26
Jul 13

Cap.38 - Alex

- Alex! – Gritei ao vê-lo sair pela porta das chegadas.

Ele parou e sorriu ao reconhecer-nos. Fiz-lhe sinal que íamos ter com ele ao fim do corredor.

Quando estávamos a chegar perto, olhei para Kristen que sorriu e me incitou a ir em frente.

Corri até alcançar Alex, que largou as malas e me abraçou forte.

- Alex! Que saudades! – Exclamei em português, como quase sempre nos falávamos.

- Muitas saudades mesmo! Mas diz-me, como é que tu estás? Quase me mataste de preocupação Anna!

- Desculpa! Estou a aguentar-me... Mas é melhor não falarmos aqui.

Separámo-nos quando Kristen nos alcançou. Alex puxou-a para os seus braços e deram um beijo digno de filme.

Limpei a garganta, fingindo tossir.

- Ai! É impressão minha, ou de repente ficou muito calor aqui? – Não resisti a meter-me com eles. Abanei-me, perdida de riso.

- O que foi minha ciumenta? – Brincou Alex, puxando-me para um meio abraço.

- Deixa Alex. É justo! Eu fazia-lhe exactamente a mesma coisa quando nos conhecemos.

- Desculpa que te diga, mas eras um bocadinho pior. Lembras-te quando decidiste fingir que seguravas a vela e te estavas a queimar?

- Pois foi, que infantilidade!

Rimos a bom rir.

Alex agarrou as malas, recusando a nossa ajuda e Kristen deu-me o braço e começou a tagarelar sobre os planos que tinha para esta semana, até chegarmos ao carro.

Os dias que Alex passou connosco em Los Angeles passaram a correr, mas divertimo-nos imenso os três.

Como tanto eu, como eles estávamos numa de não dar nas vistas, juntávamo-nos ora em minha casa, ora na casa de Kristen e fazíamos a festa.

Aquele casalinho, apesar de estar completamente “in love” e parecerem dois adolescentes, não me pôs de parte nem um dia que fosse. Passaram a semana inteira a convidar-me para isto e para aquilo.

- Bem meninos, está na hora de eu ir pra casa!

- Já? – Exclamaram em uníssono.

- Sim, já é tarde. Não quero adormecer no vosso sofá como ontem. Além disso, a Annie deve estar cansada e vocês devem ter mais coisas pra fazer, não?

Entreolharam-se com ar divertido.

- Hum... Não. Ainda vamos ver o filme! – Acabou por responder Alex.

Cruzei os braços com cara de dúvida.

- Bem, se queres mesmo ir, eu levo-te!

- Sim, se não te importares...

Despedimo-nos de Kristen e encaminhámo-nos para o elevador.

- De certeza que não está a ser aborrecido para vocês?

- Aborrecido? O quê?

- Oh... Tu sabes! Eu estar sempre convosco! Afinal vocês ficam a maior parte do tempo separados e quando podiam estar juntos, eu venho atrapalhar!

- Oh... Deixa de ser tonta! Se estivesses a atrapalhar alguma coisa, nem te convidávamos! E nem era preciso sermos indelicados, bastava dizer que tínhamos planos. Conhecendo-te como te conheço, fugirias de nós a sete pés!

- Obrigada Alex!

- O que estás a fazer? Não vais começar a chorar, pois não?

Encolhi os ombros.

- Nem sei como te agradecer, a ti e à Kristen... Vocês têm sido...

- Hei! Não é nada demais. Ambos somos teus amigos e estamos tão preocupados como tu!

- Eu não sei o que a Kristen te contou, mas...

- Por favor! Tu não achas mesmo que ele te abandonou, pois não?

- Eu não sei...

- Desculpa que te diga, mas agora estás a ser um bocado estúpida! – Disse ele, dirigindo-se ao carro.

- Ai eu agora é que sou estúpida? Desculpa lá, mas não foi a ti que ele... – Enterrei-me no lugar do pendura.

- Pois não, foi a ti! Mas pensa... Ele até te podia querer deixar, mas daí a desaparecer sem avisar ninguém? Pelo que eu ouvi dizer, ele andava a ser ameaçado...

- O quê?

- Andas mesmo a Leste, não andas? Ouviste alguma coisa daquilo que a Lizzie te tentou dizer a semana passada?

- Bem, eu...

- Proibiste-a de continuar a tocar nesse assunto, eu sei. Ela disse-me. Ligou-me preocupada com o facto de lhe teres dito que ele já não significava nada para ti. E, no entanto, ainda nem a aliança conseguiste tirar.

Ia abrir a boca para responder, mas ele continuou, interrompendo-me.

- Eu não acredito que o Robert te deixou, e tu também não! Há muita coisa estranha nisto. Eu sei que só te queres proteger e estás magoada, mas vejo nos teus olhos que ainda o amas, por isso não te serve de nada negar.

- Então não percebo... – Disse, sentindo uma lágrima escorrer-me teimosamente pela face. – Se houve algum problema, porque é que ele não me contou? E se... Achas que as ameaças podiam ser por minha causa?

- Isso não sei... Mas tu já foste ameaçada por causa dele, por isso não era inédito!

- Sim, mas... De onde saiu essa ideia de ele andar a ser ameaçado? Vocês não estão a tentar animar-me com isso, pois não?

- Bolas, até me ofendes! Nunca te menti... Bem, vou fingir que nem ouvi. E respondendo à tua questão, ele falou disso ao Tom. Parece que andava constantemente a receber mensagens.

- Oh meu Deus! – Exclamei. – As janelas e as portas trancadas a toda a hora... Como é que eu não percebi? Achei que ele estava a ficar paranóico com os paparazzi, nunca imaginei...Fui tão injusta com ele!

- Tem calma... Também não podias imaginar. Como tu própria disseste, ele não falou contigo.

- E o que é que eu faço agora? Onde é que ele estará? Será que lhe aconteceu alguma coisa? Só espero que ele não...

- As más notícias sabem-se depressa... Bem, chegámos!

- Sim. Talvez tenhas razão... Tenho de pensar. Obrigada Alex! Não sei que faria sem ti!

Dei-lhe um abraço e saí do carro. Ele esperou que entrasse no prédio antes de arrancar.

Quando cheguei, tanto os meus filhos, como a Annie já dormiam. Tomei um duche rápido e enfiei-me na cama. O sono depressa chegou, mas os sonhos atormentaram-me toda a noite.

publicado por Twihistorias às 18:00

26
Jun 13

Capítulo 37

Preso

Acordei completamente encharcado.

Limpei a testa com as costas da mão, senti algo roçar-me no braço e levei a mão à cara.

A minha barba estava enorme.

Os poucos dias que julgava ali estar, num ápice se transformaram em semanas.

Tentei recordar-me de como ali fora parar, mas tudo o que conseguia vislumbrar era um enorme buraco negro.

Fiz menção de me levantar, o que despoletou uma dor lancinante no lado esquerdo do tronco.

Costela partida. – Pensei.

Soltei um gemido, mas o som que saiu soou-me demasiado rouco e questionei-me quanto ao tempo que seria preciso ficar sem usar as cordas vocais para produzir semelhante som.

Estiquei as pernas a custo, até embater em algo de metal com o pé. Esforcei-me o melhor que pude para arrastar o que quer que fosse para mais perto, de forma a poder pelo menos saber do que se tratava.

No pequeno prato de alumínio estava um naco de pão e um púcaro com o que presumi ser água.

O pão estava duro e húmido e sabia um pouco a mofo, mas com a fome que de repente me apercebi que tinha, nem me importei. Só parei de tentar enfiar mais pão na boca quando comecei a ficar sem ar e levei a caneca à boca.

A água sabia mal e tinha impurezas, mas bebi sofregamente, enquanto sentia arder os meus lábios gretados e feridos da desidratação e possivelmente dos maus tratos que teria sofrido nos últimos dias e dos quais não me recordava nem um pouco.

Tentei explorar um pouco o espaço, o que na minha actual condição física, não era tarefa fácil. Doía-me cada movimento. Basicamente acabei a rastejar pelo espaço circundante, esfolando os braços no chão áspero.

Um pouco depois ouvi vozes e apareceu luz por baixo de uma porta ao fundo da divisão.

Afastei-me para o meu canto o mais rápido que consegui.

Ainda não sabia se sentia medo ou não, foi apenas o instinto de sobrevivência a falar mais alto.

Tentei a todo o custo evitar encolher-me e fingi-me dez vezes mais exausto do que me sentia.

Um homem alto e encorpado entrou, provocando um clarão de luz que me fez semicerrar os olhos.

Outro homem, também alto e encorpado, mas talvez mais novo, ficou à porta da divisão.

- Papá, não seria melhor voltar a amarra-lo?

- Nada disso! Não vez que ele não tem sequer forças para reagir? – Respondeu o homem, enquanto me dava um pontapé nas costelas para demonstrar a sua teoria.

Deixei-me cair de lado, cerrando os dentes e os punhos no esforço de não gritar.

A minha respiração soou-me ruidosa demais, talvez porque me tenha concentrado nela para me abstrair de tudo o resto.

Passado pouco tempo o homem saiu, não sem antes me presentear com novo pontapé.

Levei algum tempo a controlar o meu sistema nervoso de modo a conseguir pôr-me direito novamente.

Depois de organizar as ideias, tomei consciência de que me devia encontrar numa cave ou algo parecido, que o meu relógio tinha desaparecido, bem como a minha aliança e tudo o resto que tinha comigo.

Apenas me deixaram com a roupa que tinha no corpo.

Anna! – Por pouco não gritei o seu nome, ao constatar a ausência da aliança.

Será que ela estava bem? Neste momento devia odiar-me por a ter deixado sozinha com os nossos filhos.

Eu sabia que era o pior que lhe poderia fazer, mas era o que tinha de ser feito.

Sabia que depois de o fazer não haveria volta. – Ela ia odiar-me para sempre!

Talvez não me recusasse o direito de ver os meus filhos. Talvez nem procurasse sequer uma explicação para o que se passara.

Mas eu sabia que a tinha perdido para sempre.

Soube, no momento em que tomei esta decisão, que o preço a pagar seria perder a mulher que amo.

Mas se esse fosse o preço a pagar pela sua vida e pelo bem-estar dos meus filhos, fá-lo-ia de bom grado, sem me queixar até ao fim da minha vida.

A questão é que não sabia se realmente era isso que estava a acontecer.

Não sabia há quanto tempo os deixara, nem há quanto tempo estava aqui. Fechado.

Os tipos que me tinham trazido para aqui, sem que nada o previsse, já que tinha decidido colaborar, bem podiam tê-los prendido num lugar qualquer. Ou pior, podiam tê-los morto...

Angustiei-me só de pensar.

Eu devia ter contado à polícia. Eles saberiam o que fazer. Mas agora era tarde para voltar atrás.

Restava-me aceitar o que quer que tivesse de acontecer.

publicado por Twihistorias às 18:00

12
Mai 13

Cap. 36 – A fotografia

Acordei sentindo-me mole e pesado e com a cabeça a latejar de dor. Tentei levar as mãos à nuca, mas os meus músculos não me obedeceram. Para além de me sentir preso, pouca consciência tive do local onde me encontrava e de como ali fora parar. Um cheiro acre inundava a divisão.

Veio-me à memória a imagem de um rosto, mas antes que pudesse sequer pensar no que significava pra mim, uma luz forte feriu-me a vista, para no segundo seguinte voltar a ficar em absoluta escuridão. Apenas tive tempo de me aperceber que mais alguém se encontrava comigo, antes de sentir uma picada e voltar a cair na inconsciência.

 

A escola do Miguel começara há alguns dias, mas só tinha ido levá-lo uma vez para não levantar suspeitas em relação ao "desaparecimento" de Rob. De resto a Lizzie estava radiante em poder fazê-lo por mim.

Hoje sentia-me com forças para fazer arrumações. Já não aguentava mais ver as coisas sempre no mesmo sítio. E comecei pelo mais difícil. As coisas de Rob.

Demorei bastante, pois acabei por me perder em recordações de momentos que passámos juntos.

A campainha tocou e fui abrir.

- Kristen! Que boa surpresa! – Abracei-a forte.

- Como estás minha querida? Estiveste a chorar?

- Não. – Disse, enquanto piscava os olhos para afastar a humidade que neles se acumulara.

- Ai minha amiga! Como é que estás? Nem imagino aquilo que estás a passar...

Encolhi os ombros em resposta, não querendo chorar à frente dela.

- Pronto, já percebi. Não vamos falar sobre isso então. Onde estão os meus sobrinhos?

- O Miguel está na escola e a Annie foi ao parque com a June. E eu estava a aproveitar para fazer umas arrumações.

- Muito bem, sim senhora! Vejo que tens com que te ocupar! Queres uma mãozinha?

- Ah nem penses nisso! Que tens feito?

- Gravações e mais gravações! Sabes como é! Mas agora tenho uma pausazinha, duas semanas para descansar!

- Ai que bom! Também estás a precisar. Às vezes nem sei como aguentas esse ritmo!

- Ahahah até parece que não andas sempre acelerada!

- Pois, também é verdade!

- Não sei se tu sabes, mas o Alex vem logo! Vou buscá-lo ao aeroporto!

- A sério? Ai aquele malandro que não me disse nada!

- Ele disse-me que tentou falar contigo há uns dias mas não atendeste...

- Ah... pois. Tenho andado meio desligada. A maior parte do tempo nem sei onde tenho o telemóvel.

- Hum...Ok. Sabes, não sei se fiz bem, mas contei-lhe. Ele ficou preocupado. Espero que não leves a mal.

- Não tem importância. De qualquer forma eu ia contar-lhe...

- Lembrei-me de passar aqui a saber se querias ir comigo buscá-lo. Ele havia de gostar.

- Oh de certeza que ele está é cheio de saudades tuas! Afinal, quando é que vocês casam?

- Oh sabes como é... Ele anda cá e lá e eu sempre de um lado para o outro.

- Fiquei tão feliz quando soube que vocês estavam juntos! A Kristen e o Alex! Quem diria? Ele é um bom homem. Se não fosse ele, não sei como me teria aguentado lá por Lisboa.

- Tens razão... Tem um coração do tamanho do Mundo!

- E bate por ti!

Desmanchámo-nos a rir à gargalhada.

Conversámos durante um bom bocado, enquanto eu aproveitava para ir arrumando mais umas coisas, até que a Annie chegou empurrando o carrinho de bebé com uma das mãos e puxando o Miguel com a outra.

Eu tentava limpar a estante da sala, carregada de livros. Puxei um dos livros da prateleira mais alta, acabando por fazer com que esse e mais dois caíssem ao chão.

- Bolas, isto é o que dá ser preguiçosa!

Apanhei rapidamente os livros do chão e, em bicos de pés, voltei a colocá-los no sítio.

- Mamã? Quem é? – Perguntou o meu filho, com uma foto na mão.

- Onde foste arranjar essa fotografia, Miguel?

- Caiu de um dos livros. – Meteu-se Kristen.

Olhei atentamente a foto, ainda nas mãos do meu filho.

Era uma das nossas tensas fotos de família.

A minha mãe com um sorriso tão artificial que parecia desenhado, o meu pai com ar sério e respeitável e os dois meninos de olhar triste – Eu e Seth.

- Olha mãe, está aqui o senhor do centro comercial! – Exclamou o meu filho, arrancando-me daquelas tristes recordações.

- O quê filho?

- O senhor que me levou até à loja dos brinquedos!

- Que senhor? Não estava nenhum senhor na loja de brinquedos! E tu não falaste de nenhum senhor à mãe.

Ele mudou de atitude e ficou meio assustado, meio atrapalhado, acabando por retirar o dedo de cima da imagem do meu pai.

- Miguel... Conta à mãe. O que se passa? – Falei calmamente e ajoelhei-me ao seu lado.

Ele continuava calado e encolhido, como se estivesse a adiar a resposta.

- Miguel! Estou à espera que me respondas! – Impacientei-me.

- Não vais embora, pois não? Eu não quero ficar sozinho!

Fiquei perplexa. Quem é que lhe tinha metido uma coisa daquelas na cabeça?

- Prometes que não vais embora para sempre como o pai? – Insistiu.

- Claro que não meu amor! E o pai não te abandonou! Só teve de sair uns tempos. Foi trabalhar. Mas ele volta. – Engoli em seco. Nunca tinha mentido ao meu filho, mas não tinha conseguido dizer-lhe a verdade.

- O senhor disse que te ias embora para sempre como o pai, se eu te contasse que o vi.

- Que senhor?

- Este! – Disse apontando o meu pai na foto.

- Amor, se calhar imaginaste... Não podes ter visto esse senhor.

- Não! Eu vi! Ele falou comigo! Levou-me à loja de brinquedos!

- Pronto amor, não imaginaste! Mas devia ser alguém parecido, porque esse senhor já morreu há muito tempo.

- Oh... Quem era?

- Era o pai da mamã! Já foi para o céu antes de tu nasceres.

- Ah! Então era mesmo parecido igual!

- Parecido igual? Está bem. Agora quero que me digas outra coisa... Esqueceste-te que não deves falar com desconhecidos?

- Mas eu não falei...

- Hum... Espero bem que não!

Sentei-me no chão e puxei-o para o meu colo.

- Miguel, eu não vou a lado nenhum sem ti. No que depender de mim, vou ficar ao pé de ti até ser muuiiiito velhinha!

- Oh... Tu não vais ficar velhinha! – Riu-se ele e deu um beijo molhado na minha bochecha.

- Ai tão bom! – Retribuí o beijinho. – Bem rapazolas, está na hora! Já para o banho! Quero essa roupa toda no cesto quando lá chegar!

Ele levantou-se de um salto e desatou a correr quando me levantei e fingi que ia atrás dele.

Voltei atrás, apanhei a foto que ficara no chão e, depois de a olhar brevemente, voltei a colocá-la dentro de um dos livros da estante.

- O que foi isto? – Perguntou Kristen.

- Ai desculpem... No outro dia no centro comercial deixei de o ver durante um bocado. Quando o encontrei estava à porta de uma loja de brinquedos.

- Ele deve mesmo ter-se assustado para inventar uma coisa destas! Isto não é nada dele! – Comentou Annie.

- É verdade. Mas não creio que ele tenha inventado. Alguém me deu um encontrão e eu distraí-me. Depois deixei de o ver. Já tinha passado pela loja e não o vi... Só quando voltei para trás. Bolas, é tanta coisa! Já não bastava esta situação com o Rob...

- Mãe!

- Bem, tenho de lá ir. – Disse, enxugando a humidade dos olhos.

- Não. Eu vou! – Prontificou-se Annie.

- Deixa. Eu vou lá! – Disse Kristen, levantando-se. – Vê se consegues que ela se anime enquanto eu o distraio. – Disse para Annie.

- Anna, tens de reagir. Afinal onde está aquela mulher determinada que pregou a maior descompostura ao meu antigo patrão? Eu também pensei que nunca iria conseguir viver sem a minha mãe e aqui estou eu! Pelo menos o Robert não morreu...

- Eu não entendo... Porquê? Porquê agora?

- Olha porque não vais um bocadinho à igreja? Eu sei que não vais a missas nem ligas a nada disso, mas Deus não nos dá problemas maiores do que aqueles que podemos resolver.

- Oh Annie! Obrigada, mas sabes que não vou à igreja.

- Porquê? O que é que te impede?

- Eu não sou assim! Isso é uma coisa tua. Cada um tem a sua maneira de enfrentar os problemas!

- Essas desculpas todas... Não é só isso, pois não?

- Ok. Pronto, um dia destes vou contigo. Talvez até nem seja assim tão má ideia.

- Eu não obrigo ninguém. Foi só uma sugestão. Mas agora que disseste que sim, eu vou cobrar!

- Ok, ok...

- Vais ver que te vai fazer bem...

- Bem, pelo menos vais parar de me tentar convencer a lá ir...

- Ah ah ah... Que engraçada!

publicado por Twihistorias às 20:12

25
Abr 13

Cap. 35 – Tristeza, desilusão e angústia

Ao fim de três dias avisámos a polícia, depois de ligarmos para hospitais, clínicas, enfim para todos os sítios onde nos lembrámos que ele poderia estar, mas aparentemente ele não queria ser encontrado. Quanto à imprensa, por enquanto andava só a farejar, mas como havia histórias mais suculentas para se ocuparem e não era altura de nenhuma aparição pública oficial, por enquanto nada saíra de muito preocupante.

Duas semanas se passaram e tudo continuava na mesma.

Lizzie continuava a fazer o que podia para não me deixar sozinha e para me animar, mas eu podia sentir a sua angústia e preocupação. Eu estava a aguentar-me, não por mim nem mesmo por ela, mas pelos meus filhos. Tinha de continuar a fazer as coisas normais, mas a minha vontade era sair dali. Daquela casa, daquele quarto... Afinal de contas ele tinha-me deixado. Custava-me olhar para as suas roupas penduradas no roupeiro ao lado das minhas, os seus pertences na casa de banho, enfim... Tudo intocado desde que ele se fora. Os dias arrastavam-se mais compridos que nunca e eu não me sentia forte o suficiente para manter aquela farsa durante muito mais tempo. O seu cheiro ainda andava pela casa, a sua viola estava no mesmo sítio onde a largara. A aliança que carregava no meu dedo havia dias que me pesava e me queimava por dentro não saber se deveria continuar a usá-la ou não. Eu queria acreditar, como todos, que algo se passara e ele ia voltar a qualquer momento, mas as últimas palavras que o ouvira proferir estavam bem presentes no meu pensamento. Acabara. No entanto continuava sem conseguir tirar aquela aliança. Era como se, enquanto não a tirasse, ainda pudesse haver um pouco de esperança. Sempre que me lembrava da maneira como ele falara e me olhara, sentia-me tão humilhada. Um bofetão não sortiria mais efeito. Acabar daquela maneira fora um golpe duro. Um golpe que ainda não sabia como poderia superar.

Desde que Rob me tinha deixado, dei por mim muitas vezes a pensar na minha mãe. O que ela tinha sofrido por amar aquele homem. Eu nunca a entendera. Nunca percebera como é que ela se sujeitava a tanta coisa por ele. O meu pai não era gentil, não lhe reconhecia o valor e não a amava, mas ela continuava a esperar por ele todas as noites, mesmo quando era mais que certo que ele já não vinha dormir. Isto já para não falar das sovas...

Marie era o seu nome e fora a francesa mais inglesa que eu tinha conhecido. Uma vez tentara explicar-me o que sentiu a primeira vez que viu Londres e, embora não me lembre das palavras, sei que sentia o mesmo. Era ali que pertencia... As coisas podiam não correr bem, mas a cidade continuava imponente a olhar-nos com a mesma postura, como se nada se passasse. Era como se nos mostrasse que todas as coisas passam e nós ficamos naquilo que fazemos e pensamos e que um dia tudo correrá melhor. Há quem diga que Londres é uma cidade triste, mas é precisamente o contrário. Tem uma beleza sombria em dias de chuva, mas não deixa de ser a mesma por isso.

Mas Londres estava para lá do oceano e longe de me confortar. Ao contrário da família de Rob que se tinha mudado de armas e bagagens para LA, na altura em que o nascimento da Junnie estava prestes a ocorrer. Tinham-no feito sobretudo para nos ajudar nos primeiros meses e poderem disfrutar da nossa companhia, mas acabaram apanhados de surpresa por esta súbita decisão de Rob.

Talvez Robert andasse por aí e não tivéssemos procurado nos sítios certos. Talvez tudo não passasse de um pesadelo ou mal entendido.

Era no que pensava quando estava mais em baixo. Passara tão pouco tempo e, no entanto a sua ausência deixava a minha vida tão vazia. Tinha vontade de me perder pela cidade como quando era menina e esperar que ela me levasse até ele, até ao meu príncipe encantado, mas sabia que não o podia fazer.

Porque será que tudo tinha sempre de ser tão complicado?

- Mãe?

- Sim filho!

- A mana está a chorar outra vez...

Parei de dobrar e arrumar as roupas na cómoda e fui até à sala.

June chorava baixinho dentro da alcofa, que daqui a mais uns tempos ficaria pequena demais para ela.

- Oh... Que foi? Que foi Junnie? A mamã está aqui... Pronto, pronto... – Aninhei-a nos meus braços e embalei-a até voltar a adormecer.

- Bem, Miguel já estás pronto? A Annie deve estar a chegar pra ficar com a tua irmã.

- Mas mãe... Também quero ficar com a Annie! – Protestou ele.

- Já falámos sobre isso. Precisas de roupa para a escola. E a mãe amanhã não tem tempo! Amanhã podes ficar, ok?

- O dia todo?

- Siiim... Agora vai lá despachar-te que tenho pressa!

Ele saiu a correr até ao quarto. Nunca tinha visto ninguém que achasse que não precisava de roupa nenhuma. Só mesmo o meu filho para ser tão desprendido. E o pai.

Bateram à porta e a seguir ouvi a chave na fechadura. Annie, sempre preocupada em incomodar. Ela tinha a chave para evitar tocar à campainha e acordar a menina, mas batia sempre à porta antes de entrar.

- Bom dia Anna!

- Bom dia Annie!

- Como estás hoje? – Sussurrou-me enquanto me dava um meio abraço.

Sorri. Tinha demorado uma eternidade até ela ter a ousadia de fazer uma coisa destas. Durante muito tempo ela agia como uma simples empregada, quando era muito mais que isso.

- Não te preocupes querida. Está tudo bem, obrigada... Bem, eu e o Miguel temos de ir. Qualquer coisa já sabes, liga.

- Ok. Não te preocupes. Ela é um anjinho, não vai dar trabalho nenhum.

- Bem, vou ver o que o Miguel está a fazer tão caladinho no quarto... Miguel? Já estás pronto? A Annie já chegou!

Ele saiu do quarto já pronto, e correu a abraçar a Annie.

- Ai, estás a ficar pesado. – Queixou-se ela.

- Vá, vamos Miguel! Amanhã ficas com a Annie.

Saímos no carro em direcção ao Centro Comercial e passei as duas horas seguintes a tentar controlar o Miguel que não parava quieto.

- Miguel, anda já pró pé da mãe! Vá lá, já estamos a acabar...

Alguém passou por mim, dando-me um encontrão, o que me distraiu. Senti-me observada e olhei para trás. Pareceu-me ver alguém familiar, mas depressa voltei a olhar em frente e apercebi-me que perdera o Miguel de vista.

- Miguel! Miguel volta já aqui! – Continuei sem o ver e comecei a andar em frente e a procurá-lo. Ele não podia estar assim tão longe. Avancei pelo corredor fora em passo apressado, olhando para todos os lados à procura dele, mas não o via em lado nenhum.

Senti o meu coração apertado no peito, quando cheguei ao fundo daquele corredor e continuei sem o ver.

- Por favor Miguel, onde é que te meteste? – Disse para mim própria.

Dei meia volta e quase gritei ao ver os seus calções vermelhos ao longe. Andei o mais depressa que me era possível sem desatar a correr. Ele estava com um ar um pouco assustado, à porta da loja de brinquedos, de mão dada com a empregada. Assim que me viu fugiu-lhe e correu até mim.

- Onde foi que te meteste? Nem sabes como fiquei assustada! Vês porque te digo para não te afastares?

- Desculpa mamã... Prometo, não faço mais. Eu vou ficar de mão dada. Prometo.

Ainda com ele ao colo abraçado a mim, dirigi-me à empregada da loja que nos observava e agradeci.

- Pronto amor já passou... Vamos comprar o almoço e comemos em casa com a Annie? – Ele acenou e fizemos o combinado.

publicado por Twihistorias às 20:59

06
Abr 13

Cap.34 – A conversa

Tinha sido uma das piores tardes da minha vida.

Aquela estranha conversa do Rob ao telemóvel deixara o meu cérebro quase a dar o nó e o desfecho não poderia ser mais catastrófico.

Ainda não conseguia acreditar que ele acabara de sair porta fora sem sequer se despedir dos filhos. Dizendo apenas que não ia voltar, que não era isto que queria. Não era o que imaginava e que o melhor para todos era que eu aceitasse a sua escolha e não o procurasse mais.

- E os meninos? Os teus filhos? O que é que ...

- Eles têm-te a ti. Não vou deixar de cumprir com as minhas responsabilidades. Asseguro-te que não lhes vai faltar nada. Preciso sair agora. Não me procures. Segue com a tua vida, arranja alguém... Adeus.

Voltou costas e saiu o mais rápido possível, fechando a porta atrás de si.

Eu não entendi nem acreditei em nada do que me disse. Aguentara todas as suas paranóias e criancices no último mês, mas não esperava tamanha irresponsabilidade, frieza e egoísmo da parte dele. E ainda ter a lata de dizer que era o melhor para mim, que eu ia ficar bem, que o estava a fazer por mim.

Pensei em ligar à Lizzie, mas depressa desisti. Eles eram irmãos e se ela não me tinha dito nada era porque de alguma forma estava de acordo com ele. Porque de certeza que ela sabia o que ele andava a pensar fazer. Comecei a pensar a quem podia ligar àquelas horas sem ser indelicada e percebi que a maior parte dos meus amigos agora eram os amigos dele. Apenas restava o Alex.

Apanhei o telefone, caído no chão a meu lado e fiz a ligação, mas ele não atendeu e eu não insisti. Afinal de contas já era bastante tarde e ele devia estar a dormir.

Arrastei-me até à cama e tentei a todo o custo pegar no sono, mas só conseguia chorar. Chorava em silêncio para não despertar os nossos filhos. Pensar neles ainda me fez chorar mais.

O que é que eu ia dizer ao Miguel?

E porquê? Porquê agora? Porquê comigo? Será que ainda não sofrera o suficiente?

Acabei por adormecer por exaustão e na manhã seguinte quando acordei o meu primeiro pensamento foi que tudo não passava de um pesadelo. Isto até me levantar e dar de caras com os meus olhos super inchados reflectidos no espelho da cómoda.

O meu telemóvel tocou mas ignorei-o. Precisava urgentemente de um duche e queria aproveitar enquanto as crianças dormiam. Tentei lavar-me de toda a dor que sentia e começar a imaginar a minha vida agora sem ele, mas era impossível. De certeza que se passara algo que ele não me quisera contar. Ninguém muda assim.

Saí finalmente do banho e o telemóvel tocava novamente. Era Lizzie, mas não atendi. Ainda não me sentia em condições de falar com ninguém.

Sequei o cabelo e vesti-me, sempre tentando ignorar o telemóvel que não parava de tocar. Mas no fim peguei nele e ia desligá-lo quando a Lizzie voltou a ligar e atendi.

- Anna? Está tudo bem? O meu irmão está aí? É que ele não me atende e... O que se passa? Fartei-me de ligar!

- Lizz... Ele saiu de casa ontem. Não sei mais nada.

- Ele... O quê?!?

- Sim. O Rob... O teu irmão. Foi-se embora ontem. Disse que já não quer estar mais connosco.

- O meu irmão o quê? Mas ele não pode... Ele não pode fazer isso. Não pode sair assim!

- Mas saiu... Olha porque não lhe dizes isso a ele?

- Já te disse... Não consigo falar com ele. Pensei que ele estivesse em casa. Não estás a brincar comigo, pois não? A sério, preciso mesmo de falar com ele!

- Quem me dera... – Disse, com um suspiro e, incapaz de me controlar, desatei a chorar.

- Estás mesmo a falar a sério... Calma amiga. Bem, eu tinha umas coisas pra fazer, mas não importa. Vou aí ter contigo. Respira. Vou chegar logo. E contas-me tudo com calma.

Não sabia muito bem se era o que queria, mas deixei-me ficar à espera dela. Podia ser que me animasse. Normalmente Lizzie tinha esse poder.

Ela entrou com a chave do porteiro e encontrou-me sentada aos pés da cama, com a cabeça encostada aos joelhos.

- Hei... Então que se passa? Oh anda cá! – Disse e abraçou-me forte. – Vá, tem calma. Isto não faz sentido nenhum. De certeza que se passa alguma coisa e ele entrou em pânico por algum motivo. Ele vai cair em si e vai ficar tudo bem.

Não consegui dizer nada. Sentia-me desfeita por dentro e exausta pela noite mal dormida. A única resposta que consegui dar foi um soluço abafado, antes de me desfazer novamente em lágrimas.

Lizzie foi incansável para me animar. Tratou das crianças, ligou para a Annie e recambiou toda a gente para casa da mãe. E depois ocupou-se de mim e passou a tarde inteira a tentar arrancar-me de casa.

Robert era a minha força, era por ele que tinha mudado a minha vida toda, tinha confiado nele cegamente e agora sentia que a vida e a felicidade me fugiam como areia entre as mãos.

Sabia que teria de ser forte nem que fosse pelos meus filhos, mas a verdade é que neste momento nem disso me sentia capaz. Tantas dificuldades e tanta luta para depois acabar assim?

Quando a noite caiu sentia-me exausta, embora tivesse passado parte da tarde a dormir. Sentia-me vazia.

- Continuo a achar que não estás em condições de ficar sozinha. De certeza que não queres que eu fique?

Encolhi os ombros e ela sentou-se na cama ao meu lado.

- Anima-te. Não gosto de te ver assim. Olha, eu não sei o que se passa com o meu irmão porque ele não me atendeu o dia todo, mas de certeza que é só uma fase. Ele não ia deixar-te assim. Bem, eu não entendo... Mas juro-te que vou descobrir o que se passa!

- Eu já nem sei se quero descobrir...

- Mas o que se passa? Achas que ele tem outra?

- Ele entra e sai a qualquer hora e não dá explicações... E tu sabes como eu sou...

- Sei, és mais controlada que eu... Eu nem quero imaginar se vivesse com o... Bem, não interessa.

- Com o Tom não é? – Ela corou que nem um tomate. – Vá lá Lizzie, eu já percebi que vocês namoram... Só não percebo porque se escondem...

- Hum... Bem, não é possível esconder-te nada, pois não? Mas nós não namoramos, andamos...É tudo.

- Lizzie...

- Ok, tá bem... Namoramos, mais ou menos... Mas não contes a ninguém. Não queremos complicações...

- Pois... Complicações como as minhas... Tanta contrariedade só podia dar nisto.

- Hei! Estavas a ficar melhor! Não vais recomeçar a chorar pois não?!

Suspirei.

- Não... Acho que não. Estou cansada.

- Queres que durma contigo?

Sorri.

- Lizzie, também não tenho cinco anos!

- Oh... Mas eu tenho! Espera, vou só buscar um pijama!

Levantou-se e foi aos pulinhos até à cómoda. Tive que rir. Esta Lizzie era mesmo tonta. E eu sabia que todas estas parvoíces hoje, eram única e exclusivamente para me arrancar um sorriso.

Acabámos a noite as duas a tagarelar. Não me sentia feliz, mas pelo menos a companhia da minha melhor amiga fez-me bem e atenuou a minha dor.

Na manhã seguinte acordei sozinha na cama. Já devia ser tarde porque a claridade entrava pela fresta do cortinado.

Ouvi Lizzie a falar, levantei-me para a ir cumprimentar, mas não cheguei a entrar na sala quando percebi que a conversa era sobre mim.

- Mas Tom, como não sabes de nada? De certeza que ele te disse alguma coisa. O meu irmão não ia fazer uma coisa destas à Anna sem falar pelo menos contigo! Pensa bem... Oh porque não me contas? Eu preciso de saber o que se passa para a tentar ajudar!

Não ouvi a resposta, pois ela falava ao telemóvel.

- Ok. Mas se te lembrares de alguma coisa que ele te tenha dito, dizes-me certo? Hum hum... Ok. Obrigada. Vai continuando a tentar ligar pra ele. Obrigada amor. Olha logo é melhor desmarcarmos, ela não está bem, teve pesadelos a noite inteira e eu não a vou deixar assim. Desculpa. Eu também. Beijo.

publicado por Twihistorias às 18:00

23
Mar 13

Cap. 33 - Mensagens

- Olá mano! Epah parabéns! Já sei que tens uma filha! Que tal a sensação? – Disse-me Tom assim que cheguei.

- Faz uma e depois logo vês!

- Ahahah, engraçadinho!

- Estou a falar a sério! Não disse nada de mal...

- Bem, vamos mas é sentar-nos que estou a morrer de fome!

O almoço decorreu sem mais graçolas, pois tínhamos alguns projectos a discutir e queríamos aproveitar bem o almoço, pois nenhum de nós tinha propriamente muito tempo para se sentar a conversar.

Tom passava mais tempo a viajar do que em casa e eu tinha montes de propostas de trabalho para analisar antes de me decidir que rumo dar à minha carreira.

- Bolas, pareces uma central telefónica! Esse telemóvel não pára...

- Sabes como é... actor famoso... – Desatámos a rir à gargalhada.

- Ui! Andamos muito convencidos! Pronto, lá está outra vez a tocar!

- Infelizmente nem tudo é trabalho... – Respondi, depois de ler mais uma mensagem anónima, não muito agradável, das muitas que já tinha recebido desde o dia anterior.

- Mas o que se passa? Estás à espera de alguém?

- Não! – Respondi, tentando fazer um ar natural, voltando a endireitar-me na cadeira. – Sabes como é, deve ser uma daquelas pessoas que não pode ver ninguém feliz... Descobrem os nossos números e depois divertem-se a mandar mensagens anónimas.

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Tinha saído da Clínica há três semanas quando o Rob começou a ficar estranho. Andava distraído e tenso, chegava atrasado, saía a horas estranhas e quando voltava dava desculpas esfarrapadas e para cúmulo andava completamente paranóico com a segurança... Às escondidas verificava todas as portas e janelas e escrutinava toda a casa, como se esperasse que mais alguém lá tivesse entrado na nossa ausência. 

Acordei a meio da noite com a sensação de ter ouvido a minha filha chorar. Robert não estava na cama, nem a nossa filha estava no berço, junto à cama. Levantei-me, vesti o robe e fui até à sala, onde o encontrei debruçado na alcofa onde a nossa Junnie dormia.

- Não vai acontecer nada meu amor, o pai está aqui e não vai deixar que nada de mal aconteça com a menina... – Ouvi-o sussurrar, enquanto lhe fazia festinhas na cabeça.

Momentos mais tarde, levantou-se e eu escapuli-me da forma mais rápida e silenciosa que consegui até ao quarto, de modo a que, quando Rob chegou já eu “dormia profundamente”.

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Não sei o que me dera para atender aquela chamada anónima, mas a voz que soou no meu ouvido fez-me arrepiar. Não me considero nenhum herói, mas também não sou nenhum cobarde, mas o que ouvi gelou-me completamente. Fiquei estático por momentos, encostado à parede e ainda com o telemóvel encostado ao ouvido. Tentei processar a informação, mas era demais pra mim. Lembrava-me apenas das palavras ditas.

“Chegou a hora. Não vou esperar mais. Tem até amanhã para decidir se quer a sua família viva ou morta!”

- Mas... – Balbuciei, ainda apanhado de surpresa.

“Sabe, é uma pena ter de a matar. Tem uma esposa bem bonita. Ah e a menina? É adorável! Sabe o que estão a fazer agora? Ela está a dar-lhe de mamar. Oh e o rapazinho está crescido, não é?”

- Mas... Quem é você? – Quase gritei na tentativa de fazer a minha voz soar firme.

“Decida! Decida bem... Não se esqueça que a vida deles depende inteiramente de si. E não faça nenhum disparate! Só vai piorar tudo.”

- E como vou ter a certeza que não lhes vai fazer mal se eu fizer o que quer?

“Eles ficarão bem. Ou prefere que vá até lá agora e acabe com isto?”

Não consegui responder.

“Tem até amanhã. Escolha bem.”

E desligou.

Uma gota de suor escorreu-me pela testa e tomei novamente consciência de onde me encontrava. Estava agora sentado no chão a tentar controlar a minha respiração ofegante. As minhas mãos tremiam enquanto esperava que me atendesse.

- Sim?

- Anna? Estás em casa?

- Sim Rob. O que se passa?

- O que estás a fazer?

- A acabar de dar de mamar à menina. Mas porquê?

- No quarto? O Miguel está aí?

- Sim. Tanta pergunta. O que se passa afinal?

- Nada. Como demoraste a atender... Bem, tenho de ir agora. Logo precisamos de falar.

publicado por Twihistorias às 18:00

27
Fev 13

Capítulo 32 - June

Tinha acordado há pouco e ainda tomava o pequeno-almoço, quando uma enfermeira entrou no quarto, empurrando o pequeno berço.

- Bom dia Senhora Pattinson, como foi a noite? Sente-se bem?

- Estou bem, obrigada. Um pouco cansada, mas tudo bem...

- Já sabe, qualquer coisa chame! O seu marido deve estar a... – Uma batida na porta interrompeu-a.

- Bom dia! Posso? – Robert entreabrira a porta e espreitava para dentro do quarto.

- Bem, vou deixar-vos... Qualquer coisa é só chamar! – Disse, piscando-me o olho, antes de se esquivar, passando por Rob apressadamente.

Ele aproximou-se da cama e curvou-se, depositando um beijo de bom dia nos meus lábios.

- Como estás amor? Conseguiste descansar?

- Sim, ainda consegui dormir um bocado...

- E esta princesa, portou-se bem? Deixou dormir a mãe? – Disse, abeirando-se do berço e dando um beijo na testa da nossa filha, que dormia com o ar mais sereno deste mundo.

- A enfermeira acabou de a trazer...

- Ela é tão parecida contigo... Ainda estive um pouco com ela ontem e é impressionante... O formato da boca, dos olhos, até o nariz é fino e arrebitado como o teu...

- Ah não é nada! E o meu nariz não é arrebitado! – Disse, fingindo indignação, enquanto cruzava os braços sobre o peito.

- É sim... É o narizinho mais lindo e arrebitado que eu já vi... Não é filhota? – Rob roçou levemente a ponta do indicador no pequeno narizinho da nossa filha e ela respondeu com uma careta e começou a piscar os olhos como que a anunciar-nos que estava prestes a acordar.

Rob depressa retirou a mão, não querendo perturbar o seu sono, mas ela já abria os olhos e deu um pequeno bocejo antes de nos brindar com o sorriso mais lindo do mundo.

- Bom dia minha princesa! Anda cá ao pai... – Disse, ao mesmo tempo que a retirava do berço com o máximo cuidado. – Anna, hoje à tarde se não te importares gostava de ir resolver com o Tom uns assuntos da produtora. Ele pediu-me e...

- Vai à vontade... Também precisamos de descansar as duas, não é bebé?

- Isso já acho difícil... A Lizz vai passar por cá com os meus pais esta tarde...

- Ela já a viu?

- Oh nem imaginas a festa que ela fez... Parece-me que vai ser uma tia galinha...

- Mas isso ela já é! Às vezes quase sufoca o Miguel... O que vale é que ele gosta da atenção...

- Pois, acho que tens razão.

- E, por falar em Miguel... Temos de nos decidir... Marie Clare ou Clare Marie? Ou continuas com a ideia de Mariann?

- Sabes, ontem à noite surgiu-me outra ideia, mas se calhar também não vais gostar...

- Se não me disseres, nunca vais saber se gosto... Vá lá Rob, desembucha!

- Eu tinha pensado em June, mas bem, era só uma ideia...

- June? A Deusa da bondade? A sério?

- Pois, sabia que não era uma boa ideia... Mas não foi por isso... Lembrei-me que foi nesse mês que o nosso amor nasceu... Muito sentimentalista?

Abanei a cabeça e estendi os braços para receber a minha filha que de repente começara a chorar.

- June... – Sussurrei-lhe baixinho, enquanto a embalava. – O que achas? Fazemos a vontade ao pai? – Não sei se foi pelo som da minha voz, mas ela quase engoliu um soluço, parou de chorar e olhou para mim muito séria, como se soubesse que o que eu estava a dizer era importante.

- Então June? A menina gosta? Gosta? – Do nada, ela abriu um sorriso. Era a primeira vez que a via sorrir assim de perto e dava tudo para a ver sempre assim.

- Pronto Rob, ganhaste! A tua filha gosta...

Ele beijou-me e agradeceu com um sorriso, antes de o seu telemóvel tocar o sinal de mensagem.

Robert afastou-se rapidamente e tirou o telemóvel do bolso, lendo a mensagem.

O que quer que fosse que estava lá escrito não o deve ter agradado nada, pois pareceu-me ter feito um esgar de desagrado, espanto ou algo parecido que não consegui entender, mas no momento seguinte já tinha desaparecido e perguntei-me se não andava a imaginar coisas.

- Está tudo bem amor?

- Sim querida, claro que está tudo bem! Vocês estão aqui comigo, estão bem, que mais poderia querer?

- O que se passa? – Perguntei, acenando em direcção ao telemóvel.

- Ah, nada querida... É só trabalho. Mas hoje à tarde fica resolvido. – Respondeu-me, enquanto voltava a colocar o telemóvel no bolso.

- Bem, tenho de dar de mamar à menina... Queres ver?

- Desculpa amor... Vou mesmo ter de ir. Combinei com o Tom no Spago ao meio dia e ainda aqui estou.

- Ok, tudo bem! Vemo-nos logo?

- Claro, meu amor. – Disse e despediu-se de mim e da nossa filha com um beijo na testa.

publicado por Twihistorias às 18:00

20
Fev 13

Cap. 30 - Première

Chegara finalmente o dia da première do nosso filme e assim que saí da limusina fiquei de imediato encandeado por dezenas de flashes, por isso só alguns segundos depois, quando Anna já se encontrava a meu lado me apercebi da quantidade de gente que se concentrara à volta do Kodak Theatre de Los Angeles, onde iria ter lugar a exibição.

Depois de posarmos em diversos pontos onde os fotógrafos nos aguardavam, darmos alguns autógrafos e respondermos às perguntas-relâmpago dos jornalistas presentes, que nos abordavam durante o caminho pela passadeira vermelha, entrámos e fomos conduzidos aos nossos lugares.

Antes da visualização ainda tivemos tempo para cumprimentar os colegas de elenco, antes de ser feita a introdução do filme.

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Assim que as luzes se apagaram para dar início ao filme “Decisões”, Rob tomou a minha mão entre as suas e foi assim que passámos a primeira parte do filme.

O intervalo chegou, no momento em que todos os presentes, completamente embrenhados na trama, aguardavam por uma das cenas de maior tensão. Estava implícito que a cena que se seguiria seria crucial para o desfecho do filme e eu, mais do que ninguém, ansiava por saber como ia reagir a ela.

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O intervalo terminara e seguir-se-ia a cena que mais aguardava e temia. Por um lado queria ver como tinha ficado a adaptação, pois não achava que a tivéssemos acabado na totalidade, devido ao que ocorrera no dia em que a graváramos. Por outro, tinha medo da reacção da minha adorável esposa.

Luzes apagadas, começara a acção. Vi-me entrar no quarto e ouvi-a acusar-me de tudo o que lhe estava a fazer. Vi-me a perder a cabeça e deixar-me levar pelos meus piores instintos de modo a obrigá-la a retirar tudo o que dissera, mesmo sabendo que era verdade.

Anna a meu lado, apertara ligeiramente a minha mão. Olhei discretamente para ela, mas a sua atenção estava completamente focada na cena que se desenrolava à nossa frente.

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A cena estava a meio e eu sabia perfeitamente o que seguiria, mas Rob não. Por isso apertei a sua mão tentando transmitir-lhe força.

Há muito que o realizador tinha recorrido a mim em segredo, para que autorizasse a colocação do único take desta cena que ficara absolutamente perfeito. Dissera-me que Rob não autorizara e que teríamos de voltar a gravar tudo outra vez se a cena já gravada não pudesse ser utilizada. Acabei por autorizar, não só pela sua insistência, mas também porque, apesar de não ter podido ver como ficou, estava absolutamente convencida, tal como ele, que aquele tinha sido o melhor take que graváramos, apesar do que acontecera.

Fiz um esforço para não suster a respiração e manter uma expressão natural, mas não estava certa da maneira como Rob reagiria ao ver a cena que proibira, ser exibida.

No entanto a cena terminou, comigo desmaiada nos seus braços e observei-o pelo canto do olho, tentando perceber como se sentia. O seu maxilar estava tenso e fechara a sua mão livre com tanta força que os dedos tinham perdido completamente a cor.

Olhei directamente para ele com o intuito de o fazer perceber que estava tudo bem e que não tinha de se preocupar, quando senti uma pontada e de repente senti-me muito molhada, como se me tivessem despejado um balde de água morna pelas pernas abaixo.

Tentei abstrair-me do desconforto o mais que pude para não interromper o filme, mas as contracções começaram a ficar cada vez mais fortes e com menos intervalo de tempo entre elas e sabia que não podia aguentar durante muito mais tempo.

Felizmente o filme estava poucos minutos do fim e se me mantivesse suficientemente concentrada e olhasse o ecrã de projecção talvez não chamasse a atenção das outras pessoas, o facto de sairmos logo a seguir.

Assim que as primeiras letras dos créditos apareceram no ecrã, chamei discretamente a atenção de Rob.

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Eu nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Não podia ser verdade! O Paul não nos ia fazer isto... Ou ia?

De um momento para o outro fiquei uma pilha de nervos. Como é que era possível que ele tivesse feito isto?! Mas de uma maneira ou de outra, ele ia pagar por esta escolha.

Assim que acabei de me preocupar com a melhor maneira de resolver a situação, reparei que ao meu lado Anna se mantinha impávida e serena, assistindo à exibição do filme.

Encolhi os ombros por reflexo, face à sua reacção inesperada.

Tentei manter uma expressão calma até ao final do filme, não fosse ela olhar para mim e aperceber-se do meu estado de espírito.

Assim que as primeiras letras apareceram no ecrã, não pude impedir-me de expelir o ar que retivera sem me aperceber, quando a senti puxar-me a manga do casaco.

- O que foi amor?

- O bebé... – Foi a sua resposta sussurrada.

 - O que tem o...

- Schhhhh!! – Interrompeu-me. – Fala baixo! O bebé vai nascer aqui se não sairmos agora.

- Mas...

- Rob, temos de ser discretos... Não quero ninguém atrás de nós até à clínica. Dá-me o teu casaco.

Sem saber o que fazer, despi e passei-lhe o casaco, que ela colocou de imediato pelos ombros. E começou a levantar-se devagar, até soltar um pequeno gemido e quase voltar a sentar-se, o que impedi, quando por instinto a segurei pela cintura.

- Vamos querida... – Disse, antes de lhe sussurrar ao ouvido. – Calma, respira... Segura-te a mim.

Ela abanou a cabeça em concordância e saímos da sala agarrados.

- Então amor, como estás? – Disse, assim que chegámos ao corredor vazio e ela fez menção de se encostar à parede.

- Estou bem, são só contracções, mas temos de sair daqui...

- Sim, mas como? Lá fora está tudo cheio de jornalistas. Espera, tive uma ideia...

Peguei no telemóvel e digitei a marcação rápida.

- Estás a ligar a quem?

- À minha irmã...

- Rob? Onde é que vocês se meteram?

- Calma Liz, tenta sair da sala discretamente. Estamos no corredor sul, mas precisamos de ajuda pra sair daqui.

- O que se passa?

- Por favor, uma vez na vida, podes fazer o que te digo sem questionar? Anda lá, é urgente...

- Dois minutos... – Foi a sua resposta, antes de desligar.

Trinta segundos depois, vimos a minha irmã sair para o corredor com o ar mais natural do mundo.

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Cap. 31 – Novo membro

Poucos minutos depois de sairmos da sala, Lizzie veio em nosso socorro.

- É aquilo que eu penso? Agora? – Tanto eu como Rob acenámos. – Esperem aqui. Volto já! – E desatou a correr pelo corredor fora.

Voltou alguns minutos depois, empurrando uma cadeira de rodas, onde Rob prontamente me ajudou a sentar.

Depois foi a habitual correria à moda da Lizzie. Esquivámo-nos dos jornalistas como pudemos e enfiámo-nos o mais rápido que conseguimos no carro dela.

Lizzie era muito despachada sempre que havia uma emergência, mas nunca a vira conduzir tão rápido como naquela noite, embora não tenha tido a oportunidade de a observar, porque as dores se tinham tornado mais intensas.

Rob estava sentado a meu lado, segurando na minha mão e acariciando a minha barriga, enquanto me sussurrava.

- Calma amor... Vamos chegar logo... Vá, respira comigo...

Eu tentei. Estava a tentar respirar, mas fui interrompida por uma contracção mais forte que me obrigou a apertar a sua mão e cerrar os dentes com um gemido.

- Liz! Isso não dá pra ser mais rápido?!

- Estou a ir mano, estou a ir! Estamos quase a chegar...

Lizzie estacionou à porta da clínica de qualquer maneira e saiu imediatamente do carro, desatando a correr em direcção à entrada. Enquanto isto, Robert ajudava-me a sair do carro, o que não era tarefa fácil, já que eu mal me conseguia mover com as dores.

Mal tinha conseguido dar dois passos, quando pareceram dois enfermeiros com uma maca, onde rapidamente fui colocada e levada para dentro, sempre com Rob ao meu lado, segurando a minha mão.

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A viagem até à clínica pareceu-me a mais demorada da minha vida. E vê-la a sofrer daquela maneira e não poder fazer nada, foi o pior de tudo.

Tinha uma pequena noção das dores que ela devia sentir, pois Anna apertava a minha mão com uma força que não imaginava que ela tivesse.

Assim que chegámos à clínica, ela foi colocada numa maca e, por ordem do médico que foi chamado de imediato, fomos directos para a sala de partos.

Depois disso, foi tudo muito rápido. Estive ao seu lado, respirei com ela e tentei lembrar-me de tudo o que havia aprendido nas aulas de preparação, até ver pela primeira vez o rosto da minha filha.

- Parabéns aos papás! Têm aqui uma linda menina... – Disse uma das enfermeiras.

A bebé chorava a plenos pulmões, até ser limpa e cuidadosamente colocada nos braços da mãe.

Anna estava exausta, mas o seu rosto abriu-se num enorme sorriso, assim que tomou a nossa filha nos braços.

O que senti ao vê-las naquele momento, jamais conseguirei descrever. Depositei um beijo na sua testa suada e encostei o meu rosto ao seu e assim ficámos a observar a nossa filha.

Após alguns instantes, Anna mexeu-se parecendo desconfortável.

- Vamos lá papá, tem de pegar na menina. Fique descansado que vamos cuidar muito bem da sua esposa.

Assenti e com o máximo cuidado, peguei pela primeira vez na minha filha, depois de acariciar ao de leve a face da minha feliz e exausta esposa.

- Amo-te. Ela é linda... Obrigada meu amor. – Sussurrei-lhe antes de me afastar e me deixar conduzir para fora da sala por uma das enfermeiras.

Lizzie parecia estar empenhada em gastar o chão da sala de espera. Ocupação que interrompeu assim que me viu pelo vidro que separava a sala do corredor. Correu para mim e não descansou enquanto não lhe passei a sobrinha para os braços.

- Olá bebé! Sou a tua tia Liz... Sou... Pois sou... E tu és a minha sobrinha linda. – Os olhos dela brilhavam. Parecia uma criança que tinha acabado de receber um brinquedo novo.

Dei comigo a imaginar como seria a minha irmã casada e com filhos, mas era uma imagem demasiado estranha. Sorri ao lembrar-me que eu próprio nunca me imaginara nesta situação até há alguns meses atrás, e aqui estava eu...

publicado por Twihistorias às 22:50

15
Fev 13

 

Cap. 29 – De volta à civilização

Depois de quinze dias fantásticos, rumávamos novamente para a vida real. Mal o avião acabou de aterrar, já estava a dar autógrafos. A surpresa foi que desta vez não fui só eu a ser requisitado para essas funções.

Na verdade, quando me dei conta, Anna tornara-se o centro das atenções, sendo abordada tanto por homens como mulheres, tanto do nosso como de outros voos, enquanto aguardávamos a nossa bagagem.

De inicio pareceu-me um pouco perdida com a recepção pouco habitual, mas logo se recompôs e em segundos já tinha assumido o controlo da situação. Assinou tudo o que ousaram pedir-lhe e do pouco que me apercebi, com direito a dedicatória.

Assim que conseguimos sair da sala, a minha irmã apareceu vinda nem sei de onde e começou a arrastar-nos com ela.

- Hei Liz! Que se passa? Qual a urgência? Ainda nem nos falaste direito! – Protestei.

- Já explico. Já explico... – disse ofegante. – Explico assim que chegarmos ao carro...Poupem o fôlego. Vão precisar...

E foi exactamente o que fizemos. Atravessámos diversos corredores praticamente vazios, até conseguirmos sair do aeroporto e esgueirarmo-nos até ao carro.

Estávamos todos tão cansados que só a meio da viagem conseguimos articular palavra.

- Desculpem lá ter sido tudo assim tão rápido, mas não havia outra hipótese. A menos que quisessem passar o resto do dia a dar autógrafos!

- Às vezes consegues ser tão exagerada Lizzie! – Respondeu-lhe Anna, entre risos. – Também não eram assim tantas pessoas!

- Isso pensas tu... Porque não viste o que se estava a passar lá fora! Isto está a tornar-se caótico desde que saíram as últimas notícias. Continuando assim, o melhor é voltarem a contratar seguranças...

Cruzei o meu olhar com o de Anna por breves instantes, apenas para confirmar que ela também não fazia a mínima ideia daquilo que a minha irmã estava a falar. E voltei-me de novo para Lizzie que nos espiava pelo espelho retrovisor.

- Eu não acredito! Será possível que não tenham visto televisão?! – Perguntou atónita. – Revistas? Internet? – Insistiu. – Bem, espero que não tenham passado a lua-de-mel toda enfiados no quarto! – Concluiu, continuando a observar-nos através do espelho retrovisor.

- Espera lá Liz, importas-te de nos explicar o que se passa afinal? – Anna adiantou-se.

- Bem, saíram algumas informações do vosso casamento e do filme e não se tem falado noutra coisa. Especialmente do vosso filme, quer dizer, uma amiga minha deixou escapar alguma informação e...

- E...? O que foi que tu fizeste Lizzie? – Incitei-a a continuar.

- Bem, tu sabes que eu sou amiga da Ângela Skye, certo? E, caso não te recordes maninho, ela esteve no vosso casamento. E como tu sabes ela é uma das críticas de cinema mais respeitadas da actualidade e...

- E tu aproveitaste-te disso, estou certo?

- Não, não estás. Mas o que é certo é que ela adorou o vosso casamento e isso fez com que a visão dela sobre vocês mudasse bastante. Ela decidiu escrever um artigo e desde aí pode dizer-se que a opinião do público tem vindo a mudar consideravelmente.

- Sim, mas não era isso que ia fazer com que as pessoas ficassem loucas e nos fossem esperar ao aeroporto como tu dizes... afinal de contas o nosso filme nem é uma grande produção.

- Tens razão, mas tem elementos de peso! Existem pelo menos quatro motivos para que as pessoas queiram ver o filme. E agora com a história do casamento e tudo o que se tem falado, as fotos que têm saído...

 

Três meses se tinham passado desde o nosso casamento e ainda não tínhamos parado de ser importunados com perguntas sobre o assunto. Agora, a maior parte das entrevistas que me competiam dar por conta da promoção do filme, começavam com a nota “Recém casada com o actor Robert Pattinson”, ou algo do género. Quase parecia que a descrição fazia parte do meu nome. Quer dizer, legalmente até fazia, mas não era isso que me levava a dar entrevistas. Mas não me podia queixar porque, apesar da insistência, pelo menos não eram desagradáveis quando me escusava a responder a certas coisas e os obrigava a centrarem-se exclusivamente no tema do filme e não na minha vida pessoal.

Já quando as entrevistas eram em conjunto com o Rob, era sempre provável que ele deixasse escapar alguma informação e, porque a sua postura para com a imprensa sempre tinha sido essa, nem valia a pena tentar refreá-lo porque ele acabava sempre por se descair numa ou noutra pergunta.

Mas felizmente as entrevistas estavam a terminar e daqui a dois dias finalmente ia ser a estreia e com isso esperava que as atenções se voltassem para a nossa interpretação e nos deixassem respirar um pouco.

publicado por Twihistorias às 21:40

06
Fev 13

Cap. 28 – Lua de mel (emoção, amor e festa)

O dia amanheceu connosco ainda entrelaçados um no outro.

A claridade que passava entre a fresta dos cortinados, despertou-me. Isso, e uma respiração mais profunda de Rob, enquanto me apertava mais de encontro ao seu peito.

Reparei que um dos braços dele estava debaixo de mim e o outro ainda apertava a minha cintura, numa atitude protectora. Exactamente a mesma posição na qual me lembrava de ter adormecido. O que me levou a pensar que o braço dele, que estava debaixo de mim, lhe daria problemas ao acordar.

Tentei mover-me, o que só serviu para que ele me tentasse aconchegar ainda mais, tal qual uma mamã Koala.

Tentei não me rir, mas não fui capaz de me conter. O que fez com que acabasse por o acordar.

Depois dos cumprimentos matinais e de lhe explicar o motivo de estar a rir que nem uma perdida, Rob viu as horas no telemóvel e apercebeu-se que teríamos mesmo de apressar-nos, se não quiséssemos perder o avião.

A viagem de avião foi óptima, mas a aterragem em St Martin não podia ter sido mais pavorosa! Porque é que ninguém nos explicou que o avião iria pousar numa pista minúscula, junto a uma praia cheia de pessoas?!

Eram quatro da tarde quando encontrámos o nosso guia que, depois de nos conduzir para fora do confuso aeroporto, nos aconselhou, num inglês ainda mais confuso, a mudarmos de roupa, face ao calor abrasador. Depois meteu-nos num barco, juntamente com outros turistas e deu-nos o contacto de alguém chamado Sophie Martinez, que deveríamos encontrar à chegada.

Ao contrário do que seria de esperar, misturámo-nos facilmente entre os turistas. Talvez tenham sido as nossas roupas descontraídas e os colares de flores que tínhamos ao pescoço, ou o facto de todos estarem mais interessados em ver os golfinhos que brincaram perto do barco durante toda a viagem, em dançar com o animador ou em conversar junto do balcão do bar. O que é certo é que ninguém reparou em nós, o que foi espectacular!

Passámos a viagem encostados à amurada do barco, abraçados e de cabelos ao vento, sentindo na cara os salpicos da água salgada.

Já estávamos completamente integrados no ambiente e de sorriso nos lábios, quando o barco finalmente aportou em St Lúcia.

Sophie Martinez era uma senhora de cerca de cinquenta anos, simpática e de sorriso fácil, que nos cumprimentou tão efusivamente à chegada, como se já nos conhecêssemos há décadas. Percebi, através do seu inglês com um cerrado sotaque francês, que era a dona da casa onde iríamos ficar, bem no sopé do Soufrière, o vulcão que dava nome à cidade. Era filha de um Venezuelano, mas a mãe era Francesa e, embora tivesse nascido e passado parte da infância nesta ilha, aos 9 anos tinha partido para Paris com a mãe e só regressara dois anos antes. Levou-nos até à sua carrinha, onde já se encontravam as nossas malas e, antes de iniciar o caminho até casa, tratou de nos dar a conhecer um pouco da cidade.

As casas tinham sido construídas em diversos estilos, não havendo duas iguais na mesma rua, o que demonstrava bem as raízes multiculturais daquele local. Havia inclusive uma igreja ao estilo francês no centro, que trazia um toque de romantismo à animada cidade.

Assim que a vegetação começou a dominar a paisagem, Sophie informou-nos que faríamos uma breve paragem no caminho para comprar café, antes de chegarmos à sua Villa particular.

E quando chegámos finalmente ao nosso destino, fez questão de nos mostrar a sua bela mansão, que tinha sido transformada numa espécie de hotel familiar e que ficava junto a uma pequena plantação de cana-de-açúcar.

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- Uuf... Finalmente chegámos! – Desabafou, com um sorriso nos lábios. E em seguida deixou-se cair em cima da cama, atirando com uma sandália para cada lado e ficou estendida de braços abertos. – Gosto disto aqui!

- Hum... Sim, o sítio é bonito! – Disse, distraído, ainda a tentar pôr alguma ordem nas malas.

- Gostei muito da plantação de café! Quando a Sophie disse que íamos comprar café, não imaginei que íamos a uma plantação! Pensei que íamos passar num supermercado ou algo assim... Era capaz de me esquecer de tudo e ficar a viver aqui para sempre...

Deixei cair o que tinha na mão e deixei de pensar no que estava a fazer, quando ela abafou um grito...

Abeirei-me da cama, onde ela agora se encontrava sentada e tentei perceber o que tinha acontecido...

- O que se passa amor?

Ela levantou-se de um salto e foi em direcção ao canto do quarto onde eu tinha pousado as malas e começou a remexer na minha mochila...

Observei-a intrigado...

- Robert? Onde guardaste o meu telemóvel? Precisamos ligar para casa...

- Humhum...

Continuei a observá-la a vasculhar a mochila, já mais calmo... Por momentos tinha pensado que ela tivesse sentido alguma dor. Que fosse alguma coisa com o bebé, sei lá... A minha cabeça anda a mil, sempre que algo me faz pensar que ela ou o bebé não estão bem...

Farta de procurar, parou e voltou-se para me encarar...

- Vá lá, dá-me o telemóvel amor...

- Podes-me dizer qual é a pressa? Não achas melhor tomarmos primeiro um duche, e pormo-nos mais à vontade?

Ela não me respondeu, mas aproximou-se e abraçou-me... Correspondi agradado com o seu carinho, até me aperceber que ela estava a tentar tirar-me o telemóvel do bolso!

- Ah! Nem penses! – Exclamei. Peguei-lhe ao colo e levei-a em direcção à casa de banho, enquanto ela protestava. – Agora vais pagar por isso!

- Não! Robert! A sério, precisamos saber se está tudo bem em casa! Já te esqueceste que a “nossa peste” ficou na casa da tua irmã? Ai!! E pára de me fazer cócegas! Não vai resultar!

- Ok... – Acabava de fechar a porta da casa de banho, atrás de mim. Pousei-a no chão, encostando-a à parede. – Eu sei, mas isso pode esperar...

Ela fitou-me, arqueando uma sobrancelha e preparava-se para ripostar, quando rocei o meu rosto no seu e me aproximei do seu ouvido.

- Desculpa, mas eu já não consigo esperar nem mais um minuto... – Senti-a estremecer nos meus braços, no momento em que o meu bafo quente atingiu em cheio a sua orelha e fiz a única coisa possível... enlacei a sua cintura, puxando-a para um beijo.

- Robert, pára... – Pediu debilmente, quase num murmúrio, assim que nos apartámos.

- Sabes que não vou fazer isso... – Ela ainda tinha os olhos fechados e tentava normalizar a respiração, com a testa colada à minha.

- Oh Rob, és indecente!

- Eu sei, querida. Obrigada. - Comecei a brincar com os botões da sua blusa, percebendo que tinha ganho, quando ela não fez menção de me afastar.

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Eram quase horas de jantar e ainda estávamos estendidos na cama a conversar.

- Devias ter-me deixado ligar para casa...

- Relaxa, amor... Se houver algum problema, acredita que vamos ser os primeiros a quem a minha irmã vai ligar!

- Eu sei, mas mesmo assim... Parece que não nos importamos! É tão irresponsável...

- Não é não... Amanhã, assim que acordarmos, ligamos. Prometo... Vai ser a primeira coisa que vamos fazer amanhã... Vá lá, anima-te! Eu estou tão preocupado quanto tu, mas temos de aproveitar a nossa lua-de-mel... Já pensaste que daqui a seis meses já não vamos ter descanso? Vai ser o Miguel e mais um bebé...

- Por falar em bebé... Porque não quiseste saber o sexo do bebé? – Ele sorriu com a minha pergunta.

- Não sei, acho que é mais emocionante ficar na expectativa...

- Mas o que gostavas mais? Menino ou menina?

- Tanto faz. O meu único desejo é que venha com saúde... – Rob acariciava a minha barriga.

- Sim. Mas deves ter uma preferência... – Disse, cobrindo a sua mão com a minha.

- Eu sempre quis ter um rapaz, mas já temos o Miguel... Por isso talvez fosse giro se agora viesse uma menina, mas é como te digo, só quero que tanto tu como o bebé estejam bem, o resto não importa...

- Bem, temos é de começar a pensar em nomes...

- Não. Temos é de começar a pensar em ir jantar! Estás há horas sem comer...

- Robert! Pára de fugir do assunto! Quero que me ajudes a escolher nomes para o bebé!

- Ok. Mas não podemos fazer isso noutra altura? Ainda faltam seis meses...

- Tu nem imaginas o quão rápido esses seis meses vão passar... Mas, tudo bem, vamos despachar-nos e descer para jantar...

O jantar foi animado e o serão prolongou-se pela noite dentro. A sala de convívio era bastante acolhedora e decorada com peças dos mais variados cantos do mundo, muitas delas oferecidas pelos hóspedes que por ali tinham passado. Havia ainda um piano onde, após minha insistência e de Sophie, Robert aceitou tocar de improviso.

E a nossa lua-de-mel foi-se passando entre as mais variadas actividades. Subimos até ao Soufrière, com as suas caldeiras de água borbulhante e explorámos a sua magnífica floresta circundante, rica nas mais variadas flores de todas as cores. Tomámos banho na pequena queda de água, da nascente próxima à casa e deliciámo-nos a ver o sol a pôr-se da varanda.

Sophie acompanhou-nos até à cidade algumas vezes e acabou por sugerir que aproveitássemos algumas das suas frequentes festas nocturnas. Deixámo-nos envolver pelo ambiente quente e acolhedor da cidade e embrenhámo-nos na sua cultura.

publicado por Twihistorias às 23:30

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