19
Out 10

 

Capítulo 10

 

Já haviam passado duas semanas após aquela noite. Fred e eu estávamos mais unidos que nunca agora. Aonde quer que fossemos, nunca nos separávamos. Ainda para mais, segundo as noticias, o Povo da Fé estava a aproximar-se de Vancouver e não convinha nada que nos encontrasse. Fomos pensado e pensando, chegando a tomar uma decisão. Tínhamos que sair dali. Estava neste preciso momento a fazer as minhas malas, enquanto Fred fizera as suas no dia anterior. Apesar de ser quase meio-dia, hora à qual não estava nada habituada a acordar, continuava a meter toda a minha roupa dentro da mala.

Fred não estava no motel. Fora atestar o depósito da sua carrinha, cuja existência não sabia mas que fora uma completa surpresa para mim. Ouvi alguém a bater à porta, entrando de seguida. Duas mãos me rodeavam a cintura, puxando o meu corpo para si.

- Então…estás pronta? – Perguntou Fred, enquanto me dava beijos sedutores pelo pescoço.

- Sim. Estou mesmo quase a acabar. – Respondi, virando o meu corpo e olhando-o frente-a-frente.

Após alguns minutos, já tinha tudo arrumado. Os armários estavam vazios e a cama feita, sem qualquer vestígio de ser sido alguma vez usada. Estava tudo no seu devido lugar. Adiantei-me e levei as minhas malas para a carrinha, metendo-as ao lado das de Fred. Ele já se encontrava dentro da carrinha, a ligar a ignição, pronto a metê-la a andar. Entrei de seguida e sentei-me a seu lado, fechando de seguida a porta. Pus o cinto e o veículo começou a andar. Uma das mãos dele estava sobre a minha, transmitindo de novo aquele sentimento que inquietou durante toda a minha estadia naquele lugar.

- Uma nova vida juntos. Embora ainda tenhas que passar pela mudança, eu estarei sempre a teu lado. – Falou, enquanto mantia os olhos na estrada.

- Juntos… – Falei num suspiro. Mal conseguia acreditar que tudo aquilo era real. Não era como aquele sonho que tivera antes daquele ataque que nunca lhe contara. Não queria preocupá-lo. Agora íamos iniciar uma nova vida. Diferente daquela vida imortal que ele tinha e que eu provavelmente também teria. Via pelo retrovisor aquela pequena cidade a afastar-se cada vez mais. Explorar o mundo novamente mas com alguém a meu lado era algo que nunca imaginara que fosse acontecer. Mas agora estava junto a Fred e nada me faria afastar dele. Sentia a bênção de Nyx sobre nós e isso era mais que suficiente. Olhamos juntos para o futuro, sem temer nada do que pudesse aparecer pela frente. Eu amava Fred e ele a mim. Acabamos por desaparecer na infinita linha do horizonte, enquanto observamos o anoitecer a chegar.

 

FIM

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12
Out 10

 

Capítulo 9

 

Aquela noite que estava supostamente prevista para ser uma como todas as outras. Mas justamente quando Fred chegara, ele apenas tomou controlo do destino, tornando-o justamente tal e qual a sua vontade. Eu apenas não sabia o que queria. O que desejava fazer na nova vida que me afrontara. O sentimento do desejo que tinha por ele apenas se intensificou com apenas um simples toque dos seus lábios. Estava desprotegida, mas fora ele quem quebrara o muro que me afastava do perigo. Apenas me debrucei sobre os seus braços, sem nunca me afastar dele.

Afastei-me um pouco e encarei-o. Desviou as madeixas de cabelo que cobriam a minha marca e olhou-me atentamente. Um brilho notável instalara-se nos seus olhos vermelhos e beijou-a carinhosamente. Não se importava com ela nem com o facto de eu ser diferente. Estava dividida entre a humanidade e as alterações que começava a sofrer para me tornar vampyra. Mas Fred era de um outro género de vampiros. Vampiros que não tinham marcas nem tatuagens, provas que Nyx dava aos seus escolhidos. Era isso que o tornava especial.

Levantou-se solenemente da relva, pegando em mim com muita facilidade. Novamente me beijou e levou-nos aos dois para dentro do motel. E mais uma vez, parecíamos ocultados do resto do mundo. Lembro-me do Fred ter falado que alguns da sua espécie eram abençoados com dons que os tornavam diferentes dos demais. Assim como os meus. Só que em vez de dons, eram concebidas afinidades pela deusa e uma vez que as dava, nunca as retirava. E o livre-arbítrio nunca era interferido por ninguém. Éramos nós quem tomávamos as decisões. Ninguém no influenciava para tal.

Continuamos a caminhar pelo corredor, até chegarmos ao meu quarto. A princípio, comecei a pensar para onde ele me levaria, até que abriu cuidadosamente a porta e fez-nos entrar, encerrando a porta com o pé. Chegou ao pé da cama e deitou-me lentamente sobre ela. Nunca deixara de olhar para mim, nem por um segundo. Os seus olhos ardiam com fulgor pelo seu desejo, que eu continuava a perguntar-me qual seria ele. Deitou-se na outra parte da cama e levou o meu corpo para junto do dele. Os seus lábios novamente encontraram os meus, deixando-os envolventes numa torrente de sentimentos que julgara nunca conhecer.

Uma das minhas mãos fora de espontânea vontade contra o seu cabelo, afagando-o fervorosamente. E quando tracei um caminho com ela na sua face, ele sorriu. Sorriso o qual me deixava contente. Enquanto ele me retirava cada parte da minha roupa que me prendia à própria segurança que eu mantivera por um longo tempo, não sei como mas ambas as minhas mãos foram retirando a sua camisola, como se desejassem tê-lo há muito tempo. No final de tudo, acabamos os dois por ficar sem nada vestido. Foi parando de me beijar os lábios, para poder prosseguir com os seus beijos carentes pelo meu pescoço.

Cada parte de mim fora deixada com uma marca que só ele podia fazer. Sentia a sua pele a encostar-se à minha, deixara-me sem reacção. Parecia que o meu corpo o reclamava como sendo o único que me podia tocar de forma tão íntima como estava a fazer naquele momento. O seu olhar rapidamente reencontrou o meu. Ganhara um novo brilho diferente daquele que eu me dera a conhecer. Fred estava diferente. Levantou o seu corpo formidável para cima do meu, sentindo toda a sua pele a colar-se à minha pele. Era uma sensação reconfortante.

- Mal acredito que tudo isto nos está a suceder. – Disse-lhe timidamente.

- Acredita que isto tudo é a realidade. Não é um sonho nem nada do que se pareça. – Respondeu, enquanto me beijava solenemente. - Se eu não tivesse fugido antes daquela guerra, nunca te teria conhecido.

- Queres falar sobre isso? Não tem mal se não quiseres.

Acenou afirmativamente com a cabeça e enquanto puxava os lençóis para nos cobrir, contava cada pormenor do que havia acontecido. Sentia-se muito só numa cave escura algures em Seattle, no meio de muitos outros recém-nascidos. Tinha um dom, como já havia desconfiado. Podia fazer com que ninguém olhasse para ele e vice-versa, mas apenas se deixava ver para as pessoas que considerava realmente honestas e verdadeiras. Sentia um enorme vazio naquele lugar. Só se interessavam por ele apenas pelas suas capacidades. Era apenas uma marioneta a ser controlado pela “ela” e pelo Riley. Mas no que dependesse de mim, isso não iria voltar a acontecer. Nem a mim, nem a ele.

Voltei a beijá-lo com mais intensidade, não por pena do que lhe havia acontecido mas pelo facto de que gostava dele e que recordar memórias do passado nos fazia sentir remorsos e uma tristeza profunda. Os nossos corpos estavam unidos e os nossos sentimentos ligados. Estava tudo a ser esclarecido naquele momento. Cada segredo se ia revelando a cada minuto. Entreguei-me a ele, retribuindo com um beijo que parecia durar eternamente. Uma noite de amor nos preencheu, assim como uma onda de felicidade nos rodeara.

Abracei-o com ambos os braços, sem nunca o largar. As suas mãos simplesmente espalharam repetidas carícias por todo o meu corpo, enquanto me murmurava ao ouvido o quanto me amava. Apesar de tudo ter sido tão repentino, eu já o amava. O tempo não influenciava os sentimentos nem a força de vontade que tínhamos. Todos os meus pensamentos foram-se desligando e cada parte de mim estava chamar pela sua cara-metade. Ele apenas mais uma vez me sorriu e beijou de uma forma ainda mais intensa que a primeira vez. Era único aquele momento e era definitivamente a melhor parte daquela minha nova vida.

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06
Out 10

Senti-me um pouco mal depois daquilo tudo. Por ter berrado com o Fred sem razão nenhuma. Apesar daquele ataque de dor que me percorrera o corpo todo ontem, sentia um aperto no coração que me atacava minuto após minuto. Tinha que o encontrar. Tinha mesmo. Levantei-me da cama, pondo fim à influência que o sono exercia sobre mim. Olhei pelo vidro da janela do quarto e vi que a noite já havia chegado, juntamente com o seu manto escuro para dar fim ao dia. Vesti-me rapidamente e calcei umas sapatilhas pretas que estavam juntas das restantes que estavam espalhadas por ali. Céus. Tenho mesmo que fazer uma arrumação geral.

Saí do quarto e fui até à recepção. O homem ou estava numa espécie de transe meditativo ou fazia sons estranhos enquanto dormia. Soube que não ia conseguir nada ficando ali especada a olhar para aquela pessoa que nem um mínimo de higiene parecia ter. Talvez o Fred esteja no quarto dele. – Pensei. Então fui até lá e bati à porta. Nada. Ninguém respondia. Bati novamente, mas nada se ouvia. Levei a minha mão até à maçaneta da porta e esta girou livremente, abrindo caminho para entrar. Parecia incrível. Havia uma enorme cama no centro e um armário à sua frente. Duas mesas-de-cabeceira em ambos os lados, com 2 candeeiros por cima.

Não estava mesmo lá ninguém. Saí devagarinho do seu quarto, sem deixar a mais pequena pista de que estivera lá. Fechei cuidadosamente a porta e mesmo quando me voltei, ele estava à minha frente. A olhar para mim fixamente, sem nunca o desviar. Raios. Que grande susto que me pregara. Tinha logo que aparecer assim daquela maneira.

- Tens que aprender a ser menos sorrateiro. – Sugeri.

- E tu tens de aprender a não entrares nos quartos das outras pessoas. – Sorriu de forma matreira. – De qualquer forma, o que é que procuras?

- Queria falar contigo. Queria pedir-te desculpa pela forma como te falei hoje de manhã. É que não estou habituada a estar acordada àquela hora.

Lançou-me um sorriso aberto e os seus olhos vermelhos fitaram os meus ternamente. Eram realmente assustadores, mas reflectiam uma necessidade qualquer de ajuda, de um acolhimento por parte de uma pessoa. Mas não sabia se estava certa ou errada. Ultimamente já não tinha a certeza de nada. Ele foi-se aproximando cada vez mais até estarmos a uma distância considerável de os nossos corpos se tocarem. De repente, o meu coração começou a bater desenfreadamente.

- Não faz mal. – Murmurou de forma estranhamente querida. – Também não devia ter-te incomodado.

- Queres ir lá fora ver como está a noite? – Perguntei deliberadamente.

- Claro. – E novamente vi aquele esbelto sorriso desenhado nos seus lábios.

Tinha que manter na mesma a máxima cautela. Nunca se sabe o que pode acontecer. Fechara-me sempre contra todos desde que fora marcada. Com o Povo da Fé a dedicar os seus tempos livres a matar todos aqueles que eram como eu, que seguiam a deusa Nyx, todo o cuidado era pouco. Mas Fred era diferente. Não vi nele nenhum indício de maldade embora os seus olhos escarlates reflectissem exactamente o contrário. Saímos do motel e caminhamos até às traseiras. A noite continuava na mesma, com a excepção de haver pontinhos brilhantes em cada canto seu.

Sentei-me na relva, enquanto ele fazia o mesmo. Estivemos algumas horas a contemplar o céu e o raro cenário que nos oferecia. Normalmente, não costumava haver noites assim em Vancouver. Só mesmo quando alguém dava a devida atenção às maravilhas que a Natureza tinha para oferecer. E certamente, esta era uma delas. Raros eram estes momentos e só seriam mesmo especiais quando se tinha alguém com quem partilhá-los. Por mais estranho que possa parecer, Fred era o único que estava a meu lado. Naquele preciso momento.

A minha vida parecia uma autêntica balança com as duas hipóteses que a mudança trazia: mudar por completo dum lado e morrer do outro. Ambas equilibradas para que nenhuma pudesse prevalecer sobre a outra. Mas algum dia isso haveria de mudar, porque a mudança tinha um objectivo que já era claro o suficiente para alguém como eu perceber. Por vezes, não queria compreender. Mas era mais do evidente que aquela decisão não era eu que haveria de tomar. Estava tudo nas mãos de Nyx. Ela abençoava-nos com a sua marca por alguma razão. E não acredito que ninguém deseje a morte a outra pessoa. Apenas tinha que ter paciência quanto a isso.

A sua mão pousou suavemente sobre a minha, fazendo-me corar pela segunda vez. Quantas vezes é que isto me vai acontecer? Virei a minha atenção para a sua face e vi que me olhava ternamente. O seu olhar era fulminante assim como o vermelho neles o demonstrava, mas a necessidade nadava neles, procurando ainda algo que eu não sabia o que era.

- Sabes o que é melhor nisto tudo? – Perguntou, entrelaçando a sua mão por completo na minha.

- O quê? – Perguntei nervosamente. Já naquela situação era-me quase impossível falar. Nunca estive assim tão próxima de alguém como estava com ele.

- É que a estrela mais brilhante de todas não está no céu. – Sorriu e continuou. – Desceu à terra e tornou esta vida melhor do que antes. E essa és tu, querida Scarlett.

Paralisei automaticamente. Enquanto a sua mão continuava junto à minha, a outra fora ao encontro da minha cara, acariciando-a sossegadamente. Os seus olhos brilhavam agora de uma forma intensa que eu desconhecia e os seus lábios foram pela primeira ao encontro dos meus, enquanto um sorriso brotava tanto dos meus como dos dele. Apesar de tudo ter acontecido tão repentinamente, eu não me importava. Já não havia razão nem limites. Era simplesmente Scarlett e ele era simplesmente Fred. Juntos num momento simples e realmente único. Nada mais.

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30
Set 10

Ouvi umas impertinentes batidas na porta do quarto. Embrenhei-me mais nos lençóis e tentei encerrar a minha audição mas sem sucesso. Levantei-me posteriormente e encarei-a. Continuava a ouvir aquele som irritante, mas mesmo assim, abri a porta para ver quem tinha ousado acordar-me ainda por cima a meio da manhã. Era Fred. Vinha vestido de uma forma pouco normal para um rapaz, mas isso também não parecia importar-lhe. Envergava calças de ganga azuis com uma ligeira dobra nas pontas, uma camisola branca sem qualquer padrão anexado e umas sapatilhas pretas.

Mas o seu sorriso foi o mais chamativo de tudo. Olhava para mim de uma maneira simples, mas estranha. O seu cabelo loiro já não estava tão amarrotado como ontem, mas sim liso recém-penteado. Contudo, os seus olhos vermelhos ainda me punham assustada e quase ao ponto de me deixar totalmente dominada pelo medo. Algo que não quis, não queria e que não irei demonstrar. Ergui-me perante ele, ainda a desviar-me um pouco para a esquerda devido ao sono.

- O que é que estás aqui a fazer? – Perguntei, enquanto esfregava os olhos irritados por não terem o descanso que lhes faltava.

- Vim ver se querias ir dar uma volta pela cidade. Dar uma vista de olhos ou assim. – Respondeu de forma agradavelmente educada.

Ok. Isto não me estava mesmo a acontecer. Eu a dormir sossegada e este vem logo com uma de dar uma volta? Não era costume estar muito tempo acordada durante a manhã e muito menos à tarde. Os vampyros da minha raça estão mais acostumados a andar em liberdade à noite. Não que a luz do sol nos fizesse algum mal ou coisa do género, mas estávamos mais acostumados à noite do que ao dia em si. Por isso ainda me sentia cansada.

- Não posso. Ainda quero dormir e tu vais sair daqui e não me chateares por umas boas horas. – Respondi revoltada, só pelo facto de me ter acordado.

- Pronto, percebi. – Disse, enquanto se preparava para sair. – Depois falamos então. Bons sonhos, Scarlett.

Fechei a porta e reencaminhei-me de novo para a cama, enquanto ouvia passos ligeiros a afastarem-se cada vez mais do meu quarto. Finalmente silêncio. Estendi-me sobre o colchão, puxando os lençóis para junto do meu corpo. Mais uma vez, o sono consumiu o meu cansaço e levou-me para o seu dorso, aconchegando-me com as suas imagens carenciadas. Algo que não pude deixar de pensar foi no facto de ter sido um pouco fria para com Fred. Mas ele não me devia ter acordado batendo repetidamente na porta. Mais tarde, tinha que lhe pedir as mais sinceras desculpas.

O meu corpo viu-se emaranhado numa tensão que não nunca havia sentido antes. Cada parte de mim arqueava de dor e aquilo parecia nunca cessar. Tinha medo. Acho que estava prestes a mudar-me. Ou a rejeitar-me. Já nem sabia bem, mas a dor era insuportável. Caí da cama a ofegar mas não parou. Comecei a contorcer-me toda no chão, rogando à Deusa para que fizesse aquilo tudo parar. Ainda mal havia sido marcada e já estava a acontecer-me aquilo tudo. Não era justo. Não era. Suores frios percorreram-me o pescoço. Entretanto, a minha visão começava a distorcer-se. A enfraquecer cada vez mais. E, por fim, fechei os olhos. Já não sentia nada.

Tudo aquilo que havia feito de nada servira. Todo o cuidado que tivera não tinha servido para nada perante aquela situação. Por momentos, pressenti que ia morrer e juntar-me aos meus antepassados. Mas ainda me sentia bem firme à terra. Tentei abrir os olhos com a esperança de ver, mas nada. Estava fraca. Ficara gravemente doente por uma estupidez minha e por não ter ido para uma Casa da Noite. Pelos livros que havia lido, não podia estar muito longe duma ou de um vampyro adulto. Por alguma razão, a imagem de Fred viera-me à cabeça. Ele era um vampiro, embora fosse diferente da única espécie de que me deram conhecimento.

Será que podia estar a seu lado sem que ele próprio me fizesse mal? Era misterioso. Não revelara grande coisa do seu passado nem nada sobre a sua transformação. Poderia ter sido demasiado doloroso para se poder recordar ou tentara reprimir as suas emoções a ponto de fechar a cadeado todas as suas memórias anteriores. Não sabia de nada. Só tinha incertezas. À medida que já começava de novo a respirar com mais alívio, fui-me levantado enquanto me segurava à ponta da cama com as mãos. As minhas pernas tremiam e quase não me conseguia erguer. Dentei-me de novo por cima do colchão, sem trazer o único conforto que tinha enquanto dormia.

Por pouco, não começava a rejeitar a mudança. Tenho que arranjar uma solução. Tinha que haver uma simples sem ter de recorrer a uma Casa da Noite. Mas todas as hipóteses que eu tinha estavam prestes a esfumar-se. Eu não queria morrer. Não agora que tinha estabelecido naquela cidade encantadora. Não agora que sabia que havia mais do que uma espécie de vampiros a viver entre os humanos. Não agora que achava que gostava repentinamente de Fred, por mais que fossem claras as evidências.

Marcada apenas há uns dias, viver para Vancouver, encontrar um vampiro, rejeitá-lo e só depois quando estou a meio de um sofrimento é que penso que posso gostar dele parecia-me um bocado egoísta da minha parte. Maldito destino que me fez esta tramóia. Realmente, eu estava alterada. Já não era a mesma de antes. Mudara para algo diferente, algo que já não era eu. Já não me sentia humana, embora ainda o parecesse. Ainda não havia passado ou rejeitado a mudança, mas cada vez mais me sentia outra pessoa. Era uma nova e diferente Scarlett Parker, com a possibilidade de se tornar uma vampyra adulta ou morrer nos braços da sua Deusa.

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24
Set 10

 

 

Naquele preciso momento, já não sabia onde estava. Não estava no motel nem mesmo em Vancouver. Estava perdida no meio do desconhecido, sem saber por onde andar ou ver que caminho tomar para minha própria segurança. O que apenas via era um prado. Um prado revestido de campos verdes, denotando as pequenas e delicadas flores contidas no seio da terra por ali espalhadas. Ao fundo, via-se um grande carvalho, onde as folhas caíam lentamente sobre as leves brisas do vento deixando-se levar pela corrente do seu destino.

Caminhei passo ante passo, dirigindo-me até ele. Observei uma figura em movimento a ocultar-se na sua sombra. O sol não rompia a protecção que as folhas providenciavam ao tronco do carvalho, apenas delineava pequenos raios de luz incidentes na frescura da terra. Os espinhos que haviam por entre a relva eram de algum modo diferentes. Não magoavam nem rasgavam a pele cobrindo tudo de um sangue vivo por onde quer que passasse. Estava confusa. Aquele sítio não me parecia real nem com nada que já houvesse encontrado na minha outra vida.

Porém nada reconhecia, ao mesmo que uma sensação de familiaridade me fazia contorcer de perguntas incessantes sem respostas concretas. Custava a crer que havia chegado a um nível de consenso fora do normal. Acho que quer para iniciados quer para vampiros como os da espécie de Fred, tudo resultava por ser o mesmo para cada uma das partes. Apesar de diferentes, todos tinham o mesmo objectivo: cruzar a linha da mudança e chegar a ser vampiros completos. O sangue era a única coisa pela qual eles matavam e saciavam, enquanto para a nossa espécie de vampyros o sangue dava-nos aquela sensação anormal de prazer inexplicável. Volto a dizer, coisa esquisita.

Parei por momentos e contentei a beleza interior do carvalho, enquanto a figura que se escondia por detrás dele saía do seu esconderijo e se dirigia na minha direcção. Com um sorriso nos lábios e com a ajuda do sol a incidir na sua pele clara, pude ver a face que se oculta por detrás das sombras. Era o Fred. Ele brilhava perante o sol, algo que não pude deixar de reparar por vários minutos. A sua cara parecia repleta de diamantes ofuscantes e os seus olhos continuavam mergulhados no seu vermelho-vivo. Não obstante, ainda residiam marcas de uma beleza puramente encantadora.

Chegou a estar cerca de cinco centímetros, mesmo antes de se afastar um pouco para me poder olhar passivamente. A sua mão brilhante chegou à minha cara e ergueu-a lentamente, até o poder olhar nos olhos. Eram assustadores devido à sua cor, mas pareciam necessitar algo. Pareciam que estavam à procura de algo que os preenchesse. A princípio, pensei que precisariam de sangue ou algo assim. Mas estava enganada. Os seus lábios abriram-se num sorriso ainda mais aberto que o anterior, o que me fazia inexplicavelmente bater o coração, algo que nunca presenciara com ninguém.

Não falamos. Apenas não quis dar a primeira iniciativa devido ao medo de estar assim tão íntima perante ele. Aproximou a sua face lentamente da minha e semeou os seus lábios nos meus, fazendo correr nas minhas veias um sentimento que não sabia que existia. Sentia calor a transbordar naquele gesto de carinho por parte dele. Sentia que era ali que eu queria estar. Ao seu lado, reconfortada nos seus braços. Mas não. Aquilo não era real. Era apenas uma partida que o destino me queria pregar. Não que negasse tudo aquilo que estava a acontecer, mas aquilo não era a realidade original.

Acordei poucos segundos depois embrenhada nos lençóis brancos da minha cama, a olhar para cada canto do quarto a ver se estava tudo bem. Tudo no sítio, tudo normal. Supus que aquilo tudo que se passara era um simples sonho adverso dos acontecimentos narrados pelo próprio tempo que me entregava a posse do meu destino. Mas não o queria assim estendido de bandeja. Queria apenas que ele decorresse conforme mandasse a natureza. Não iria contra os meus princípios. Apenas ficaria mais descansada se repousasse um pouco.

E assim o fiz. Estendi os braços para o lado e revirei-me para o outro lado, relaxando cada parte de mim a maciez da cama. O sono estava a dificultar-me os pensamentos, mas talvez até melhor assim. Descansar a mente e deixar-me submeter ao sono que me atacava sem piedade. De novo, fechei os olhos. Mas nada mais aconteceu. Nenhum sonho esquisito se relançou sobre mim nem nenhuma visão anormal do mundo real. Mas algo que nunca queria que acontecesse era ir para uma Casa da Noite. Não me encaixaria naquele novo mundo.

Necessitava ainda do meu, por motivos que ainda irei descobrir um dia. Talvez fosse hoje, talvez amanhã. O que importava era que eu iria descobrir a razão pela qual continuava a residir aqui neste sítio repleto de humanos insignificante e definitivamente ignorantes demais para o meu gosto. O silêncio permanecia residente em todo o quarto, apesar de ouvir apenas o vento a soprar contra as rígidas plantas do lado de fora do motel. Tinha de parar de insistir naquilo tudo. Tantas inquietações, tantas afirmações e interrogações já estavam a cansar-me ainda mais do que o normal.

Queria apenas um pouco de paz interior e de um sono relaxante. Havia coisas que ainda não estavam esclarecidas entre mim e o Fred, apesar de só o ter conhecido há pouquíssimas horas. Acharia as minhas respostas quando o confrontasse? Não fazia diferença para mim, neste momento. Dormir era a única opção e a única hipótese de esquecer aquilo tudo. Aprofundei ainda mais a sensatez do sono e deixei-me levar pelas suas réstias, ainda com os nervos em franja. Quando finalmente já dera por mim, estava a dormir. Sem preocupações, sem nada que me incomodasse ou ralasse. Por fim sossegada e descansada.

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17
Set 10

 

Mal podia acreditar no que ele dissera. As palavras saíram da sua boca com tanta facilidade que até parecia não se importar com a reacção que eu teria. A minha respiração estava fraca e as pernas, embora andassem com normalidade, estavam petrificadas. O medo apoderara-se de mim. Aquele sujeito era um vampiro grande e assustadoramente arrepiante, embora fosse bonito e encantador.

- Então…o que é que tu és afinal? – Perguntou gentilmente. – Humana não és de certeza.

Tinha medo de dizer algo que o irritasse. Não consegui sequer pensar nas palavras certas. Ganhei coragem, sabe-se lá como, para apenas lhe dizer que fora marcada por vampyro caça-cabeças e que estava a passar por uma espécie de mudança em que ou passaria para vampyra adulta ou se o meu corpo a rejeitasse, morreria de certeza absoluta. Porém, ele informou-me que com ele era diferente. Ele havia sido transformado por alguém que apenas conhecia como “ela” e que era amigo de um tal Riley, mas que este acabou por se revelar o oposto do que ele havia pensado.

Contou-me também que era um vampiro nómada (ou seja, um vampiro recém-nascido). Havia sido transformado apenas para participar numa guerra sem sentido nenhum, que era apenas uma marioneta nas mãos do tal Riley e da “ela”. Não quis participar naquilo e veio embora. Mas antes de o fazer, foi ter com uma das suas amigas vampiras, a Bree, e perguntou-lhe se queria ir com ele explorar o mundo que ainda não haviam visto. Ela apenas referiu que tinha de encontrar uma pessoa amiga antes de ir e ele disse-lhe que esperava por ela em Vancouver 1 dia, deixando-lhe um rasto em Riley Parle. E mais nada me havia dito.

Parecia esconder mais qualquer coisa, mas também não insisti muito. Parecia custar-lhe muito falar sobre aquele assunto. Comecei a dirigir-me para o motel onde eu estava hospedada mas ele continuava a seguir-me, nunca se separando de mim. Por um momento, senti-me vigiada e que me alguém me perseguia. Com o seu olhar fixo em mim até corei ligeiro nas bochechas, ficando um pouco rosadas nos dois minutos a seguir.

Entramos no motel e o recepcionista nem sequer olhou para nós. Ficou a olhar para o ecrã da pequena televisão que estava em cima da sua secretária, com um pacote de batatas nas pernas e umas poucas espalhadas pelos cantos, acabando por cair no chão cada vez que ele mexia o braço para alguma coisa. Dava um mau aspecto a quem visse o motel do lado de fora, mas o problema era dele. Pelo menos, os quartos são de boa qualidade apesar daquela amostra de gente não o ser. Entrei no meu quarto e mesmo antes de fechar a porta, o vampiro meteu um pé entre a porta e o fecho.

- Boa noite. – Disse, com ar inocente.

Fios do seu cabelo cobriam metade da sua testa, dando-lhe um aspecto brilhante e encantador. Observou-me atentamente e sorriu-me, mostrando os lábios perfeitamente definidos. Fiquei irrequieta por momentos, tendo a minha pulsação acelerada indefinidamente.

- Boa noite. – Respondi da mesma forma.

- Com isto tudo, ainda não sei o teu nome. – Soltou um pequeno riso.

Tinha que pensar se devia mesmo dizer-lhe ou não. Ele era vampiro, embora fosse diferente da minha espécie de vampyros. Vai dar tudo ao mesmo por isso nem vale a pena estar a trazer aquele pensamento ao de cima. Em voz sussurrante, disse-lhe o meu nome. Em resposta ele dissera-me o seu, mas de uma forma que eu achava incrivelmente sedutora: Fred.

Vi-o entrar no terceiro quarto ao lado do meu. Deveria estar também hospedado aqui. – Pensei eu. Mas também nunca o vira entrar. Parecia tal e qual como tinha acontecido no Monsuit e na recepção do motel. Ninguém nos viu, nem nos fez caso. Ignoraram-nos completamente, como se nem estivéssemos estado lá. Fechei a porta e encostei-me a ela, refugiando-me nos meus pensamentos. Parecia que já tinha conhecido o Fred há imenso tempo quando na verdade só o conhecera hoje.

Deitei-me na minha cama, aconchegando a minha cabeça a macia camada de algodão da almofada. Senti todos os momentos de hoje a esvoaçarem como pequenos pássaros em liberdade, prontos a sair e a sibilarem o seu canto natural. O entrar no café, a desconfiança dele, a conversa fora do café, o motel, tudo. Não esquecera nada. Tudo tinha ficado retido nas minhas pequenas e insignificantes memórias. Não pretendia que ficassem resguardadas num canto inferior qualquer à espera que o escuro do vazio as engolisse. Ficavam guardadas como simples fotografias. Belas e frágeis ao mesmo tempo.

Adormeci pouco tempo depois e a imagem do Fred não me saía da cabeça. O seu cabelo loiro, os olhos assustadoramente vermelhos de sangue, o seu sorriso…Não sabia porquê, mas estava a sentir-me estranha e um pouco esquisita. Devia ser imaginação minha. Esqueci aquilo tudo e aprofundei-me no meu sono. Já deviam ser 3 e pouco da manhã, mas também decidi não dar muita importância às horas. Calei os meus pensamentos e deixei-me levar pelo sono que me consumia.

Capítulo 5
publicado por Twihistorias às 20:00

09
Set 10

 

QUATRO


“Não és humana, pois não? – Esta frase rejubilava dentro da minha cabeça vezes sem conta. Estranhei a princípio porque achei que havia tomado todas as precauções para que não desconfiassem de mim, mas depois…fui mesmo apanhada de surpresa. Cada músculo do meu corpo foi enrijecendo até ficar completamente petrificado, sem se mover um único centímetro. Como é que aquele rapaz sabia? Como?

- Desculpa?! – Murmurei em voz baixa, mantendo a minha compostura. – Deves estar enganado. Ou então, estás com um desvario na cabeça.

Fingi o melhor que pude para que não continuasse a desconfiar. A mesma sensação que me invadira na noite passada e antes de entrar no café voltou a aparecer. Havia alguém naquele lugar que não era normal. Que não era um simples humano. O rapaz continuava a insistir com o olhar inquisidor, o que me causava um certo arrepio. Mas afinal o que é que ele pretendia com aquilo tudo? Já começava a pensar que ele era esquisito. Bem…muita coisa não lhe deve faltar para encaixar naquela categoria.

- Eu quase nunca me engano nestas coisas. – Afirmou em voz baixa, olhando para o meio do vazio. – Aliás, o teu cheiro é diferente do resto dos humanos.

- Tu realmente… - Esperem aí. Ele disse mesmo aquilo que penso que ele disse? – Tu disseste…

- Humanos. – Disse completando aquilo que eu ia dizer. – Sim, foi isso que eu disse.

Só pelo facto de ter usado o termo “humanos”, fez-me desconfiar de quem ele era realmente. Será que aquela sensação se referia àquele rapaz desconhecido? Porém, não deixava de me questionar quem seria ele. Como poderia ter tanta certeza daquilo que dizia era o que mais me intrigava, o que suscitava uma pequena quantidade de curiosidade.

- É melhor continuarmos esta conversa lá fora. – Adverti, jogando pelo seguro.

- Ok.

Deixei a única nota de 1 dólar que tinha à mão em cima da pequena mesa centrada e levantei-me para sair. Ele fizera o mesmo e pôs-se a meu lado, acompanhando-me até à saída. Olhei para ambos os lados para ver se alguém nos revirava um olhar mesquinho como costumavam fazer. Nada. Nada fizeram. Continuaram com as conversas em grupo e nem sequer fizeram caso. Estranho e arrepiante ao mesmo tempo. Estávamos já a meio caminho afastados do Monsuit, deixando-o longe da vista. Ainda que a iluminação na rua fosse pouca, dava para ver bem a estrada que seguia à minha frente. Agora sim podíamos falar sem que ninguém nos incomodasse.

- Olha lá. – Disse, virando-me frente-a-frente para ele. - Não sei quem tu és ou o que é que queres mas podes ter a certeza que se abres a boca em relação àquele assunto que falamos no café, arranco-te os braços à dentada.

- Ouve. Eu não quero arranjar problemas para nenhum de nós. – Disse claramente, metendo as mãos aos bolsos das calças.

Ele podia ser um dos homens do Povo da Fé a tentar enganar-me e a ver se me descaio e diga algo que me denuncie. Mas que nem pense que ia fazer. Nunca.

- Diz lá o que pretendes com isto tudo então. – Respondi friamente.

- Não és a única não-humana por estas bandas. Tem cuidado. Apenas quis avisar-te, só isso. – Disse em forma de suspiro.

Esperem aí. Primeiro, ele insinua que não sou humana (não sou mesmo, de facto. Mas também ainda não uma vampyra adulta. Digamos que estou entre humanidade e sobrenatural. Duas metades de um todo, acho que pode ser a melhor definição para mim.) e agora vem avisar-me para ter cuidado?

- Para começar, eu sei muito bem tratar de mim e não preciso que um desconhecido como tu me venha dizer do que tenho de ter cuidado ou não. – Inspirei relaxadamente e continuei. – E como podes ter tanta certeza de que um não-humano por cá, se é que isso existe?

Tinha que ser subtil para não me deixar enganar por ele. Mas ainda assim, vou ouvir o que ele tem para dizer.

- Porque… - Foi de relance para à beira duma iluminação perto de nós e vi por fim a cor dos seus olhos. Vermelhos-vivos, como se o sangue os tivesse tingido de uma forma atroz. Agora já tinha completamente a certeza do que aquela sensação me estava a tentar dizer. – Eu sou um vampiro. – Ele é o QUÊ? – E o teu cheiro não esconde o que tu és, não-humana.

Dei uns passos para atrás, numa tentativa de fugir dele. Sempre me perguntara como seria ver outro como eu à minha frente. Dizia sempre que estaria calma e convicta. Mas ele era assustador com aqueles olhos vermelhos. Assustavam-me profundamente, mas ao mesmo tempo, davam-me uma vontade de me aprofundar neles. Coisa estranha, admito. Ele foi-se aproximando de mim e convidou-me a um passeio ligeiro, para apenas conversar. Assenti afirmativamente com a cabeça mas pelo sim pelo não mantive a minha retaguarda levantada, apenas por pura segurança.

publicado por Twihistorias às 18:05

05
Set 10

 

Capítulo dois

 

Cada vez mais me sentia me sentia invulgar e tão diferente daquilo que era antes. A minha vida mudara consideravelmente, considerando o quão foi difícil deixar a minha família para trás. Mas eles não me poderiam ajudar. Tomei aquela decisão de pura e espontânea vontade. Não queria expô-los ao perigo de terem uma criatura vulnerável ao sangue perante eles. Segundo após segundo, pensei se ir ou não para a Casa da Noite (a mais próxima que estivesse de Vancouver) fosse talvez uma solução que estaria pendente. Não. De certo que me dariam cargos e aulas bastante puxadas e eu não estava minimamente preparada para as arrecadar em cima dos ombros.

Virei-me para o outro lado da cama e fechei os olhos. Tudo estava muito sossegado e o silêncio irrompia o ar com o seu manto. Pelos vistos, os vizinhos do quarto ao lado tinham saído. Senão não sei como haveria de poder descansar. Olhei com relutância para as horas marcadas no meu relógio de pulso. Fiquei mesmo surpreendida, pois este indicava 19:00 horas. Tinha assim tanto sono que nem eu própria imaginara? Estava a sofrer a Mudança e bem que podia assegurar que o inesperado podia acontecer. Nyx era misteriosa e as suas decisões ainda eram mais.

Levantei-me e fui até à casa de banho, tomando um duche rápido para me refrescar as ideias e lavar a cabeça dos pensamentos inquietantes que me aborreciam. Vesti uma camisola preta de manda comprida e umas calças de ganga um pouco rasgadas nas pontas. Acho que era mesmo feitio delas. Calcei umas botas que andavam descaídas no quarto e saí do motel. Tive o cuidado de meter algumas madeixas de cabelo a tapar a minha Marca, se não quem sabe o que aconteceria. Possivelmente um escândalo ou uma montada de gente com forquilhas e tochas acesas à minha procura, perseguindo-me para onde quer que fosse.

O dia-a-dia normalizado continuava com o seu percurso. A maioria das pessoas estavam ainda a trabalhar, enquanto o resto se mantinha na calma e reconfortante paz que a natureza oferecera. Por vezes, sentia inveja deles. Estar assim como eles sem ter nada a recear. Poder ter uma vida sossegada e livre de perigos. Deixando de lado aquelas preocupações que faziam pouco sentido, olhei de relance para o Monsuit. Estava com boa clientela hoje. Também não me admirava nada, porque era mais ou menos quando a noite chegava que mais pessoas iam tomar lá o seu suposto cafezinho matinal.

Não podia falar muito. Eu também lá ia quando o tempo mo permitia. Nunca me levantava de manhã. Dormia sempre que o sol raiava no cume do céu e quando a noite chegava, levantava-me e segui-a com a pouca vida que possuía. Tendo em conta que tinha duas hipóteses entre mãos: completar a Mudança ou morrer e desaparecer por completo, a vida não se tornava mais fácil de arrecadar. Mas explorar todo o mundo à procura de algo que fosse realmente importante e que fizesse sentido para mim era mesmo uma complicação dos diabos.

Porém, tudo teria uma explicação lógica. Pelo menos, era nisso que acreditava antes de ser marcada. Todas as minhas crenças foram-se deixando para trás enquanto eu avançava face a uma vida completamente nova e desconhecida donde não conhecia nada nem ninguém. Estava solta num mundo que ocultava muitos segredos, onde o sobrenatural parecia ganhar vida à minha medida que dava um passo em frente. Manter-me incógnita e discreta parecia ser a única maneira de sobreviver e fui adoptando-a ao meu próprio ser.

Parei em frente a um parque, donde se viam baloiços e caixas de areia onde as crianças humanas costumam brincar nos seus tempos livres. Comecei a recordar alguns dos bons momentos que passara com a minha família, o que me fez soltar uma lágrima que traçava um caminho até à zona do queixo. Fui sentar-me num daqueles baloiços, procurando ainda indefinidas respostas para tudo o que se havia passado comigo. Em pensamentos, fui retratando todos os altos e baixos que a minha “nova vida” poderia ter, mas não podia manter grandes esperanças. Podia rejeitar a mudança a qualquer altura e morrer instantaneamente.

Dantes pouco sabia sobre Nyx e os seus conhecimentos. Por sorte, tinha livros históricos na prateleira duma estante da minha antiga casa que me ajudaram a assimilar pouco a pouco todo o seu conteúdo. Com isso, consegui safar-me por uns tempos neste tempo desolado em que vivo neste momento.

Tinha tosses compulsivas já há uns dias. Devo estar a ficar doente, mas porquê? Apenas tinha duas soluções: ir para uma Casa da Noite, o que está seriamente fora da minha lista de coisas a cumprir ou encontrar um vampyro adulto e permanecer a seu lado por algum tempo. Se bem que a segunda solução me parecia a melhor. Detestava acima de tudo andar em colégios e este encaixava, de certa forma, naquela categoria bizarra. Por um lado, desejava uma vida normal tal e qual como eu sempre quisera, sendo igual à minha “vida de sonho”.

A lua já repousava no céu, trazendo o seu manto estrelado para iluminar cada canto escuro. Tornava-se numa visão digna de se observar, se estivesse no campo. Sendo assim, tinha que me contentar com aquilo que tinha. Ergui-me do baloiço e fui para o Monsuit, desejando outro daqueles quentes mas suaves cafés para me acalmar a garganta e fazer esquecer as poucas fatigantes horas que restavam ao dia.

 

 

Capítulo três

 

A noite continuava calada, soprando aos poucos pequenos sons nocturnos. A cada passo lento que dava, mais sentia que algo estava errado naquele momento. Estava tudo muito silencioso. Silencioso até demais. Seria uma emboscada? Não. Não podia mesmo ser isso. Quer dizer, se fosse, a esta hora já se viam um enxame de pessoas com crucifixos e estacas à procura de vampyros para matar. Coisa mais estúpida, mas a parte das estacas resultava com a maioria de nós. Principalmente quando estávamos indefesos e completamente vulneráveis e susceptíveis a qualquer ataque iminente.

Agora que penso nisso, muitas das crenças baseadas em nós tinham algo verídico em si. Senão, não existiam lendas nem mitos. Sempre que imaginava uma pessoa feita maluca com uma faca à procura de alguma criatura vampírica para lhe retirar a vida, ria-me indefinidamente sem sequer perceber que me causava uma ausência aparente do mundo exterior. Algo inquietante rodeava o ar à minha volta. Algo não humano. Era outra vez a mesma sensação que possuíra ontem. Sentia medo. Seria apenas impressão minha ou será que estava na cidade um vampyro?

Podia estar à minha procura e levar-me para uma daquelas Casas da Noite, obrigando-me a passar lá no mínimo 4 anos a estudar e a ter esperanças de não morrer e completar com sucesso a mudança. Mas ia dar luta a quem quer que fosse. Ninguém me obrigara a nada enquanto humana. E muito menos me obrigariam enquanto vampyra em formação. Mas tinha de manter o respeito. Pelo menos, posso tentar ser um pouco educada. Nada me proibia de o ser.

Cheguei ao café Monsuit com um nervo miudinho a percorrer-me a espinha. Estava a ficar paranóica com aqueles pensamentos de um novo vampyro estar na cidade ou a estar a rondá-la com afinco. Abri a porta devagar e entrei sem levantar a mais pequena suspeita. Olhei para a televisão exposta na parede do lado oposto ao meu. Um jornalista relatava mais uma morte na zona de Riley Parle. Isto fazia-me levantar inúmeras perguntas sem razão nenhuma. Não tinha nada a ver comigo. Mesmo que tivesse, já havia saído a correr de Vancouver e ido para uma zona desolada, onde não houvesse ninguém.

Sentei-me no meu canto habitual, apesar de já ter reparado que havia alguém sentado lá. Estava nervosa, porque nunca ninguém havia-se sentado ali. Só eu e somente eu. Mas decidi ficar calada. Pedi gentilmente um café e fiquei à espera que mo trouxessem. Madeixas do meu cabelo continuavam a cobrir a minha marca, acabando por servir de máscara protectora. O que é que as pessoas pensariam de mim se soubessem? Provavelmente chamariam o Povo da Fé e cortavam-me a cabeça. Medo era do que eu transbordava.

As conversas amontoavam-se à medida que cada minuto circundava o tempo. Mais conversas da treta que envolviam maioritariamente as politiquices do costume. Que raiva que aquilo me dava. Por dentro, estava a gritar que nem uma louca. Não sabia mesmo como podia aguentar a mesma rotina, os mesmos gestos e o mesmo silêncio. Mas não tinha nada com que me queixar. Eu assim quis que fosse assim. Foi aquela decisão que tornou tudo claro. Tornou-me na pessoa que sou hoje. Uma refugiada à procura de salvação.

Pressenti que um olhar se dirigia perante mim, o que fazia com que a minha inquietação apenas tomasse um nível mais elevado. Não gostava de ser uma espécie de pessoa a que alguém se desse ao trabalho de tomar atenção, quando isso poderia pôr em risco a minha vida. A maioria das pessoas pensava que os vampyros apenas bebiam sangue para seu próprio benefício e para se alimentarem quando necessário. Que eram completamente fracos à luz do sol e que só andavam a pé à noite. A última parte condizia bem comigo, visto que as horas andavam todas trocadas comigo.

Virei o meu olhar para o lado para ver quem é que estava a incomodar-me com o olhar inquietante. Era um rapaz. Não lhe dava mais que 17 ou 18 anos. Tinha cabelo loiro grosso ondulado até à zona onde começava o pescoço. A sua pele era muito clara. Clara demais para uma pessoa normal, de facto. Não conseguira ver totalmente a cor dos seus olhos mas o seu reflexo brilhante deles deu para perceber que deviam ser não muito escuros. Mantive na mesma o mesmo cuidado que mantivera com todos os humanos com quem mantinha poucas conversas. Não ia arriscar. Mais vale prevenir que remediar, certo?

As suas sobrancelhas estavam carregadas e suavemente arqueadas, não desviam a sua atenção em mim. Não estava habituada a sentir-me observada. Na verdade, não gostava. Na minha antiga vida, quando se punham com aqueles olhares inquisidores e atrofiados, significa que queriam que eu falasse sobre algo ou desabafasse qualquer problema que tivesse a ter no momento. Baixei o olhar, lendo os cabeçalhos de uma revista que estava posta no canto inferior da mesa. Rangi um pouco os dentes por dentro dos meus lábios, com o ímpeto de conversa a mínima palavra e vontade que tinha em lhe perguntar por que é que estava a olhar tão atentamente para mim.

A música de ambiente do bar mudou para uma mais calma, alternando entre melodias clássicas e modernas. De música, percebia muito pouco. Mas apreciava uns quantos sons. O silêncio estava constantemente a ser interrompido pelos ruídos causados pelo resto dos humanos sentados à minha frente e atrás de mim. Tornava-se um pouco sufocante suportar aquilo tudo. Mas tinha que estar caladinha e meter-me nos meus assuntos.

- Não és humana, pois não? – Perguntou o misterioso rapaz. Foi então que paralisei por completo e fiquei em estado em choque.

publicado por Twihistorias às 18:00

04
Set 10

 

PREFÁCIO

 

Sempre me fascinou o mundo do sobrenatural. Havia sempre algo misterioso no seu interior. Algo surpreendente e que nos prendia de uma forma inimaginável. Mas nunca pensei virar aquilo que mais admirava. Havia sido Marcada há três dias e não havia lugar seguro para alguém como eu. Soube por algumas fontes seguras que haviam Casas da Noite em alguns estados, mas nunca fui muito de me dar bem com colégios ou coisa do género. Continuei a minha viagem pelo mundo, ainda com a prova que Nyx me havia escolhido: uma marca de lua crescente na testa. Ansiava pelo dia em que encontraria alguém como eu, mas nunca pensei que fosse assim tão estranha esta nova vida.

 

 

CAPÍTULO UM

 

Nas inúmeras viagens que fizera, nenhuma fora tão bela como aquela que fiz a Vancouver. Cidade já por si bela, purificava as pessoas com uma aura de tranquilidade. Quem me dera poder encontrar uma resposta para a única pergunta que residia na minha cabeça: porquê havia sido Marcada? Sempre que pensava naquilo, menos relutância se fazia parecer. Procurei sempre ver se existia alguém como eu. Óbvio que existiam pessoas assim. A serem devidamente preparadas para se tornarem vampyros. Eu não queria aquele destino. Queria seguir com a minha vida, como sempre fizera.

Não queria depender de nada nem de ninguém para ter a vida que sempre desejara para mim. Apesar de saber que podia ficar doente se não fosse para uma Casa da Noite ou se não estivesse perto de um vampyro adulto. Preferia mil vezes a última hipótese. Porém, resignava a hipótese de morrer. Isso estava claramente fora de questão. Mas como havia de saber todas estas coisas se não estava devidamente preparada? Estava sozinha naquele mundo escuro e frio, sem ninguém para me apoiar e cuidar de mim. Sendo uma criatura supostamente mitológica, se bem que ainda estou a passar pela Mudança portanto ainda não sou bem mitológica tanto quanto isso, quem é que iria sequer arriscar estar ao pé de mim?

Enquanto murmurava para mim respostas sem qualquer sentido, nem sequer havia reparado que ainda estava sentada numa mesa do canto, ao pé do café Monsuit. Coisa estranha, admito. Ainda tinha o café à minha frente a soprar o vapor para o ar, dissolvendo-se em milésimos de segundo. Tomei-o cuidadosamente, tomando atenção a toda a gente à minha volta para que não reparassem na minha marca. Podiam caçar-me ou torturar-me. Tinha que ter o máximo de cautela. Ao mínimo deslize, a morte estaria bem mais próxima do que eu poderia julgar.

As notícias da rádio estavam a relatar vários acontecimentos, entre os quais um pelo menos me causou uma impertinente atenção: “ Perante alguns incidentes que têm percorrido o mundo inteiro, estudantes têm desaparecido sem deixar rasto. Ninguém sabe o como ou o porquê, mas simplesmente se desvaneceram. O Povo da Fé já tem reunido mais alguns apoiantes, a fim de porem término à vida das criaturas a que chamam vampyros. Muita gente tem entrado em pânico, mas temos todos de manter a calma. Quem sabe o que andará mais por aí. E aqui terminamos a nossa emissão desta noite.”

Pelos vistos, agora anda tudo a ser Marcado. Mas não fazia qualquer sentido. Nyx só marcava aqueles que teriam algum potencial e um coração nobre. Eu nunca me consegui encaixar em nenhuma daquelas possibilidades. A única coisa que desejava era paz. Paz e tranquilidade eram as únicas coisas que se podiam conseguir somente em Vancouver. Pelo menos, tinha um quarto alugado no motel aqui do lado. Lugar onde pudesse descansar e alimentar com frequência. Mas aquele noticiário de certo que me assustou. Estudantes haviam desaparecido assim do nada e a polícia não tinha quaisquer explicações para dar aos familiares preocupados. Deviam ter prestado mais atenção aos movimentos do parente que havia sumido, isso sem dúvida nenhuma.

Quase todas as conversas que ouvia com relutância ou eram sobre os mais secantes desportos ou eram sobre o facto Sobrenatural. Ouvia isto quase todos os dias. Antes fosse ouvir os discursos de moda ou as entrevistas aos políticos que lideravam o país. Dirigi-me até ao balcão e deixei lá 5 dólares, não me importando com o troco que ia receber. Saí rapidamente do café e dirigi-me para o motel. Por razões unívocas, a noite permanecia escura e sombria, como sempre ficava cada vez que no horizonte aparecia o anoitecer.

Puxei o fecho do casaco para cima, mas nem mesmo assim deixei de sentir o frio a percorrer-me o corpo todo. Mas senti que estava alguém perto fora do normal. Alguém não-humano. Algum vampyro talvez? Tendo em conta os recentes acontecimentos, nada mais me poderia surpreender. A minha vida era meramente monótona. Nada de interessante havia nela. Andava sempre isolada de tudo e todos para meu próprio bem. Calada para nunca ter de me meter em sarilhos ou com o medo de ser magoada por alguém.

Andava tão perdida nos meus pensamentos que até esbarrei contra alguém. Por sorte, não caí senão seria uma vergonha tremenda. Não levantei a cara para pedir desculpas, mas senti uma mão a segurar-me o braço, como se estivesse a ajudar-me. Num sussurro benevolente pude ouvir “Desculpa. Fui um bocado descuidado”. Apesar de a sua voz soar como uma doce melodia de inverno, não pude deixar de notar de onde viera. Pertencia a um rapaz, de certeza. Não quis criar complicações por isso ajeitei-me e voltei a seguir o caminho para o motel.

Quando cheguei, entrei no meu quarto o mais rápido possível e deitei-me na minha cama, ainda a pensar no que havia acontecido durante o dia. O sono andava constantemente a trocar-me as voltas, como se estivesse a dizer-me que o dia e a noite haviam sido alterados, mudando a ordem inversa do tempo. Esperava que Nyx me ajudasse a encontrar um sítio ao qual pudesse chamar casa. Não seria mesmo possível para mim ter algo assim tão precioso. Admirava os seres mitológicos, mas não imaginava que um dia me poderia converter num deles.

Mas o passado já não podia ser alterado. Apenas tinha que viver em conformidade com a decisão de Nyx em ter-me marcado. Encostei a minha cabeça à almofada e adormeci perante o conforto que ela me proporcionava, a pensar no que na minha vida poderia ser mudado: no presente ou no futuro. Mas o meu nome permanecia incógnito. E esse nome era Scarlett Parker.

publicado por Twihistorias às 18:00

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