11
Abr 11

 

 

 

QUINZE

 

(sem narrador)

 

Paul encontrava-se sentado
sobre a robusta areia de La Push, donde podia ver a beleza que o mar trazia.
Cada vez que o presenciava, fazia-o lembrar-se do que acontecera há três meses.
Supostamente já deveria ter passado todo o sofrimento e a solidão, mas nada se
comparava com a perda do seu anjo. Cassie tinha desaparecido, como se fosse um
sacrifício necessário. Mas de que serviria isso? Não ajudaria em nada. Porém,
ainda sentia a ligação que os unia. Sentia a Impressão que os vinculava.

 

Tinha feito de tudo para a
impedir de cometer aquele que podia ser o maior erro da vida dela. Não queria
perdê-la por nada, mas no entanto o destino tinha-os separado. Os músculos da
mão ficaram cada vez mais tensos e o ódio que sentia perante todos aqueles que
tinham levado a sua amada começara a entrar na realidade. Contudo, uma parte de
si mantivera controlada. Poderia talvez ser os bons momentos que passara com
ela que o faziam manter a sua aparência normal.

 

Mantinha pouco contacto
com os outros lobos e encontrava-se cada vez mais distante das outras pessoas.
Em poucos instantes, encontrava-se sempre à porta de casa de Rachel e via
Alphonse ao pé dela. Ou estaria a reconfortá-lo perante a perda de uma amiga ou
simplesmente estavam a unir-se mais do que uma simples amizade. Queria
perguntar-lhe se sabia de alguma coisa sobre Cassie, mas de nada adiantaria,
pois sabia que não havia outra forma de fazê-la voltar. Sentia-se culpabilizado
pela sua morte.

 

Após tentativas de impedir
que aquilo acontecesse mesmo, nada adiantou. Ela já não existia naquele mundo
terreno. Tendo sido o tempo tão pouco para se poderem conhecer melhor, o
sentimento tinha falado mais alto. Ela era a sua parceira, embora fosse um
anjo. Mas seria o seu anjo e de mais ninguém. Seriam um só, se tal fosse possível.
A tristeza que Paul sentia no seu interior era imensa e cada vez que à memória
sobressaíam todos os momentos desde que a conhecera, só pensava em como tinha
sido um cobarde.

 

Cobarde por não ter dito
antes o que era e o que ditava os seus sentimentos. Não se deixava aproximar de
ninguém com o intuito de não se descontrolar. Ele desejava que tudo tivesse
acontecido de maneira contraditória ao que se sucedeu. Assim, talvez tivesse
uma vida. Uma em que estivesse ao lado dela. Mas algo de estranho aconteceu.
Pequenas esferas de luz, iguais àquelas que vira quando estivera em Inglaterra,
fizeram-se sobressair à beira-mar. Eram cada vez mais e isso confundia-o, pois
não sabia o que se estava a passar.

 

Levantou-se da areia e
observou aquilo que parecia ser surreal. Foram-se juntando cada vez mais, até
que desapareceram por completo e no seu lugar, dera lugar a um corpo. Ele mal
podia acreditar no que via à sua frente. Esfregou os olhos para tentar perceber
se era real o que os seus olhos mostravam. Voltou a abri-los e continua a ver.
Era mesmo. Ela estava ali. Sorriu na sua direcção e o coração dele voltou a
sentir a ternura que por ela era única. Correu na sua direcção a abraçou-a de
forma intensamente amável.

 

Não se deixou conter e lágrimas
correram pelo seu rosto, como simples fios de prata. Olhou-a com uma felicidade
estonteante e viu que também ela chorava. Estava tão feliz por vê-la de novo
que sentiu o suave toque das mãos dela a preencher o vazio que se fizera
durante meses perpétuos. Levou gentilmente a sua mão ao seu cabelo e afastou
uma madeixa para trás da orelha. Voltou a sorrir-lhe novamente e observou
atentamente os seus olhos azulados. Mas uma pergunta ainda incidia naquele
momento.

 

- Como é possível? Diz-me
como é possível estares aqui, Cassie. – Perguntou ainda irradiado de
felicidade.

 

- Eles decidiram dar-me
mais uma oportunidade, mas como humana. – Respondeu, aproximando o seu corpo
até que o encostou completamente ao de Paul. – Mais uma oportunidade de refazer
aquilo que já estava escrito na minha vida.

 

Tanto ele como ela estavam
felizes por se terem reencontrado. Embora não o dissessem por palavras, eles
expressavam o que sentiam por um outro gesto mais carinhoso. Os lábios dele
aproximaram-se dos dela, cercando-os em todas as frentes. Quando se encontraram
unidos, o sentimento deixou-se levar pela corrente. Era recíproco de ambos os
lados e nenhum tentara quebrar aquele momento em que o silêncio à sua volta era
simples e único, apesar do som das ondas do mar ser apenas uma contribuição
para o momento em si.

 

- Eu amo-te, Paul. – Falou
ela, separando os lábios. A honestidade
nas suas palavras era algo que o deixara a sorrir por breves instantes. Ele ia
dizer por fim o que sentia.

 

- Também te amo, Cassie. –
Respondeu, deixando os seus braços elevar-se até à cintura dela.

 

Os lábios de ambos
voltaram a unir-se, deixando-se levar maré daquilo em que acreditavam. Para
Cassie, a eternidade havia sido uma constante incansável e maldita. Mas se não
fosse ela, não tinha encontrado Paul nem se tinha encontrado a si mesma. Seria
uma nova etapa na sua vida. Uma eternidade ao lado da pessoa que amava. Era o
que mais desejara. Uma eternidade humana com Paul.



publicado por Twihistorias às 22:01
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31
Mar 11

 

CATORZE

 

Era agora. Estava frente a frente a um dos pilares de luz. Os humanos davam-lhe o nome de Stonehenge. Fora criado há vastos por anjos que haviam cometido inúmeros pecados que antes de caírem no inferno, fizeram a réstia dos seus poderes caminhar sobre a terra, sob a forma mais abstracta e inimaginável. Estava decidida. Eu ia entrar dentro dele, apesar de saber as consequências daquilo que decidira. Agora sabia qual o propósito de ter recebido aquele fardo.

Tinha de viver novamente aquilo por que passara. Tinha que sacrificar toda a sua entidade, quer humana quer espiritual. A barreira situada entre o mundo dos vivos e o outro mundo estava a ponto de ruir e eu, pelos vistos, era a única que o podia impedir. Mas serviria para salvar as pessoas que são importantes para mim. Se eles continuassem bem, eu sentir-me-ia feliz. Este sacrifício era necessário. Tinha que o fazer o mais depressa possível, pois o tempo escasseava. Apesar do meu receio, era o que tinha de ser feito.

Estava cada vez mais perto de uma das entradas do pilar de luz. Ao vê-lo assim à frente dos meus olhos, um certo medo remexeu-se dentro de mim e comecei a questionar-me se era mesmo necessário. Claro que era. Mas saber que ao fazer aquilo estaria a dar um final inesperado à vida que nunca merecera, dava-me uma espécie de conforto. Mas no entanto, comecei a pensar neles. Nas pessoas que havia conhecido ao longo de todo o tempo que investira em terra. A senhora Howell, que tinha uma simpatia como nenhuma outra demonstrada para comigo. Mas sobretudo, pensei em Paul.

Seria correcto deixá-lo assim, sem ter nada para dizer? Sem lhe ter dito aquilo que realmente sentia…o que me causava um enorme aperto no coração. Ainda estava muita coisa por dizer um ao outro, mas agora já não podia voltar atrás. Enquanto dava o primeiro passo para o interior, ouvi alguém a gritar. Não por uma pessoa qualquer, mas a gritar o meu nome. E aquela voz não me era desconhecida. Dela podia sentir a preocupação e o sentimento. Era ele. Mas como é que sabia exactamente para onde viria eu?

De certo que fora Alphonse que lhe contara sobre a localização do pilar. Os meus pés finalmente se chegaram à terra do interior. Uma espécie de barreira invisível aparecera à volta das entradas, impedindo qualquer pessoa de se aproximar. Pressenti que estava na hora. Então abri as minhas asas, deixando-as sentir o último sopro do vento. Soltei um suspiro, sabendo que o fim estaria relativamente à minha frente. Pisei por fim o centro do interior, deixando a harmonia daquele lugar entrar no meu subconsciente.

Feixes de luz começaram a sobressair-se nas rochas, fazendo-as parecer pedras preciosas mas com ainda mais brilho. À vista de qualquer um podia ser maravilhosamente belo, mas no entanto aquele feito tinha outro sentido. Olhei para o céu que mudara repentinamente para um pôr-do-sol em tons variantes de vermelho, laranja e amarelo. Tudo se resumira a um simples gesto. A um acto que só agora podia ser eu a fazer. Até que senti algo que me travara por completo as minhas acções. Olhei para trás e via-o a com um olhar entristecido e de certo modo desesperado.

- Não o faças, Cassie. – Pediu ele, enquanto focava toda a sua atenção e os seus olhos em mim. – Por favor.

Apesar da razão me dizer para não avançar na sua direcção e me dizer para cumprir aquilo para que vim a terra, o meu coração ditava outra coisa. Gostava dele. Atrás de Paul, estavam Rachel e Alphonse. Os dois permaneciam lado a lado, lançando-me olhares que pareciam reprimir qualquer tristeza que o momento estaria a causar.

- Tenho que o fazer, Paul. – Respondi, ao mesmo tempo que as minhas mãos acenavam como um entristecido adeus. – Desculpa.

Voltei-me de novo para o centro e esperei que algo acontecesse. Raios de luz surgiram das rochas à minha volta, cobrindo-me com um manto luminoso resplandecente. Minúsculas esferas de luz começaram a irromper do chão. Pouco tempo depois, apercebi-me que era eu. Estava a desaparecer, mas seria por um bem maior. O meu sacrifício ajudaria a manter segura aquela terra e isso chegava-me. As pessoas que conheci podiam seguir com a sua vida tranquilamente.

Já não sentia nada. Parecia que todos os meus sentidos me haviam sido privados. A barreira desaparecera lentamente, deixando o interior sem protecção alguma. Deixei de ter qualquer vitalidade ou controlo sobre o meu corpo, estendendo-me sobre aquilo que parecia ser um monte de relvado desfocado. Apesar disso, vi Paul a correr na minha direcção pegando naquilo que restava de mim. Foi então que vi lágrimas a dispersar pela sua face. Ele estava a sofrer. A sofrer tanto quanto eu por deixá-lo.

- Gosto muito de ti. – Disse-lhe numa espécie de murmúrio silencioso causado pela ausência dos sentidos.

A sua mão fez-se deslizar pela minha cara transparente, ao mesmo tempo que se inclinava aproximando-se dos meus lábios.

- Cassie, eu também. – Pelo menos, foi aquilo que consegui perceber pelos movimentos dos seus lábios. – Por favor, não desapareças.

Os meus olhos lentamente se foram encerrando, perdendo a vida e a eternidade que por mim eram carregadas. Acabei por desaparecer por completo, deixando aquela terra. Sabia que voltaria a cruzar-me com o pós-vida, mas agora tinha que esperar pelo que o destino me preparara uma vez mais para poder seguir finalmente em frente.

publicado por Twihistorias às 20:00
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24
Mar 11

 

TREZE

 

(sem narrador)

Paul acordara logo quando o sol lhe tocou na face, através da janela. Ela não estava lá. Pensou que poderia estar na sala ou na cozinha, então foi ver se estava em ambas. Não estava lá. A senhora Howell até lhe tinha chegado a dizer que não a vira sair. Cassie parecia estar desaparecida. Era a única coisa de que Paul estava ciente. Isso causa-lhe dor e só conseguia pensar nela. Onde é que ela estaria e no que estava a pensar quando saíra de Forks sem avisar. Ele gostava dela mas nunca teve oportunidade de lho dizer. Apenas o demonstrou através de actos que achara serem os mais simples e menos complicados.

Ela era o seu anjo branco que entrara na sua vida. Sofrera impressão por ela e desde então, ele sabia que ela seria a rapariga que o acompanharia naquela vida humana. A cada minuto que passava, ficava cada vez mais impaciente. Não tinha nenhuma pista de onde ela poderia estar, mas ele iria fazer os possíveis para a encontrar. Estava sentado perante o mar que La Push oferecia, dando o seu normalíssimo brilho através do reflexo da luz na sua face límpida. Não conseguia ficar parado e por pouco não ficava exaltado de preocupação.

Mas quando olhou para à sua volta, reparou numa estranha criatura à sua direita que vista de longe não se podia dizer bem se o era ou não. Aproximou-se cada vez mais e viu o que era. Um anjo com asas relativamente brancas, como as de Cassie, envergado por vestes um pouco incomuns para certas pessoas. Mas estava acompanhado. E pelo que a sua visão lhe permitia ver, parecia ser a Rachel. Estavam os dois abraçados, ali em plena praia, sem ninguém que os visse na sua cumplicidade. Chegou à beira deles e deitou-lhes um ar de poucos amigos.

- Tu. – Dirigiu a sua atenção para o estranho anjo, provocando-lhe um certo incómodo. – Sabes onde ela está?

- Ela quem, Paul? – Perguntou Rachel, já assustada perante a atitude com que ele se dirigira ao anjo.

Paul simplesmente ignorou a falar por parte dela e voltou-se de novo para o anjo. Nada sabia dele, no entanto, ele sabia que poderia ser uma oportunidade num milhão de saber onde estava a rapariga que amava. No entanto, apesar de ter sido um pouco inoportuno, o anjo dissera-lhe o seu nome. Chama-se Alphonse. Mas nem aquilo serviria para a encontrar, quanto mais achar o que quer que fosse que lhe daria algo para seguir o rasto dela.

- Estou a falar da Cassie. – Respondeu seriamente.

Alphonse não se admirara nada perante aquela resposta vindo do nada. Conhecia aquele sujeito através das observações que fizera para manter a sua amiga em segurança. Era o lobo por quem ela se tinha apaixonado.

- Ela apenas está a cumprir a missão que lhe foi designada. – Respondeu-lhe Alphonse, tentando evitar qualquer tipo de confrontos logo quando estava com a sua protegida. – Mais nada.

Paul não compreendia. Cassie tinha uma missão? E qual seria era o grande enigma que lhe invadira agora o pensamento de uma forma brusca. Estava quase a perder a paciência quando Rachel repousa uma das mãos em cima do seu ombro. De certa forma, conseguiu manter o temperamento e evitar que se transformasse. Conseguiu ter novamente a razão, mas calma era algo que agora não lhe convinha nada.

- Ela foi até ao pilar de luz, que se encontra em Inglaterra.

Após ter ouvido isto, Paul voltou o seu olhar para ele. Já tinha um destino, mas agora era preciso que se esclarecesse ainda alguns pontos. Já começava a traçar um rumo, mas necessitava de mais informações.

- Explica isso melhor, que nem eu compreendo. – Pediu Rachel, dando a mão a Alphonse acabando por soltar aquela que estava a tentar acalmar Paul.

- Nós os anjos chamamos-lhe pilar de luz, enquanto os humanos lhes chamam Stonehenge. Tem um poder invulgar, poderoso e extremamente necessário em casos extremos.

Mas o que tinha tudo aquilo a ver com a Cassie? Nada na sua cabeça parecia entender, excepto o facto de ela estar (possivelmente) em Inglaterra. Enquanto tentava assimilar todos os factos que se reuniam na sua mente, Alphonse mais uma vez esclareceu:

- Ela foi sacrificar-se para proteger não só esta vida, mas também o mundo em que ambos residíamos e este também.

As últimas palavras faziam agora todo o sentido para ele e tudo parara nele. A Cassie ia sacrificar-se. Dar a sua vida por algo. Ele mal podia acreditar. No entanto, ele tinha que fazer alguma coisa. Tentar impedi-la ou achar outro modo de conseguir com que tudo se resolvesse. Não a queria perder, pois não sabia se aguentaria vê-la partir. Tomou uma decisão: Partir para Inglaterra e evitar que ela morresse. Rachel e Alphonse decidiram acompanhá-lo, mas com o intuito de se poderem despedir.

Não era por mal que o iriam fazer, mas quando um anjo tomava uma decisão, não havia nada que o demovesse dela. Várias horas passaram e os três já estavam num comboio em direcção à terra dos ingleses. Na sua mente, não cabia o conceito de perder a rapariga que amava do fundo do seu coração. Espera por mim, Cassie. – Pensou ele para com os seus botões.

publicado por Twihistorias às 21:18
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16
Mar 11

DOZE

 

Havia passado toda a noite acordada, a pensar nas palavras que Alphonse me dissera. Também a ele parecia custar dizer tudo aquilo, pelo jeito com que me falava. Mas era eu que tinha que arcar com aquilo tudo. Estava abraçada a Paul, sentindo o seu aroma a invadir-me a respiração. O seu calor trespassava-me a pele arrepiada pelo medo e insegurança que cada sílaba da mensagem me causava. Por um lado, não o queria fazer. Tinha um outro caminho que me era apresentado e que abracei, sem saber o que poderia acontecer a seguir.

Mas tinha que cumprir o meu propósito, a razão inicial que me trouxera à terra. Esta era a outra face adversa. Queria tanto poder ter as duas coisas, para assim poder ter um pouco de paz, que é uma das coisas que a eternidade nunca me trouxera. Aquela vida amaldiçoara-me de novo. Tinha que deixar as pessoas com quem convivi num par de dias e sacrificar-me em seu nome para assim garantir-lhes a sua própria segurança. Era uma hipótese que se calhar nem devia estar a ser posta em causa, mas era assim mesmo.

Ergui-me lentamente da cama, numa tentativa de não acordar Paul. Vesti-me rapidamente, sem fazer um barulho que fosse minimamente incomodativo. Desci silenciosamente as escadas e fui para a sala, recolhendo cada pedaço de memória que pudesse ser importante. Já sabia o que tinha de fazer. Embora fosse uma decisão muito dura, era o mais certo a fazer. Reparei no pequeno livro, repousado sobre a mesa central, que Christine andava a ler afincadamente. Peguei nele e folheei algumas páginas. Era realmente algo curioso, mas não tinha tempo a perder.

Pousei-o no sítio onde o tinha havia encontrado e dirigi-me até à porta. Saí de casa, rodando pela última vez a maçaneta daquela porta. Dei vários passos na direcção oposta, impedindo-me a mim mesma de olhar para trás e voltar para junto dele. Soltei as minhas asas da invisibilidade que as encobria e sobrevoei de novo os céus. Voar também seria uma das coisas que teria de abdicar para total segurança de todos. Por isso, aproveitei pela última vez o sopro das nuvens. Senti uma forte dor no peito que parecia não querer acabar.

Aterrei numa estação que se encontrava perto da cidade, voltando a esconder de novo aquilo que me caracterizava (ou caracterizaria pela última vez) como um anjo. Entrara sorrateiramente numa das carruagens que constituíam o comboio. Atravessei uma distância considerável dos vagões, observando cada pessoa que silenciosamente permanecia sentada no seu lugar. Após alguns minutos consegui encontrar um lugar livre, sem ninguém à sua volta. Sentei-me logo a seguir, sentindo o chão por debaixo dos meus pés a mover-se. O comboio estava em movimento.

Senti-me nervosa pelas minhas acções, pois não sabia se iriam ser bem interpretadas por parte das pessoas que tive de deixar. A senhora Howell, que tão bem cuidara de mim e a quem fizera companhia durante aqueles dias que se faziam parecer semanas e a Paul, o rapaz lobisomem por quem nutria um sentimento nada invulgar e perfeitamente natural aos olhos de qualquer pessoa. Olhei através da janela e vi que inúmeras árvores passavam diante de nós, como se fossem elas a andar e não o comboio em si.

Adormeci após o sono me ter invadido, deixando cada traço real do lado físico do real enquanto me deixava consumir pelos sonhos que se avizinhavam. A vida quase que passara sob forma de imagens digitais, como se fosse um filme a preto e branco. E uma delas foi de todo o que mais afastava de mim, pois evitava tentar lembrar-me dela. O dia em que tudo se deu. O tiroteio em que a minha família se vira envolvida, enquanto eu estava numa saída qualquer com amigas que nem se preocupavam minimamente comigo.

Só queriam saber dos seus vestidos e sapatinhos a condizer, borrifando-se para qualquer vida a não ser a delas próprias. Se não tivesse escolhido ir com elas e sim com os meus pais, talvez tudo tivesse corrido de diferente forma. Ainda hoje me martirizava e culpava-me de ser a causa da sua morte. Quando recebera a eternidade, fruto de algo que não sabia bem o que era, não sabia o porquê e o como de tal decisão. Depois, o tempo foi passando e cada vez que pensava que tinha uma vida nova como sendo um anjo, entristecia-me.

Quando de novo, a luz do sol me batera em cheio na cara, os meus olhos abriram-se instantaneamente, fazendo-me ver de seguida a paisagem que se via do lado de fora. Era Inglaterra, ao mesmo tempo que se notou que o sol começava a pôr-se. Muito tempo não me restava, por isso, assim que o comboio foi abrandando a sua velocidade acabando por parar por completo, sai do vagão onde estava para ir para o exterior, assim como as pessoas que restavam. Corri até à casa de banho da estação. Pelo menos, não me veriam aqui.

Soltei as minhas asas e num gesto rápido e sem vigor, voei até alcançar uma distância a que ninguém podia ver sequer o que estava a sobrevoar os céus ingleses. Marquei rumo até ao pilar de luz que segundo o que me contara o consílio, se localizava perto do local onde estava. Fui abaixando um pouco a altitude, tentando ver onde estava. Por sorte, tinha-o visto mesmo há instantes, em cima de um monte. As minhas asas começaram a trazer-me até terra, pousando delicadamente os meus pés sobre a erva macia. Voltei a guardá-las na invisibilidade, caminhando até estar suficientemente perto daquele lugar.

publicado por Twihistorias às 20:00
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09
Mar 11

 

ONZE

 

Poucas horas faltavam para o meio-dia, tendo-me já levantado apenas há alguns instantes. Observava, com um sorriso nos lábios, a tranquilidade com que dormia Paul. Após uma noite junto dele, poucas certezas tivera sobre o que faria a seguir. Tinha um cargo como anjo, mas já não desejava obedecer à missão que me fora incumbida. Agora só desejava permanecer a seu lado. Talvez a eternidade em si até nem seja má de todo. Deu-me uma oportunidade que achei ser única. Uma oportunidade de o conhecer.

Cassie, Cassie, Cassie.

De novo, alguém me chamava. Mas desta vez, sabia quem o fazia. Saí do quarto e fui em direcção à porta de casa, à medida que a voz se aproximava cada vez mais. Rodei a maçaneta da porta e olhei para o lado de fora. Nada via, até que olhei para o céu azul. Vi um outro ser como eu a chegar perto do solo, acalmando a batida das suas asas brancas. O seu olhar estava cansado, assim como as suas vestes pareciam gastas o suficiente para se romperem a qualquer momento. Mas soube logo que era ele, o único amigo a que me dera a conhecer. Alphonse.

- Andaste outra vez nas tuas saídas, não foi? – Perguntei, ao cruzar os braços arqueando uma sobrancelha fazendo com que parecesse que estava a tomar uma posição de gozo.

- Goza à vontade que é muito bonito. – Respondeu de fora um pouco cínica.

Este meu amigo pelos vistos nunca vai mudar. Usualmente desfrutava da sua privacidade reflectindo sobre um assunto qualquer, deitado na maciez de uma nuvem vizinha. Mas desta não esperava. Não acreditava que ele tinha vindo mesmo cá à terra. E com que propósito o havia feito? Perguntas e mais perguntas que talvez continuariam no vazio sem algo que as complete de todo.

- Então…pode-se saber o que fazes por aqui? – Perguntei, sem o mínimo de interesse, embora sentisse um pouco de curiosidade. – Que eu saiba, não tens nenhuma missão cá.

- Pensei que poderias precisar de ajuda. – Caminhou na minha direcção e pousou uma das mãos nos meus ombros. – Quantos mais, melhor.

Eu nunca precisei de ajuda para nada, pois sabia muito bem desenvencilhar-me sozinha. Mas por muito que escutasse as palavras de Alphonse, nada em concreto parecia ser realista. Ele não me estava a contar tudo.

- Agora a sério. – Olhei-o de frente, dando-lhe uma expressão razoável e completamente fingida. – Por que é que vieste à terra?

A sua boca continuava calada e nem um gesto fizera para sinalizar uma resposta. Estaria envergonhado demais para me dizer ou não confiava suficientemente em mim para mo dizer? Tinha que dizer algo para que o silêncio se quebrasse.

- Tenho alguém a quem proteger agora. – Falou, separando a sua mão de mim virando-me as costas. – E mandaram-me enviar uma mensagem para ti. Penso que terá a ver com a tua missão.

Uma mensagem? Mas de quem seria? Agora estava demasiado embrenhada nos sentimentos e pensamentos que mal tinha tempo para me direccionar no verdadeiro caminho que me trouxera. Sendo assim, estava disposta a ouvir. Soltei as minhas asas, como um acto de respeito para com ele, sendo uma espécie de símbolo de confraternização entre os anjos que o faziam.

- A barreira que divide os nossos mundos, quer o eterno quer o terrestre, está a fragilizar. Pelos vistos, algo interferiu com o seu equilíbrio e pedem a tua ajuda, sendo que tu és a única capaz de o resolver.

Cada palavra que dizia era silenciada com seriedade. Ele estava a falar a sério. Mas como seria eu capaz de resolver algo que nem sequer tinha o mínimo de conhecimento possível?

- Tens que te sacrificar para salvares este mundo e o nosso. – Perante aquilo que ouvia, o meu corpo havia-se petrificado.

Agora que tinha encontrado um pouco de paz e um sentimento novo junto de Paul, isto tinha de acontecer. Se bem que tinha de cumprir o meu propósito. Acima de tudo, estava o meu dever. Os sentimentos eram-me preciosos, mas será que eu estaria disposta a arriscar tudo? Após alguns minutos de palavras aleatórias que pouco sentido fazia, Alphonse fora ter com aquela que lhe fora designada como sua protegida. Contudo, o bater das suas asas ao elevar-se nos céus pareciam tristes e algo abalados.

Voltei para dentro de casa, vendo o tempo a passar com um raio de luz. Paul permanecera todo o dia a meu lado, acariciando-me o rosto com um beijo que, um após o outro, se tornava algo que estaria sempre na minha memória. A noite previamente havia chegado. Ele levantara-me ao colo, dirigindo-se para o quarto onde a demonstração dos nossos sentimentos ocorrera pela primeira vez. Deitou-me à ponta da cama, enfiando-nos aos dois por debaixo dos lençóis trazendo o meu corpo para junto do seu. Um calor extremamente agradável invadiu de novo a minha pele e talvez fosse isso que precisava para me acalmar um pouco.

publicado por Twihistorias às 20:00
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28
Fev 11

 

 

 

DEZ

Cada minuto tornava-se num segundo precioso que resguardava no meu interior com todo o cuidado possível. Guardá-lo com a possibilidade de voltar a recordá-lo quando chegar a altura. Mas por enquanto, deixei-me encobrir pelos sentimentos que me puxavam para ele. Paul era único e era o único na terra que sabia quem eu era. Ele vira as minhas asas brancas e passou solenemente as suas mãos por ela como se de um elemento da própria natureza se tratasse. Como podia ele ser tão meigo comigo?

- Paul… - Murmurei num segundo parado.

Ele voltou a unir os seus lábios aos meus, levando ambas as mãos à minha cintura. Ele era relativamente quente, sendo algo mais do que um humano. Podia ser o facto de ele ser um lobisomem, mas não era mesmo isso. Ele parecia estar realmente a importar-se comigo, algo que nunca sentira nem havia observado após anos junto de outros anjos. Separei-me dele, agarrando numa das mãos. Começamos a caminhar por entre os trilhos que a floresta nos oferecia. Estava tudo calmo e incansavelmente óptimo.

O silêncio e a harmonia conjugadas num único ponto. Era perfeito. Talvez o paraíso onde residira tivesse algo parecido com isto, mas pelo que via nada se comparava com a magia da natureza. À medida que avançamos cada vez mais, a clareira afastava-se aos poucos. Senti um certo alívio por ter saído de lá. O sangue do animal, apesar de estar apenas encrespado à terra revoltada e à casca de uma árvore inocente, era algo que me incomodava de certa forma. Voltei a pensar naquela eternidade que me parecera uma maldição.

Sempre pensara nela como algo inacessível, que não se podia tocar ou sequer ver. Era algo que simplesmente era reservado àqueles com capacidades e qualidades para se tornarem anjos. Mas continuava a pensar da mesma forma. Ainda achava que não merecia ser um anjo. Não depois do que havia acontecido no meu passado. A minha atenção captou a de Paul, voltando-se para mim com um sorriso fascinante que me deu um claro tom de rosa nas maçãs do rosto.

Quando demos por isso, já estávamos a avistar a praia na linha do horizonte. Rapidamente corri até lá, descalçando logo as sapatilhas. Deixei a areia encobrir os meus pés ao mesmo tempo que pequenas ondas do mar se aproximavam lentamente de mim. Paul rapidamente me alcançou, entrelaçando os seus braços nos meus. Sentamo-nos numas dunas não muito longe da água, enquanto ele me encostava ao seu peito. Senti os músculos do seu corpo relaxados, o que me causou um sorriso nos lábios.

Enquanto ele afastava cada madeixa do meu cabelo, impedindo que a visão ficasse tapada, cheguei a minha face até à sua. Beijei-o suavemente, tentando interpretar o que os meus sentimentos me diziam para fazer. E no fundo, senti que estava correcto. O meu coração estava a guiar-me naquele momento. Já não queria saber da missão nem de nada. Estava completamente entregue ao que o destino me tinha reservado. Mas será que Paul fazia parte das suas meticulosas acções? Apesar de não ter uma resposta concreta quanto à pergunta em si, deixei-me levar pela corrente.

O tempo passava à nossa volta enquanto nos deixávamos levar pelo beijo que parecia durar uma eternidade. A noite já se instalara, espalhando as estrelas de forma a iluminar o céu nocturno. Era uma visão belíssima e ainda era mais, porque estava a observá-la com Paul. Mas estes sentimentos eram tão repentinos e de certa forma tão misteriosos que nem sabia o que fazer. Mas o coração ditava agora as regras e por ele deixei-me seguir, fazendo aquilo que a meu ver estava de facto correcto.

Não nos mexíamos por um minuto que fosse, apenas deixando os lábios submeter-se à vontade de cada um. Mas tanto ele como eu sabíamos que já eram horas de ir. Por isso e por um acto realmente inesperado, pegou-me ao colo com extrema facilidade. Encostei-me ao seu peito, sentindo o calor do seu corpo a transbordar e o seu coração com o normal batimento cardíaco. Sossegou-me por momentos e estava completamente relaxada perante ele. Eu gostava dele. Gostava imenso dele.

Pouco tempo depois tínhamos chegado a casa da senhora Howell, sendo a própria a abrir-nos a porta. Quando me fora a despedir dele, Christine fizera questão em convidá-lo para passar a noite. Era uma noite tardia e as horas já não convinham nada a ninguém que andasse por aí sozinho. A ideia até era boa, muito boa na minha opinião, até que a senhora Howell me piscara o olho com um sorriso bordado nos seus lábios. Será que ela tinha feito aquilo por mim? Mais uma coisa à qual precisava de retribuir um dia.

Subi pelas escadas até chegar ao meu quarto, sendo seguida por Paul. Uma coisa que passara por mim foi o facto de onde iria ele dormir. A porta atrás de mim fechou-se rapidamente, provocando o mínimo barulho possível. Troquei a minha roupa pela camisa, deixando pronta para dormir. No entanto, ele olhava para mim de uma forma querida e que me parecia inocente. Deitei-me na cama, enquanto ele fazia o mesmo pondo-se a meu lado. Beijou-me carinhosamente o pescoço, deixando-o arrepiado perante o seu gesto. Trouxe-o para junto de mim, até que os nossos corpos ficaram novamente juntos. Beijou-me os lábios e correspondi, movendo-se em conformidade com os dele.

publicado por Twihistorias às 19:25
Fanfics:

22
Fev 11

 

NOVE – PARTE I

 

O que porém me aproximava da realidade, mais me distanciava daquilo que tinha afixado na minha mente. Não merecia ser aquilo que sou hoje. Mas parecera que eu não tinha nem nunca tivera voto na matéria, por isso, deixei-me levar naquele rumo desconhecido. Dirigi-me até à cozinha e vi a senhora Howell debruçada sobre o mesmo livro que vira há dias atrás, com uma chávena de chá a soprar o vapor quente para o ar. Sentei-me num banco a seu lado, puxando uma chávena colocada no meio da mesa com o conjunto.

O mesmo efeito do chá se fizera surtir como se o próprio líquido suspirasse em tons variados de ressonância. Ao tocar levemente com a minha mão por cima do braço de Christine, esta olhara-me com franqueza. Com um olhar reluzente que quase se confundia com a feliz ternura. Fechou o livro, dando por encerrada a sua leitura e virou-se para mim. Enquanto tudo se permanecia num silêncio murmuroso, levei a chávena aos lábios saboreando cada gota de chá. Mas ainda assim, pensava em como tudo se diferenciara tanto ou me desviara do meu verdadeiro caminho.

- Então, querida? – Perguntou a senhora Howell, passando a pequena colher sobre as bordas da chávena fazendo-a tilintar. – Estás preocupada com alguma coisa, é isso?

- Não. – Respondi, tentando lembrar-me de outra coisa que se interpusesse na conversa. – Apenas…vejo como esta área é raríssima. Tanta naturalidade que por aqui flui e a beleza por cá parece infinita. Traz-me recordações, de certa forma.

Um sorriso brotara dos seus lábios, enquanto a sua postura se endireitava na cadeira onde estava sentada. As suas mãos cobriam agora as minhas com facilidade, sentindo cada vez mais a ternura que já se havia envolvida pela simples visão.

- Este sítio é bastante calmo e sereno, o que traz uma óptima tranquilidade para quem vive por esta zona. – Disse Christine enquanto se levantava da cadeira, deixando a chávena a repousar em cima da cálida frescura que a mesa proporcionava. – Vai dar uma volta por aí. Deixa a natureza vir ter contigo e oferecer o que de bom tem, apesar de alguém já o ter feito.

Corei instantaneamente após Christine parar de falar. Será que ela se referia ao facto de Paul me ter levado a conhecer a zona? Mas como saberia ela que ele parecia mexer comigo? Acho que estou a ficar um pouco previsível. Mas aceitei o seu conselho, saindo de casa após dar uma pequena limpeza pela sala. Caminhei em direcção àquela floresta, a perguntar-me incansavelmente se aquele animal ainda estaria por lá. Relembrando as avantajosas palavras de Alphonse, sabia que tinha de manter aquele estreito cuidado com o sangue.

Observei para ambos os lados e não via nada. Já me adiantara bastante e quase não via a casa da senhora Howell. Então abri as minhas asas e levantei o meu corpo, levando-o a relembrar as brisas que há algum tempo desejava sentir. Deixei-me levar pelas correntes, deixando-me a meio caminho da floresta. A pouco e pouco, fui descendo de altitude pousando lentamente os meus pés sobre a relva. Decidi deixar as minhas asas visíveis, apenas por precaução. Virei os meus sentidos para o centro, por onde havia passado.

A cada passo que dava mais para a frente, mais receio tinha de que algo fosse acontecer e que não pudesse completar a missão. Enquanto avançava mais para aquilo que me parecia ser a clareira, as minhas mãos foram tocando todas as árvores que se encontravam pelo caminho sentindo a casa dura da madeira quase a rachar. Algo mais tinha acontecido, mas depois de ter estado aqui. Eram garras profundas que se afundavam cada vez mais para o interior dos troncos que mantinham a mesma imobilidade natural.

Quando finalmente chegara à clareira, algo se passara. E estranho era dizer pouco, visto que o animal já não jazia contra a árvore oca que segurava a sua cabeça, deixando-a encrespada de sangue devido à poça que ainda se fixava ali. Estava novamente a ser invadida pelo medo e pelas palavras de Alphonse, enfrentando em confusão na minha mente. Por momentos, ouvi algo a mover-se nos arbustos. Pensei que seria algum coelho ou assim, mas não o era. Olhei para a minha direita, donde podia ver algo que mais parecia demasiado irreal.

Quase não acreditava no que via, pois aquilo parecia saído de um sonho paranormal. Apesar de ter visto há dias a essência da morte, nada me assustara mais do que aquilo que estava a presenciar. Olhava para mim fixamente, sem nunca desviar aqueles olhos profundos. O meu coração corria desenfreadamente sem me chegar a dar a razão por que o fazia e suores frios cobriam-me a testa. Eu sabia que tinha fugir, mas o medo paralisara-me o corpo por completo.

Mas aquilo que eu via tanto tinha de assustador como de bonito: um lobo mas com o dobro do tamanho de um normal, com um tom de cinza escuro. Porém, tinha os olhos castanhos profundos dele. Da pessoa por quem nutria um sentimento. Mas seria impossível. O lobo foi-se aproximando cada vez mais de mim, até estarmos a uma distância pouco segura de um do outro. Agora estava mesmo petrificada e por mais estranho que pudesse parecer, os seus olhos não largavam a atenção dos meus deixando-me ainda sem palavras.

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17
Fev 11

  

  

OITO

 

Supostamente deveria estar contente por saber que ainda existiam pessoas com tão bom carácter como a senhora Howell, o Paul e a tal Rachel. Mas não estava. Por mais que tentasse um sorriso, acabava por levar ao mesmo. Sentia que estava a ser descuidada. Tinha uma missão a cumprir e havia sido por isso que tinha vindo à Terra. Enquanto anjo, tinha certas obrigações a cumprir. O instinto de cumprir o nosso dever era algo que nascia connosco no princípio da fase de mudança de alma. Mas rejeitava a eternidade que me percorria pelas veias.

Parecia estar a rejeitar aquilo que eu era e que certamente pelo padrão normal deveria orgulhar-me do que era e que tinha um novo objectivo e um jeito novo de começar a vida. Mas eu não merecia tudo aquilo, assim como não tal dádiva como aquela. Se pudesse voltar a fazer tudo na minha antiga vida e impedir aquilo que acontecera, de certo estaria tudo numa rotina bem melhor da que tenho agora. Mas não havia volta a dar, pois cada passo que dava era definitivo. Permanente no seu significado e que perdurava durante anos irremediáveis.

Mas agora me parecia tão real quanto o possível me proporcionava. Já não pertencia àquele mundo terreno. Era um ser diferente dos vivos, parecendo estar viva mas no entanto não o estava. As aparências podiam tanto iludir como mentir e esconder este segredo portador de uma verdade que tinha medo em contar seria como um aperto no coração. Seria correcto se pudesse desabafar com alguém sobre o facto de eu ser um anjo? Devias deixar-me de coisas e pensar no meu objectivo. A missão, Cassie, a missão.

Mas depois Paul aparecera de forma repentina na minha mente. Aparecia entre as imagens rotativas que me faziam lembrar os filmes que rodam a preto e branco, seguindo em movimento cada traço físico que se apresentava. Ele conseguia chamar a minha atenção de uma forma estranhamente absurda, mas não conseguia desviar os meus pensamentos dele. Quer dizer, ele era bem constituído e assim, mas o que mais me impressionara fora o seu acto de generosidade para com a senhora Howell e para comigo.

A Rachel tinha sorte em tê-lo como namorado. Mas depois ainda havia outras perplexidades confusas demais para tentar compreender. Só o facto de ter encontrado Alphonse numa das minhas memórias, deu-me vontade de rir sem parar. Mas ele era um bom amigo, isso não o negaria. Mas tinha aquela persistência impertinente que me fazia por vezes perder a paciência, tanto quanto aos nossos superiores. Sabia que o melhor era esperar pelo rumo dos acontecimentos, como me havia dito anteontem.

Mas confiar em algo que só nos desiludiu durante anos e anos a fio seria como um tiro no escuro. Não se sabia se acertaríamos no alvo concreto, pois apenas ouviríamos o som desgastado da bala a sair da arma em direcção ao nada. Seria arriscar numa hipótese remota, mas que serviria com o intuito de não desistir à primeira. Decidi conformar-me com o conselho de Alphonse, fazendo adaptar-se à minha própria maneira de ser. E como será que tudo que irá passar quando tudo estiver terminado? Será que o rumo da vida continuará?

Quanto a isso, eu tinha a certeza que seguiria com normalidade, mas não pensava se alguém sentiria porém a minha falta. A minha cabeça já estava tão emaranhada naqueles pensamentos repulsivos e sem sentido nenhum que começa a provocar-me insónias. O sono não era algo fácil de apagar, mas era possível. Mas era como estar a lutar contra as nossas necessidades. A eternidade representava para mim uma grande ameaça, porque nunca estaria descansada nem suficientemente calma para seguir com a minha nova vida. Mas tinha sido uma decisão tomada pelo consílio e tal não se podia renegar.

Quando me lembrava das primeiras vezes como era um pouco descuidada nas primeiras lições de voo, fazia-me pensar acerca do meu passado longínquo. Já não sabia de nada sobre mim própria, pois já não tinha os mesmos modos que outrora me foram chegando como um simples suspiro natural. Mas seria eu a escrever um novo capítulo e mais ninguém. Eu tinha de dar o primeiro passo e aceitar aquilo que era, embora doesse mais do que tudo. Seria a profundidade dos pensamentos contraditórios a ganhar asas e decidir cada acção por mim tomada. Mas tinha que ter consciência do que ia fazer.

Observei por instantes o sol a nascer de novo, do lado de fora da janela do quarto. A cada minuto ia-se levantando mais um pouco, estendendo o seu brilho pela terra firme. Um novo dia ia começar, mas não sabia em que é que isso ia mudar. Tinha a missão para cumprir, ao mesmo tempo que tinha de agradecer toda a generosidade de Christine para comigo. Ia esconder as minhas asas de tudo e todos quanto possível. A altura para contar ia chegar a qualquer momento.

Apenas tinha de esperar para ver o que acontecia, ao mesm

o tempo que pistas se reuniam na palma das minhas mãos, sem saber bem o que eram ou que pretendiam que eu fizesse com elas. Nem sequer sabia o propósito da missão, mas tinha que confiar nas sábias palavras dos arcanjos. Era uma decisão tomada por todos. Eles postaram a sua confiança em mim e eu não os ia desiludir. Levantei-me da cama, afastando os lençóis para trás. Despi a camisa de pijama e vesti novamente a minha roupa, pronta para sair do quarto e esperando que o resto do dia me pudesse correr bem.

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12
Fev 11

 

SEIS

 

Cassie. Cassie. Cassie.

O constante chamamento do meu nome apenas serviu para me fazer acordar e levantar a cabeça, à procura do dono da voz. Nada via. Apenas o semblante escuro da noite protegida. Voltei a deitar-me para a junção do sono sobre as pestanas. Deve ter isso apenas o vento. Sim, deve ter sido só isso. Escapei de novo à realidade, imergindo nos sonhos escondidos na profundidade da minha mente subalterna da eternidade. Como era possível continuar com a minha vida para a frente se aquela maldição teimava sempre em aparecer à minha frente?

Cassie, acorda.

Afinal não tinha mesmo uma alucinação de todo. Voltei a abris os olhos e procurei por cada canto o dono daquela misteriosa voz. Denotava a insistência ao carregar a última palavra. A sintonia com que falava como se me conhecesse há já muito tempo, a confiança com que pronunciava cada palavra como se de um suspiro se tratasse. Só havia uma pessoa capaz de me incomodar a uma hora destas. De certeza que se tratava dele. Quase nunca me enganava e por pouco falhava nas minhas deduções.

- O que queres, Alphonse? – Murmurei, enquanto retinha os olhos adormecidos pelo cansaço junto do conforto que vinha da almofada.

Finalmente. Estava a tentar contactar-te há dias. Abre os olhos e olha para mim.

Acabei por fazer o que me pedira, levantando-me da cama com pouca facilidade. Esfreguei os olhos numa tentativa de deixar passar a dor residente que se entranhava neles. Para todos os lados olhei e nada via. Nem uma pessoa, nem sequer Alphonse. Estaria a ter uma alucinação típica da Terra? Mas também havia uma coisa intrínseca: precisava de ausentar a minha humanidade, ou o que restava dela, e soltar as minhas asas para o poder ver. E assim fiz. Asas brancas cravadas nas minhas costas reflectiam o brilho da noite para cada uma das suas plumas. Comecei por ver uma imagem desfocada, no entanto, deu para perceber que era o Alphonse.

- Alphonse, és tu? – Perguntei surpreendida.

Estava estranho, pois nunca o vira assim. Parecia uma espécie de forma aparente, diferente de algum anjo que alguma vez eu tinha visto ou conhecido. Pouco nítida, consegui ver um sorriso nos seus lábios tremidos. Estava com dúvidas ainda maiores pelo que se passava por ali.

Claro que sou eu. Pensavas que era quem? O arcanjo Gabriel?

E mais uma vez, o seu sarcasmo deixou-se ver. Era incrível como em algum tempo que estive fora, ainda nem tinha mudado nada. O seu comportamento permanecia o mesmo, a sua atitude igual à que conheci pela primeira vez. Ajeitei um pouco o cabelo para trás das orelhas e ergui a minha face na sua direcção. Tinha que esclarecer umas coisas.

- Pode-se saber o que és agora? Ou pelo menos, aquilo que me mostras em vez de ti?

A teu ver, sou apenas um espectro. Digamos que ganhei uns novos truques enquanto estiveste fora, minha cara.

- O que tu chamas de truque, eu chamo de Projecção Astral. – Respondi cruzando os braços, ainda impressionada com o que via à minha frente.

A aquisição de novos poderes por parte dos anjos só se daria quando se salvava alguém importante. Mas não consegui captar a ideia ou quem teria Alphonse salvo para conseguir a Projecção Astral. Ainda me intrigava só o facto de ter ganho algo, mas de certa forma ficava feliz por ele. Tinha feito um enorme esforço para chegar até onde chegou como anjo. E estava em divida para com ele. Ele fora o meu único amigo em todo o paraíso nefasto.

Como queiras. – Soltou as suas mãos dos bolsos das calças e olhou para mim, como se algo de estranho se tivesse passado. – Tenho-te observado ultimamente. Tens consciência do perigo em que estiveste quando estavas a poucos centímetros do sangue?

- Aquilo foi apenas uma coincidência. – Encolhi os ombros e levei as mãos às ancas, apostando numa posição um pouco fora da minha. – Mas a situação por si era estranha. Um animal morto daquela maneira chama atenção a mais, não achas?

Pressupondo do principio que deste com ele numa zona remota da floresta, parece natural. Mas tem cautela. Nunca se sabe o que poderá acontecer num momento daqueles. E espero mesmo que não te arrisques de novo daquela maneira.

- Eu sei muito bem o que faço, obrigada. – Respondi, sentando-me na ponta da cama. – Foi a mim que me confiaram a missão. Tenho plena confiança nos meus instintos e eles sempre me guiaram no bom caminho.

Não eras tu quem detestava a eternidade acima de tudo?

- E ainda detesto. Estar presa a uma vida que não mereço não é justo para ambas as partes. E não sei mesmo o que tenho de fazer ao certo.

Confia em mim. Tudo a seu tempo se revelará. Tens apenas que te deixar levar pelo rumo dos acontecimentos. Vive entretanto no meio dos vivos enquanto tentas recolher pistas. Agora tenho que ir. Precisam de mim no consílio.

- Voltarás de novo para falarmos? – Perguntei, reprimindo qualquer vontade de dizer as saudades que teria dele.

Claro, sua tonta. Até qualquer dia.

E pouco a pouco, a sua forma espectral foi desaparecendo até que se deixou de ver num sopro gelado que se arrastava pelas freixas da janela semi-aberta. Fechei-a de seguida e deitei-me de novo na cama, arremessando os lençóis por cima de mim, devolvendo-me o sono. Agora tinha que descansar.

 

SETE

 

Já estava de pé fazia algumas horas. Tudo parecia estar calmo e reconfortante, o que me provocava um certo arrepio pela espinha acima. Tudo o que significava aquelas situações parecia querer dizer problemas. Não sabia se eram directos para mim ou para algo em concreto, mas de certo que me provocava curiosidade. Olhei pela janela do quarto e via-se as folhas acastanhadas a pairar sobre o vento quase a tocarem no chão, enquanto algumas já lá estavam. Paradas no tempo e agarradas ao único vínculo que as mantinha sobre a terra.

Rapidamente fiz a cama e me calcei, deixando a camisa de pijama relaxada sobre a cadeira que permanecia imóvel junto à parede. Vesti novamente a minha roupa e saí do quarto, descendo o andar onde estivera. Procurei pela senhora Howell mas parecia não estar em casa. Devia ter saído, pensei. Parei na sala para pensar no que poderia fazer. Podia começar a reunir pistas para a missão. Ou então dar uma limpadela à casa, como sinal de respeito e bom grado perante Christine. E assim fiz.

Saí de casa e fui procurar uma vassoura às traseiras da casa. Com sorte, consegui encontrar uma, que estava encostada ao apanhador, mais um saco de plástico. Voltei para a entrada e comecei a varrer as folhas encrespadas, deixando apenas o verde da relva colorir o espaço do pequeno jardim. Ajeitei o meu cabelo para trás e continuei, apesar de saber que o trabalho ainda era muito. Pouco tempo depois, uma pequena parte já estava. Só faltava mesmo dar um jeito nas plantas e já estava tudo. Arregacei as mangas e voltei ao trabalho.

Senti algo no ar que me parecia conhecido. Olhei para a estrada que se avinhava ao pé da casa e uma mota se aproximava, diminuindo cada vez mais a velocidade até chegar à beira do passeio e parar por completo. O condutor tirou o capacete e pude ver quem era. Já seria de esperar que era o Paul. A mota dele estava exactamente igual às primeiras vezes que a vira. No entanto, a minha atenção captara os olhos de Paul. Continuavam na mesma pureza dos castanhos profundos e sentia-me estranhamente bem quando ele estava perto de mim.

- Vê-se que já meteste as mãos à obra. – Disse, assim que saiu da mota e se começou a dirigir na minha direcção.

- Tenho que fazer algo para ajudar a minha avó. – Respondi atrapalhadamente. Apesar de estar desconfortável naquela situação, consegui pelo menos arranjar uma mentira que se justificasse. – Acho que ajudar é o mínimo que posso fazer.

A sua compostura mudou ligeiramente e ajoelhou-se, pegando no saco que tinha pousado ao meu pé. A sua mão quase se encostou à minha mas não pude deixar de sentir o calor repentino que se transmitiu no mesmo instante. Parecia algo transitório. Nunca sentira algo assim desde que me tornara um anjo. Todas as dedicações e todas as devoções eram somente mostradas ao nosso único senhor, não deixando que nenhuma crença fosse abalada. Podíamos manter amizades apenas com alguns dos nossos em que plenamente confiássemos.

Deixei aquela escusada imagem sair da minha cabeça como se fosse um suspiro.  Embora eu quisesse fazer as coisas por mim própria, ele insistiu para que eu o deixasse ajudar. Mais uma mão era bem-vinda, mas gostava de fazer as coisas por minha própria iniciativa. Apreciava toda a ajuda, mas era escusado. Não obstante, deixei-o ajudar. Enquanto eu arrastava lentamente as folhas para o apanhador, ela abria o saco negro e metia as folhas lá para dentro. Estava tudo tranquilo e uma estranha aura se reflectira de novo sobre mim.

 Por um momento desequilibrei-me e acabei por cair sobre a relva espessa, trazendo Paul comigo. Quando me apercebera que ele estava mesmo por cima de mim, encostando o seu corpo ao meu com uma extrema facilidade, senti a minha cara a arder de vergonha. Os seus olhos nunca deixaram os meus por um segundo que fosse. As suas mãos suportavam-se contra a firme terra. Senti uma atracção um pouco peculiar por ele. Ele era invulgar, novo no meu conhecimento e alegadamente giro.

- Não achas que devias sair de cima de mim? – Perguntei ainda embaraçada com o momento que achei ser inoportuno demais.

- Sim…claro. Desculpa. – Respondeu de forma atrapalhadamente envergonhada.

Ergueu a sua mão na minha direcção e ajudou-me a levantar do chão, sacudindo todas as partículas de terra que tinha entranhadas na minha roupa. Ainda assim, uma corrente eléctrica percorreu novamente o meu braço e o meu coração bateu de uma forma repentinamente rápida. O que seria aquela sensação? Já não havia sido a primeira vez que a sentira, mas havia algo de estranho. Não sabia bem porquê mas algo me dizia para não duvidar dos meus sentidos.

Vi a senhora Howell aproximar-se da entrada. Larguei a mão de Paul e fui ajudá-la a entrar, levando metade das compras que trazia nas suas mãos delicadas. Enquanto isso, Christine fizera questão em que ele ficasse para jantar. Assentiu afirmativamente e entrou também dentro de casa. Passadas algumas horas, fomos jantando com a conversa a interpor-se a cada momento de exactidão. Christine apenas nos agradeceu por lhe termos limpo o jardim. Fiquei ligeiramente corada, mas ainda assim respondi que não tinha sido nada de especial.

Que havia sido apenas algo para retribuir toda a sua gentileza. Quando já estava na hora de ir dormir, levei Paul à porta. Ele apenas disse que voltaria para nos fazer uma visita, dando-me um suave beijo na face. Deixando-me por minutos sem fala perante tal gesto. Fechei a porta sem fazer o mais pequeno barulho e fui para o meu quarto, mudando de roupa. Enfiei-me por debaixo dos lençóis e adormeci ainda a recordar todas as coisas que haviam acontecido. Não sabia dizer se Paul era especial, mas sabia que sentia algo por ele.

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11
Fev 11

 

 

QUATRO – PARTE II

  

A cada segundo, fui ficando com os nervos em franja. Comecei a recuar, pois não conseguia estar de frente com a morte. Era algo natural para alguns de nós que ainda não estavam habituados à transição para anjo, mas como eu ainda era uma simples e novata que ainda renegava toda a eternidade que lhe fora dada numa bandeja de prata, não aguentava ver o sangue quanto mais estar perto dele. Senti uma mão segurar a minha poucos segundos depois, mas não mudava o facto de me sentir petrificada. Eu queria sair dali. Eu tinha que sair.

- Sentes-te bem? – Inquiriu Paul, desviando a sua atenção daquilo que fora outrora um animal directamente para mim. De certeza que viu o estado em que ficara depois de presenciar aquela visão arrepiante. – Não é preciso ficar assim em tamanho alarido. De certeza que isto foi um acto de vandalismo contra a reserva.

Apesar do que ele havia dito me soar como a verdade impregnada, tudo me parecia indicar que fora outra coisa que fizera isto. Isto tudo já me estava a afastar do propósito que me trouxera cá, embora ainda não soubesse o que é que supostamente deveria fazer. Desejava soltar as minhas asas brancas e voar dali para fora, para longe do sangue, algo que queria mesmo evitar a todo o custo. Mas se assim fizesse, ele saberia o que eu era. E não saberia como reagir ou o que dizer para o pôr a par de tudo o que a realidade escondia. Tinha mesmo que sair daqui depressa.

- Não tenho tanta a certeza quanto a isso. – Respondi por fim. Finalmente uma palavra que me saíra da boca. – Quero ir embora, de preferência já.

Não sabia com que tom devia utilizar para dizer, mas nada me saía como queria. A voz saiu quase rouca e pressa por um fio invisível que parecia retrair tudo aquilo que via, tudo aquilo que dizia. Quase impossível de negar o que se passava. No meu interior, gritava sem cessar. Aquilo que estava a ver era apenas uma ilusão, só podia. Não queria acreditar no que os meus sentidos me suscitavam. Esfreguei os olhos e olhei de novo para o animal. Estava tal e qual como o vira. Comecei de novo a recuar, pronta para fugir a qualquer minuto incessante.

Paul olhava atentamente para o que sobrara do animal quase irreconhecível, o que me deu tempo para recuar ainda mais e fugir o mais rápido possível. Pelo caminho ramos embateram-se contra os meus braços, arranhando-os compulsivamente como se estivessem zangados por os ter incomodado na sua tranquila paz. Tentei correr o mais que pude, mas tudo o que consegui foi voltar à praia onde tinha pela primeira vez pousado os meus pés, reflectindo com naturalidade a minha chegada silenciosa.

O vento soprava com benevolência contra cada fio de cabelo, fazendo esvoaçar sem o mínimo esforço exigido. A areia começava a entrar pelos cantos das sapatilhas, o que me incomodava um pouco ao andar. De repente, comecei a pensar no Paul. Como estaria ele depois de o deixar no meio da floresta? Se o visse de novo, não saberia o que dizer ou fazer para me poder justificar pela minha acção revoltada. Mas tive que fazê-lo. Não podia estar ali. Ter qualquer tipo de contacto com morte recente deixaria um anjo totalmente desarmado e impotente.

Avistei uma espécie de gruta ao longe, que parecia localizar-se na outra ponta da praia. Comecei a caminhar, sabendo que aquele meu acto de fugir pudesse parecer de total cobardia. A cada momento em que pensava como tudo estaria lá em cima, a primeira coisa que me viera à mente fora a imagem de Alphonse. Sempre protector e de alguma forma irritante sendo por vezes sarcástico, mostrava sempre uma faceta amigável para com os demais. Fora o meu único amigo naquele paraíso desconhecido. Mas às vezes, quando estamos algum tempo separados daquilo que nos realmente faz falta, é quando se apercebe que deveríamos dar mais valor àquilo que nos restava.

A mim só me restava uma eternidade amaldiçoada por um capricho de outros anjos que me deu a conhecer pelo menos um amigo entre milhares de desconhecidos. Uma coisa boa no meio disto tudo. Mas deparei-me com um pensamento um tanto estranho: onde se inseria a senhora Howell no meio disto tudo? E quanto àquela estranha sensação que se acomodou num encaixe perfeito quando senti as mãos de Paul contra as minhas? Tantas evidências sem qualquer explicação possível, pelo que procurava um sentido para todas elas.

Naquele preciso momento, mirava precisamente a entrada da gruta. A superfície que se conseguia ver até onde a minha visão me limitara parecia irregular, no entanto, dava para passar. Entrei lentamente, deixando a claridade natural do sol desaparecer e dar lugar ao escuro do interior da gruta. Levei ambas as mãos às paredes, para ter uma orientação mais ou menos para onde iria ir. Agora para trás já não ia, visto que como os meus olhos mostravam a escuridão daquele lugar.

Não havia luz, apenas um espaço vazio. Avancei cada vez mais sem saber aonde ia parar, até que avistei uma luz fraca. Caminhei na sua direcção, tentando alcançá-la. Após passar por uma segunda entrada estreita pelo seu formato apedrejado, fiquei a olhar para uma raridade que poucas grutas ou cavernas possuíam. Era um visão deslumbrante e ao mesmo tempo que entendia que era tudo natural, parte da magia da natureza.

 

CINCO

 

Rapidamente me vi debruçada sobre os descalces das estalactites a fluírem naturalmente pelo tecto. Várias vezes tive que me desviar das estalagmites douradas que reflectiam o brilho próprio, emitindo aquela pequena luz que vira quando estava no meio da escuridão envolvente. No meio daqueles cruzamentos quase desalinhados, encontrei uma zona lisa e arenosa. Ajoelhei-me serenamente e passei as mãos pela fina areia que se apresentava diante dos meus olhos. Aos poucos fui levantando as mãos, já carregadas de um manto dourado, vendo cada vez mais de perto o brilho intenso que observava.

Aos poucos, fui tentando caracterizar tudo o que podia daquele reconfortante e brilhante tesouro natural. Era como tudo na vida que permanecia oculto sem se deixar notar, aparecendo apenas nas alturas mesmo inesperadas. Encolhi-me naquele espaço fechado, sabendo que não deveria ter agido daquela maneira para com o Paul. Mas nada podia fazer para remediar as coisas. Eu estava literalmente morta, renascida como um ser invisível à vista humana com asas de anjo encrespadas nas costas. Aos poucos, fui tentando procurar pistas nos pequenos cubículos dos meus pensamentos.

Estava ressentida com a eternidade por me ter dado algo que não queria. Tudo o que queria no último momento era que se deixava invadir em mim e deixar-se materializar no seu estado bruto. A desolação por medo da integridade fez-se alongar por vastos séculos em profunda agonia, criando uma nítida barreira que me afastava de todo o sofrimento possível. Mas apenas um vago conjunto de acontecimentos mudaram tudo como se tudo aquilo que tinha feito não tivesse servido para nada. Alphonse era daquelas pessoas honradas pelo seu propósito de vida, porém, tornava-se num autêntico teimoso que insistia em ajudar sem nunca desejar nada em troca.

Pouco recordava da minha vida passada, aparecendo apenas em mente imagens repetidas no entanto desfocadas demais para conseguir perceber o realismo nelas contidas. Agora nada no meu passado me ajudava, sendo apenas fotografias daquilo que outrora fui. Tinha uma missão, mas nem tinha pistas sobre o que seria. Era como andar às cegas à procura de algo inexistente no vazio. Mas agora com o facto de estar hospedada em casa da senhora Howell, tinha que me precaver. Não queria de todo que ela descobrisse quem eu era mas tinha que retribuir a gentileza que me dera a troco de nada, o que me recordava de uma forma constante a imagem do meu amigo à minha frente.

Com o meu súbito desaparecimento da zona florestal em que eu fitara o animal morto, sem fazer um único movimento. Paralisado na morte prematura que o levara no preciso instante em que a vida o deixara. Simplesmente me afastei do sangue que se deixava correr pela terra à sua volta, deixando-a manchada e tingida daquilo que significava a essência da morte. E quanto a Paul? O que estaria ele a fazer? Será que ele tinha reparado na minha fuga? Definitivamente não. Nunca ninguém chegou até esse ponto para comigo. Nem necessitavam porque já sabiam como eu era. Sabia cuidar de mim própria da maneira que mais me convinha.

Mas agora estava tudo diferente. Os tempos eram outros, assim como as situações exigentes. O passado era temeroso e doloroso, mas o presente já era de nós próprios. Quando me haviam dito da missão que me fora incumbida, senti um certo peso por cima dos meus ombros. Diziam que eu era a única a poder concretizá-lo, no entanto respondi que não conseguia. Estava revoltada com a nova vida que adquirira. Pensava que era puro egoísmo e parte deles altruístas em terem-me dado aquilo que eu não queria. Agora vivia com uma maldição nas mãos, encarcerada num exílio eterno com algo que sempre me lembrava do fardo que carregava.

Ergui ligeiramente os joelhos e levantei-me, afastando a areia colada à roupa e às partes desprotegidas do meu corpo. Procurei pela entrada por onde tinha entrado neste espaço acarinhado e dourado. Ainda estava ali mas tinha algum receio de voltar a entrar por aquele sítio horripilante. Olhei para o lado oposto e vi uma abertura na parede. Fui até lá e pousei as minhas mãos em cima da rocha toda repartida. Pareceu ter sido feito há já muito tempo e este lugar sofreu bastante por ser explorado daquela maneira.

A natureza também sofria, embora muita gente não se desse conta. A abertura parecia conduzir a um túnel que se perdia no escuro. Consegui avançar e despedi-me daquele belíssimo lugar, prometendo a mim mesma que só viria cá quando fosse necessário. Comecei a avistar a saída e passei rapidamente para o exterior. O sol punha-se no horizonte, enquanto o mar ainda lançava pequenas ondas contra a areia, arrastando-a de novo consigo para o seu leito num ciclo repetitivo. Por cima da colina que dava acesso à praia, via-se uma moto estacionada. Era a do Paul. O que estaria ele a fazer por aqui?

Senti uma mão quente a tocar-me nos ombros, acalentando cada músculo do meu braço. Por ser uma sensação agradável, decidi salvaguardá-la. Mas quando me virei, vi o Paul. Estava com um olhar de preocupado e os seus lábios cerrados, sem pronunciar uma única palavra. O olhar dele era profundo e senti que ele queria dizer algo, mas que ainda não tinha arranjado coragem para tal. Por fim abriu a boca e num gesto amigável, falou:

- Ainda bem que te encontrei aqui. Desapareceste assim de repente e fiquei preocupado. – Afastou as mãos dos meus ombros, voltando a sentir as brisas do vento a sobrevoarem as arestas do meu corpo. – Já estava para ver o que tinha de justificar à senhora Howell.

Era bom ver que alguém se preocupava, embora o tempo em que nos dera a conhecer fosse pouco. Voltamos logo para a casa de Christine, vendo-a à porta juntamente com Rachel. Saltei logo da mota, entregando o capacete a Paul. Entrei dentro de casa e dirigi-me para o meu quarto, seguindo caminho para a casa de banho tomando um banho calmo e relaxante. Voltei para o quarto, com uma tolha enrolada à volta da cintura. Vesti rapidamente a camisa de pijama, buscando a roupa usada à casa de banho para pô-la num canto do quarto.

Deitei-me na cama e fechei os olhos. Por mais que quisesse, não conseguia deixar de pensar no Paul. Era estranha a sensação que ele me provocava com um simples toque. Consegui adormecer pouco tempo depois, ainda com ele na minha mente.

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