aquilo que me ensinaram: o valor dos sentimentos e não os laços de sangue. Eles amam-se.

Permaneceram todos calados, olhando uns para os outros, como se avaliassem de que lado haviam de ficar.

- Isabella Swan. Espero que estejas consciente da divisão que estás a causar nesta família. – O meu pai levantou-se e dirigiu-se a mim. – Se insistires em levar a tua para a frente podes esquecer que eu sou teu pai. – Fez-se um silêncio sepulcral na sala. – Tens que assumir as consequências dos teus atos. Se a tua decisão for abandonar a família, a tua mesada deixa de existir e o pagamento das mensalidades da Universidade ficam por tua conta. Pensa bem no vais fazer. E lembra-te que o fundo que herdaste da avó Swan só pode ser mexido depois de atingires os vinte e um anos.

- Pai! – Gritei completamente desesperada.

- Quando tiveres a certeza que me queres como pai avisa a minha secretária. Até lá não voltes a dirigir-me a palavra.

Charlie voltou as costas e dirigiu-se à biblioteca, onde dormia sempre que vinha à Villa. Havia anos que não dormia com a Renée.

Carlisle levantou-se também. Olhou para todos e, na sua voz pausada e calma, disse-nos o que fazer.

- A noite foi muito longa, vamos todos dormir. Amanhã será um novo dia e uma nova oportunidade para resolver este problema de cabeça desanuviada.

Alice arrastou-me escadas a cima até ao meu quarto, furiosa da vida com o rumo que as coisas levaram. Edward deve ter tentado seguir-nos porque ouvi Carlisle dizer para ele ficar mais um pouco onde estava. Emmett gritou que a “família era inacreditável” e saiu batendo com a porta. Não ouvi nem vi mais nada. Assim que chegámos ao quarto, atirei-me para a cama e desatei a chorar convulsivamente. Alice abraçou-me mas eu gritei-lhe para me deixar sozinha. Gritei, chorei e esperneei mas a minha persistente irmã não me abandonou e ficou ao meu lado até eu deixar de ter voz para gritar e lágrimas para chorar. Nunca antes me senti tão miserável, tão sozinha, tão sofrida. A minha dor era tão grande que me custava respirar. Era como se tivesse costelas partidas. Acabei por adormecer, depois de Alice me obrigar a tomar uns calmantes que alguém levou à porta.

Quando acordei era de noite. Demorei uns minutos a situar-me até vir tudo à minha cabeça com uma força demolidora. Eram quatro horas da manhã. Eu tinha dormido todo o dia e grande parte da noite. Levantei-me, fui à casa de banho e, já bem desperta, decidi que a primeira coisa que tinha a fazer era falar novamente com Edward, para saber como estavam as coisas. Pé ante pé, fui ao seu quarto ter com ele. Abri a porta com cuidado e entrei em silêncio. Dirigi-me à cama mas esta estava vazia. Fiquei confusa. Será que ele não consegue dormir e se levantou? Fui até à cozinha mas estava tudo apagado. Voltei ao seu quarto e acendi a luz. Levei a mão ao peito. O quarto estava vazio: a sua roupa, o seu saco de viagem, a guitarra que eu lhe dei, tudo tinha desaparecido. Agarrei a sua almofada e levei-a à cara para sentir o seu cheiro. Era inconfundível e inesquecível. Sentei-me na cama e deitei-me mas ao fazê-lo senti um barulho de papel e procurei a sua origem.

O Edward tinha deixado um bilhete para mim.

Amor: Lembra-te de tudo o que dissemos na nossa última conversa. Aconteça o que acontecer és e continuarás a ser a pessoa mais importante da minha vida. Não posso aceitar que o amor que sinto por ti seja considerado pecaminoso. Arranjarei maneira de falar contigo em breve. Amo-te mais do que à própria vida. Eternamente teu, Edward.

Se eu pensava que já não era possível sofrer mais do que eu tinha sofrido, enganei-me redondamente. O saber que Edward tinha ido embora sem me dizer mais nada e sem lutar pelo nosso amor perante os nossos pais foi o derradeiro sofrimento. A dor que senti foi tão forte que perdi os sentidos.

Tudo o que se passou nos dias seguintes até voltar para os Estados Unidos ficou gravado como um borrão numa folha. Foi Alice quem me contou o que se passou, mais ou menos pormenorizadamente.

Edward foi embora porque a Esme e a Renée fizeram chantagem com ele, convencendo-o de que ele não estava lúcido o suficiente para ver a asneira que estava a cometer e que me iria prejudicar mais se continuasse a insistir em ficar comigo. Elas responsabilizaram-no pela atitude extrema que Charlie tomou e ele assumiu a culpa, tanto que pediu a Carlisle para me pagar as despesas da Universidade.

Emmett defendeu-nos o tempo todo mas nunca ninguém o levou a sério; acabou por regressar a Boston, com Rosalie e Jasper.

Alice nunca me abandonou, protegeu-me sempre e não voltou a deixar que a minha mãe e eu ficássemos sozinhas. As únicas pessoas com que eu falei foi com Alice e Aro que, embora entendesse a minha mãe, achava que desta vez a razão estava do meu lado.

Edward telefonou de Cambridge mas eu não estava em condições de atender o telefone e, quando já estava em Stanford, recusei falar com ele. Estava demasiado magoada.

Alice ainda tentou interceder por ele mas eu não fui sensível aos seus argumentos. Edward tinha ouvido a minha mãe chamar-me de desmiolada e oferecida e não me defendeu e, durante aquele estúpido julgamento na forma de reunião familiar, ele nunca abriu a boca para dizer o que quer que fosse. Foi uma humilhação ser tratada daquela forma pelos nossos pais, mas o saber que ele não me defendeu foi mil vezes pior. O saber que ele se deixou convencer pelas psicologias baratas das nossas mães significava que ele não acreditava verdadeiramente no poder do nosso amor.

Um mês mais tarde, durante uma das visitas de Alice, ele telefonou para ela e a traidora passou-me o telefone para as mãos, obrigando-me a falar com ele.

- Bella? Não desligues o telefone. – Não respondi mas também não desliguei. – Sei que estás a sofrer por causa de tudo isto, desculpa. O meu sofrimento também é enorme.

- É enorme? Porquê?

- Bella! Como podes duvidar de mim?

- Porque tu também duvidaste. Pediste-me para acreditar no teu amor mas duvidaste dele com as conversas falsas da Renée e da Esme. Como pudeste deixar-te convencer que me prejudicavas se ficasses comigo? Eu pedi-te para ficares comigo, disse-te que sem ti não era capaz de ser feliz. – Fiz uma pausa engolindo em seco. - E tu acreditaste nelas.

Silêncio.

- Desculpa não queria magoar-te. Pensei que o Charlie pudesse fazer-te ainda mais mal.

- O Charlie? O máximo que ele me podia fazer, fê-lo à tua frente. Ele já não me é nada. Agradece ao teu pai por mim, e diz-lhe que quando acabar o curso lhe pago tudo o que está a gastar comigo.

-Bella, tenta compreender.

- Tu não me defendeste de nada e deixaste-me sozinha sem me dizeres nada. Fica bem Edward. Adeus.

- Bella, espera.

Desliguei o telefone. Eu iria esperar mas não por ele. Eu iria esperar para sempre por alguém que nunca viria, simplesmente porque o meu sentimento era de tal forma intenso e absorvente que nunca desapareceria e porque o Edward que eu tanto amava não existia. Larguei o telefone e desabei chorando desalmadamente.

publicado por Twihistorias às 20:19

31
Mai 13

- 4 -

E

Aconcheguei-a melhor a mim e tapei-a com a manta que a hospedeira me tinha dado. Bella dormia. Sorri ao pensar que ela queria que eu a tratasse por Isa. A minha menina, tão temperamental, e tão desejável. Sentia-me um pateta bobo a seu lado. Ela tinha o dom de me deixar desorientado, com o quanto era capaz de me surpreender.

Gostaria que me tocasses como tocas as cordas da tua guitarra.”

O que é que um homem apaixonado pode dizer a um pedido destes? Fiquei sem chão quando li o cartão que ela tinha prendido no gigbag. Confesso que fiquei um pouco envergonhado, porque já tinha pensado muitas vezes em tocá-la, não da forma como ela pediu, mas com um sentido de entrega semelhante, como um homem toca a mulher que ama.

Desejei-a tanto, amei-a tanto e ali estava ela, a dormir nos meus braços e a sorrir. Que sonho estaria ela a ter? Parecia feliz. Não mais do que eu. Não era possível haver alguém mais feliz do que eu naquele momento. Esperei seis anos por uma oportunidade com ela. Porém, foi ela que me procurou e me obrigou a ver que tinha chegado a nossa hora, que me fez ver que ela era já uma mulher e que sabia bem o que queria. E ela, surpreendentemente, queria-me a mim. Nada podia fazer quanto a isso porque eu já era dela. Sempre fui.

Desde sempre que tive por ela um sentido de proteção e fascínio. Adorava as duas irmãs mas enquanto para mim, a Alice representava uma irmã verdadeira, no sentido afetivo, Isabella representava um papel diferente, mais poderoso e cativante, que só mais tarde entendi o que era. Percebi que a amava quando tinha dezasseis anos e não conseguia ver em nenhuma rapariga aquilo que via em Bella.

Aos doze anos, Bella era uma menina simples, ingénua mas autónoma, que adorava falar. Falar sobre tudo, com todos, de coisas tão díspares como o tempo ou o que queria ser no futuro. Falava com segurança, às vezes até com uns laivos de petulância, que revelavam a sua enorme vontade de ser levada a sério. Quando alguém se dispunha a conversar com ela e a partilhar opiniões, Bella respondia à altura, com paixão e um brilhozinho nos olhos, sedenta de conhecimento e partilha. Talvez por isso, encantava os adultos e me fascinava tanto.

Envergonhado comigo mesmo pelo sentimento que nutria por ela, optei por me isolar ainda mais. Ninguém poderia saber ou sequer suspeitar desta minha estranha paixão. Talvez com o tempo isto passasse e eu pudesse ser um rapaz normal.

Perdi esta vã esperança quando ela me disse que me amava e me queria para ela. Puro inferno. Já era tão difícil suportar e esconder os meus sentimentos, como é que era possível ouvir isto e permanecer incólume?

Catorze anos, ela só tinha catorze anos. Eu não tinha alternativa. Fugir dela e desse sentimento era a única solução, por isso afastei-me. O sofrimento que vi nos seus olhos magoou-me e perseguiu-me por muito tempo, sabia bem que o culpado era eu. Para amenizar a minha dor, mentalizei-me que ela iria superar tudo com facilidade, afinal era ainda muito nova e tinha pouca ou nenhuma experiência de vida.

A minha fuga coincidiu com a minha ida para a Universidade, para aquilo que na altura pensei ser uma nova fase da minha vida, onde tudo poderia mudar. Deixei de passar férias com a família, limitando o nosso contacto às reuniões familiares a que não podia faltar. A sua quase indiferença alegrava-me e feria-me. Tentei relacionar-me com outras mulheres mas nenhuma delas me fez esquecer Bella. Era impossível não estabelecer comparações e Bella ganhava todas. Cheguei a pensar que o que sentia era uma paixão sem sentido e que o alvo da minha perdição não era real. Pus em causa a minha própria sanidade mental. E se eu tivesse um qualquer distúrbio mental não diagnosticado?

Julguei que enlouquecia quando, ao fim de tanto tempo, ela voltou a entrar na minha vida de rompante, apanhando-me de surpresa. Novamente.

- Já sou adulta. Dentro de algumas semanas faço dezoito anos, vou para a Universidade e residirei sozinha. Sou uma mulher independente. Há quatro anos rejeitaste-me por ser nova demais. Estou a dar-te uma nova oportunidade. O que sinto por ti não desapareceu. Queres-me agora, aqui no presente, ou continuas a achar que não sou mulher suficiente para ti?

Este seu discurso longo e pausado foi proferido numa voz amargurada e dura, carregada de sofrimento. Quando se voltou para mim e a olhei nos olhos, estes espelhavam ira e medo. Recriminei-me automaticamente por todo o mal que lhe causei. Acariciei o seu rosto, com voluptuosidade, expondo a minha própria vulnerabilidade perante o esforço hercúleo que ela fazia para não chorar. Rendi-me. Abracei-a, não deixando espaço para nada entre nós. Queria-a para mim. Sentia uma necessidade visceral em prendê-la a mim e nunca mais a largar. Ela era muito mais que suficiente para mim, ela era exatamente à minha medida.

Não dormi nessa noite. Não podia perder nada do que se estava a passar. Tinha medo de adormecer e perceber que nada disto era real. Conversámos muito sobre nós, a nossa vida, os cursos, as férias… até Bella adormecer nos meus braços. A sensação que me invadiu foi ainda melhor. Pude observá-la sem restrições, tocar no seu rosto e cabelo, brincar com a mão que ela tinha pousado no meu peito, respirar o seu cheiro e inebriar-me com a sua presença. Sobre a madrugada, levantei-me cuidadosamente para não a acordar e cobri-a com um cobertor. Sentei-me num cadeirão no fundo do quarto e peguei na guitarra que ela me tinha oferecido, uma Gibson acústica de um modelo caríssimo. Tinha duas letras gravadas: IS.

Definitivamente era uma provocação. Mais uma. Eu não devia estar admirado. Esta, porém deixou-me satisfeito e feliz. Teria que lhe mostrar a forma como ela merecia ser tocada. Comparar-se a uma guitarra era desvalorizar os meus sentimentos. Nestas férias ela iria descobrir a dimensão e magnitude do amor que sentia por ela.

Estávamos a voar para Madrid, e de lá seguiríamos para Milão. O voo, que antigamente parecia tão monótono e demorado, estava animado pela sua presença e pelo reconhecimento do que sentíamos um pelo outro. Eu estava nas nuvens, em todos os sentidos.

Conseguira transferir o bilhete de Emmett para mim, dado que o meu apaixonado irmão não queria sair dos Estados Unidos sem a sua Rose. Eles e Jasper só viriam dentro de semana e meia.

A Alice parecia demasiado introspetiva. Sentada no banco do outro lado do corredor, passou quase toda a viagem a olhar pela minúscula janela. Não era nada natural nela. Provavelmente não queria incomodar-nos.

Voltei a minha atenção para a minha linda. Estávamos quase a fazer escala e era preciso acordá-la. O que até era bom, porque eu precisava de ver o amor espelhado nos olhos dela para ter a certeza que estava acordado. Beijei-a no cabelo e nas faces, levei as suas mãos aos meus lábios e sussurrei o seu nome. Ela foi acordando aos poucos, sorrindo e espreguiçando-se disfarçadamente.

- Acorda dorminhoca. Temos que mudar de avião.

- Oi love, estava a sonhar contigo, – disse-me ela dando-me um beijo leve e a certeza de que estávamos efetivamente a viver a realidade.

A escala no aeroporto de Madrid foi curta, mal deu tempo para beber um café forte. Eu precisava bastante de me manter acordado. Passadas duas horas estávamos em Milão. Levantámos a bagagem e o carro que eu tinha alugado e rumámos à Villa.

Renée recebeu-nos muito bem como sempre, com beijos e abraços e uma sopa de tomate com torradas alla parmigiano, que comemos na enorme mesa de madeira da cozinha. Eu estava tão cansado que depois de levar as malas das meninas e as minhas para os nossos respetivos quartos, me estiquei sobre a cama adormecendo em seguida.

 Acordei no dia seguinte, perto da hora de almoço, parcialmente despido e debaixo do lençol. Tomei um banho e desci até à cozinha. Um cheiro maravilhoso de tomate invadia todo aquele espaço. Parecia não estar ninguém em casa. Enchi um copo com leite, peguei num pedaço de bolo de laranja e fui lá para fora, comer no alpendre. Deixei-me ficar por ali a tomar o meu “pequeno-almoço”, aproveitando o tempo agradável e a vista sobre o mar, quando a minha visão periférica captou uma mancha de cor no fundo do jardim.

Bella estava deitada na relva e abria as pernas e os braços como se estivesse a fazer um anjo na neve. Percebi que sorria e falava para si mesma. Ao seu lado estava um ramo de umas coisas verdes. Mantive-me imóvel, incapaz de desviar o olhar, deliciando-me com este quadro. Passado algum tempo, talvez pressentindo que estava a ser observada, virou a cara para a casa e viu-me ali a olhar para ela. Levantou-se e, numa corrida graciosa, aproximou-se.

- Bom dia, love. Dormiste bem? – Perguntou ela enquanto passava a mão no meu cabelo e se sentava ao meu lado.

- Como uma pedra. E tu?

- Quentinha. – Olhou para mim e riu. Inclinou-se na minha direção, puxou a minha cabeça para ela e passou a sua língua nos meus lábios.

- Isso foi para quê? – Indaguei tentando assimilar o seu à-vontade.

- Tinhas um bigodinho de leite. Muito bom.

- A brincadeira foi divertida? – Interroguei indicando o local onde ela estivera deitada, há momentos atrás.

- Precisava de basilicum para a pasta.

- Precisavas do quê? És tu que estás a fazer o almoço?

- Ocimum basilicum, isto é, manjericão. Estou a fazer uma pasta para nós dois, vais gostar de certeza. A Alice e a Renée foram às compras e comem por lá. Falta um vinho tinto encorpado para acompanhar, mas não encontro o que quero. Se estivesse em Forks pediria à Sue, ela sabe sempre essas coisas.

Estava cada vez mais espantado. Tanto quanto sabia Bella não gostava de bebidas alcoólicas, nem sequer tinha idade para as beber. Será que era para me impressionar? Não sabia o que dizer de tudo aquilo, nem o que pensar, por isso mudei de assunto.

- Há planos para depois de almoço?

- Não, mas arranjo um rapidamente. Como não sabia se irias dormir até mais tarde, não pensei em nada. Sabias que tens um sono muito pesado? – Olhava-me inquiridoramente com um sorriso meio escondido.

- Como assim? – Tremi de apreensão com o que viria por ali.

- Ontem adormeceste em cima da cama. Foi um trabalhão tirar-te os sapatos e a roupa. Com as calças até que foi mais fácil do que previa mas a camisola foi um custo. E meter-te na cama? Quase não conseguia que te levantasses para puxar o lençol. Resmungaste o tempo todo. Não percebi nada do que dizias. Estavas a sonhar com alguma coisa má?

Não acreditava que aquilo me estivesse a acontecer. Foi ela quem me despiu? Eu acordei de t-shirt e boxers. O meu coração batia descompassadamente e a minha respiração acelerou.

- Estava muito cansado, obrigado por me ajudares. – Preferi não referir nada sobre o sonho, primeiro porque não me lembrava e depois porque era normal eu sonhar com ela e isso não iria dizer-lhe. – Ficaste no meu quarto muito tempo?

- Depois de trocar de roupa voltei para lá e fiquei a noite toda contigo. Não era essa a ideia mas, quando me deitei ao teu lado, tu prendeste-me e não me deixaste sair. – Fez uma pausa com expressão sonhadora. - O teu cheiro é muito agradável.

Saltou para o meu colo, abraçou-me, deslizou o nariz pelo meu pescoço e inspirou profundamente, deixando-me arrepiado. Deu-me um beijo rápido junto à clavícula e fez menção de se levantar.

- Vamos, tenho que ir picar as ervas aromáticas para a pasta.

Apertei-a firmemente contra mim, não a deixando sair dali.

- Enfeitiças-me e depois vais-te embora? Nem penses.

Aproximei-me do seu rosto e beijei-a. Lentamente, ao início, só roçando os lábios, depois passando a língua. Como se proferisse uma palavra mágica em jeito de abre-te sésamo, o convite foi prontamente aceite. Ela abriu a boca permitindo-me a sua exploração. O beijo progrediu despoletando um desejo imenso que apressou os nossos movimentos e estreitou o nosso abraço. Para podermos respirar, desviei a minha boca para o seu maxilar e pescoço, fazendo-a arrepiar. Mordi-lhe levemente o lóbulo da orelha, o que a fez gemer alto. Regressei à sua boca e depois novamente ao pescoço, dando-lhe pequenas mordidas entre beijos e lambidelas. Os gemidos dela acirraram-me muito mais do que eu pensei ser possível. Relaxei um pouco os braços e abrandei o beijo. Ela percebeu a situação e não forçou os limites. Ficámos abraçados, dando tempo para acalmar a nossa excitação.

Depois, entrámos em casa com o propósito de terminar o almoço mas em vez disso, optámos por subir, trocar de roupa e sair para dar um passeio. Passámos pela Via Arziglia, em direção à marina e entrámos na zona mais antiga de Bordighera. Fomos até à Via Aurélia, onde parámos para comer qualquer coisa e continuámos o passeio a pé. Era muito agradável passear de mão dada com Bella.

- Sabias que esta estrada ligava Roma à Gália?

- Sim, creio que já ouvi o Aro mencionar esse facto. Quando ele começa a falar de história, não pára, parece um viajante no tempo. Faz com a cabeça aquilo que a sua preguiça não permite.

Ela riu-se e apertou-me mais a mão.

- Por vezes apetecia-me colocar uma mochila às costas e partir por aí, à descoberta e à aventura, estrada fora, entre florestas e prados. – Bella olhava sonhadora para a estrada sinuosa, vendo além do que estava realmente lá.

- Vais sozinha ou posso acompanhar-te?

- A tua presença é imprescindível. – Pôs-me a língua de fora e voltou a rir-se. – Não conseguiria levar tudo o que queria numa só mochila. Preciso da tua força.

- Pois claro. Para que outra coisa serviria… - Fingi uma cara de amuado.

- Servirias para me incentivar a continuar quando eu estivesse cansada, para me segurar quando eu caísse, para me proteger quando fizesse alguma loucura, para me orientar quando estivesse perdida, para me aquecer nas noites frias, para tocar para mim, para lutar por mim, para me fazer feliz.

- Amo-te. – Sussurei ao seu ouvido, abraçando-a forte. – Terei todo o prazer em fazer tudo isso e muito mais. Por ti serei o que precisares que eu seja.

Percebi, naquele momento, que o que Bella sentia por mim era tão intenso como o que eu sentia por ela. Compreendia melhor também todo o sofrimento que a fiz passar ao afastar-me dela.

Passámos dias maravilhosos juntos. Passeámos por tudo quanto era lado, pelas praias da zona, pelos Alpes marítimos mais a norte, fomos até ao Mónaco porque eu queria ver uma corrida de fórmula 1, assistimos ao Lago dos Cisnes no La Scala, em Milão, visitámos o Museu de Arte Oriental em Génova e fomos ao mercado semanal de Sanremo. Namorámos bastante e passámos as noites todas juntos, umas vezes esgueirava-me eu para o seu quarto, na calada da noite, e outras vezes ia ela ter ao meu.

Tentávamos ser tão discretos quanto possível. Bella acabou por contar à Alice que, embora andasse meio distraída, desconfiou de nós quando apanhou a irmã a entrar no quarto às seis horas da manhã. Sabedora do nosso segredo, tornou-se nossa cúmplice, encobrindo as nossas saídas a dois e, sobretudo as nossas fugas noturnas.

Quando o Emmett chegou com a Rosalie e o Jasper tornou-se mais fácil de disfarçar. Pelo menos até o idiota do meu irmão descobrir. A partir daí as suas tiradas maliciosas quase nos matavam do coração. O Emmett é um irmão muito porreiro e com quem se pode contar mas é, também, um pouco desbocado.

Para mostrar um pouco da região norte do país aos irmãos Hale, planeámos uma viagem até Veneza, passando por Verona, Milão e pela região dos grandes lagos. Fizemos as reservas necessárias e lá fomos nós. Levámos dois carros, o que eu tinha alugado e outro que a minha mãe emprestou a Emmett mas que foi sempre conduzido por Jasper. O Emmett não podia perder tempo a conduzir quando tinha Rose a seu lado.

Fomos virados a Milão. Como eu e Bella já lá tínhamos estado, deixámos os quatro irem visitar o que queriam enquanto nós aproveitámos para passear sem pressas, com o único propósito de namorar. A única visita planeada em grupo foi a Pinacoteca de Brera, de resto só nos víamos à noite. Após dois dias, rumámos para Norte em direção à região dos grandes lagos: lago Como e lago Maggiore. Neste último fomos visitar, por achar piada ao nome, a Isola Bella, uma pequena ilhota ocupada pelo Palácio Borromeo e pelos seus belos jardins.

A paragem seguinte foi Verona, onde passámos duas noites. Na primeira noite não pudemos ver nada, chegámos demasiado tarde pelo que foi chegar ao hotel e instalarmo-nos. Emmett e Rose decidiram que precisavam de um quarto só para eles, pelo que eu dividi o quarto com Jasper e Bella ficou com Alice no quarto ao lado. Verona revelou-se uma cidade acolhedora e encantadora, com a sua admirável arquitetura completamente integrada na estrutura urbana.

Bella adorou a cidade, com toda a sua história, e com a sua ligação a pessoas tão ilustres como Julius Caesar, Leonardo Da Vinci, Dante e, especialmente, William Shakespeare, cujo romance “Romeu e Julieta” se desenrolou em Verona. Quando visitámos a casa di Giulietta, onde supostamente a família dos Capuleto viveu, Bella emudeceu e fez questão de tocar o seio esquerdo da estátua de Julieta que, de acordo com a tradição, dá sorte no amor. A Alice e a Rosalie fizeram o mesmo e o Emmett, numa atitude típica dele, imitou as meninas.

Foi com uma Bella ainda emocionada que no dia seguinte de manhã seguimos viagem, desta vez rumo a Veneza. Deixámos os carros num parque em Mestre e passámos os quatro dias seguintes a explorar as diferentes ilhas da cidade dos Doges, a pé, principalmente, e de vaporetti.

No penúltimo dia Bella e eu demos um passeio de Gôndola. Alice e Jasper, talvez para nos deixarem fazer este passeio a dois, não quiseram ir, tendo ficado na ponte de Rialto a ver as lojas de vidro trabalhado. Foi das coisas mais românticas que fizemos, Bella estava maravilhosa, linda com toda aquela excitação, correspondendo aos meus beijos com uma entrega total. Tive que fazer um esforço colossal para me manter controlado, porque a tentação era enorme. Bella não se apercebia desta minha luta, era demasiado inocente para avaliar a minha luxúria. Pelo menos assim achava eu.

Quando, ao sairmos da gôndola, ajudei Bella segurando-a pela cintura, ela olhou-me meio envergonhada e arrastou-me para o outro lado da ponte, seguindo por uma das ruas menos movimentadas. A determinada altura parou e olhou para mim.

- Edward? – disse ela em jeito de pergunta, captando automaticamente a minha atenção. – Tu desejas-me?

- Muito, – respondi sem entender onde ela queria chegar. Estava surpreso e apreensivo com o que ela poderia estar a pensar.

- Pensaste alguma vez em fazer amor comigo? – Ela corou violentamente ao fazer a pergunta e desviou o olhar para a água escura do canal pelo qual passávamos.

- Várias vezes. – Deveria admitir que foram muitas e que ultimamente tinham sido mais do que eu gostaria? Ela deixava-me louco. – Tu és muito apelativa.

- Temos passado algumas noites juntos e tu nunca tentaste nada. – Continuava sem olhar para mim. Num gesto constrangido, recomeçou a caminhar.

Bella estava a sentir-se rejeitada? Novamente não. O que é que eu poderia dizer para lhe explicar que só estava preocupado com ela e que a queria preservar, não querendo que ela se sentisse pressionada por mim? Fiquei horrorizado só de pensar que ela julgava que eu não a desejava.

- Bella, tu atrais-me muito, mas eu não quero que fiques com uma ideia errada de mim. Eu respeito-te demasiado para forçar uma situação com a qual podes sentir-te desconfortável. Não tens de me dar nada além daquilo que já me dás. Fazes-me tão feliz só de estares comigo que, neste momento, não me atrevo a querer mais nada. És muito nova, temos muito tempo para explorar mais intimamente a nossa relação.

- Ah não. Essa de eu ser muito nova já deu o que tinha a dar. – Estava furiosa. – Será que a minha idade vai ser sempre um empecilho entre nós? Não me vês como uma mulher completa.

Fiquei ainda mais chocado com esta afirmação. Não podia deixar que ela pensasse que não era mulher suficiente para mim, vê-la amargurada causava-me grande sofrimento.

- Tu és tudo para mim. Tudo, entendes? Amo-te como menina e como mulher. Nunca ninguém mexeu comigo como tu mexes. Não imaginas o esforço que tenho feito para resistir à tentação. Passei vários anos da minha vida refreando os meus sentimentos por ti, por achar que eras demasiado nova para um relacionamento tão sério. Poder finalmente aceitar os meus sentimentos deixa-me nas nuvens e ao mesmo tempo com medo que estar a ser demasiado apressado. Se não tentei nada foi por me preocupar contigo e por querer dar-te espaço e tempo. Conhecemo-nos desde sempre mas namoramos há quanto tempo? Vinte dias?

- Nós namoramos? – perguntou ela virando-se ligeiramente na minha direção. A expressão dela era de pura admiração.

- Naturalmente. Pensavas que era apenas um caso e que depois te largava? Quantas vezes é preciso dizer-te que te amo, para que acredites em mim? Diz-me o que queres que eu faça para te convencer que és a mulher da minha vida.

- Faz amor comigo. – Desta vez falou olhando diretamente nos meus olhos.

Sustive a respiração e engoli em seco.

- Tens a certeza? Eu não quero que te sintas na obrigação de nada. Não tens que provar nada a ninguém, muito menos a mim. Eu espero por ti o tempo que quiseres.

Fomos caminhando em silêncio e quando demos por ela estávamos na piazza de San Marco, junto à Torre do Relógio; ao fundo uma pequena orquestra tocava música clássica. Caminhámos até lá e sentámo-nos numa mesa apreciando o momento.

- Edward, eu tenho a certeza.

O olhar sincero dela inundou-me de amor e paixão. Ao mesmo tempo uma forte excitação apoderou-se do meu corpo. Ela deve ter visto o desejo estampado nos meus olhos porque procurou a minha mão e enquanto a acariciava com as pontas dos seus dedos disse, sem voz, só com o movimento dos lábios:

- Hoje.

- Tem que ser uma ocasião especial. Não podes ter medo e tens que me dizer tudo o que pensas. Se mudares de ideias eu compreendo.

- Haverá algum sítio mais romântico que este? – perguntou com um movimento de braço abarcando tudo ao nosso redor. – Eu não tenho medo de nada, tu não me magoarias, não intencionalmente. E não vou mudar de ideias. Só precisamos decidir quem vamos expulsar do quarto, o Jasper ou a Alice? Talvez seja melhor eu mandar a Alice para o teu quarto e tu ficares no meu.

Eu ainda estava em transe. Esta nova perspetiva estava a levar-me à loucura; eu não sou de ferro. Precisava de mudar de assunto rapidamente.

- Já é tarde. Não tens fome? Podemos comer aqui.

- Preferia comer no hotel. Preciso de tomar banho.

Rimos os dois, nervosamente. Ambos sabíamos o porquê de querer ir para o hotel. Não era a minha primeira vez mas estava mais nervoso do que quando tinha sido. Para Bella deveria ser; não queria perguntar, achava muito indelicado fazer esse tipo de perguntas. Teria que ser muito cuidadoso, deixar que fosse ela a marcar o rumo dos acontecimentos.

Seguimos para o hotel, Bella deixou na receção um bilhete para Alice, dizendo que ela teria que dormir no quarto da frente, partilhando o espaço com Jasper. Fez a mala da irmã que eu levei para o meu quarto, trazendo para o quarto de Bella as minhas coisas. Tomámos banho e pedimos que servissem o jantar no quarto.

Estávamos os dois tão expectantes que mal tocámos na comida. Para tentar amenizar o ambiente, sintonizei o rádio numa estação de música calma, num volume baixo. Bella levantou-se da mesa e aproximou-se da cama sem me encarar.

- Edward, eu nunca… - a voz dela sumiu-se e o seu rosto mudou de cor.

- Bella, se não te sentires preparada, ficaremos abraçados como nas outras noites que passámos juntos.

Tive que morder a língua quando terminei de falar. Hoje seria um suplício ter Bella junto a mim sem que nada acontecesse. Iria precisar de um banho frio para arrefecer o ânimo.

- Vamos tentar. Promete-me que vamos tentar. Eu… não sei bem o que fazer ou como fazer. Tenho medo…

- Fala comigo. Diz-me o que estás a sentir. Tens medo de quê? – Peguei-lhe na mão e puxei-a para mim, abraçando-a.

- Tenho medo de te desiludir, – disse ela encostando a cabeça ao meu peito.

Dei uma gargalhada de alívio. Bella levantou a cabeça procurando ler nos meus olhos o porquê de me estar a rir.

- Minha tonta. Como posso eu ficar desiludido contigo? Tu és tudo o que sempre sonhei.

Levantei-lhe o rosto com a mão, acariciando as suas faces coradas. Beijei-a com languidez, deixando-a relaxar e entregar-se ao momento. O seu medo e apreensão acabaram por se desvanecer dando lugar a uma necessidade que também era minha.

O seu odor inebriante enfraqueceu-me e deixei-me levar pelo desejo. As roupas começaram a cair, lentamente, peça por peça. Deixei que fosse ela a tomar a iniciativa para lhe dar a certeza que eu não faria nada que ela não quisesse. Quando estávamos apenas de roupa interior, levei-a ao colo para a cama, sem parar de a beijar. Bella agarrava-se a mim e mordiscava-me os lábios e o pescoço. Eu deslizava as minhas mãos pela sua pele enquanto descia os lábios pelo seu corpo. Quando acariciei os seus seios e passei a língua na pele entre eles, ela gemeu alto.

Nessa altura alguém bateu à porta. Ficámos imóveis sem perceber muito bem o que se estava a passar.

- Bella. Bella! Abre a porta, mana. Por favor.

Alice estava no corredor a chamar por Bella numa voz sussurrante, como se não quisesse ser ouvida por mais ninguém. Bella saltou da cama, vestiu o roupão à pressa e não ligando às nossas roupas espalhadas pelo chão correu para abrir a porta.

- Alice? Que foi? Estás bem? – Perguntou preocupada, enquanto abria a porta e a irmã entrava no quarto completamente desvairada.

- Ai mana, não me podes fazer uma coisa dessas. Como é que eu vou olhar para ele? Não consigo. Ele põe-me maluca, – disse Alice muito aflita.

- Espera, não estou a perceber nada do que dizes. O que se passa?

- O Jasper. Não posso ficar no mesmo quarto que ele.

- Porquê? Não tens que dormir na mesma cama. O quarto tem duas camas separadas. Ele fez-te mal ou disse alguma coisa estúpida?

- Não. Ele não faz nada nem diz nada. O problema é mesmo esse.

Alice olhou para mim de lado e eu, murmurando qualquer coisa sem sentido, peguei nas minhas roupas e enfiei-me na casa de banho.

- Eu a modo que sinto uma atração por ele, por isso beijei-o.

- E ele?

- Nada. Não fez nada. Ficou parado a olhar para mim sem dizer uma só palavra.

Da casa de banho pude ouvir a conversa toda. Alice estava a ser um bocado idiota. O Jasper é muito tímido por isso se ele a deixou beijá-lo sem a afastar é porque também sentia atração por ela. Já vestido, saí da casa de banho, sentei-me numa das cadeiras da mesa, onde ainda estavam os restos do jantar e pigarreei chamando a atenção delas para a minha presença. Expliquei a Alice o que pensava e falei um pouco de Jasper.

O Jasper é meu amigo desde que fui para Harvard, é músico, adora compor e tocar guitarra, embora toque vários instrumentos. A sua mãe morreu quando ele nasceu e o pai rapidamente casou com a amante, nascendo Rosalie pouco tempo depois. A sua madrasta embora não o tratasse mal não era carinhosa com ele, na verdade, ela não era muito carinhosa com ninguém além do marido. Eles viviam apenas um para o outro, deixando os filhos em colégios internos e aos cuidados de amas quando passavam as férias em casa. Quando os pais morreram num acidente de automóvel, há quase quatro anos atrás, ficaram entregues um ao outro, Jasper passou a ser tutor da irmã que ainda era menor. Rosalie, talvez por ser muito bonita e extrovertida, era mais popular e superou facilmente a falta dos pais. Jasper, sendo muito mais introvertido, não era de tão fácil convívio. Demasiado reservado para confraternizar socialmente, a sua lealdade deu-lhe poucos mas verdadeiros amigos. Eu tenho a sorte de ser um deles. É o meu melhor amigo, depois de Emmett, e a pessoa mais íntegra que conheci.

Com esta conversa, Alice relaxou mas recusou-se a voltar para o quarto de imediato, pelo que ficámos na cavaqueira até às tantas da manhã, altura em que, finalmente ela se dignou a ir para a cama e nos deixou novamente sozinhos. O sono e o cansaço levaram a melhor e a rir acabámos por adormecer nos braços um do outro.

No dia seguinte foi o regresso a casa. Estávamos todos muito satisfeitos. Não sei o que se passou no resto da noite com Alice e Jasper, mas durante a viagem, pareceram descontraídos e à vontade.

Chegámos a casa e encontrámos a família reunida com Aro. O meu pai e Charlie tinham vindo juntar-se à família. Senti um clima de conspiração que me deixou inquieto. Havia ali qualquer coisa que não estava a bater certo.

Jantámos todos juntos no alpendre e, quando nos preparávamos para sair da mesa, Carlisle informou-nos que havia um assunto a discutir pelo que passaríamos todos para a sala de estar. A forma como pronunciou a palavra todos, significava mesmo todos.

Já na sala, sentámo-nos como normalmente acontecia nestes momentos: os pais de um lado, com Aro, e nós todos, com Jasper e Rosalie, do outro.

- Como já sabem, não gosto de rodeios, pelo que vou diretamente ao assunto. Emmett, trouxeste uma rapariga contigo de férias, Rosalie, - olhou para ela atentamente, fazendo-a engolir em seco. - Pelo que me consta o vosso relacionamento parece sério, contudo não houve qualquer apresentação formal. Parece-me importante e conveniente, corrigirmos esse erro. – O meu pai olhou para o meu irmão e depois riu-se.

Respirámos todos de alívio. Carlisle só procedia a estas conversas familiares quando o assunto era sério, normalmente quando fazíamos alguma asneira das grandes. Mal sabia eu que, ainda antes das férias terminarem, haveria outra reunião, dessa vez por assuntos bem mais sérios, que quase destruiria a família.

publicado por Twihistorias às 18:00

29
Abr 13

 - 3 -

B

Edward Cullen. Edward Cullen! Edward Cullen… Eu. Eu… Eu…  Nós…

            Quando esta palavra caiu no meu consciente foi como um vidro a estilhaçar-se. Nós?! Que nós? Não havia nós nenhum. Jamais, em tempo algum.

Pois! Mas já houve. Será que podia admitir isto? Que custo! A esta distância não sei bem como qualificar aquilo que se passou entre nós. Mas houve realmente um Nós. Pelo menos eu acredito que a certa altura houve um nós.

            “Pára de pensar nisso. O que passou, passou.” Murmurei para mim mesma, com uma certa irritação. “Esquece isso, Bella.” Ou seria Isa? Repentinamente, senti uma leveza de espírito e esbocei um sorriso que foi progredindo para uma gargalhada gostosa que só terminou com lágrimas e dores de barriga pelo riso descontrolado. Eu já fui Isa. Bem, eu já fui muita coisa, mas para este Nós eu era Isa. Isa, a menina decidida que se julgava ser muito adulta e independente. Respirei fundo duas vezes seguidas.

            Edward Cullen.

            Posso dizer que ele sempre fez parte da minha vida. De certa forma crescemos juntos, embora nunca tenhamos vivido propriamente no mesmo sítio. Parece complicado, não é? É mesmo. As nossas mães são amigas há muitos anos, estudaram juntas e só se separaram quando foram para a Universidade. Se existirem duas amigas realmente verdadeiras são elas. Nem com o afastamento causado, primeiro pela ida para a Universidade e depois pelos seus casamentos, elas se perderam uma da outra. Desde essa data que, ritualmente, combinam férias conjuntas e, sempre que possível, as datas especiais são comemoradas nesta “família alargada”, como se elas fossem verdadeiras irmãs. Os maridos tiveram que se adaptar… quer dizer, o meu pai nem por isso. Separaram-se há já alguns anos, embora continuem casados – se é que o casamento deles em Las Vegas é válido.

Foi dessa forma que eu e a minha irmã Alice crescemos a brincar com Edward e Emmett, ambos filhos adoptivos de Carlisle e Esme. Esme não podia ter filhos por ter sofrido, durante o seu primeiro casamento, maus tratos físicos muito violentos. Esteve mesmo às portas da morte quando o marido a empurrou pelas escadas do prédio onde viviam, estando ela grávida de cinco meses. Teve uma hemorragia muito grave, perdeu o bebé e tiveram que lhe remover o útero. Emmett e Edward foram adoptados, ainda muito pequenos, um com dois anos e o outro quase a completar um ano de vida, pouco tempo depois de Esme e Carlisle se casarem. Cresceram a acompanhar os pais pelo mundo fora, uma vez que o trabalho de Carlisle assim o exigia e Esme não conseguia viver sem ter os seus três homens por perto.

O Emmett é o mais velho. É alto e largo, com cabelo escuro bem curto, mais parecendo um halterofilista que um professor de Educação Física. A sua intimidante estrutura física contrasta com a sua maneira de ser, mais solta e divertida. Exibiu sempre um comportamento ligeiramente infantil, pregando-nos, a mim e à minha irmã, mil e uma partidas e estando constantemente satisfeito e a rir. É o mais próximo que eu tenho de um irmão. Na verdade, sempre o olhei como irmão. Da mesma maneira que, durante toda a nossa infância, me fazia rir e me fazia umas patifarias, também me protegia, defendendo-me do que quer que fosse, ou de quem fosse. E isso sempre foi muito importante para mim.

Esta minha necessidade de protecção veio a revelar-se, há uns anos atrás, um elemento tão decisivo na minha vida que, num certo sentido, acabou por criar uma enorme barreira entre mim e parte desta minha família.

O Edward é um ano mais novo que o Emmett e quatro anos mais velho que eu. Sempre foi meu amigo. Embora mais reservado que Emmett, pude sempre contar com ele. Quando não havia mais ninguém por perto, lá estava Edward. Se Emmett era o meu escudo perante o mundo, Edward era o meu anjo da guarda. Alto, esguio, de pele clara e com uma cor de cabelo algo invulgar, entre o castanho claro e o louro escuro com nuances algo arruivadas, tipo bronze, Edward sempre chamou a atenção pela sua beleza. Para mim, porém, eram os seus olhos verdes que ganhavam; nunca vi olhos mais bonitos que os dele. O seu olhar trespassa uma pessoa, conseguindo entrar no seu interior.

Formávamos todos um grupo muito coeso. As duas meninas super-protegidas pelos dois irmãos mais velhos. Vivíamos aventuras delirantes, umas corriam bem outras menos mal, sempre muito divertidas e escondidas dos pais. Umas vezes de férias na praia, outras vezes na montanha, um ano num país, outro ano noutro, as nossas brincadeiras eram sempre a quatro e a única coisa que variava era a paisagem e a roupa que vestíamos.

Fomos crescendo e inventando novas formas de fazer a mesma coisa: brincar, rir e ser feliz. Contudo a nossa diferença de idades começou a pesar. Os rapazes começaram a fazer uns programas sem nós e, eu e Alice, passámos também a desenvolver outros interesses e contactos.

Com Emmett esta mudança de atitude não se notou tanto, porque embora ele fosse o mais velho era também o mais acriançado. Emmett era uma criança grande, tal como dizia Esme. Já Edward, a partir de certa altura, passou a ser muito diferente. Mais retraído que o normal, afastava-se de nós, não participando nas brincadeiras. Até que… eu também comecei a crescer e percebi que o que sentia por ele não era igual ao que sentia por Emmett. Apaixonei-me.

Estávamos em Aspen a passar duas semanas num ski resort. Fiz uma luxação num pé durante as sessões de ski, logo no segundo dia, e tive que ficar confinada ao hotel enquanto os outros se divertiam. Todos menos Edward, que passou o tempo quase todo junto de mim a fazer-me companhia e a ouvir os meus lamentos por não poder ir lá para fora. Um dia, cansou-se de me ouvir e saiu, quando voltou trazia um saco pesado nas mãos. Levou-me para a casa de banho, sentou-me na banheira e despejou o saco em cima da minha cabeça.

Neve!

Eu não podia ir até à neve por isso ele levou a neve até mim.

Devia estar furiosa porque detestava que me obrigassem a fazer coisas que eu não queria, mas quando senti o frio da neve da minha cabeça, desatei às gargalhadas. Fiz uma bola de neve e atirei-a contra a cara dele. Inicialmente ficou surpreendido mas logo de seguida acompanhou-me nas gargalhadas. Passados vinte minutos, estávamos os dois na banheira, completamente ensopados porque a neve derretera, mais felizes do que se estivéssemos no exterior.

Quando parei e olhei para ele, a minha respiração parou. Com o cabelo molhado, todo desordenado, e corado pela nossa brincadeira, Edward estava lindíssimo. Nunca o tinha visto dessa forma antes. Foi nesse momento que soube que o queria para mim. Levei uma mão aos seus lábios e, num impulso, falei o que sentia.

- Amo-te.

Ele estremeceu e passou a sua mão pelo meu rosto com suavidade. Vi o seu rosto sofrer uma série de modificações. Primeiro esperança e ternura, depois medo e tristeza. Deixou cair a mão que me acariciava a face e focou os meus olhos.

- Não posso, Bella. Desculpa.

Num segundo estava à minha frente e no segundo seguinte desaparecera. Fiquei ali sentada, sem compreender o que tinha acontecido. Teria feito alguma coisa errada? Eu sabia que ele também tinha sentido qualquer coisa. Eu senti que sim. Levantei-me com rapidez e, a mancar, corri atrás dele. Não estava no quarto, não estava no salão, onde estaria ele? Vi-o através da janela, no exterior do hotel, de costas para a porta de entrada. Tomei a minha decisão. Mesmo molhada e sem roupa apropriada, saí para o exterior para ir ter com ele.

Ele não se apercebeu da minha chegada. Só quando toquei no seu braço é que ele levantou a cabeça surpreendido.

- Bella, não devias estar cá fora. Estás descalça e molhada. Vais ficar doente.

- Diz-me o que se passa. Eu preciso de saber.

Ele desviou o olhar e virou-se de lado.

- Entra e muda de roupa, por favor. Preciso ficar sozinho.

Mas isso era uma coisa que eu não tinha qualquer intenção de fazer. Não, enquanto ele não me explicasse o que se passava na sua cabeça.

- Eu preciso saber, Edward. Não sentes o mesmo? É isso? Eu sei que tu sentes alguma coisa. Pude perceber isso. Conta-me.

- Bella, não insistas. Não quero falar disso. Deixa-me ficar aqui um pouco.

- Edward, eu quero-te para mim.

Quando disse isto, ele voltou-se para mim de boca aberta. Não conseguiu dizer nada. E agora? O que é que eu iria fazer?

Aproximei-me dele e dei-lhe um beijo no rosto. Ele não reagiu. Voltei a aproximar-me tentando beijá-lo nos lábios. Desta vez ele agarrou-me com força e impediu-me de chegar mais próximo.

- Bella! Não podemos. Eu não posso. É errado.

- Errado? Errado como? Desde quando é errado amar alguém?

- Tu és demasiado nova. Demasiado nova para mim.

Estaquei. Não queria acreditar no que estava a ouvir. A idade era o que o impedia de me amar também? Ou seria porque eu não tinha o corpo de uma mulher adulta? Eu não servia para ele? Eu era demasiado nova para ele! Agora eu compreendia. As lágrimas começaram a cair pela minha cara. Sem soluços ou qualquer outro som, só lágrimas, grossas e quentes. Não conseguia pensar em mais nada. Eu não servia para ele. Ele preferia mulheres mais velhas, mais experientes. Afinal, eu não passava de uma adolescente tonta e apaixonada.

Senti-me a ser erguida e levada em braços para dentro do hotel. Ele pousou-me da beira da minha cama e com um “desculpa” saiu, fechando a porta lentamente.

Deixei-me cair de lado, tirei os pés do chão e encolhi-me sobre a cama como se quisesse desaparecer. Fiquei ali a chorar e a odiar a minha idade. Se eu fosse mais velha ele não me afastaria.

Foi assim que Alice me encontrou. Pedi-lhe que fechasse a porta e não deixasse entrar ninguém. Ela saiu uns minutos e quando voltou, trancou a porta e deitou-se ao meu lado. Abraçou-me sem me perguntar nada e deixou-me chorar até adormecer.

Nos últimos quatro dias que passámos na estância de ski, mantive-me tão afastada dele quanto possível, não lhe dirigindo a palavra ou o olhar, sob nenhum pretexto. Ele ainda tentou falar comigo mas eu fiz de conta que não estava presente.

A Alice esperou pacientemente que eu lhe contasse o que se tinha passado, por minha própria iniciativa, mas, quando percebeu que eu não diria nada, teve um daqueles repentes dela e deu-me uma bronca.

- Isabella Marie Swan. Se pensas que te vais escapar desta, sem me contares nada, é porque não me conheces bem. Eu vou infernizar-te todos os dias até ao fim da tua vida. Não queres isso pois não? Chuta. Conta tudo e é já.

Alice não é uma pessoa nada fácil, quando quer alguma coisa não olha a meios para o conseguir. Não tem quaisquer escrúpulos.

- Apaixonei-me pelo Edward, mas ele acha que eu sou demasiado nova para ele. Os meus catorze anos não são suficientes para ele. Sinto muita raiva por não ser mais velha e por ele não ter coragem de assumir que o amor não escolhe idades. Não quero que mais ninguém saiba e não quero voltar a falar deste assunto. Está dito.

Da mesma forma que eu soube que tinha obrigatoriamente que contar o que a Alice queria saber, também ela sabia que, se eu tinha dito que não queria falar mais sobre isso, ela tinha que respeitar, porque eu não iria ceder. Éramos as duas teimosas e sabíamos bem até onde cada uma era capaz de ir, compreendendo e respeitando os limites uma da outra. Creio que era por isso mesmo que nos dávamos tão bem.

O tempo foi passando, e a minha idade aumentava à medida que o amor que sentia por Edward ia amadurecendo. As reuniões familiares que aconteceram ao longo dos quatro anos seguintes, foram dando a perceber que não éramos indiferentes um ao outro, contudo, tanto ele como eu, mantivemos deliberadamente uma certa distância. Falávamos apenas o que era familiarmente exigível e apenas quando havia mais pessoas presentes. Não voltámos a ficar sozinhos nem a falar no que tinha acontecido em Aspen.

Até que, depois de um debate interno muito grande, resolvi que devia tentar a minha sorte e dar uma nova oportunidade a Edward. Assim, delineei um plano para pôr em prática no dia do seu aniversário. Os meus quase dezoito anos seriam suficientes para ele?

Edward estava a tirar medicina em Harvard e eu acabara de ser aceite em Stanford para seguir Biologia. Cada um na sua ponta do país. Porém, a distância nunca tinha sido uma dificuldade na nossa família. A única coisa que importava era o que eu sentia. E eu sentia-me mulher suficiente para ele.

Estava a terminar o meu senior level e em breve estaria em Bordighera a passar as minhas últimas férias antes de ir para a Universidade. Finalmente sairia de casa e iria viver a minha vida, coisa que na verdade eu já fazia. Para todos os efeitos, embora vivendo com o meu pai, este último ano, tinha passado muito mais tempo sozinha que acompanhada. A Alice já estava na Universidade, pelo que nos víamos poucas vezes. O Charlie quase nunca parava em casa por causa do seu trabalho. A minha mãe tinha passado dois meses comigo mas sentira tanto a falta do clima da Ligúria que a convenci a voltar para lá. Eu gostava de estar sozinha, viver por minha conta e tomar as minhas próprias decisões.

Quando uma pessoa está mentalmente preparada para viver sozinha, também está preparada para assumir um relacionamento. Será que ele conseguiria ver o meu amadurecimento e me aceitaria? E se ele já tivesse outra pessoa?

Precisava de uma cúmplice e não existia ninguém melhor que a Alice para desempenhar esse papel. Primeiro porque é minha irmã e a minha melhor amiga, segundo porque é arrojada e faz qualquer coisa para garantir que consegue o que quer. Neste caso, era o que eu queria, mas isso não fazia qualquer diferença para ela. Convencemos o Emmett a preparar uma festa de aniversário surpresa para o irmão, em Cambridge, Massachusetts.

Combinámos que iríamos esperar por Edward num club em Kilmarnock Street, onde ele costumava ir ouvir um amigo tocar. É claro que tivemos que envolver o tal amigo. Foi dessa forma que conhecemos Jasper.

Para o nosso pai, Alice e eu, dissemos que íamos para Itália ter com a Renée e ele nem se deu ao trabalho de lhe telefonar a dizer quando íamos, já que o normal era passarmos as férias com ela, onde quer que fosse. O que fizemos na verdade foi voar para Boston, para nos encontrarmos com Emmett, pois iríamos todos juntos para o tal bar no dia seguinte.

Tinha comprado uma guitarra para oferecer a Edward, e escrevi um bilhete para a acompanhar com uma mensagem esclarecedora em jeito de convite. Tudo iria depender da reacção dele. Tremia ao prender o pequeno envelope no gigbag.

Uma hora antes da chegada prevista de Edward, estávamos à entrado do bar a conhecer Jasper e a sua irmã, Rosalie. Inicialmente estávamos os cinco um pouco sem saber o que dizer mas rapidamente nos sentimos à vontade uns com os outros. Não sei se foi por causa de Alice e Emmett saberem o que eu ia fazer e por isso haver um clima de romance no ar, mas Emmett e Rosalie sentiram-se imediatamente atraídos um pelo outro. Foi tão palpável que ficámos todos surpreendidos, eles e nós.

Emmett tinha-nos deixado perto da entrada e foi estacionar o carro. Eu e Alice encaminhámo-nos para a entrada. Estavam duas pessoas no hall como se estivessem à espera de alguém.

- Jasper? – Perguntou uma Alice sorridente e com a maior cara de pau. Ele confirmou com um aceno de cabeça e Alice logo se lançou na sua direcção dando-lhe um beijo na cara. – Eu sou a Alice. Esta é a Isabella. O Emmett foi estacionar o carro.

- Oi Alice. – Virou-se para mim e inclinou a cabeça. - Isabella. Sejam bem-vindas. Espero que não tenham apanhado muito trânsito. Apresento-vos a minha irmã Rosalie.

Neste momento entra o grandalhão do Emmett a rir por causa de qualquer coisa que viu ou ouviu, ou então por nada em particular, ele ri-se por tudo e por nada. Parou à nossa beira, cumprimentando Jasper com uma palmada no ombro.

- Há quanto tempo, pá. Como vão as noitadas?

- Oi Emmett. Está tudo porreiro. Ainda não conheces a minha irmã, pois não? Chama-se Rosalie.

Emmett olhou para a loura escultural que estava junto de Alice e arregalou os olhos. Avançou para ela, pegou-lhe na mão e sem desviar o olhar, puxou-a para mais perto de si.

- Extraordinária Rosalie.

- Rose. Para os amigos é Rose.

A partir daí, não largaram mais a mão um do outro e passaram a noite o mais próximo possível.

A minha ansiedade atingiu-me com toda a força quando, da mesa de canto onde estávamos sentados, vi Edward entrar, lindo e charmoso. Ele foi andando por entre as mesas à procura de Jasper e quando nos viu, estacou. Ficou parado por uns segundos com um sorriso a abrir-se lentamente e os seus imensos olhos verdes a brilhar. Juntou-se a nós sentando-se no único sítio disponível, deixado propositadamente à minha beira.

- Parabéns. – Dissemos todos em simultâneo.

- Que bela surpresa. Obrigado a todos.

Visivelmente emocionado foi cumprimentando um a um.

- Jasper, era este o motivo pelo qual a minha presença era imprescindível hoje?

- O teu irmão teve a ideia, eu só o ajudei a pô-la em prática.

-Oi Rose, estou a ver que já conheces o chato do meu irmão. – Emmett tentou dar-lhe uma palmada mas Edward conseguiu desviar-se. Ainda a rir, virou-se para mim e Alice. – Então meninas, estavam de passagem e resolveram vir ver-me?

- Claro que sim. Como podíamos evitar? E estamos efectivamente de passagem. Temos que ir para Bordighera. Tu vais quando? Este ano não podes faltar.

- Ainda não sei, Alice. Estava a pensar em não ir mas a Esme anda a insistir.

- Não sejas desmancha prazer, mano. O ano passado não pudeste tirar férias, mas este ano vais ter que tirar. Obrigatoriamente. Eu também vou. Vamos todos.

Este todos parecia abranger mais alguém, o que me deu uma ideia.

- Jasper, vocês também podiam vir; a casa é grande, – propus eu, dando uma piscadela ao Emmett.

- Rose, vais adorar Milão. Podemos tirar uns dias para ir às compras. Já conheces o quadrilatero della moda? – Alice estava a saltitar de excitação.

- Já fiz um desfile em Milão mas não tive tempo para ver nada. Adoraria fazê-lo. Oh Jasper, tens que vir também. Serão aquelas férias de que andamos há tanto tempo a falar.

- Bom, eu gostaria imenso mas não sei se posso ir. Tenho o compromisso aqui no bar por mais duas semanas. Só se fosse a seguir. – Fez uma pausa passando rapidamente o olhar por Alice e acrescentou. – O teu convite é muito gentil, Isabella. Não iríamos incomodar ninguém?

- Não, claro que não. Não te preocupes com isso. A minha mãe é do melhor e a Villa é lindíssima. E por favor trata-me por Isa, condiz mais comigo.

- Nesse caso, Isa, aceito o convite. Obrigado. Será apenas uma questão de organizar as coisas e combinar a data de partida.

Rosalie e Emmett bateram as mãos e gargalharam um para o outro, não percebendo que estávamos todos a olhar para eles.

- Obrigado por teres vindo, – disse-me Edward em voz baixa, ligeiramente inclinado para mim.

Olhei-o directamente nos olhos e, numa tentativa de lhe mostrar uma atitude diferente daquela que era comum entre nós nos últimos anos, sorri abertamente.

- Não faltava por nada. – Aproximei-me ainda mais dele, toquei-lhe na mão que estava por baixo da mesa e falei-lhe junto ao ouvido. – Tenho uma prenda para ti.

A surpresa ficou estampada no seu rosto e os olhos fulgiram.

Passámos a tarde toda no bar e para nosso regozijo, Jasper e Edward subiram ao pequeno palco onde tocaram algumas músicas bem divertidas e envolventes. No fim, Edward tocou uma música calma ao piano que eu podia jurar ser para mim, pela forma como ele me olhou.

Acabámos por ir jantar a um restaurante tradicional, perto do bar. Alice viu-se na obrigação de distrair Jasper, uma vez que Rosalie e Emmett continuavam abstraídos do mundo, de tal forma estavam vidrados um no outro, e eu passei a noite a fazer pequenas provocações a Edward. Ele não reagia mas também não se afastava de mim. Quando saíamos do restaurante tropecei e Edward teve que me segurar com força para eu não cair. Aproveitei a ocasião e agarrei-me a ele, encostando-me ao seu corpo.

- Tenho a tua prenda em casa do Emmett. Vens connosco até lá?

- Bella…

- Isa, – corrigi. – Chama-me Isa. Isa é um nome mais apropriado para uma mulher adulta e independente.

Ele engoliu em seco. Olhou-me com uma expressão que não consegui entender. Fúria? Desgosto? Revolta? Dor?

- Acho que temos que conversar.

- Vem até lá casa. Hoje. Agora.

- Não sei se será boa ideia, Bella.

- Isa, querido. Principalmente para ti, o meu nome é Isa.

Vi-o abanar a cabeça meio ausente e dirigir-se ao Emmett. Quando voltou, trazia qualquer coisa na mão e estava irritado.

- Vamos. – Esta ordem foi dada em voz rouca enquanto me segurava por um braço e me rebocava dali para fora.

- Ei, o que estás a fazer? Isso é jeito de tratar uma senhora?

- Não. É o jeito de tratar uma menina mimada que se julga senhora mas não sabe comportar-se como tal.

Fiquei tão furiosa que não consegui articular uma só palavra. Quando abri a boca para falar, ele não me deixou.

- Shhhhh. Não digas nada. Caminha, Bella. Não querias que eu fosse a casa do meu irmão? Pois é mesmo para lá que vamos.

- Isa.

- O que quiseres. Isa. – Disse o meu nome num tom estranho.

Chegámos ao parque de estacionamento, entrámos no Volvo e dirigimo-nos ao Apartamento de Emmett. Não dissemos mais nada até já estarmos dentro de casa. Edward fez-me sinal para eu me sentar no sofá, mantendo-se de pé e passou a mão pelos cabelos num gesto nervoso.

- Agora, podes dizer-me o que queres de mim? – A sua voz indiferente contrastava com os seus gestos.

Era chegado o momento. Deveria ser honesta ou arrastar a situação até perceber se ele ainda teria algum interesse em mim? Resolvi dizer a verdade, nua e crua. De que serviria eu ter vindo até Boston se não me abrisse com ele?

- Tudo. Eu quero tudo de ti. – Tentei encará-lo sem hesitações mas no fim não aguentei a pressão e desviei o olhar.

Ficámos em silêncio, durante o que me pareceu uma eternidade. Levantei-me e virei-lhe as costas, dirigindo-me à janela que dava para a rua movimentada.

- Já sou adulta. Dentro de algumas semanas faço dezoito anos. Vou para a Universidade e residirei sozinha. Sou uma mulher independente. – Vacilei quando disse mulher. Inspirei profundamente e continuei num tom mais baixo mas seguro. – Há quase quatro anos rejeitaste-me por ser nova demais. Estou a dar-te uma nova oportunidade. O que sinto por ti não desapareceu. – Arranjei coragem não sei onde e voltei-me de frente para ele. – Queres-me agora, aqui, no presente, ou continuas a achar que não sou mulher suficiente para ti?

Estava furiosa, o medo que sentia em ser preterida novamente fez-me jogar ao ataque e reagir dessa forma. A minha ira era tão grande que tinha lágrimas na iminência de cair.

Ele percorreu rapidamente a distância que nos separava e acariciou-me o rosto.

- Desculpa ter-te magoado dessa forma, não era minha intenção causar-te tanta dor. Custou-me muito afastar-me de ti. Eu não queria mas era preciso. Tu eras uma menina de catorze anos, não podia prender-te a mim só porque era minha vontade.

- Tu também me querias? – A minha voz foi-se a baixo, tal como a barreira que impedia as lágrimas de cair. Encostei a minha cabeça ao seu peito para ele não ver que estava a chorar.

- Claro que queria. Apaixonei-me por ti quando… tu eras ainda mais menina. – Dizendo isto abraçou-me apertando-me contra o seu corpo.

- Mas tu rejeitaste-me tão friamente.

- Não, eu afastei-me. O frio era da neve. – Pelo seu tom percebi que estava a rir.

- Tonto.

Ficámos ali abraçados a assimilar a nova realidade. Paraíso na Terra. Sentia-me tão feliz e leve que sorria feito uma imbecil. Depois, percebi que ele ainda não tinha respondido à minha questão.

- E agora, queres-me?

A sua gargalhada ressoou pelo apartamento.

- Agora a tonta és tu. Claro que te quero, muito. Talvez demasiado.

Soltei-me do seu abraço e, segurando-o pela mão, levei-o comigo até ao quarto onde tinha ficado com a Alice. Peguei no gigbag, que ainda apresentava as etiquetas da companhia aérea e dei-lho.

- Comprei isto para ti. Vi-a numa montra e pareceu-me que irias gostar dela, assim que olhei para ela pensei em ti. Parecia que ela me estava a dizer o que fazer.

Ele abriu o gigbag e pegou na guitarra. Passado algum tempo, deixou-a cair suavemente em cima da cama e pegou no meu rosto com as duas mãos. Fixou o olhar no meu e, muito lentamente, baixou a cabeça encostando os lábios aos meus. Foi mais forte que eu; se primeiro paralisei com a suavidade do seu toque, logo lancei os braços à volta do seu pescoço, ficando em pontas dos pés. Senti arrepios a percorrerem o meu corpo e toda a minha atenção estava em Edward e nos seus lábios colados aos meus. A casa podia desabar que eu não daria por nada. Após algum tempo afastámo-nos ligeiramente, para podermos respirar.

Com uma mão nas minhas costas e outra à volta da minha cintura, pressionando o meu corpo contra o dele, os nossos corpos não podiam estar mais juntos. Passei as mãos pelos seus cabelos e procurei os seus lábios novamente. Impeli a minha língua a entrar na sua boca e explorá-la, desencadeando uma luta no desejo por satisfação. O calor e o gosto da boca dele inebriaram-me. A mistura de sabores dos dois pareceu-me do mais sublime possível; era como se um completasse o outro, originando um sentir único e inigualável. Este segundo beijo foi selvagem e sôfrego, como se a nossa sobrevivência dependesse disso. Edward abraçava-me ainda com mais força e com mais urgência.

Parávamos para respirar e voltávamos novamente a esta descoberta de lábios, hálito e sabor. À medida que o tempo foi passando, a impetuosidade foi dando lugar à ternura e à serenidade. Aprendemos que o desejo pode ser vivido a diversos níveis, todos eles muito deliciosos.

Acabámos por ficar ali deitados na cama, abraçados um ao outro, beijando-nos e conversando. Edward corou quando leu o cartão que acompanhava a guitarra e optou por não fazer qualquer comentário. Acabei por adormecer inebriada pelo seu cheiro.

Acordei ao nascer do dia, com Edward a dedilhar com desenvoltura e suavidade as cordas da guitarra. Estava sentado ao fundo do quarto e olhava para mim fixamente.

- Não posso tocar-te como toco as cordas desta ou de outra guitarra. Tu és melhor que tudo mais. A ti tocarei sempre como o bem mais precioso que tenho, porque é isso que tu significas para mim. Tu és a melhor parte da minha vida.

publicado por Twihistorias às 21:01

04
Abr 13

Capítulo 1

B

Estava feliz por regressar e sentir o bem-estar que só se encontra junto das pessoas que são realmente importantes na nossa vida e que nos amam como somos. Fechei os olhos e inspirei profundamente, sentindo uma mescla de emoções e imagens do passado e do presente.

Subi as escadas e bati na porta com suavidade. Pareceu-me ouvir um “entre” no meio de toda a algazarra de música e risos que provinha do interior do quarto. Abri a porta devagar e deixei-me ficar ali, ainda com a mão no puxador.

Eu estava extasiada a olhar para a minha pequena irmã. Nunca tinha visto uma noiva tão bonita. Mais que bonita, a Alice estava resplandecente, tamanha a sua alegria e satisfação. Em cima do banco que estava aos pés da sua cama, ela dançava ao ritmo da música, balanceando o seu corpo esguio e fazendo o longo vestido de cor pérola, ondular em sintonia com os seus movimentos.

- Quem é mãe? – Alice virou-se para a entrada do quarto e, com uma expressão radiosa, gritou enquanto saltava para o chão e corria para os meus braços.

Abraçou-me com uma força a que eu já não estava habituada, e, sempre a rir e a soltar pequenos guinchos de alegria, desatou a pular levando-me junto com ela naquela loucura.

- Não acredito! És mesmo tu? Louca, é o que tu és. Parva, ingrata, irmã desnaturada. Quase me matavas de saudade e de tristeza por não te ter comigo hoje. Não és boa para mim. Mas eu estou tão feliz agora. Ai minha amiga, minha irmã, minha tudo. Meu estupor. Sabes lá o que eu passei estes dias todos. Só de pensar que estavas tão longe, sozinha e eu sem poder ir ter contigo… Se não fosse ter medo que o meu amorzinho desistisse de casar comigo, tinha largado tudo e voado para a Amazónia. Nem acredito que estás aqui. És mesmo tu? Eu estava tão…

- Oi, mana. É claro que sou. Pára com isso. - Tive que a interromper porque esta minha linda mas destravada irmã, estava a começar a perder o fôlego e eu a começar a ter pena do Jasper por ter que aguentar com ela para o resto da vida.

A Renée juntou-se ao nosso abraço e deu-nos um beijo a cada uma, afastando-se a seguir.

- Ah querida irmã, estás verdadeiramente bem? Recuperaste totalmente? - Abraçou-me com mais força e começou a chorar.

- Alice! – Admoestei eu com meiguice, também emocionada com o nosso reencontro. - Não chores, linda. Estou bem, não te preocupes.

Ali ficámos durante um tempo a tentar parar as lágrimas, embora sem grande sucesso. Mesmo com os olhos nublados pude ver como a minha irmã estava feliz. Do seu rosto magro emoldurado pelo cabelo escuro, muito curto e espetado, eram os seus enormes olhos castanhos que sobressaíam. O seu olhar evidenciava um contentamento que nem as lágrimas escondiam.

Quando finalmente conseguimos olhar mais longe que uma da outra, sentámo-nos no banco onde a tinha visto a dançar e percebemos que só estávamos nós duas no quarto.

- Porque é que não me disseste que vinhas?

- Pensei em fazer-te uma surpresa. Só não sabia que isso te iria deixar como uma Madalena arrependida e estragar toda a tua maquilhagem.

- Não faz mal. Ainda falta muito tempo. O casamento é só às seis da tarde. O Aro teve um contratempo qualquer e só pode vir ao fim do dia.

- Pois, eu sei. – Ri-me descaradamente.

Quando a Alice percebeu o que se tinha passado bateu-me no ombro e voltou a guinchar.

- Foi por tua causa. – Acusou-me ela, de dedo em riste. O seu olhar fulminante mudou repentinamente para acompanhar uma expressão de incredulidade. – Eu devia ter percebido. Quando é que já se viu um orientador espiritual adiar um casamento sem mais nem menos, mesmo sendo a pessoa que é? Combinaste tudo com o Aro… estou a ver. A mãe sabia que vinhas? Quem te foi buscar ao aeroporto? Deves estar cansada. Afinal a viagem do Brasil para cá demora horas.

- Alice, pára. Não me estás a dar tempo de responder às perguntas. Sim, a mudança da hora do casamento foi por minha causa. Não havia voo mais cedo e só ontem saí do hospital. O Aro é um amor, não resiste a dar o seu contributo para fazer as pessoas felizes. A mãe só soube esta manhã, porque lhe telefonei do aeroporto. E, quem me foi buscar… – fiz uma pausa propositada e dei-lhe o meu sorriso mais angelical. – Foi o Jasper.

- O Jasper? - Mais uns gritinhos e uns saltos pelo quarto. – Como é que ele...? Ele já cá está? Ai meu Deus. Estou atrasada. O Aro voltou a mudar a hora do casamento. Ainda morro antes de casar. Não importa caso mesmo assim. Passa-me os sapatos; estão desse lado.

- Pára, pulga elétrica. Quem vai morrer sou eu. O casamento é só às seis. Acalma-te. O Jasper já foi embora. A Rosalie nem sequer o deixou entrar. – Ri-me descaradamente. – Ele ainda tentou espreitar pela janela mas o Emmett pegou nele pelo casaco e meteu-o dentro do carro, dizendo-lhe apenas “Não me faças arrepender de te deixar casar com a minha irmã.” – Disse-lhe eu tentando imitar a voz grossa do Emmett.

Foi uma cena hilariante. Podia jurar que ouvi o casaco do Jasper rasgar quando o Emmett pegou nele e o carregou até à rua. O pobre ficou lívido e, engolindo em seco, deu à chave do carro e saiu dali a acelerar. Por pouco que Emmett não tinha tempo de bater a porta do carro antes de ele arrancar. Foi muito engraçado.

- Coitadinho do meu lindão. O “senhor músculo” deve tê-lo assustado muito. Espero que não desista de casar comigo. Como é que ele estava, quando te foi buscar?

- Nervoso, claro. Fartou-se de fazer perguntas sobre ti, esquecendo-se que eu estava a chegar de outro continente e que não te via há meses.

- Que bom. – disse ela, pensativa e de sorriso nos lábios. - Mas agora conta-me tudo. Estás mesmo bem? Não precisas de fazer mais exames nenhuns? O Jacob disse que estiveste mesmo mal e que foi preciso levar-te de helicóptero para o hospital. Ele parecia muito preocupado.

- No meio das florestas não é costume haver auto-estradas ou vias rápidas, como é lógico. Em muitas das zonas por onde andei a única hipótese de deslocação rápida é andar de barco e, em casos urgentes, de helicóptero. O Jacob não devia ter contado nada. Afinal nem chegou a quinze dias de internamento.

- O Jacob preocupa-se porque… porque é boa pessoa e gosta de ti. Muito.

- Alice, outra vez com a mesma conversa não, por favor.

- Onde é que ele está? Eu convidei-o.

- Sim, eu sei. Eu disse-lhe para não vir. Fazer duas viagens enormes numa semana é uma loucura.

- Não veio? – Perguntou Alice com as sobrancelhas arqueadas. Fez uma cara de caso, torceu os lábios e trespassou-me com o olhar. – O que é que se passou entre vocês?

- Não se passou nada. - Porém a resposta que queria que soasse convincente saiu falhada, o que me fez baixar os olhos.

- Conta-me tudo. Eu sei que ele está apaixonado por ti. Aliás toda a gente sabe, só tu não queres ver isso e ele não quer admitir que isso não é segredo para ninguém.

- Bem, Alice… - Comecei a falar mas parei logo a seguir. Não sabia o que dizer. Já sabia que ela me ia obrigar a contar tudo mas nem por isso deixava de ser difícil. – Ele declarou-se. Pronto foi isso.

- Boa, Jacob. E tu?

Era precisamente isto que eu queria evitar. Esta minha irmã é fogo, quando pega não deixa por conta, vai até ao fim. Sem escrúpulos. Mais valia contar tudo de uma vez. Ou pelo menos quase tudo. Ela não precisava de saber que o Jacob me tinha pedido em casamento, pois não?

- Ele disse-me que gostava muito de mim e que nós podíamos ficar juntos. Disse-me que até em termos logísticos era mais fácil porque passávamos a ter o mesmo espaço.

Alice abriu muito a boca, não acreditando no que lhe contava.

- Ele pediu-te para ires viver com ele? Não acredito. Isso não é nada dele. Ele é demasiado certinho para isso. Ele nem é capaz de atravessar uma rua fora da passadeira…

Com esta ela apanhou-me e fez-me rir. Realmente o Jacob é mesmo assim. Tudo tem que ser legal e dentro das normas da sociedade. De repente Alice desatou a rir, tanto que até lhe vieram as lágrimas aos olhos. Agarrou a minha mão e apertou-a com bastante força. Não sei porquê, mas a Alice tem sempre reacções deste tipo quando está empolgada. Usa a força para que as pessoas saibam o tamanho do seu divertimento. “Pobre do Jasper”, pensei eu pela centésima vez só na última meia-hora.

- O Jacob pediu-te em casamento, – disse ela perdendo-se de riso novamente. - Foi isso, não foi?

Oh não! Como é que ela pôde ser tão irritantemente intuitiva? E agora, o que é que eu iria responder? Soltei a minha mão com uma sacudidela forte. Levantei-me do banco, dirigi-me às portas da varanda, abri-as e saí para o exterior, tentando, em vão livrar-me deste momento constrangedor. Não valeu de nada. Em poucos segundos, já ela estava ao meu lado a olhar-me interrogativamente. Alice é apenas um pouco mais baixa do que eu mas, quando me abre os olhos daquela maneira, eu sinto-me muito pequena e incapaz de lhe fazer frente.

- Diz-me só, acertei? Claro que acertei. E tu recusaste, pois claro. – Fez uma pausa longa, algo inédito na minha irmã. – Fizeste bem. É verdade que ele te ama muito mas não te faz feliz. É um bom amigo, um bom companheiro mas não um bom amante.

- Alice! Como podes pensar numa coisa dessas? Eu nunca tive nada com ele. Não fisicamente. Somos apenas amigos e colegas de trabalho. Eu… Nós somos só amigos, ponto final.

Eu estava escandalizada. Nunca olhei para o Jacob dessa forma. Como uma mulher olha para um homem? Não, eu não era capaz de o olhar assim. Confesso que tentei, quando percebi que ele gostava mesmo de mim. Sim, eu sabia já há algum tempo, não era assim tão cega. Afinal, a minha especialidade é a etologia animal e os humanos são animais para todos os efeitos. Neste ponto há uma enorme discussão por parte daqueles que pensam que a espécie humana é uma espécie à parte mas eu não partilho nada dessa opinião. Para mim não há espécies superiores e inferiores. Todas são especiais à sua maneira e todas têm as suas peculiaridades e idiossincrasias e, por isso mesmo, têm direito à vida no meu habitat natural. Porque é que a espécie humana haveria de ser diferente?

- Fala Bella. – Ordenou Alice, tirando-me do meu devaneio. – É assim tão difícil admitir uma coisa dessas? Como é que ele ficou?

- Ele compreendeu mas ficou magoado.

- Como é que vais conseguir trabalhar com ele depois de tudo? Ele não vai conseguir encarar-te tão cedo.

- Ele veio comigo, – falei quase sem voz.

- Minha nossa! Ele ama-te mesmo.

- Eu não queria mas ele insistiu, dizendo que era uma desfeita que te fazia se não aceitasse o teu convite de casamento.

- Onde…?

- Ficou num hotel da cidade. Nem pensar em tê-lo aqui em casa. – O remorso e a satisfação lutavam no meu peito. Se por um lado achava que estava a ser demasiado dura com Jacob, por outro lado, sentia-me feliz por o ter afastado de mim. – Estou a ser má. Gosto muito dele, sinceramente. Ele ajudou-me tanto ao longo deste último ano… já para não falar que se não fosse ele, provavelmente eu já tinha… ficado magoada há mais tempo. É um bom amigo.

- Mas ele quer ser mais que isso.

Ficámos ali a apanhar sol, durante um tempo que pareceu infinito, até que esta nossa ligação sem palavras foi quebrada pela entrada da nossa mãe no quarto e Alice se lembrou novamente que dentro de quatro horas se casava. Regressámos ao quarto, ela retirou o vestido e tomou um banho para relaxar.

Entretanto a nossa cunhada Rose veio juntar-se a nós e trouxe com ela um tabuleiro carregado de comida, já que nem eu nem a Alice queríamos descer para almoçar. Ficámos ali as três sentadas no chão do quarto, a depenicar fruta, queijo, ciabatta, pissaladière e carnes fumadas, enquanto relembrávamos alguns momentos engraçados que tínhamos vivido. Ali, entre sorrisos e gargalhadas, senti-me feliz, como há muito tempo não sentia.

- Meninas. – Chamou a minha mãe da porta do quarto. – Talvez fosse melhor começarmo-nos a arranjar. Bella, querida, tu devias ir tomar um bom banho e descansar um pouco da viagem. Rosalie, podes ajudar a Alice a arranjar-se? Só tu consegues pôr as mãos naquele cabelo rebelde.

A minha irmã levantou-se imediatamente, começando a saltitar nervosamente.

- Quanto tempo falta? Ajudem-se. Eu preciso de ajuda. Ai, ai, ai.

 Eu ajudei-a com a maquilhagem enquanto a Rosalie voltava a dar-lhe um jeito no cabelo. Em menos de uma hora ela estava pronta, outra vez, e a casa começou a fervilhar com as pessoas a tratarem dos últimos pormenores e retoques. Ouvi a Esme a dar ordens aos serventes mas não desci. Agora não, ainda não.

Refugiei-me no meu quarto e deitei-me um pouco. Estava verdadeiramente cansada. A viagem de avião do Rio de Janeiro até Milão demorou uma eternidade e eu nem sequer pude ocupar o meu tempo a ler, como sempre fazia quando vinha visitar a minha mãe. Desta vez, tive a companhia de Jacob e como eu não me sentia muito à vontade com ele desde que recusei o seu pedido, passei todas aquelas horas a fingir que dormia. Sabê-lo ali, ao meu lado, a tomar atenção ao meu respirar, à minha temperatura, ao tom da minha pele e ao mover das minhas mãos, era demasiado atrofiante para mim. Encará-lo seria absolutamente impossível.

“Porque é que isto acontece comigo? Devo ter feito muito mal a alguém para merecer este castigo.” Pensei, desgostosa.

- Jacob, Jacob… Gosto muito de ti mas por vezes apetecia-me ter o dom de estalar os dedos e fazer-te desaparecer da minha vida durante um tempo, – murmurei baixinho enquanto me acomodava melhor naquela cama macia e convidativa.

Acabei por adormecer e só acordei quando ouvi alguém chamar o meu nome. Estava confusa.

- Bella. Bella.

Que estranho. As enfermeiras chamavam-me sempre de Isabella ou então de “moça”. Só quando senti uma mão fria acariciar a minha face me apercebi do local onde estava e quem me chamava.

- Mãe? Desculpa, adormeci. Que horas são?

- Querida, tens que vestir e descer. Faltam 40 minutos. Eu preferia deixar-te dormir mas sei que não perdoarias ninguém se não assistisses à cerimónia. Muito menos depois de atravessares doente meio mundo para poderes estar cá hoje. – Renée enfatizou a palavra doente ao mesmo tempo que fazia uma careta. – Precisas que te ajude? A Rosalie está no corredor à espera de saber se precisas dela.

Neste preciso momento, como se tivesse adivinhado o que a minha mãe me dizia, ou talvez porque estivesse a ouvir a conversa, afinal a porta estava aberta, Rosalie entrou no quarto com um volume nos braços e parou junto da cama.

- Bella, levanta-te. Tens cinco minutos para tomar banho, depois ajudo-te a pentear.

- Obrigada Rose, mas não vale a pena. Eu arranjo-me sozinha.

Ela olhou-me com descrença abanando a cabeça.

– Nada disso. Estou aqui para fazer o que tem que ser feito. Se não deixares, quem vem a seguir é a Alice.

- Faz isso, filha.

Levantei-me com dificuldade e fui tomar um duche rápido. Quando regressei ao quarto, embrulhada no meu robe vi a Rosalie abrir os olhos desmesuradamente.

- Estás tão magra. Tens a certeza que estás suficientemente recuperada dessa infecção terceiro-mundista que tiveste?

- Não sejas preconceituosa, Rose. As cidades que tanto adoras são mais selvagens que a verdadeira selva.

Para Rose, um local só é suficientemente bom se tiver pelo menos quatro lojas de luxo. Ela é muito boa amiga mas tem uma obsessão enorme por vestir e calçar bem, de preferência roupa de casas famosas vendidas a preços exorbitantes. Neste aspecto, Rose não é nada como eu. Eu gosto mais de roupas confortáveis, de estilo casual e consideravelmente mais baratas. Só em ocasiões especiais me esmero na indumentária. E, como este era o casamento da minha muito querida irmã, eu tinha aceitado que a Rose me comprasse um vestido e os acessórios necessários.

- Eu sei, mas que queres? Ainda para mais, uma zona que te deixa doente e magra dessa forma não pode ser boa para viver. Anda cá. – Continuou a Rosalie, agarrando-me um pulso e puxando-me para a frente do toucador, obrigando-me a sentar numa cadeira baixa. – Como não temos muito tempo, vou deixar o cabelo simples. Depois tratamos da maquilhagem. Simples, também.

Só mesmo ela para dizer que aquele penteado era simples. Não sei bem como, mas a verdade é que ao fim de vinte minutos estava penteada e maquilhada. Enfiei o vestido que ela tinha comprado propositadamente para mim e fiquei pronta. Dirigi-me para a porta mas percebi que estava sozinha.

- Vamos Rose, que está na hora.

Ela olhou para mim com cara de pena e abanando a cabeça, como se não quisesse crer, baixou-se e apanhou os sapatos de salto alto que eu deveria ter calçado.

- Por acaso, queres ir descalça ao casamento da tua irmã? Ela ainda manda parar o casamento se perceber que tens os pés nus.

Irritada, regressei ao interior do quarto, calcei-me e virei-lhe as costas, ainda mal-humorada. Dirigi-me às escadas enquanto resmungava. – Com um vestido destes, quem vai reparar nos sapatos? Um dia, se me casar, há-de ser na praia. Sem vestidos longos e stilettos. De calções e havaianas. Tenho dito.

- Em topless? Conheço pessoas que adorariam ver-te assim, mas desconfio que as nossas mães te levariam para o hospital psiquiátrico antes de chegares a pôr esses pezinhos lindos na areia branca da praia. – O Emmett ria a bandeiras despregadas enquanto subia as escadas. Aproximou-se de nós e agarrou Rosalie com força, beijando-a em seguida como se não houvesse amanhã. – Então amor, vamos ou fazemos um desvio? Estava a pensar que me ias deixar sozinho o casamento todo.

Saí dali rapidamente. Aqueles dois, quando estavam juntos, eram um desatino, ou brigavam forte e feio ou então agarravam-se de tal forma que era difícil saber onde terminava um e começava o outro. Nunca vi nada igual.

A sala estava sem ninguém, apenas um servente passava com uma garrafa de água da mão. Devia estar mesmo atrasada. Saí porta fora, e dirigi-me ao jardim das traseiras onde a cerimónia de casamento iria ocorrer.

Já estava à espera de ficar surpreendida mas nada me havia preparado para o que vi. Assim, que levantei a cabeça fiquei abismada. A pérgula estava carregada de flores; entre as roseiras que sempre lá estiveram havia uma quantidade enorme de flores dispostas aparentemente ao acaso, mas de forma elegante. Por baixo estava disposta uma mesa, completamente tapada por uma toalha branca, com um arranjo de flores que se propagava suavemente sobre ela caindo pela frente como se fosse uma cascata. Diante a pérgula, estavam dispostas oito filas de cadeiras vestidas também de branco, onde já se encontrava a maior parte dos seus ocupantes. Ao meu lado direito, no enorme terraço que tinha continuidade para o jardim, estavam mesas redondas preparadas a rigor para a festa. Absolutamente deslumbrante. Outra coisa não seria de esperar. Com quatro mulheres especiais, a preparar o casamento de uma delas, só poderia sair uma festa digna de um conto de fadas, recheada de elegância e glamour. Alice, Rosalie, Renée e Esme, uma estilista, uma modelo, uma artista plástica e uma arquiteta. Era este o quarteto fabuloso.

Aproximei-me das mesas para poder apreciar a paisagem sobre o mar. Inspirei profundamente, tentando encontrar o cheiro a maresia na leve aragem e fechei os olhos. Esta mistura de cheiros a mar e campo recordava-me tempos muito felizes e outros bastante amargurados…

Após uns momentos perdida nos meus pensamentos, aproximei-me com cuidado das filas de cadeiras, maldizendo Rose por me ter comprado uns sapatos de salto tão alto e fino para uma cerimónia no jardim. Será que ela não sabia o difícil que é caminhar sobre relva sem deixar que o salto se enterre no chão? Pelo menos as cadeiras estavam sobre deck, porque de outro modo não via como iria aguentar toda a cerimónia.

Em cada uma das cadeiras ainda vazias, havia uma flor. Escolhi a que estava mais próxima e sentei-me cheirando a tulipa.

-Bella. Isabella.

Levantei a cabeça procurando pela pessoa que me chamava e encontrei um rosto sorridente. Bem ao fundo, por baixo da pérgula estava Aro e Jasper. O Jasper fazia-me sinal para ir para a frente, ocupar um lugar livre. Levantei-me e, tão discretamente quanto possível, fui até à primeira fila ocupar a cadeira livre que Jasper me indicara. Na cadeira ao lado, estava Rosalie e na seguinte a minha mãe.

Fiquei com os olhos marejados de lágrimas e sorri feita uma imbecil. Na minha cadeira estava uma enorme flor de magnólia. Alice! Só ela para me presentear com a minha flor preferida. Peguei nela e cheirei-a de olhos fechados deixando-me embalar pelo seu perfume inebriante. Devo ter ficado assim por algum tempo, porque quando voltei ao presente estava a marcha nupcial de Mendelssohn a tocar e Alice deslizava de braço dado com o pai pela ala central das cadeiras.

Fazia algum tempo que não via Charlie. Não estava muito diferente da imagem que fazia dele. Aparentava estar um pouco mais cansado e as rugas do seu rosto estavam ligeiramente mais acentuadas, mas avançava orgulhoso segurando Alice. Vê-lo ali, em casa da minha mãe, trouxe-me algumas más memórias mas este não era dia para estas melancolias e tristezas. Esforcei-me por me concentrar e tomar atenção à música. Sonho de uma noite de Verão. Tão apropriado. Foi a escolha perfeita.

A cerimónia foi linda, o Aro fez um serviço muito intimista e carinhoso. Também não era para menos, uma vez que, desde que a minha mãe comprou a Villa, Aro era uma presença assídua na sua mesa e nas nossas vidas.

Os votos dos noivos foram de uma eloquência tocante. O Jasper conseguiu levar quase todas as pessoas, principalmente as mulheres, às lágrimas e Alice conseguiu arrancar risos a todos. No fim, beijaram-se, tão apaixonadamente que tive que desviar o olhar por achar que estava a invadir a intimidade deles.

Chegara ao momento de felicitar os noivos. Levantei-me da cadeira com alguma lentidão porque preferia ficar para o fim, quando Aro chegou ao pé de mim e me deu um abraço de cortar a respiração. Ali estava eu, no ar, entalada entre dois braços que mais pareciam torniquetes e sem conseguir inspirar.

- Aro. – Chamei eu com a voz a esvair-se. – Não consigo respirar.

Ele pousou-me no chão, aligeirou o abraço mas não me largou.

- Isabella. – Deu-me um beijo na testa e focou os meus olhos. - Que saudades tenho de ti, pequena. Só estou aqui hoje para te ver.

- Que mentiroso me saíste, Aro. Não é pecado dizer essas coisas?

- Claro que não. Não é mentira, pelo menos não totalmente. – Riu-se e apertou-me mais nos seus braços. – Eu devia estar em Florença, mas para casar uma das minhas meninas e poder ver a minha mais ilustre parceira de retórica, nada me fazia sair daqui. Não vês que até alterei o horário do casamento para estarmos todos juntos?

- Agradeço-te muito por isso, do fundo do coração.

- Sim, eu sei. Se não te conhecesse, bastava olhar para os teus olhos. Nunca conseguiste esconder-me nada. – Mais um abraço apertado e depois soltou-me ficando apenas a segurar-me a mão direita. – Fico muito feliz por estares bem. Pedi por ti todos os dias. Agora vai, que ainda não felicitaste os recém-casados.

Dei-lhe um beijo no rosto, disse-lhe um “obrigada” muito baixinho e virei-me para a minha irmã e para o meu novo irmão. Jasper e Alice estavam tão felizes que nem era preciso olhar para eles para saber, sentia-se o amor deles no ar.

- Amo-vos. – Foi tudo quanto consegui dizer. Mais uma vez abracei e fui abraçada, beijei e fui beijada. Alguém aproveitou para tirar uma fotografia de nós três abraçados e claramente emocionados.

Devia ser pelo cansaço que eu me estava a sentir mais sensível, hoje. Não dormia há praticamente dois dias. Afastei-me um pouco, mas rapidamente tinha uma mão a prender-me um braço.

“Esta agora!” Pensei eu. “Ainda não é agora que vou poder ter sossego.”

- Bella? Estás bem?

Ah não! Jacob! Bolas, já me tinha esquecido dele. Eu precisava muito descansar mas se lhe dissesse isso, provavelmente ele iria ficar a pensar que era por causa da infeção e não me largaria mais.

- Oi Jack. Estou bem. Não te preocupes tanto. Estou apenas um pouco distraída mas é por causa do jet lag. Amanhã estarei ótima. E tu? Menos cansado?

Nesse momento vi uma amiga de faculdade a vir na minha direcção e tive uma ideia brilhante. O meu raciocínio foi rápido e movido pela extrema necessidade de ficar sozinha.

- Jacob, quero apresentar-te uma amiga. Estudámos juntas e, tal como tu, é louca por artrópodes, principalmente aracnídeos.

- Bella, finalmente encontramo-nos. Falhaste o jantar de curso… - disse Leah dando-me dois beijos e falando em simultâneo. – Mas não te preocupes, não foi muito interessante. O do ano passado foi muito melhor. A Alice tem-me informado da tua saúde. Já estás bem?

- Oi Leah. Estou bem, obrigada. Que bom ver-te. Deixa-me apresentar-te um amigo. Leah, este é o Jacob. – Virei-me para ele com um sorriso algo matreiro. – Jacob, esta é a Leah. A Leah foi minha colega de curso e de alguns trabalhos de investigação. Estivemos juntas a fazer um trabalho sobre tardígrados, antes da minha ida para o “pulmão da Terra”.

- Prazer Leah. Que trabalho interessante. O Filo Tardigrada é o que está mais próximo filogeneticamente dos Arthropoda.

- Igualmente, Jacob. Sim, o trabalho foi interessante mas eu gosto mesmo é de aracnídeos. Consegui uma bolsa para estudar os aracnídeos inoculadores de veneno e tem sido uma loucura. Estou a adorar. Esta semana…

Não consegui evitar rir. O meu objectivo foi cumprido. Para estes dois bastava falar de aranhas e tudo o mais desaparecia. Afastei-me calmamente e escondi-me atrás da pérgula. Esta zona do jardim era sossegada e tinha um banco enorme de madeira, duro mas agradável. Ficava totalmente tapada por tufos de plantas variadas e pela trepadeira chocolate que subia desse lado da pérgula. Era o meu refúgio. Sem ninguém à vista permiti-me relaxar e tirar a máscara do eu-estou-bem. Em pouco tempo estariam todos tão distraídos que eu podia entrar, tomar um banho e deitar-me.

Tinha que admitir que a estadia no hospital me tinha quebrado as forças e destruído o meu estudo sobre o comportamento do macaco-barrigudo. Não sei o que me desorientava mais, se o fim forçado do meu estudo etológico, se a fraqueza imposta pela doença, ou mesmo a convalescença que parecia só estava no início. No hospital, o Dr. Evens recomendou-me muito repouso durante pelo menos quatro semanas, fisioterapia respiratória e uma nova bateria de exames para verificar a existência ou não de sequelas.

Estava perdida nestes pensamentos, recostada no banco a olhar para o céu, sem nada ver, quando senti a pressão de um olhar sobre mim. Endireitei-me no banco por instinto e olhei em frente.

Ali estava ele. Sabia que acabaria por o ver mas tinha-me recusado a pensar nisso e a procurá-lo no meio dos convivas.

- Bella.

Não aguentei a tensão psicológica do momento, com todas as memórias que ele me trazia. Senti a escuridão a aproximar-se e a última coisa que retive foi o seu meio sorriso e a forma como a sua voz pronunciou o meu nome: quente e familiar.

Trevas.

publicado por Twihistorias às 18:00

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